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Just Another Day

por Rei Bacalhau, em 16.07.17

É certo e sabido que o mundo é um sítio horrível.

Todo o nosso conceito de existência e subsistência é constantemente desafiado pelos obstáculos que o dia-a-dia nos atira. Dependendo da nossa maneira de ser, com o tempo já nos parece custar levantar e colocarmos o pé na rua para mais um dia de atribulações, que, sabe-se bem, são em muito maior número que as felicidades relativas que preferiríamos ter.

No entanto, apesar de tudo, teimamos em continuar a nossa vida, pois pensamos que hoje será simplesmente mais um dia.

No fim de contas, quando tudo parece ter chegado ao mais profundo dos abismos, apenas temos de pensar que chegámos aquele ponto depois de milhares de "apenas-mais-um-dia" anteriores em que enfrentámos corajosamente uma qualquer situação impossível.

 

É só mais um dia.

 

Os Oingo Boingo, com Just Another Day:

 

 

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Master Blaster (Jammin')

por Rei Bacalhau, em 09.07.17

Chega aquela altura do ano em que começo a sentir que preciso de férias do meu compromisso semanal musical. Não sei porquê, mas acabo sempre por ficar extremamente desinspirado para escreverou sequer pensar em seja o que for.

Deve ser do calor.

A pausa a sério só ocorrerá em Agosto, até lá já tenho algumas músicas pensadas.

 

Entretanto, sintamo-nos bem, com o Stevie Wonder, Master Blaster:

 

 

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On Every Street

por Rei Bacalhau, em 25.06.17

On Every Street, dos Dire Straits:

 

 

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A Nuvem - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 24.06.17

O dia acordou fresco. As montanhas derramaram sobre as estepes ervadas a sua humidade limpa e vivificante. Rebanhos de nuvens ainda levitavam nalguns locais como fantasmas inocentes e apáticos sobre os prados verdes. Os pássaros há muito que começaram a sua zombaria habitual, cortando o ar apressadamente na competição diária pela sua subsistência, apesar de não haver indício que qualquer um deles passasse fome ou outro tipo de privações. Parecia acordado que as poucas pausas a que aparentavam ter direito tinham de ser no poço de pedra cheio de água perto da horta eximiamente cuidada de Equ Onolatru, o peculiar estalajadeiro copliano. Igualmente perto desta horta ruminava uma manada de burros, com um benjamim seguindo cuidadosamente a progenitora. O sol nascera no horizonte e dava início ao seu colossal trabalho de aquecer o mundo em variados graus de eficácia. Era outrossim pouco eficazmente que o fazia naquelas estepes, o que fazia alguns seres regozijar e outros suspirar de desapontamento.

- A, ôjǝ pɐrecǝ-mǝ um bôm diɐ pɐrɐ trɐbɐlhar. - dizia Equ Onolatru, de enxada na mão, assobiando contentemente em direcção à sua horta.

Um raio de sol atravessou finalmente o cosmos e dirigiu-se velozmente a uma janela da estalagem. Penetrou num quarto ainda tepidamente iluminado e colidiu com a lâmina perigosa de um sabre Ahtem. Ventura Lobo estava a dar-lhe uns retoques e arranjos finais que ainda não tinha tido a possibilidade de finalizar desde a batalha de Ruquru.
Satisfeito, pousou a espada em cima da cama confortável onde dormira. Percorreu com o olhar as planícies aparentemente infinitas mas tão igualmente limitadas pelas montanhas que as rodeavam a toda a volta.
Suspirou.
Ventura Lobo já começara a sua aventura há várias semanas e ainda não tinha tido qualquer indício do rasto do Abade Fazia ou do Livro. A resposta era sempre negativa a todos quanto perguntava. Equ Onolatru referiu, no entanto, que existiam várias povoações de grandes dimensões ainda mais para o Norte inexplorado por Ventura. Enfim, se Norte já era a sua orientação de viagem predefinida, tal informação do estalajadeiro só veio a reanimar a esperança de Ventura de se aproximar do seu objectivo. Efectivamente, não podia crer que conseguiria aguentar muitos mais episódios repletos de parvoíce e desafios gramaticais e ortográficos como aqueles a que já tinha sido apresentado.

Preparou a sua armadura, que já tinha tomado um tom acinzentado em vez do branco brilhante original, e na qual já se podiam identificar vários remendos não profissionais. Desceu e chamou docemente Sara, a égua Maglu, do estábulo. Carregou o alforge com mantimentos frescos providenciados pelo prestável estalajadeiro, cujo diálogo é tão difícil de escrever que se fez um esforço de não o incluir muito nestas preparações finais antes da viagem. Teria mais que fazer na horta, certamente.

Ventura já se despedira e já pagara a Equ Onolatru pela refeição e pela estadia. Pôs-se a caminho e Sara relinchou, despedindo-se por sua vez dos seus amigos burricais recentes, em particular um que os ficou a observar enquanto se afastavam.

- Vá, vá, nada de pensar nisso, Sara, nunca resultaria. Não penses em mulazinhas, ouviste? És uma égua Maglu, há que haver alguma decência, não?

Durante aquele dia as planícies estiveram mais vazias do que o costume. Ventura apanhava de relance uma ave de vez em quando, que desaparecia rapidamente depois. Não deixava de ser uma ocasião agradável para Ventura Lobo. Pela primeira vez no que lhe pareceu muito tempo estava livre de contacto com seres capazes de lhe azucrinar a paciência com as suas idiossincrasias asininas. Não é que Equ Onolatru, por exemplo, fosse terrivelmente aborrecido ou particularmente chato, mas Ventura almejava conseguir ter uma conversa normal com alguém, fosse quem fosse, desde que não cometesse o erro de irritar a espada Venceslau com algum erro ortográfico ou gramático.

