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Someday Never Comes

por Rei Bacalhau, em 14.01.18

Uma breve reflexão.

 

Desde que comecei com a minha Reforma comecei a dar um maior valor ao meu tempo e à maneira como o gasto. Antes de me meter na cabeça que iria conseguir reformular a minha vida, eu tinha temp para tudo porque nunca tinha nada para fazer. Qualquer coisa que me aparecesse para fazer por influência de terceiros era-me relativamente indiferente porque não era que eu estivesse particularmente ocupado com fosse o que fosse. Agora, com ilusões de reforma vitais, faço planos, estabeleço horários e rotinas e nunca consigo fazer coisa alguma.

Eu já esperava isto, porque eu tinha consciência da minha vivência, só não esperava é que fosse tão impeditivo como tem sido. Exemplo rápido: hoje estava a planear começar a trabalhar num modelo de barco que tenho para construir. Fui dar uma corridinha, tomei banho e chegou-me o pedido de fazer de ama-seca à cadela de uma familiar.

Tudo bem, é um cão, obviamente que de bom grado aceito, mas tive de pôr de lado o barco, pela décima vez nas últimas duas semanas (se bem que às vezes também é culpa minha).

 

"Deixo para outro dia", vou pensando. Reflecti que esta expressão vai começar a ser bastante mais comum na minha mente, pois aqueles que querem fazer muito, seja por serem ambiciosos ou por quererem tornar-se assim, têm muitas vezes de lidar com as prioridades num dia-a-dia que exorta a que estas tenham de existir.

Contudo, sei que a expressão pode rapidamente tornar-se uma mentira, como muitas pessoas mais responsáveis e activas já certamente saberão. Pensarei nela muitas vezes, sabendo perfeitamente que nada poderei cumprir a não ser que exista um sentido de organização brutal e frio.

 

Não quero deixar coisas para outro dia, sabendo que um "outro dia" poderá nunca vir.

 

Creendence Clearwater Revival, com Someday Never Comes:

 

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publicado às 21:04


The Promised Land

por Rei Bacalhau, em 07.01.18

Um homem entrou pela porta dentro. O cabelo imenso e a barba espessa e maltratada deu a António uma primeira má impressão, mas a revelação do olhar inocente e quase infantilmente confuso do recém-chegado afastou pensamentos temerosos.

Ele chegou-se ao balcão, mas António é que deu início à conversa.

- Boas tardes, que deseja?

- Boa tarde, meu caro. DIga-me, ainda serve almoços a esta hora? Sei que é tarde, mas perguntar não custa. - respondeu o homem, ainda jovem, com um ligeiro sorriso afável.

- Ah, aqui almoços só por reserva, que não há clientela suficiente. Mas tenho ali uma boa sopa.

A face do homem iluminou-se e abriu-se num sorriso, mostrando uns dentes tímidos e brancos.

- Ah, óptimo, é mesmo o que preciso! Traga também uma sandes. Comerei aqui mesmo no balcão.

- Uma sandes de quê?

- O senhor já me deu uma boa surpresa, se calhar não é pedir muito que me dê outra. - rematou, sorrindo matreiramente.

António não era de compreensão lenta, mas achou mesmo assim estranha e críptica a maneira de falar do homem.

 

Trouxe-lhe o pedido. Uma sopa de legumes e uma sandes de ovo mexido. O homem agradeceu com uma ligeira vénia, e atacou de imediato a refeição.

A curiosidade de António aumentou-lhe a impertinência.

- Desculpe perguntar, mas o senhor é de cá da zona, ou está só a passar?

- Não, não, sou de Lisboa, mas arranco assim que acabar de comer. - respondeu, dando uma primeira dentada na sandes de ovo, pausando de seguida, aparentemente deliciado. - Desculpe, será que me pode fazer outra destas para levar? Embrulhada num papel ou algo do género?

- Claro, claro que sim, com licença.

