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Teorias

por José da Xã, em 31.12.13

 

Não creio que a mera mudança de um número no calendário vá alterar alguma coisa na vida das pessoas. As mudanças, a existirem, devem partir de cada um e podem ser exibidas em qualquer dia de qualquer ano.

Os votos que esta tarde–noite se vão desejando nada valem se cada um de nós não se predispuser a aceitar que pode ou deve mudar.

Esta ideia arreigada no povo português, de que a “ano novo” corresponde “vida nova”, tem-se apresentado como um profundo erro de gestão pessoal e no qual muitos de nós temos embarcado.

A vida não é um interruptor que se liga e desliga a nosso bel-prazer . Tenho consciência perfeita de que neste momento da minha existência pouco do meu futuro depende dos meus próximos actos. Mas o meu presente será sempre um reflexo de um passado – bom e mau - longínquo e inalterável.

Não olho para o ano novo como uma festa, mas unicamente como mais um dia que consegui viver. E nada peço para o próximo ano. Aceito com maior ou menor estoicidade o que o destino, vida, karma, Deus, ou seja lá o que for me tem reservado… Aliás esta é a dúvida que de quando em vez me assalta o espírito. Será que o meu futuro está realmente escrito algures?

Espero bem que não!

Tenho de fazer uma ressalva ao que escrevi antes no que respeita a ensejos para o ano que vem. Desejo apenas para 2014 que o meu Sporting tenha uma grande prestação futebolística.

E amanhã cá estarei!

 

 

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publicado às 18:33


Música: Highway Star

por Rei Bacalhau, em 29.12.13

Grande maioria das pessoas tendem a guardar uma certa quantidade de números na cabeça por conveniência ou necessidade. Um desses números é a sua idade. Pessoalmente eu tenho sempre dificuldade em lembrar-me da minha idade porque decidi nesse espaço de memória guardar outro número relativo a uma data.

 

Passam neste mês 41 anos desde que foi lançado O Álbum. Não vou falar muito dele, sinto que não vale a pena, mais vale ouvirdes por vós próprios. Tenho no entanto de fazer uma comparação.

 

Esta é a versão original de Highway Star, dos Deep Purple, lançada no álbum Machine Head de 1972, que por si só é um álbum importantíssimo na história do rock:

 

Sim, provavelmente é muito diferente do que se costumava ouvir na altura. Mas eis o problema: a qualidade de som desta versão em "estúdio" não me parece a melhor. Ouçam a versão a sério da música, lançada no final do mesmo ano no Mítico Álbum, Made in Japan:

 

 

Incomparável....

 

Fez-se história neste álbum. Os padrões do que era rock foram mudados. A "Mark II" dos Deep Purple aqui claramente a demonstrar a sua Magnum Opus. E acho que nem eles se aperceberam disso.

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publicado às 15:34


VII

por Rei Bacalhau, em 26.12.13

"Vá, acorda, que senão chegamos atrasados."

 

Jansénio estranhou. Não se lembrava de lhe terem dito algo sobre irem sair, especialmente tão cedo. Levantou-se obedientemente mesmo assim. Vestiram-no, deram-lhe o pequeno almoço e saíram, a pé, rua abaixo. A viagem era-lhe inesperada, e apesar de ter sido curta, Jansénio descobriu novas ruas onde só havia dantes passado de carro. Alegremente acompanhou os pais até terem atravessado um portão verde grande, imbutido num prédio que dava imediatamente para um pequeno túnel, ou mais propriamente uma passagem por dentro do edifício. Para grande espanto de Jansénio, essa passagem dava para um átrio interior enorme, rodeado dos vários edifícios que escondiam nada mais nada menos que uma escola primária.

 

A algazarra era enorme, com muitas crianças, umas mais e outras menos bem comportadas. Uns choravam para vergonha dos pais, outros já tinham ali companheiros e brincavam energicamente, catapultando-se uns contra aos outros. Maior parte dos restantes devia estar bastante perplexo com o seu propósito ali. Jansénio não era excepção, mas pelo menos não era um dos que berrava irritantemente como um bebé àquela hora da manhã.