As folhas crescidas de erva dançavam suave e ritmicamente sobre as estepes infindáveis desta região do Norte, formando um manto verde dinâmico apenas interrompido por pequenos pontinhos de cores chamativos na forma de flores esporádicas solitariamente espalhadas. Os cabelos longos de Ventura entravam no mesmo baile natural, agitados pela mesma brisa leve que animava a flora local.

Ventura Lobo, não sendo um artista, não era muito dado aos conceitos abstractos de paz interior que tantos procuravam. Contudo, naquela ocasião deixou-se pouco masculinamente invadir por um sentimento de felicidade e satisfação que lhe era raro. Efectivamente estava sozinho, e talvez por isso se sentisse confortável o suficiente para correr o risco de apreciar a simplicidade quase intocada daquele excerto da Natureza.
Sendo um personagem de ficção, é desculpável que se tenha esquecido que todo este momento tão aparentemente seu estava a ser partilhado numa narrativa.

Almoçou um resto de empada do dia anterior. À tarde viu dois cavaleiros lado a lado a galope pela planície, mas estavam demasiadamente longe para determinar quem seriam. Desapareceram no horizonte. Seria provavelmente uma patrulha de batedores Maglu. Quando chegou a noite, enroscou-se a Sara e dormiu pacatamente.

Ventura Lobo acordou pouco antes do dia raiar. Petiscou algum do excelente pão providenciado pelo estalajadeiro acompanhado de uma barradela de compota saborosa de pêssego.

- Agora que penso nisso, não me lembro de ter visto nenhum pessegueiro na estalagem...

Encolheu os ombros e acordou gentilmente Sara.

A região era estranhamente húmida e rebanhos de nuvens ainda levitavam... aliás, esta descrição já foi feita no início do episódio. Na prática, a neblina matinal daquele dia era em tudo semelhante à do dia anterior.
Excepto num aspecto.
Ventura Lobo conseguia literalmente observar a neblina lentamente a dissipar-se, mas uma nuvem em particular, ao longe, não imitava esse comportamento. Pelo contrário, cada vez se tornava mais proeminente.
Era uma nuvem enorme, que ofuscava as montanhas atrás de si que delimitavam a fronteira setentrional daquelas planícies. Parecia peculiarmente confinada a uma certa zona, e não aparentava ter movimento algum.
No entanto, talvez a característica mais única daquela nuvem fosse o facto de emanar uma luz bastante visível no teu topo, como se fosse alguma espécie de relâmpago ténue constante.
- É mais forte do que eu. Temos de lá ir, não é verdade, Sara? Senão nem tem piada.

 

Demorou umas horas a bom passo até chegar às redondezas da nuvem. Admirou-se quando começou a distinguir formas de pessoas nos campos à volta da nuvem. Estas pessoas estavam separadas umas das outras, parecendo algum tipo de actividade agrícola, apesar de não haver ali nada cultivado.
Conseguia analisar agora mais claramente a nuvem. Ficou maravilhado ao verificar que dentro da nuvem estavam estruturas, edifícios e sinais de civilização, todos envoltos numa neblina espessa e consistente que eram como uma espécie de muralha. A nuvem elevava-se imensamente e Ventura notou que a luz que vira anteriormente provinha de um pilar luminoso no topo da nuvem. Os edifícios pareciam ter-se formado à volta deste pilar, criando vários patamares de alturas diferentes.
- Uma cidade? No meio do nada? - murmurou Ventura.
Dirigiu-se a uma das pessoas que estava no campo. Mexia com alguma coisa nas suas mãos, como se estivesse a escrever num papel. A pessoa, uma mulher, parecia estar completamente alheia à aproximação de Ventura, sendo que este teve de se desviar dela pois parecia deambular aleatoriamente pelos campos verdes. Subitamente pára e eleva aos céus um objecto rectangular estranho, esticando o braço para esse efeito. Olhou e sorriu na direcção do objecto. Depois voltou à pose anterior e continuou a remexer no objecto excitada e atentamente.
Ventura Lobo assumiu imediatamente tratar-se de uma pessoa insana, mas ao olhar à volta determinou que o mesmo comportamento era repetido pelas outras pessoas espalhadas nas planícies.
- Como sempre, já estou ligeiramente arrependido de ter vindo aqui. Bom, vamos a isto... Desculpe, minha senhora, posso incomodá-la?
A mulher não respondeu nem pareceu ter ouvido.
- Minha senhora? Bom dia? Olá?
Nada. A mulher apenas repetiu o gesto de elevação do objecto, mas desta vez em vez de sorrir fez uma careta infantil.
- Pronto, tudo bem, vou a outra pessoa. Um bom dia, peço desculpa por a ter incomodado.
Aproximou-se de um homem mais novo.
- Desculpe jovem, mas será que me poderia dar uma informação?
O jovem pareceu hesitar, mas não deixou de mexer no estranho objecto que também tinha, atacando-o com o dedo de várias maneiras. Não respondeu.
- Está tudo doido.