- Ah, e uma garrafa de água, por favor.

- Fresca?

- Natural, por favor, obrigado.

 

Quando António voltou, encontrou o homem a olhar para um mapa em papel, algo estranhíssimo na era dos telemóveis. Entregou-lhe a nova sandes e a garrafa de água.

- Ah, obrigado.

- Precisa de ajuda para chegar a algum lado? Já não via alguém a usar um mapa a sério há algum tempo! O seu telemóvel está sem bateria?

- Ah, não, eu não tenho telemóvel. Não preciso de um. Também não preciso de ajuda, obrigado, estava só a explorar as estradas aqui à volta.

- Então, mas para onde é que o senhor vai?

O homem olhou António demoradamente e desviou a atenção para o lado, parecendo reflectir. Começou a levantar-se e a preparar-se para sair. Finalmente respondeu.

- Não sei, amigo. Obrigado por tudo!

Deixou duas notas de 20€ no balcão e saiu, sem dar tempo a António de sequer pensar no troco.

António apenas conseguiu vê-lo a arrancar num carro velho e desgastado de uma cor verde horrível, que se afastou deixando para trás uma música esvanescente.

 

Bruce Springsteen, com The Promised Land

 

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publicado às 22:37


A Reforma

por Rei Bacalhau, em 31.12.17

Não, não estou a falar de reformas antecipadas em que deixo de trabalhar. Nem com o dobro da minha idade poderia fazê-lo, imagino eu.

A Reforma a que o título desta publicação se refere é um conjunto de medidas que vou tomar no ano de 2018 para mudar o rumo do meu modo de viver.

Resumidamente falando, sou um tipo bastante pusilânime e fraco que não consegue fazer grande coisa sozinho, tanto por falta de capacidade como por falta de vontade. Não gosto de fazer coisas sozinho e como não gosto de chatear ninguém, também nunca tento convencer alguém a ir comigo a qualquer lado.

 

Criei um documento imenso (que não vou partilhar aqui porque tem dados pessoais) que lista e explica cada um dos meus maiores problemas e uma possível solução respectiva, como farei um resumo de seguida:

 

  • Passatempos: como se poderá imaginar pela minha participação na Revista Inominável, o passatempo que mais me suga tempo são os videojogos e a visualização de videos sobre videojogos. Pretendo mudar isto cortando imensamente no tempo gasto a jogar e a investi-lo em actividades como música (ouvir e tocar), literatura (ler e escrever), construção de modelos (Legos para crescidos, basicamente), fotografia, entre outras coisas.
  • Saídas: uma das minhas maiores limitações é o facto de não gostar de ir a lado nenhum sem ser acompanhado, o que me impede de ir seja onde for em quase todas as circunstâncias de tempo livre. Vou tentar combater isto começando a ir a sítios sozinho, o que poderá ser mais difícil do que um humano normal possa imaginar (uma ida ao cinema sozinho, por exemplo, é algo que me aterroriza, mas enfim).
  • Burrocracias: o erro ortográfico é propositado. Apesar de nunca ter gostado de papéis, documentos e coisas formais, cheguei a uma ponto da minha em que realmente tenho de acordar para saber desenrascar-me em termos de organização de burocracias e finanças pessoais.
  • Capacidades: um dos focos mais importantes da Reforma é a aquisição de capacidades básicas humanas do dia-a-dia. Coisas escandalosas como cozinhar ou andar de bicicleta (ou mesmo, no rídiculo, lavar a roupa). O propósito principal disto é o aumento da minha independência de outras pessoas.

 

Não acredito que a minha disciplina pessoal me vá permitir aderir fanaticamente a todas as regras estúpidas que delineei para mim próprio, mas qualquer melhoramento que venha desta tentativa de me reformar já terá valido o esforço mental.