 

Jansénio sabia da existência de um local chamado "escola". Era, para ele, uma terra mítica, longíqua e desconhecida. De facto, sendo Jansénio o mais novo da família, ouvia constantemente esta palavra dos outros infantes da casa mas nunca lhe conseguiu dar real significado. Para ele, essa tal escola era apenas o sítio para onde os seus familiares contemporâneos desapareciam durante umas horas por dia.

 

Agora era a vez dele. Demoraria muito tempo a compreender o verdadeiro objectivo da escola (e mesmo aí já tarde demais). Entra numa sala de aula, absolutamente normal para quem já tem os padrões definidos, mas magnífica e mágica para quem nunca viu uma. Os desenhos e trabalhos de outros em exibição nas paredes, afixados por fita-cola ou pioneses no que poderia muito bem ter sido uma exposição de arte moderna, considerando o nível básico de capacidades de pintura e desenho mostradas. Sentou-se, acompanhado ainda, numa carteira e olhou em volta com o mesmo ar expectante com que estavam todos os outros pequenos.

 

A professora apresentou-se e falou mais para os pais que acompanhavam os filhos naquele dia tão importante. De seguida pediu a esta nova remessa de alunos que se apresentasse, um a um. Jansénio teve imediatamente um surto de adrenalina. Estaria à altura de conseguir responder a tal desafio? Perante tantas pessoas? Não estava habituado a falar neste tipo de contexto. A apresentação começou pelas primeiras carteiras e não alfabeticamente. Tinha mesmo assim tempo para se preparar, pois estava ainda na segunda fila de carteiras. Ensaiou mentalmente o que diria, que na verdade era tão simples como dizer o nome.

 

Tão simples quanto isso.

 

João. Só isso. Dizer João. Nada de mais. Outra vez: João. Será melhor dizer Jo-ão? Separado para perceberem. Se calhar...

 

Deparou-se com a turma a olhar para ele. Não tinha reparado que tinha chegado a sua vez! Engasgou-se e tropeçou nas sílabas para seu enorme desespero. Finalmente lá conseguiu murmurar o seu nome.

 

João.

 

Inevitavelmente a mãe dele teve de repetir o nome, mais alto, pois João estava absolutamente corado de vergonha, e Jansénio devastado por tal derrota.

 

O resto do dia ocorreu sem problemas, tendo sido apenas apresentação da professora e da turma. Começaria a sério no dia a seguir.

 

Voltaram para casa e Jansénio foi brincar. Distraído, pôs-se a reflectir. Surge Jeremias.

 

És mesmo parvo.

Pois... peço desculpa.

 

E os dois ficaram-se a lamentar.

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publicado às 10:05


Música: Fairytale of New York

por Rei Bacalhau, em 22.12.13

No Natal aparecem principalmente três tipos de pessoas:

 

Os alegres pelo Natal, que gozam o Natal no seu total esplendor subjectivo implicador de paz, tradição e alegria generalizada.

 

Os cínicos, que ao contrário dos alegres, desprezam o Natal por centenas de argumentos, lógicos ou não, focando-se primariamente na componente comercial que é o Natal, entre outras coisas.

 

Os indiferentes, em que o Natal é apenas mais um feriado.

 

 

No final dos anos 80, o grupo de "punk céltico" (quase que me dá vontade de rir ao escrever tal expressão) chamado The Pogues lançou uma música de Natal com um toque diferente. Foi subjectivamente considerada por muitas estações de rádio e televisão como a melhor música de Natal de sempre. Opiniões serão sempre opiniões...

 

Mas eis o toque especial: é uma música que consegue agradar a todos os grupos que referi acima. Por um lado a palavra Christmas aparece várias vezes na música, inclusive no refrão. Isso satisfará os alegres, se não ouvirem o resto da letra. Por outro lado responsabiliza o Natal pelas desventuras que ocorrem aos personagens da estória. Isto ajuda os cínicos a mostrar que o Natal é uma "bela merda". Por outro lado ainda, a música até pode ser agradável de se ouvir, o que contentará os indiferentes que simplesmente gostem de música. É um golpe de génio muito bem montado que agrada a todos!