Ventura olhou pensativamente para a nuvem e para o objecto que o jovem tinha nas mãos. A verdade é que aquele objecto era esteticamente muito semelhante ao material de que a nuvem era feita, fosse vapor de água ou não. Decidiu, contra-intuitivamente, investigar mais profundamente esta situação. Assumiu que a cidade, se assim lhe poderia chamar, teria um ponto de acesso qualquer. Esperou que um destes presumíveis habitantes voltasse para o interior, já que a entrada para a cidade não era visualmente óbvia.
Um homem mais velho, sempre atento ao seu rectângulo, começou a andar na direcção da nuvem e Ventura viu a sua oportunidade. Seguiu-o despreocupadamente a curta distância, já que a sua presença não parecia de modo algum ser notada de uma maneira ou doutra. Ventura estava agora na base do que se podiam designar como as muralhas núveas da cidade. Notou com espanto que o constante relvado das estepes se prolongava por debaixo da cidade. Desmontou de Sara e deitou-se para confirmar o que via. Efectivamente aquela cidade não estava assente na terra. Pelo contrário, Ventura fez a espantosa descoberta de que a cidade flutuava completamente, fazendo jus à sua aparência de nuvem. As folhas de erva nem se dobravam ao contactarem com o material gasoso. Ventura levantou-se do chão e tocou hesitantemente na parede. A sua mão simplesmente atravessou a muralha, como se fosse neblina normal.
Não sabendo bem o que pensar, continuou a seguir o homem para desvendar o estranho mistério desta nuvem. Não que haja realmente um mistério, porque num mundo de fantasia este tipo de estruturas impossíveis é absolutamente normal, mas Ventura Lobo tem de fingir ansiedade e talvez até algum temor para gerar suspense.
Subitamente, o homem vira para a esquerda e as paredes dissipam-se para o deixar passar, o que é estranho, porque não pareceu a Ventura que o homem tivesse dificuldade em atravessar a parede se tentasse. Antes que a parede se fechasse, metaforicamente e literalmente falando, Ventura aproveitou para entrar na nuvem.
O que viu a seguir estava além de qualquer expectativa sua.

Mais uma frase para prolongar o suspense.

 


E agora outra com uma separação dramática do resto do texto, frustrando o leitor.

 


Lá dentro, a cidade era uma espécie de labirinto aberto de patamares e edifícios altos, conectados por pontes e corredores estreitos. Era tudo colorido de pouco variados tons de cinzento, já que tudo era feito do mesmo material ligeiramente translúcido e fumegante. Os únicos contrastes estruturais eram o pilar majestoso no topo que já se observava de fora e as fileiras de pedra que serpenteavam pela cidade fora, formando as vias públicas. No entanto, raro era o habitante que as usava. Estes, vestidos quase folcloricamente em comparação à cidade, passeavam tranquilamente pelos espaços abertos da nuvem como se de simples relva se tratasse. Todos tinham um dos misteriosos rectângulos gasosos e era sem grande surpresa que se observava que todos davam atenção exclusiva ao seu objecto respectivo. Era por puro aparente milagre que aquelas pessoas não se entrechocavam ao deambular aleatoriamente pelas ruas sem estarem cientes das suas redondezas imediatas.
As pessoas pareciam divertidas e felizes, apesar de o silêncio ser geral. Ouviam-se alguns barulhos peculiares e breves, emitidos claramente dos rectângulos dos habitantes.
Ventura Lobo notou que a espada Venceslau estava agitadíssima, apesar de ele não ouvir coisa alguma que a pudesse provocar.
Tentou falar com vários cidadãos, mas como anteriormente, nenhum lhe fez caso.
Ventura não sabia o que fazer, visto que era impossível interagir fosse com o que fosse naquela nuvem. Pensou em simplesmente ir-se embora até que uma pessoa lhe chamou a atenção.
- Espera lá... eu conheço aquele homem...
O homem caminhava pacatamente olhando para o seu rectângulo. Ventura reconhecera nele o notável Xico dos Cavalos, o camponês que nunca aprendera a letra "a", que conhecera no mesmo dia em que libertou o Abade Fazia. Sem dúvida que era ele, ligeiramente mais velho e com uma ligeira corcunda, provavelmente provocada pela constante utilização daquele nefasto objecto.
- Sr. Xico dos Cavalos! Lembra-se de mim!? - gritou Ventura, rompendo o silêncio relativo da cidade.
Não respondeu e continuou caminho para uma zona de nuvem aberta. Ventura seguiu-o inconscientemente, esquecendo-se completamente que ainda não tinha tentado colocar o pé no material núveo.
Era impossível dizer a que distância estaria do chão das planícies, e parecia que Ventura estava disposto a descobrir, pois assim que meteu um pé fora das lajes de pedra segura o seu corpo mergulhou graviticamente através da neblina. Foi por puro instinto que se conseguiu agarrar desesperadamente a uma laje. Depois de algum esforço, já que a armadura não ajudava muito, conseguiu elevar-se de volta para a pedra firme.
Quando recuperou do surto de adrenalina a que fora descuidadamente submetido, Ventura procurou Xico dos Cavalos e encontrou-o de volta a uma rua com pedra. Rapidamente ziguezagueou através dos habitantes e alcançou de novo o seu conhecido.
- Sr. Xico? Não me ouve? Não se lembra de mim? Ventura Lobo? Eu sou amigo do Abade Fazia. Não se lembra?
Desta vez Xico pareceu hesitar, mas prosseguiu caminho. Ventura, frustrado, agarrou-o finalmente pelo braço.
Imediatamente duas figuras humanóides surgiram magicamente do chão. Pouco surpreendentemente, eram feitas do mesmo material que... enfim, tudo o resto.
Apanhado completamente de surpresa, Ventura nem soube reagir. As figuras separaram-no de Xico. Este continuou a andar como se nada fosse.
As figuras não tinham feições, mas pareciam olhar atentamente para Ventura. Depois de o analisarem demoradamente, uma delas estendeu-lhe a mão, como que para lhe entregar algo. Um dos rectângulos tão comuns na cidade materializou-se na mão da figura nevoenta. Parecia que queria que Ventura aceitasse o objecto. Foi com alguma reticência que este o fez, mas pela primeira vez desde que chegara à nuvem conseguiu efectivamente sentir aquele material na sua mão. As figuras esfumaram-se tão rapidamente quanto apareceram.
Ventura olhou para o objecto que recebeu. Admirou-se ao perceber que tinha palavras escritas, como se estivesse a dirigir-se a ele.