 

Tenho a tradição de no mês de Dezembro colocar sempre uma música do álbum Made in Japan dos Deep Purple, em celebração do seu aniversário de lançamento. É curioso que até agora não tenha ainda falado da música Lazy, a magnum opus dentro da magnum opus. Admito que a maioria dos meus problemas advêm da minha preguiça, e então gostaria de utilizar umas das melhores músicas alguma vez tocadas ao vivo como simbolismo para esta nova fase da minha vida, destinada a durar pouco mais do que uma semana.

 

Lazy, do álbum Made in Japan, dos Deep Purple. Reservem 11 minutos do vosso dia e fechem os olhos. Aconselha-se um bom sistema de som.

 

 

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publicado às 12:44


Let It Snow

por Rei Bacalhau, em 24.12.17

Será que deveria fazer uma tradição de colocar aqui uma música dos Twisted Sister todos os anos nesta altura?

 

Let It Snow, interpretado pelos Twisted Sister:

 

 

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publicado às 18:03


The Saga Begins

por Rei Bacalhau, em 17.12.17

É certamente sabido por todos que o mais recente episódio da saga da Guerra das Estrelas está actualmente nos cinemas. Eu revi os episódios todos recentemente, já em preparação mental para o novo filme.

Eu fui com expectativas baixas para o episódio XII (o primeiro da nova trilogia) e fiquei felizmente surpreendido. Agora acontece precisamente o contrário, pois irei ver o episódio XIII esperando que a qualidade em todos os aspectos seja no mínimo semelhante.

Para quem nunca viu um único filme desta saga, posso dizer que a ordem de visualização deles é um bocado confusa para um iniciante, mas este é um tema amplamente discutido e facilmente encontram a "ordem certa" pela qual devem ver os episódios.

 

No entanto, é mais ou menos unânime que o episódio I deve ser odiado e menosprezado e se os fãs o vêem é mais por tradição do que por gosto. Se não tiverem paciência para ver o mais medíocre de todos os episódios posso propor uma maneira resumida de o ver.

 

O Weird Al Yankovic é famoso por fazer paródias de músicas famosas com letras parvas e completamente opostas às originais. Se eu poderia achar blasfemo transformar a American Pie do Don McLean numa música referente à Guerra das Estrelas, tais pensamentos dissipam-se após ouvir o tema com atenção, porque creio que mais do que uma paródia, esta música é um tributo tanto ao Don Mclean como à saga espacial. Yankovic consegue de uma forma brilhante e subtil resumir o episódio I em cinco minutos, mantendo a estrutura emocional de American Pie.

Lembro-me de ter lido que o próprio Don McLean às vezes enganava-se na letra quando cantava a sua música porque os filhos dele estavam sempre a ouvir a versão de Yankovic, mas não sei se é verdade, claro.

 

Concluindo, não vejam o episódio I e saltem logo para o II, vendo e ouvindo ao invés o tema The Saga Begins, de Weird Al Yankovic:

 

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publicado às 15:49


A Farewell To Kings

por Rei Bacalhau, em 10.12.17

Trump.

 

Começo este texto com esta palavra para o leitor saber imediatamente do que é que vou falar.

Quando ele foi eleito eu considerei-o insignificante e pouco perigoso. Controverso q.b., mas desde então tem dado maioritariamente mais razões para rir do que outra coisa. Tudo mudou recentemente, quando ele disse lá aquela coisa de Jerusalém. Eu não sigo demasiadamente as notícias políticas, não tenho paciência (se quisesse ver novelas bastar-me-ia a TVI, pelo menos tem gente mais bonita), por isso desculpem-me se não estou totalmente a par dos factos.

A violência recente um bocado pelo mundo inteiro fez-me concluir que eu estava errado quanto ao efeito que Trump teria como presidente dos EUA.