 

Mais seriamente, na verdade, a música tem uma mensagem nada relacionada com o Natal. Este só é envolvido porque o casal do qual a estória parcialmente fala conheceu-se nessa altura. Formaram grandes sonhos e apontaram bem alto para as suas vidas. Depois de uma queda colossal dessa ilusão culpam-se um ao outro em diálogos melancólicos de arrependimento. Promessas por cumprir, sonhos quebrados, miséria geral, e mesmo assim, ainda no final, alguma esperança e amor.

 

Acho que é um excelente tema, e a instrumentação é muito diferente daquilo que costumo ouvir. Esse facto foi muito provavelmente o que me chamou a atenção quando ouvi esta música pela primeira vez há uns meses quando passou na Rádio Nostalgia.

 

(ok, minto, o que realmente me chamou a atenção foi o facto de se usar a palavra faggot na letra; compreenda-se no entanto que neste contexto esta palavra não quer dizer necessariamente o significado a que estamos habituados; na verdade sendo os Pogues um grupo com ascendência irlandesa ou algo do género, é muito provável que nos dialectos deles faggot não seja exactamente uma asneira tão grave)

 

Aqui têm então The Pogues, com Fairytale of New York:

 

 

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publicado às 01:20


VI

por Rei Bacalhau, em 19.12.13

Jeremias brincava tranquilamente no seu quarto. Havia regressado do jantar há pouco tempo e sabia que eventualmente o iriam chamar para tomar banho. Não estava particularmente preocupado com esse facto. Iria ser a mesma chatice que era todos os dias. Iriam dizer-lhe para ir tomar banho, ele recusar-se-ia até o obrigarem mesmo e então, depois de muita frustação lá teria de ser.

 

Vou ficar aqui e brincar o mais possível até me chatearem, pensou Jeremias.

Mas porquê? Podias ir já e assim não ralham connosco! Se calhar até gostam!

 

Jeremias sobressaltou-se ao ponto de perder o controlo de João por um momento, fazendo-o cambalear. Quem és tu!?, perguntou. Onde estás?

 

Um ser desconhecido materializou-se na consciência de João. A sua voz era afável e acolhedora e dava a ideia de, se tivesse cara, este desconhecido estar a sorrir permanentemente. Apresentou-se:

 

Sou o Jansénio e tenho-te visto por aí. Parecias ocupado por isso não te quis chatear, mas agora se calhar já é altura de nos conhecermos. Queres ser meu amigo?

 

Jeremias, perplexo, não sabia o que responder. Ponderou um pouco a situação e decidiu-se:

 

Vai-te embora! Não te quero aqui, isto é só meu!

 

Foi a vez de Jansénio ficar confuso. Incomodado pela resposta consentiu que não era bem-vindo. No entanto, ao querer ir-se embora, deparou-se com um problema.

 

Desculpa Jeremias, mas... como é que se sai daqui? Eu nem me lembro como cá cheguei.

Não sei! Vai-te embora!

Mas 'tou a perguntar isso! Como é que saio? Aí onde estás consegues ver melhor? Deixa lá ver.

Não! Vai-te embora! Afasta-te!

 

Era escusado. Jansénio aproximava-se e colocou-se perigosamente perto do controlo de João. Jeremias tinha de agir rapidamente! Em fúria, lançou-se a Jansénio na tentativa de o afastar. Este conseguiu evitá-lo e perguntou-lhe, preocupado, se estava tudo bem.

 

VAI-TE EMBORA!

Desculpa, mas eu não sei como! Já percebi que 'tou-te a chatear mas não consigo perceber como sair. Pensei que este mecanismo aqui me podia ajudar, deixa ver...

NÃO!

 

Ignorando os berros futéis de Jeremias, Jansénio toma acidentalmente o controlo de João pela primeira vez. A sensação de poder consequente foi avassaladoramente agradável. A feição de João mudou, agora que olhava com outra perspectiva para o seu mundo. Os seus olhos tornaram-se vivos e interessados, vibrando de um lado para o outro energicamente. As bochechas contraíram-se levemente, dando a ligeira noção de um sorriso na expressão facial.

 

Jeremias, horrorizado, deslocou Jansénio bruscamente e segurou-se de novo aos seus preciosos controlos. João voltou ao seu ar despreocupado e apático, concentrado nos seus brinquedos.

 

Isto é só meu! Sai daqui!