Bem-vindo! Vamos começar?

 

- Ah, obrigado. Vamos começar o quê?

Não obteve resposta, e a pergunta manteve-se teimosamente escrita no objecto. Notou de seguida que outra palavra estava escrita um bocado abaixo das titulares.

Sim

 

- Sim, claro. Porque não? Tenho de dizer sim? É isso?
Nada aconteceu.
- Não percebo.

Ventura Lobo virou o objecto em várias direcções a tentar determinar se havia alguma forma de interacção com ele. Desistiu e virou as palavras na sua direcção. Ao fazê-lo, um dos seus dedos tocou acidentalmente na palavra "Sim", que se iluminou e desapareceu.
- Ai, já estraguei isto.

Olá


- Oi? Olá! Aliás, nem sei se isto me consegue ouvir. Consegue ouvir-me?

 

Vamos criar um registo para si. Deseja fazê-lo agora?
Sim Mais tarde

 

- Sim! Mais tarde não que o pessoal lá em casa quer que a história avance.
Nada aconteceu.
Ventura, num acesso de perspicácia, aproximou o dedo da palavra "Sim". Esta teve o mesmo comportamento que anteriormente.

 

Bem-vindo ao assistente de criação de registo pessoal. Por favor insira o seu nome.
O seu nome aqui:                              

 

- Ventura Lobo, aventureiro e... ah, espera, é para inserir? Como assim inserir? Inserir onde? Ah...? O meu nome ali? Deixa cá mexer o dedo. Oi!
Ventura dedilhou no rectângulo branco que dizia "O seu nome aqui..." e este apresentou de seguida um conjunto de símbolos que Ventura reconheceu como sendo o abecedário. Estava disposto de forma aparentemente aleatória, em vez de ser em ordem. Ele já percebera por esta altura que a interacção normal com o que parecia ser algum género de aparelho era feita com o dedo por contacto. Reflectiu que não era muito diferente de interacções que já vira previamente nos autómatos nas Minas de Lesi. Tentou com dificuldade dilacerante digitar o seu nome letra a letra. Quando acabou, o dipositivo parecia estar a trabalhar nalguma coisa, brilhando com belas e chamativas cores no meio do seu material nebuloso. Finalmente, apareceu o seguinte:

Registo completo.

Bem-vindo à Nuvem, Ventura Lobo

 

Imensos painéis coloridos invadiram o aparelho, mostrando informação de todo o tipo, maioritariamente irrelevante. Num, a meteorologia para hoje, amanhã, depois de amanhã, o dia a seguir, ontem, antes de ontem e todos os dias do próximo mês. Noutro, desenhos realísticos de animais bebés em poses queridas. A seguir, os vários dias nos vários calendários, entre eles o Real, o Kamiliano, o Putuiliano, o de Virik Katal, entre muitos outros de raças menos conhecidas. Mais ao lado havia outro painel com o que pareciam ser notícias da Nuvem, sendo a mais recente que já tinham terminado a actualização dos painéis sociais e era agora possível determinar exactamente a posição de qualquer cidadão da Nuvem.
Nada disto fazia sentido a Ventura Lobo, que ficou imediatamente confuso pela avassaladora quantidade de informação com que estava a ser bombardeado. No entanto, graças à notícia que lera, percebeu que haveria um painel social. Encontrou-o pouco depois, rodeado de imagens de pessoas que nunca vira na vida. Dedilhou o painel.

Bem-vindo à Nuvem Social! Não tem retrato de perfil. Gostaria de criar um agora?
Sim Mais tarde

 

Ventura, já sem falar, seleccionou sim. O aparelho transformou-se num espelho e o aventureiro conseguiu ver a sua reflexão. Pouco depois o aparelho emitiu um ruído estranho e rápido e a reflexão perdeu vida, congelando a feição de Ventura. Este tocou-se na face para tentar compreender se estava paralisado, mas rapidamente chegou à conclusão que o que era uma reflexão tornou-se repentinamente um retrato, e que portanto a sua morfologia física não tinha efectivamente estacado. Ventura ficou com uma expressão idiota no retrato, mas confirmou quando lhe foi perguntado se estava satisfeito.

Vamos agora tentar encontrar pessoas que conheça. Aguarde.

 

 

Depois de um período de deliberação colorido, o aparelho mostrou a seguinte mensagem.

Não encontrámos ninguém que pudesse conhecer. No entanto, tem aqui uma lista de pessoas com quem pode iniciar conversa!

 

Efectivamente uma longa lista de nomes com retratos apareceu no ecrã. Navegando por uma quantidade imensa de gente irrelevante, Ventura apanhou de relance o nome que procurava. "Xico dos Cvlos".

Adicionar Contacto

 

Não demorou muito tempo depois de Ventura atingir aquela opção para receber uma mensagem.

Xico dos Cvlos aceitou o seu pedido de contacto! Comece uma conversa com ele!

 

Abriu-se um novo painel visual no aparelho.
O abecedário foi de novo mostrado e Ventura Lobo inseriu diligentemente cada uma das letras numa mensagem.

Ventura Lobo Xico dos Cvlos
Bom dia, Sr. Xico dos Cavalos! Lembra-se de mim? Ventura Lobo, caminhante e aventureiro, um bocadinho mais experiente desde a última vez que nos vimos.  
  per l, sim lembro me de ti, deste cbo ds minhs couves qd slvste o bde Fzi d su priso



A espada Venceslau tinha estado agitadíssima desde que entrara na cidade, mas agora tremia visivelmente, ansiando por sair e punir os que ousavam falar mal, ou neste caso, escrever. Ventura estava demasiado ocupado com o aparelho para controlar Venceslau.