Quer dizer, não exactamente errado. Mantenho a tese de que o Trump é um tipo relativamente inofensivo a longo prazo. No entanto, parece-me que há uma grande percentagem de pessoas por esse mundo fora que não sabe que personalidades egoístas como a do Trump regozijam e alimentam-se de atenção. E esse mesmo número de pessoas não sabe que nunca, mas nunca se deve alimentar esses egos.

 

O pessoal fez tudo ao contrário. Revoltou-se e mandou vir e andou à porrada e matou. Consigo imaginar o Trump muita contente enquanto passeia a mulher pelo jardim (com trela e saquinho, ele não é um monstro ora essa):

"Ah, sim, eu disse uma coisa e toda a gente ouviu."

 

 

(ah.. a ironia de usar uma referência cómica que inclui um judeu)

 

Ou seja, no fundo, eu deveria ter percebido há muito que o problema nunca foi o Trump. É mais que óbvio que o problema são as pessoas que ele provoca.

Não me venham com moralismos e politiquices. Se bastou umas pequenas frases para sublevar todas as nações muçulmanas contra Israel e os EUA, então era simplesmente algo à espera de acontecer de uma forma ou doutra.

Gostaria de clarificar que não estou a defender nem um lado nem outro. Sinceramente, estou-me nas tintas para Jerusalém (apesar da sua relevância histórica e cultural num ponto de vista antropólogo, tenho zero interesse em meter lá os pés presencialmente, por razões óbvias).

Contudo, não posso de modo algum defender a violência levada a cabo pelo que eu assumo que é uma minoria muçulmana particulamente radical (e mostrada mais na TV porque é isso que vende).

Um americano diz uma palavra e alguém do outro lado do mundo começa a levar com mísseis? Não me parece justo, mesmo que seja em nome de Jerusalém, de Deus, de Deus, de Deus, do Buda ou do Monstro Voador de Esparguete.

(sim, disse Deus três vezes porque basicamente estamos a falar do mesmo gajo partilhado por três religiões)

 

Gostaria também de clarificar que não estou necessariamente a chamar aos muçulmanos uma cambada de bárbaros mal-educados que só sabem resolver as coisas à espadada. Acredito e reforço a minha crença de que em qualquer que seja o contexto é sempre uma minoria a fazer as coisas mais extremas. 

O pessoal pode escrever muito sobre como condena as acções de um lado e do outro, mas uma hora depois vai revoltar-se contra o Jorge Jesus porque disse alguma coisa mal sobre o seu clube, e não notará a sua própria hipocrisia conceptual.

Sim, acabei de comparar política mundial com futebol. Chamem-lhe nacionalismo, zelo, amor à camisola, o que for. É tudo fanatismo, e tudo partilha o mesmo tipo de ódio e rancor e partidarismo.

É sempre "nós contra eles".

 

O que é que dirão de nós daqui a cem anos? Olharão para nós com o mesmo sentimento de perplexidade com que eu olho para os horrores que os reis de outrora fizeram uns aos outros? (exemplo rápido, investiguem quem foi Leopoldo II da Bélgica)

Não sei, sinceramente, mas sei que não sou o primeiro a questionar-me sobre isso: os Rush sempre se preocuparam muito em entregar alguma mensagem nas letras dos seus temas, muitas vezes bastante directamente, como é no caso de A Farewell To Kings, que partilho para reflectir.

Hmm... têm é de abrir a letra num separador ao lado para acompanharem. Nos anos 70 a dicção não era tão importante como demonstrar a gama vocal.

 

Rush, A Farewell To Kings:

 

 

(pontos bónus, eles são canadianos, portanto toma lá Trump, seu magnífico troll)

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publicado às 23:37


Miguel I da Roménia

por Rei Bacalhau, em 05.12.17

"A morte de um homem é uma tragédia. A morte de milhões é uma estatística."

 

Esta citação é normalmente atribuída ao Estaline, mas tanto quanto sei tal atribuição é historicamente incorrecta.