Mas gostei muito de mexer nisso! É isso que controla o corpo então? Não podes partilhar um bocado?

Não!.... É meu!

Não pode ser só teu! Também quero! Se eu estou aqui preso contigo mais vale partilharmos o que temos! Então, dizem-nos sempre que devemos partilhar, não é?

Não.

Vá vá, temos de nos dar bem. Deixa lá!

Não...

 

Jansénio aproximou-se outra vez do controlo. Jeremias tentou empurrá-lo e afastá-lo, mas Jansénio era demasiado forte. Jeremias não reparou que com todas as regras sociais que João foi aprendendo o embrião de Jansénio solidificava a sua presença, mesmo que ignorada. Bastaria a certa altura Jansénio querer o controlo e Jeremias teria de ceder, como inevitavelmente acabou de acontecer.

 

Não te preocupes, eu já te dou isto de volta. Deixa-me só fazer uma coisa.

 

A mãe de João chamou-o para o banho. Este simplesmente respondeu afirmativamente e dirigiu-se a ela, para enorme espanto dela.

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publicado às 09:17


Música: Going Home

por Rei Bacalhau, em 15.12.13

Existe um filme que tenho andado interessado em ver, mas que nunca dá na televisão. Ou não que eu saiba, pelo menos. O filme chama-se Local Hero, e tem algumas particularidades. Para já, tem uma razoável pontuação no IMDB, que normalmente não é uma boa maneira de verificar a qualidade de um filme, mas para estabelecer expectativas, serve. Depois, quase todos os actores são escoceses, o que faz sentido considerando que o filme se passa na Escócia, com a desvantagem de ser provável que as legendas para o filme sejam obrigatoriamente necessárias (os escoceses devem ser para os ingleses o que os açoreanos são para nós). Terceiro aspecto importante, o responsável pela banda sonora do filme é nada mais nada menos que Mark Knopfler, líder lendário dos Dire Straits e um dos guitarristas que quase qualquer pessoa consegue gostar.

 

Não consigo dizer se o filme teve sucesso por causa da banda sonora, ou se foi o contrário. O que sei é que Mark Knopfler começou a usar uma música do álbum resultante da banda sonora nos seus concertos, normalmente no encore. Essa música, tanto quanto sei, aparece mesmo no clímax do filme. É totalmente instrumental, como seria de esperar, mas reparem.... estamos a falar de Mark Knopfler. Ele, na minha opinião, consegue dar voz à sua música de maneira a ele não ter de dizer nada. E não só em guitarra, porque existem milhentas versões da música com instrumentos diferentes (inclusive o saxofone da versão original)!

 

Deixo-vos com uma das versões que gosto mais desta música de nome "Going Home".

 

Há quem diga que algumas pessoas faziam melhor em manter a boca calada.

 

Neste caso o Mark Knopfler é uma delas de certeza.

 

 

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publicado às 12:48


V

por Rei Bacalhau, em 12.12.13

Não quero! Não gosto!

 

"Ah, mas vais comer sim senhor. Há muitos que gostariam de ter esta comida à frente! Vá, abre a boca! Vá, vamos!"

 

Não quero ir! Não quero ir! NÃO!

 

"Vá, anda lá, põe-te dentro do carro! Olha que chegamos atrasados! Não queres toda a gente à nossa espera pois não? A festa começa sem nós mas era melhor chegarmos lá a tempo! Queres que eu diga que fizeste birra, é?"

 

Banho? Não! Quero brincar!

 

"Então mas queres andar todo porco por aí? Aqui em casa as pessoas são limpas e não te quero a cheirar mal! Vá, pa' dentro da banheira, já!"

 

Já? Opá, não quero!

 

"Não interessa, tens de te deitar, precisas de dormir. Arruma os brinquedos vá! Olha que eu deito-os para o lixo!"