Ventura Lobo Xico dos Cvlos
Ah, vejo que se lembra de mim pelas piores razões, ora essa. Já foi há tanto tempo, amigo Xico, certamente poderá perdoar-me, especialmente tendo em conta que o sacrifício das suas couves resultou na justa libertação do Abade Fazia.  
  sim, e verdde, j foi h mt tempo
  o q e q nds fzer por qui?
Na verdade venho à procura precisamente do Abade Fazia, mas foi por mero acaso que vim aqui parar. Noto, no entanto, que parece que o senhor está-se a esquecer de mais letras do que o costume... Dantes era só o "a".  
  sbes, qui e norml escrever se com menos letrs pq se queremos escrever rpido n nos dmos o trblho de por tods s letrs
Nem pontuação, pelo que me é permitido verificar. Então aqui o senhor é um bocadinho menos gozado pela população local, suponho?  
  pq?
  h! clro :P
  qui tod gente escreve ssim por isso ssento q nem um luv
  quse ng not q eu n uso ess letr q voces dizem


Ventura começara a andar quase naturalmente enquanto trocava palavras com Xico dos Cavalos, estivesse ele onde estivesse. Mal sabia ele que este estava precisamente à sua frente, encaminhando-se na sua direcção exacta. Estavam os dois em rota de colisão.
Subitamente, aparece uma seta imensa virada para a direita a ocupar a área observável do aparelho de Ventura.

Por favor dê um passo à direita

 

Ventura assim fez. Hipnotizado como estava, não reparou que Xico dos Cavalos teve uma acção idêntica, aparentemente de forma inconsciente. Na prática, se Ventura Lobo estivesse a contar a sua história na primeira pessoa, um leitor teria uma visão muito mais pobre da dinâmica citadina. Os dois interlocutores indirectos cruzaram-se sem dar por isso.
Um novo painel colorido apareceu a Ventura.

Agustina Cupertina gostaria de o adicionar como um novo contacto!

 

Ao lado desta mensagem estava o retrato de um gato.
- Ah, deve ser uma membra das tribos de homens-gato das ruínas de Duech Be Aghe. Já lá fui uma vez, mas não conheci lá ninguém com este nome... Bom não vou ser mal-educado, deixa cá aceitar o convite, pode ser que seja alguém que tenha mudado de nome, há quem o faça de vez em quando.

Aceitou o convite de Agustina Cupertina!

 

O painel desapareceu para dar vida a outro imediatamente a seguir, do mesmo género que aquele que continha a conversa escrita com Xico dos Cavalos. Já lá continha o início do que Ventura supôs que seria uma nova conversa com outra pessoa. Identificou ao canto do painel o retrato da mulher-gato de Duech Be Aghe.

Ventura Lobo Agustina Cupertina
  ola, td bem? :P
  es novo por aqui?

 

A espada Venceslau saltava pouco subtilmente na sua bainha, não tendo ninguém para a conter. Cada palavra escrita era uma ofensa imperdoável neste antro de difamadores. É possível imaginar que todas as palavras que estivessem a ser escritas por todos os habitantes da Nuvem pudessem ser de algum modo sentidas pela espada branca. Venceslau pensava apenas em purgar a cidade inteira. As suas jóias brilhavam um laranja preocupante.

Bons dias, menina. Faz uma excelente dedução sobre a minha chegada recente à vossa estranha e fascinante cidade. Permita que me apresente. Sou Ventura Lobo, aventureiro em missão, e foi por puro acaso que me deparei com este local.  
  lol
  falas de maneira esquisita xD
  sou a agustina mas chamam me gugu <3 mas so os amigos lol

 Venceslau pulsou para um vermelho zangado.

Bom, se alguma vez chegar a um nível de confiança em que exista amizade, já saberei por que nome a poderei tratar. Devo dizer, no entanto, e não pretendo ofender, que o seu nome parece-me pouco comum para uma mulher-gato de Duech Be Aghe.  
  loool, o que? xD
  o que e isso? o.O

 Vencelsau pulsou para um rubor agressivo. Sacudia-se violentamente.

Ah, eu estava a fazer referência ao seu retrato, do qual depreendi que a menina fosse uma mulher-gato.  
  looool ahahahhah xDD isso e uma foto do meu gato

 Venceslau pulsou para um escarlate raivoso. Clamava desesperadamente pela mão do seu possuidor para se vingar dos habitantes da cidade.

Foto? Não compreendo o termo neste contexto. O seu gato é uma luz? E porque é que haveria de usar o seu gato como o seu elemento identificativo visual nesta gerigonça?  
  o.O tas mesmo ha nora... e eu tb xD

 Ventura Lobo, num movimento inconsciente, agarrou o cabo da sua espada, quase como se fosse ela a controlá-lo. Desembainhou-a, largando o dispositivo núveo hipnotizante. Foi com prazer sádico que Venceslau, pela mão de Ventura, penetrou e destruiu completamente o dispositivo, que se desintegrou e esfumou, desaparecendo gradualmente.