O que não é historicamente incorrecto é que o Estaline conheceu e galardoou a certa altura um miúdo novito romeno, de vinte e poucos anos, muito convicto de si próprio e que ajudou a derrotar os Nazis durante a Segunda Guerra Mundial. Este miúdo chamava-se Miguel I, Rei da Roménia. Morreu hoje com 96 anos. Era a última pessoa viva que tinha liderado uma das nações beligerantes da Guerra.

Ele tinha um bocadinho de sangue português (era descendente de D.Maria II) e o pai dele morreu no Estoril em exílio.

 

michael_I_young_old.png

 

Eu tenho algum interesse pela Segunda Guerra Mundial e acho interessantíssimo que ainda até hoje existissem alguns dos políticos desses tempos conturbados. Miguel I foi especialmente importante porque acelerou o fim da Guerra, derrubando o regime de extrema direita vigente com um golpe de estado e permitindo que os soviéticos tomassem (mais) facilmente controlo absoluto da Roménia.

O Miguel lá conseguiu juntar-se oficialmente aos Aliados depois de um armistício, imitando um bocadinho a Itália em termos de andar sempre a mudar de lado. É evidente que os soviéticos eventualmente pediram-lhe com jeitinho para abdicar e deixar a Roménia seguir o caminho natural do comunismo forçado, mas pronto, isso é outra conversa.

Estamos a falar de um homem que se encontrou pessoalmente com figuras relativamente conhecidas na época, tipo o Hitler, o Mussolini, o Estaline e o Truman. Efectivamente, era um dos últimos pontos de ligação vivos a pelo menos quatro dos grandes monstros da Guerra.

Como é que ele não morreu de desgosto há mais tempo nunca perceberei.

 

Em homenagem a este jovem, vou fazer um joguinho como a Roménia no videojogo Hearts of Iron IV, só para mostrar ao Hitler, ao Estaline e a gajos mais locais tipo o Antonescu e o Codreanu alguma boa educação.

 

20171205203344_1.jpg

 

(Nota engraçada, nem reparei, mas comecei a escrever este texto às 19:45, vou manter só pela piada)

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publicado às 19:45


Fui ao circo

por Rei Bacalhau, em 03.12.17

Fui ao circo na Sexta-Feira. Um amigo de um amigo de um amigo de um amigo arranjou bilhetes para a malta, e como sobrava um, lá tiveram de me convidar.
Eu não me lembrava de ter ido alguma vez ao circo. Tinha uma pequena noção ou memória estranha, mas não conseguia dizer se realmente inha ido ou se tinha sido um sonho ou algo do género. Vim a descobrir que efectivamente eu tinha ido ao circo uma vez quando era ultra puto (e portanto, privado de qualquer tipo de senciência).

Como se o circo não bastasse, após o espectáculo iríamos todos para a casa de alguém para conviver e tal. Ou seja, o dia seria completamente perdido para mim, que pouca paciência tenho para esse tipo de coisas (especialmente sabendo que haveria pessoas que não conheço), mas como o bilhete seria de borla, seria pouco adequado rejeitar a oferta, até porque até o maior lobo solitário tem de fingir ser sociável de vez em quando.

Então lá vou, transportes públicos e tal (nem pensar em entrar em Lisboa de carro; eu já referi que detesto conduzir em cidades?).

Estavam uma data de pessoas de fatiota na praça dos restauradores (ia haver uma celebração qualquer, suponho), e eu olhei para o monumento a pensar de que maneira é que poderia fazer referências históricas quando estava acompanhado de pessoas que mal sabem o que é o histórico da internet, quanto mais a história de Portugal. Deixei passar a oportunidade e dirigimo-nos ao Coliseu, relativamente alegres.

Já lá dentro e sentados somos abordados por um trio alegre de pessoas com sotaque esquisito: um palhaço, o Homem-Aranha e um fotógrafo de aspecto mafioso. "Ah olá, foto!" Juntamo-nos todos, uns mais sorridentes que outros e somos cegados pelo flash da câmara. O palhaço e o Homem-Aranha bazam, mas o Fredo Corleone tenta confusamente informar-nos que a foto vai custar 15€. Ele ainda baixou para 10 e depois para 5, mas não teve grande sorte.