 

 

 

 

Entre tantas outras situações, estas são algumas exemplares que ocorreram a Jeremias. Os seus desejos profundos negados. As suas acções controladas. A liberdade com que tanto tinha vivido tornava-se uma ilusão distante. Começou a aprender as regras normais da sua cultura e sociedade. Foi progressivamente ensinado a ser bem educado com as pessoas, pois não se poderia ter um menino malcriado num espaço público. Foi ensinado igualmente que o tempo era muito importante para os adultos e não se podia fazer alguém esperar, sendo preferível chegar mais cedo a um encontro. Foi ensinado que era importante manter a higiene pessoal, tomando banho, cortando o cabelo, cortando as unhas (e especialmente nunca roê-las!), sendo obrigado inclusivamente, para grande desagrado dele, colocar perfume quando ia a algum sítio mais importante. Foi ensinado a valorizar o que tem e estar agradecido por tê-lo. Foi ensinado a respeitar a autoridade, fosse paternal ou de outra figura significante.

 

Tudo isto o restringiu. Em princípio, tudo isto o limitou ao ponto em que é normal na sociedade. Mal sabia ele que tudo isto o havia limitado em mais maneiras do que ele poderia imaginar, com consequências, não necessariamente terríveis, mas com certeza inconvenientes. Em suma, poder-se-ia dizer que foi demasiado bem educado.

 

Jeremias tentou lutar esta assimilação comportamental. De facto, ocasionalmente, Jeremias surgia de novo, rugindo na sua torpeza total e horrível. Contudo, estes acontecimentos tornavam-se incrementalmente mais raros, sendo que Jeremias era arrastado e isolado para um canto da consciência. Mesmo assim, apesar das consequências futuras, tal facto pode-se considerar benéfico para João, pois Jeremias não pode estar sempre no controlo da marioneta humana. Seria certamente um caminho para a sua auto-destruição. Talvez os motivos para esta afirmação não sejam aparentes agora, mas com o tempo irá ver-se que qualquer um pode chegar à mesma conclusão.

 

Já se falou previamente num embrião duma nova sub-consciência de João. Esse que seria dominante durante a maioria da sua infância e parte da adolescência. Esse embrião foi crescendo por cada regra que João aprendia e a que Jeremias era forçado. Esse embrião que se sabe relacionar com o mundo, seguindo as normas sociais do que se considera boa conduta pessoal. Esse embrião que nasceu e aprendeu a valorizar a interacção humana.

 

Ei-lo Jansénio. O social, o simpático, o bem educado, o amigo!... O Bom.

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publicado às 09:23


IV

por Rei Bacalhau, em 11.12.13

"João, não faças isso!"

 

O vocabulário de João já tinha aumentado consideravelmente e já conseguia dar significado a grande parte das palavras simples que lhe proferiam. "Ena, 'tás tão grande!", "Olha que bebé mais bonito!...", "Ah vê-se mesmo que sai a ...." (as opiniões das pessoas diferiam aparentemente, porque esta última palavra era sempre diferente), "Tenho de te mudar a fralda outra vez!?"....

 

Foi com algum espanto, no entanto, que ouviu aquelas palavras na mesma frase ordenadas daquela maneira e ditas daquele modo. Jeremias estava claramente confuso, não sabendo que interpretação dar àquele comando. Voltou a bater com o telecomando da televisão no chão. O familiar levantou-se e aproximou-se, retirando-lhe o telecomando e dizendo, suavemente.

 

"Não podes fazer isso, já te disse, ainda partes o telecomando."

 

Nem a mais suave e delicada frase poderia ter soado mais tiranicamente cruel para Jeremias. Teria sido a primeira vez que o seu comportamento foi chamado à atenção. Não o iria permitir. Jeremias arrastou-se para o familiar, que entretanto se tinha sentado de novo, agarrou no telecomando confiscado e imediatamente atirou-o ao chão. Não se partiu, obviamente, mas chamou a atenção do familiar de novo, que repreendeu Jeremias de novo, desta vez mais gravemente, e colocou o telecomando num sítio inatingível para Jeremias. Este tentou futilmente agarrar o objecto, que havia sido posto em cima de uma bancada, e, sentido-se afligido, começou a chorar, que era a última arma no seu arsenal. Quando outro familiar o acudiu conversou com o tirano a fim de perceber o que se havia passado. 

 

Para horrível surpresa de Jeremias, o salvador aliou-se ao tirano, dando-lhe razão.

 

"Isso não se faz João! Ainda bem que ele te tirou o comando, isso não é para partir."