A raiva da espada não estava saciada, mas a destruição do aparelho trouxe Ventura de volta a si, que retomou o controlo consciente de Venceslau.
- Mas... que raio? Essa agora... Realmente não admira que os cidadãos locais estejam sempre colados a estes aparelhos. Há sempre alguma coisa para fazer e para nos distrair. É facílimo perdermo-nos naquilo. Será que...
Não pôde acabar o seu raciocínio. Duas figuras humanóides formaram-se do chão. Pareciam estar a analisar Ventura como anteriormente. Só agora é que este reparara que não estava em cima das lajes seguras, mas estava sim sobre a neblina que compunha a maioria da cidade. Aparentemente, a destruição do aparelho não revogou o acesso livre de Ventura à cidade e à sua estranha infra-estrutura.
Depois de um curtíssimo olhar vazio mas desconfortavelmente perscrutante, uma das figuras aproximou-se de Ventura e estendeu-lhe a mão. Um novo dispositivo materializou-se-lhe na mão, exactamente como ocorrera com o primeiro.
- Ah, não, obrigado meu caro, mas desta vez acho que vou recusar. Temo que essa vossa tecnologia é uma distracção à qual não me posso dar ao luxo.
A figura não se moveu, mantendo o braço esticado.
- Bom, é aqui que me despeço então, meus senhores, ou seja o que for que sejais. Obrigado pela hospitalidade.
Ventura tentou contornar o humanóide núveo, mas este barrou-lhe o caminho, teimando na sua oferta.
- Dê-me licença. Peço-lhe.
Mais duas figuras surgiram do chão, rodeando ameaçadoramente o aventureiro.
- Meus amigos, notem bem estas jóias da minha espada. Uma legenda rápida para as suas cores possíveis seria algo deste género: transparente ou branco, tudo bem; amarelo, primeiro aviso; laranja, sugere-se cuidado; vermelho pulsante como se todos os fogos do inferno metafórico ou real estivessem a jorrar sangue incandescente, sugere-se muita precaução. Como vedes, a espada Venceslau está no último estado que descrevi, ou pelo menos muito lá perto. Eu consigo controlá-la na maioria das situações, mas se neste momento estais a querer provocar-me, devo dizer que escolhestes a pior altura possível. Por outras palavras, abri alas e deixai-me passar. - fez uma pequena pausa e preparou a sua arma predilecta. - Senão...
Depois do que pareceu uma reflexão cuidada, um dos homens neblinosos estendeu o braço rapidamente como se fosse agarrar Ventura.

- Erro crasso. Vamos a isto então.

 

Ventura deu um passo ágil para a esquerda e decepou o braço núveo. O homem olhou para ele enquanto observava o seu braço amputado, que em vez de cair esfumou-se para cima como se fosse vapor. Não demorou muito até que o braço voltasse a crescer magicamente.
- Eu já devia ter percebido que isto não iria ser fácil. Nem meteria piada, não é verdade?
As quatro figuras formavam agora um semicírculo à volta do impertinente aventureiro. Bastões simples formaram-se nas suas mãos, mas não tinham qualquer tipo de protecção contra a lâmina fatal de Venceslau. Evidentemente, nem precisavam.
Os habitantes da cidade pararam de circular livremente e fizeram um ajuntamento enorme à volta de Ventura e dos presumíveis guardas. Tinham todos o seu dispositivo rectangular apontados para a cena dramática, de feições chocadas e horrorizadas como se estivessem a ver a luta a decorrer através dos aparelhos, em vez de o fazerem com os próprios olhos.
Ventura já não se admirava, mas também não compreendia. Decidiu que o melhor a fazer era sair da cidade. No entanto, tendo em conta que deambulara aleatoriamente pela cidade, já não sabia voltar para a saída da Nuvem. Aventurou-se para uma rua qualquer, esperando reconhecer algum sítio naquela cidade tão pouco arquitectonicamente original.
Os guardas puseram-se em perseguição pouco convencional. Não tendo necessidade de se locomover humanamente, simplesmente faziam-se sugar para o chão e reapareciam à frente de Ventura a partir de qualquer ângulo de qualquer edifício. Ele cortava braços e cabeças dos núveos, mas estes pareciam não ser muito afectados por isso. O membro decepado simplesmente evaporava-se para a atmosfera e eles reapareciam posteriormente como novos.
O intrépido guerreiro não se deixou desanimar. Percorreu os patamares precipitantes, os estreitos corredores e as praças espaçosas da Nuvem, lançando Venceslau contra os inimigos que lhe iam aparecendo de todas as direcções, brotando do chão e das paredes cinzentas.
Na sua pressa, tropeçou num desnível e espatifou-se nas lajes da rua. Imediatamente surgiu-lhe um guarda núveo à frente. Só naquela perspectiva é que Ventura reparou que os misteriosos homens estavam literalmente ligados à cidade, não se discernindo nenhuma divisão entre os pés deles e o chão.
- Bom, já que aqui estou...
Manobrou Venceslau contra os pés do guarda, dos quais apenas um estava assente no chão (o outro desligara-se quando o guarda flectiu o joelho para se locomover). Com o pé cortado, o último elemento que o ligava à Nuvem deixou de existir. O núveo pareceu hesitar, com uma linguagem corporal preocupada e surpreendida. Estremeceu e esfumou-se completamente pelo ar.
- Ah, então afinal podeis morrer. Agora não fujo mais. Vinde!
Os outros três guardas que o perseguiam materializaram-se, rodeando o humano. Este passou imediatamente ao ataque. Rebolou para trás de um deles, evitando milagrosamente um golpe forte de bastão. Mesmo de cócoras, rasgou o ar com a espada e cortou o núveo pelos pés, como anteriormente. Desintegrou-se perante os seus olhos, revelando os outros dois que se aproximavam rapidamente de bastão em riste. Defendeu-se do ataque de um e pontapeou-o para longe. Desviou-se do outro, cortou-lhe o bastão, agarrou-lhe num braço e perfurou-o com Venceslau de modo a que o braço ficasse preso ao corpo. Desembainhou seu sabre Ahtem e fez o mesmo com o outro braço, ficando o núveo de braços cruzados presos a si próprio.
- Olha, por acaso estava a pensar que te conseguirias facilmente soltar, já que és feito de gás ou algo do género. Ou será que nem pensaste nisso?
O inimigo olhou para Ventura pensativamente. Parecia ter chegado à mesma conclusão que ele.
- Tarde demais. - disse, antes que o núveo tivesse tempo de reagir.
Pegou numa das suas adagas, baixou-se prontamente e desfez a sua ligação à Nuvem. Agarrou as suas espadas antes que ele se desfizesse. Aproximou-se do último guarda que vinha corajosamente ao seu encontro. Arremessou a espada Venceslau contra o pé deste quando o outro ainda estava elevado, imediatamente eliminando-o.
- Ah, afinal retiro o que disse, até foi bastante fácil. Agora poderia estar o dia todo a dar cabo deles.
Não sabendo que tinha acabado de agoirar a sua sorte, Ventura embainhou despreocupadamente a sua espada.
Entrou numa praça que era limitada por um patamar com uma boa visão para o resto da cidade abaixo. Ventura nem se apercebera do quanto tinha subido na sua deambulação, mas agora via um caminho claro até à praça onde tinha entrado. Olhando na direcção contrária via-se o pilar luminoso, agora com um aspecto mais ameaçador do que misterioso.
Quando Ventura se virou para trás deu por si rodeado outra vez de guardas, desta vez em número consideravelmente superior em comparação com o combate anterior. Desembainhou Venceslau num tom provocante de escárnio. Colocou-se estupidamente no meio da praça para os lutar, agora que sabia que o seu inimigo era um adversário no geral bastante tosco.
Uma espécie de alçapão criou-se precisamente debaixo de Ventura, como se a Nuvem tivesse decidido abrir uma brecha para capturar o criminoso.