O espectáculo lá começa e apesar de me terem baixado as expectativas previamente, posso dizer que gostei bastante no geral. No número de ilusionismo a assistente caiu da mesinha de onde apareceu "magicamente" e espatifou-se no chão (mas devo dizer que se comportou profissionalmente e continuou as suas funções). Nos números com palhaços o meu amigo levantou-me várias vezes a mão para me voluntariar involuntariamente para ir para a arena, mas não teve sorte porque o palhaço estava à procura de um certo tipo de pessoas (certamente não quereria transformar o seu acto num número de horror com a minha presença). Comi algodão doce, o que foi uma experiência hilariante para os que me observavam, pois eu não fazia a mínima ideia do que estava a fazer (aquilo trinca-se? mastiga-se? tira-se à mão? demasiadas perguntas para algo tão estupidamente simples).

Como disse, no geral, o circo foi engraçado, mas o dia ainda agora começara.

Fomos lá para a casa alheia planeada e, devido à falta de mão de obra, pediram-me ajuda para assuntos domésticos que não são de todo a minha área de conhecimento: cozinha. Ajudei como pude, sob extensa supervisão, e se agora estou a escrever isto é porque não assassinei ninguém. A tarde passou-se pacatamente. Senti-me confortavelmente o suficiente para poder dizer que até foi um serão agradável. O problema é que muitas das preparações que estávamos a fazer eram para outras pessoas (amigos dos amigos dos amigos, etc) que também viriam mais para o final da tarde.

Eu já estava cansado, mas sabia que teria de aguentar e usar as minhas reservas de energia fingida para socializar adequadamente.

Digamos que falhei miseravelmente.

As actividades da noite começaram logo que os primeiros convidados chegaram. Eu não os conhecia, mas fiz o meu melhor para me dar com eles, e durante a primeira meia hora a coisa até correu bem.

De repente, como um carro que fica sem combustível, entrou-me na mente um pensamento insistente: "Vai para casa. Já chega. Não aguentas mais." Peço que compreendam, eu sou algo introvertido e só consigo projectar uma personalidade amistosa durante uma certa quantidade de tempo, medida metaforicamente como combustível. Quando se acaba, especialmente comum depois de um dia em cheio, é melhor que esteja já em casa, porque se ainda estiver em contextos sociais torno-me uma pessoa completamente diferente.

Eu sabia que isso estaria prestes a acontecer. De repente, as minhas respostas e comentários estavam a ficar carregados de malícia. Notei isso. Sabia que tinha de me ir embora. Mas como? Não poderia simplesmente dizer "vou-me embora!" do nada. Como responder aos "já?"'s e aos "porquê?"'s e aos "então?"'s?

Precisava de um desculpa. O problema é que não tinha nenhuma. Não tinha ninguém à minha espera em casa, não tinha nenhum compromisso, não tinha nada urgente a tratar. Aquele dia era mesmo perfeito para estar a noite toda em celebração e convívio e nada me ocorria que pudesse ser usado como uma boa razão para sair.

Decidi fazer algo do mais vil possível: decidi mentir.

Peguei no telemóvel e liguei a um familiar para dar a entender aos outros que "algo" estava a acontecer. Afastei-me para poder falar à vontade e fingi uma cara chateada (nem sei se terá sido realmente fingida). Expliquei a situação e deram-me a ideia que teria de dar boleia a alguém porque sim. Aceitei a proposta e vali-me do meu tempo de teatro amador enquanto puto para me ajudar na artimanha. Chamei o meu amigo(das pessoas que estavam lá, a que me é mais próxima) à parte. Disse-lhe que tinha de ir embora porque isto e por aquilo. Ele aceitou e até fiquei com a sensação que acreditou. Comecei a despedir-me de todos.