 

Derrotado, confuso e humilhado, Jeremias cede. Foi brincar com outro brinquedo. Mal sabia ele que este evento tinha dado origem a um embrião. Embrião esse que iria mudar João para sempre.

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publicado às 01:02


III

por Rei Bacalhau, em 08.12.13

Jeremias tem total controlo de João. Compreenda-se com isto que no texto, quando se dizer que Jeremias faz uma acção física, é na verdade Jeremias a comandar João. Para efeitos de simplicidade, retira-se o intermediário a não ser que seja necessário notá-lo explicitamente.

 

Note-se que Jeremias ainda é um bebé. Tudo o que faz é por instinto. Chora quando afligido, seja por fome ou desconforto, as necessidades fisiológicas são tratadas despreocupadamente, etc.. Felizmente tem a benção de ter família que lhe cuida de todas as aflições. Neste momento não tem limitações impostas por ser tão novo, e por isso continuará feliz, confortável e saciado.

 

É óbvio que também não tem noção lógica do que o rodeia. Mesmo que João, o corpo, tenha nascido com predisposição genética para inteligência, o facto é que nesta fase tão infante, ainda não existe a necessidade de aprender. A família é que terá de se adaptar às particularidades de Jeremias.

 

Aparte dos risos e choros e eventualmente expressões faciais e corporais, Jeremias pouco mais consegue comunicar. Por isso mesmo nestes anos iniciais da vida de João os relatos serão quase sempre feitos na perspectiva do narrador, como se observa. Por factos já referidos, as memórias que João armazena desta altura da sua vida são quase inexistentes e portanto a quantidade de detalhe transmitida é dificilmente suficiente para ser possível inferir se esta fase da vida teve grande relevância no desenvolvimento de Jeremias na sua fealdade absoluta.

 

Contudo, e como já se disse, João nasceu no seio de uma família boa, e eventualmente, passada esta fase inicial, será-lhe imposta um conjunto de maldições que o limitará e frustará, mas que são necessárias para o indivíduo conformista poder viver.

 

Essas maldições a que se chamam de regras.

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publicado às 14:16


Música: Hey You

por Rei Bacalhau, em 08.12.13

1979

 

Discutivelmente o ano em que os Pink Floyd lançaram um dos seus últimos grandes álbuns, numa altura em que as relações no seio da banda se estavam a complicar.

 

O álbum de que falo é o The Wall. Um concept album, como os Pink Floyd são tão conhecidos por fazer. Conta a estória de um indíviduo, desde criança até adulto que passa por várias experiências traumatizantes ao longo da sua vida. Começa pela morte do Pai na Segunda Guerra Mundial, a protecção excessiva por parte da Mãe, o abuso de professores na escola e por fim, quando já adulto, a separação da sua mulher.

 

Todos estes eventos contribuem para a construção progressiva de uma Parede metafórica à sua volta. Se repararem, existem várias partes da música "Another Brick in the Wall" ao longo do álbum, exactamente para reforçar essa ideia. Esta parede distancia o personagem da sociedade e das relações com pessoas.

 

 

Torna-o só.

 

 

Eventualmente ele começa a aperceber-se disso e num certo momento tenta "chamar" para fora da parede que ele criou.

 

"Hey You" é uma música devastadora, em que o personagem repete vezes e vezes sem conta a expressão, como a chamar por quem quer que fosse que ouvisse. O sentimento de solidão e isolamento são avassaladoramente esmagadores para um homem que se apercebeu demasiado tarde que o contacto humano é necessário. 

 

Ele acaba por falhar nos seus gritos metafóricos, e enlouquece.

 

Dá que pensar.

 

É uma música horrível de se ouvir pela carga psicológica que involve, especialmente se se estiver a ouvir e acompanhar o álbum todo. É escusado dizer que o principal responável pela música (e pelo álbum) foi o Roger Waters, que partilhava esses sentimentos, influenciados ainda pela situação de Syd Barrett. A instrumentação é divinal, para mim. David Gilmour e Nick Mason a fazerem o que melhor sabem com aqueles seus sons tão absolutamente distintos dos outros artistas.

 

 

Parem durante uns minutos. Apreciem verdadeiramente: Hey You, Pink Floyd




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publicado às 00:08

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