E Ventura caiu.

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publicado às 22:02


The Spirit of Radio

por Rei Bacalhau, em 18.06.17

Se tentássemos, conseguiríamos fazer uma pequena lista dos temas que as músicas costumam abordar nas suas letras. Assim de cabeça, muito rapidamente, vêm-me à cabeça alguns termos possíveis como.

  • amor (certamente o mais falado, e teria imensas subdivisões);
  • dança/diversão/festa.

Depois vêm temas que algumas bandas conseguiram fazer ser notados, mas com uma colossal diferença de número de músicas para os principais acima listados.

  • intervenção política/social;
  • fantasia/ficção;
  • humor;
  • história mundial.

Hoje gostaria de falar dos Rush, uma banda cujo letrista e baterista, Neil Peart (pronunciado como o "ea" inglês em "beard"), tem a particularidade de tipicamente escrever liricamente sobre os temas menos comuns. Quase todas as músicas dos Rush seguem este padrão, mas hoje vou-me focar na denominada The Spirit of Radio

 

Esta música é uma reflexão sobre o estado e a influência da rádio como conceito, e apesar de a letra ter sido escrito há uns 40 anos, não deixa ainda de ser relevante.

Um pequeno aparte: eu tenho uma pen preparada com músicas para meter no rádio do meu carro. No entanto, apenas raramente a usei. É mais certo que me ponha a ouvir a M80, mesmo que não goste de algumas das músicas que eles toquem. Na altura não percebia bem o porquê. Mais valeria estar a ouvir músicas seleccionadas por mim, não é verdade?

Pois bem, os Rush fizeram-me perceber, mesmo que não fosse a intenção deles, que o que a rádio fornece essencialmente é companhia no nosso trajecto diário e rotineiro. Em viagens longas talvez faça sentido metermos um álbum inteiro de uma banda qualquer, mas para o dia-a-dia queremos pensar que temos alguém "ao nosso lado" para nos ajudar a acordar e quase conversar connosco enquanto esperamos pela semáforo. Não interessa que seja conversa banal ou chata, interessa é que estejamos à vontade para apreciar as vozes amigáveis de pessoas que basicamente não conhecemos fisicamente.

 

A música prossegue repentinamente numa direcção completamente diferente, melancolicamente criticando como apenas "certos" tipos de músicas e bandas é que parecem chegar ao topos, não sendo uma crítica a músicas feitas electronicamente (aliás, antes pelo contrário), mas sendo sim uma indirecta a bandas que se "vendem" (como se diz na gíria) e que se adaptam ao que as editoras ou o público querem, e não se mantendo fiéis ao que tornava a banda provavelmente única.

Nesse aspecto acho que os próprios Rush nunca foram inconsistentes, mas não tenho a certeza.

 

Considero-a uma música brilhante e excepcionalmente bem executada, mesmo instrumentalmente.

 

Os Rush, com The Spirit of Radio

 

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publicado às 11:44


Looking For The Summer

por Rei Bacalhau, em 11.06.17

Chris Rea, com Looking for the Summer:

 

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Panama

por Rei Bacalhau, em 04.06.17

Desde sempre que a Música e certos eventos históricos importantes estiveram de mãos dadas. Seja como uma forma de patriotismo numa guerra qualquer ou num contexto de intervenção política, a verdade é que não se consegue pensar em certas épocas da história sem aludir a certas melodias ou canções.

 

A Guerra Revolucionária Americana terá sempre associada a Yanky Doodle:

 

 

A Revolução Francesa terá sempre associada La Marseillaise, (cuja letra, descobri hoje, tem demasiadas semelhanças com A Portuguesa; e eu a pensar que o nosso hino era original...):

 

 

O nosso próprio 25 de Abril tem n mil músicas de intervenção associadas, das quais não colocarei aqui nenhuma com medo que me apareça aqui algum comunista, essa agora, haja decência.

 

No entanto, há certos eventos histórico-musicais mais pequenos à volta do mundo que ocorrem que passam um bocadinho mais despercebidos. O caso que apresentarei hoje não é o mais grave, mas não deixa de ser um bom exemplo.

Em 1989, os Estados Unidos andavam aborrecidos e lá arranjaram maneira de andar à porrada com o Panamá. Acho que se desentenderam lá o Presidente. Presidente esse, de nome Manuel Noriega, que morreu há uns dias depois de ter estado basicamente preso desde então. No entanto, na altura, prendê-lo não foi um processo totalmente linear. A operação militar que tinha o objectivo de o capturar chamava-se "Nifty Package" e não teve exactamente sucesso imediato. O Noriega refugiou-se numa espécie de embaixada da igreja católica e os americanos não o podiam forçosamente capturar sem causar escândalos diplomáticos e tal.