"Já?"
"Porquê?"
"Então?"

A resposta já estava pronta e entreguei-a quase mecanicamente.

No momento em que comecei a dirigir-me a casa iniciou-se um período de remorso constante que dura até hoje. Eu mentira descaradamente a um dos meus melhores amigos, a alguém que não merece nada menos que toda a verdade. Mas menti. Errei. Conscientemente. Deliberadamente.

A minha honestidade e a sinceridade são maldições que me atormentam no dia-a-dia, e é com surpresa que me vejo dilacerado por culpa numa das raríssimas vezes que minto para proveito próprio.

Eu pensei que se confessasse o meu subterfúgio talvez pudesse ainda resolver toda a situação. No dia seguinte telefonei ao meu amigo. Expliquei-lhe tudo, sem tirar nem pôr, e pedi-lhe incessantemente desculpa. Ele, pessoa excelente que é, aceitou as desculpas e referiu até que eu estava a exagerar, que estava no direito de me ir embora se não me sentia bem, fosse pelo que fosse.

(ele não sabe que eu tenho um blog, por isso não pensem que isto é uma mensagem indirecta para ele)

Apesar da magnânima indulgência que ele demonstrou, ainda me sentia profundamente magoado comigo próprio (mais do que ele aparentemente). Continuei a achar absolutamente pérfido o que fiz.

Sinto que este evento me afastou ainda mais das pessoas que me são queridas. Não por reacções delas, mas pelas minhas. Eu tenho notado de tempos em tempos a quantidade de sofrimento que eu impijo nos que me rodeiam, especialmente aqueles que me são mais próximos. Tenho pena da minha família e dos meus amigos por terem de lidar com alguém como eu, com as minhas idiossincrasias idiotas e infantis. Sim, eu sei que eu sou o problema, mas não sei resolver-me.

A única coisa que posso fazer é afastar-me.

 

 

 

Bom, mas fui ao circo, sim. Estava quase à espera de ouvir a música famosa de Julius Fučík, mais associada ao circo, chamada "Entrada dos Gladiadores", traduzindo rudemente para português. Não ouvi, tocaram outra bastante semelhante em espírito mas que ainda não consegui identificar.

No entanto, para variar um bocadinho, vou partilhar uma outra composição de Fučík, nostalgicamente relevante para mim por estar incluída no mítico videojogo RollerCoaster Tyccon.

Die Regimentskinder, ou algo como Os Filhos/Crianças do Regimento, de Julius Fučík:

 

(não se assustem com a bandeira do vídeo acima; Fučík era checo, que na altura era parte do império Austro-Húngaro)

(já agora, não confundir este Julius Fučík com o seu sobrinho de mesmo nome, que foi um jornalista comunista executado pelos Nazis)

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publicado às 23:21


Inominável nº 11

por Rei Bacalhau, em 01.12.17

Tudo na vida tem um lado Bom, um lado Mau e um lado Feio. Bom, talvez não tudo, mas gosto de pensar que sim só para parecer mais dramático.

Seja como for, os videojogos não são excepção e nem sempre as interacções com eles são divertidas e cheias de positivismo.

 

Feita a introdução, resta dizer que saiu um novo número da Revista Inominável. Neste artigo da rubrica 2D3D falo sobre a minha última experiência de Minecraft, um videojogo relativamente famoso, que muitos adultos confusos poderão reconhecer como "aquele jogo que o puto está sempre a jogar que é todo aos quadrados".

 

Tendo em conta a ambiguidade do termo, deixar-vos-ei descobrir o que quero dizer com "último".

 

Para ler, AQUI.

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publicado às 16:35


Telegraph Road

por Rei Bacalhau, em 26.11.17

Telegraph Road, dos Dire Straits:

 

 

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publicado às 23:59



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