E toda a gente sabe que os americanos não gostam de causar escândalos.

O que é que os entendidos em psicologia decidiram fazer? Durante vários dias colocaram música rock aos berros numa tentativa de desmoralizar o Noriega a render-se o mais pacificamente possível. A rendição acabou por acontecer, mas nunca ficou estabelecido que a música tenha sido a razão total.

Todas as bandas que tiveram uma música sua a tocar nessa lista de reprodução diabólica marcaram assim, mesmo que involuntariamente, um pedacinho da nossa históriia mundial (por alguma razão, alegadamente, até os Oingo Boingo tiveram direito a tempo de antena).

 

Mas certamente que os Van Halen nunca pensaram que uma sua música iria ser usada para ajudar a convencer um ditador panamiano refugiado numa instituição católica a render-se. Acredito que foi completamente sem querer que criaram uma música com o nome de um país.

 

Panama, dos Van Halen:

 

 

(P.S.: aparentemente, esta música é sobre um carro; não queria de modo algum implicar que os Van Halen têm um vidente no seu seio)

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publicado às 00:17


Inominável nº 8

por Rei Bacalhau, em 02.06.17

Eis mais uma edição da Revista Inominável, da qual ainda sou parte, por alguma razão (como é que as editoras ainda não se fartaram de mim nunca conseguirei explicar).

O meu artigo tem como título "O Tabu", e mais não digo, pois assim fica misterioso o suficiente para irem ler a revista.

Não é que este blog contribue muito para o contador de visualizações da revista, mas pelo menos posso dizer que tentei. ¯\_(ツ)_/¯

Ah, eis o link para o blog da revista e o link directo para a revista em si.

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publicado às 12:00


Two Out Of Three Ain't Bad

por Rei Bacalhau, em 28.05.17

Agora que já passou algum tempo já posso pensar em incluir o termo Salvador Sobral no meu texto sem arriscar que me apareça aqui uma data de gente a mandar vir com o que eu escrevo, para melhor ou pior.

Para mim ainda é inexplicável que uma música como a dele tenha ganho lá nas Europas nos dias de hoje. Não, não estou a dizer que a música dele não é uma música de festival e tal; esse argumento parece-me um bocadinho gasto, pelo menos se usado de forma absoluta. Certamente que há 50 anos um tema como o Amar Pelos Dois teria sido banalmente aceite como música digna de um festival, devido à cultura de entretenimento diferente que existia na altura (se bem que estou a falar sem saber, porque é evidente que nunca vi um festival da Eurovisão completo, e muito menos o Festival da Canção português).

Antes que me comecem a interpretar mal, gostaria de clarificar que eu não acho que a música seja má ou pouco merecedora de ganhar seja o que for. 

Agora, que considero que a canção não tem nada de muito escandalosamente especial, lá isso não tem. Não para o leigo musical que sou em termos de composição e outras tretas técnicas. Repito, clarificando, que como OUVINTE a música não tem nada de extraordinário. Não em comparação com outras músicas que ouço.

O que é verdadeiramente extraordinário é ter ganho o festival por... razões sociais? Não sei se será a melhor expressão, mas muitas vezes há coisas que se tornam famosas/boas (no nosso mundo os dois conceitos às vezes confudem-se) apenas devido ao seu sucesso social (o que se chama hoje de "viral"; assumo que antigamente tinha outro nome, tipo "moda").

"Ah, mas a música é especial, é muito bonita! A letra, o arranjo, a excentricidade do Salvador."

Efectivamente, aceito esse argumento, mas isso não a torna necessariamente excepcional. Facilmente arranjo uma data de músicas simples que têm a mesma beleza. É claro que no meu caso essa músicas têm mais ou menos 40 anos, mas certamente que algum conhecedor de música mais recente conseguiria dar um exemplo de um tema feito algures nos últimos 20 dias por um artista qualquer desconhecido que tem o mesmo valor e mérito que Amar Pelos Dois. A única diferença é que "nunca" será conhecido senão por aqueles que se dão ao trabalho de pesquisar mais profundamente.

E todos nós sabemos que não é assim que as massas funcionam, eu incluído.

 

"Ah, mas está escrita e cantada em português! Mesmo assim toda a gente gosta! Explica lá isso agora, hmm?"

Cheque-mate. Não tenho resposta, efectivamente. É-me completamente absurdo que um inglês ou finlandês ou raio que o parta consiga gostar de uma música cantada em português. É que aí nem a letra safa. Por exemplo, está estereotipado que o franceses têm músicas de amor lindíssimas, mas tenho tendência a não ouvi-las porque compreenderia muito pouco. Só posso mesmo culpar os media e os vídeo virais como já referi, mas mesmo isso parece-me insuficiente. Não sei.

 

Vamos à música então. É um exemplo de uma música "simples" que facilmente rivaliza com Amar Pelos Dois.

Two Out Of Three Ain't Bad, de Meatloaf, com composição de Jim Steinman (já que de repente, por breves momentos, as pessoas em geral parecem estar mais cientes de que os compositores também são importantes, e não apenas só quando são parte da família):

 

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Gates of Babylon

por Rei Bacalhau, em 21.05.17

Não, não; não se confundam.

Não é a música dos Boney M.

No entanto, recomendo que se coloquem sentados em cima do tapete mais próximo, mesmo que seja daqueles de ioga ou de Arraiolos. Suspeito que poderá levantar vôo ao tocarem a seguinte melodia.

 

Rainbow, com Gates of Babylon:

 

 

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