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Música: Lodi

por Rei Bacalhau, em 27.04.14

Voltemos às raízes, com coisas mais simples.

 

Creedence Clearwater Revival, com Lodi, a história de um músico que não consegue arranjar dinheiro suficiente para se pôr no comboio para voltar para casa e está preso na cidade de Lodi.

 

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publicado às 12:02


Abaixo com as vossas revoluções!

por Rei Bacalhau, em 25.04.14

Eu não percebo nada de política nem de economia nem de sociedade. Dito isto, estou nas condições perfeitas para escrever algo exactamente sobre isso, como se vê tantos a fazer neste dia!

 

Parece-me estranho ouvir as pessoas falar de revoluções e de como isto precisa de uma mudança e tal. Não me parece fazer muito sentido fazer uma revolução nova sem haver nenhum plano ainda de como seria a nova sociedade... O que mudaria? Estaríamos menos enrascados do que estamos agora? Pessoalmente não vejo o que é que poderia mudar...

 

O quê.. mudariam os políticos? Mudariam os partidos? Gostaria de saber o que é que fariam os iluminados do nosso país, esses doutores e filósofos nas tabernas e nos Facebuques, a discutir e a puxar a conversa de um lado para o outro, tentado futilmente convencer de que as coisas estariam melhores se aquele indivíduo ou outro estivesse no poder. Parvoíces, enfim.

 

Eu não vivi a revolução, nasci muito tempo depois. No entanto, tive a oportunidade de ao longo da minha educação me ensinarem a olhar para os erros da História e como não os devemos repetir. Obviamente que o ser humano falha sempre miseravelmente nisso, porque os que estudam História são normalmente os mesmos que não podem fazer nada para a impedir de acontecer de novo. 

 

Não tendo vivido a revolução, é aparente que não partilho a mesma carga emocional que o resto do pessoal mais velho exala, o que felizmente me faz chegar à conclusão objectiva que a revolução foi um fracasso relativo. Sim, tudo bem, passou a existir mais liberdade, era insuportável a situação que o país vivia, e essas tretas todas. No entanto, acho que foi desperdiçada uma oportunidade de se implementar uma sociedade que em termos lógicos e funcionais fizesse mais sentido. Se se reparar bem, ainda hoje as pessoas são reprimidas pelo Governo.

 

É óbvio que há uma distância enorme entre o que era a repressão antes e depois do famoso 25 de Abril. No entanto, o objectivo final de qualquer Governo é sempre controlar as pessoas. Dantes, antes da separação da Igreja do Estado, as pessoas eram controladas pela religião. Deixou de haver paciência para isso e no início do século passado cortou-se isso. Passou a classe política a ter controlo das pessoas. Como o poder é uma coisa que interessa a tanta gente, em 1974 os militares e os comunistas e tal decidiram que era a vez deles. Nos dias de hoje são os banqueiros que controlam tudo. Poderia estar aqui a dar exemplos até me fartar.

 

O aspecto essencial que estou aqui a dizer é que se calhar o pessoal deveria tentar abrir um bocado os olhos e imaginar um país sem Governo. Perdão, sem uma entidade central que está responsável por uma boa parte do dinheiro dos cidadãos. Eu ainda nem sequer comecei a pagar impostos e já me mete raiva que tal conceito exista. Por que carga d'água é que eu estou a dar o meu dinheiro a pessoas que não conheço e que não sei o que vão fazer com ele? Porque é que me obrigam a fazer isso? Porque é que não posso escolher exactamente que serviços quero e pagá-los individualmente? Porque é que não pode ser TUDO privado?

 

Eu sei as respostas a algumas das perguntas que faço aqui. Compreendo que sejam ideias diferentes e portanto descartáveis (para além de envolverem subtilezas muito complexas). Notem que obviamente só coloco aqui estas perguntas por causa do anonimato que a internet me providencia (e pelo facto de ninguém ler este monte de parvoíces, felizmente). Ui, agora poderia estar aqui horas e horas a escrever sobre a sociedade utópica que imagino mas que é tão inalcançável, especialmente por ser tão difícil explicá-la às pessoas sem abertura mental para isso.

 

Vou continuar a ignorar os políticos e os partidos e os escândalos que um milhão para aqui ou para ali causam. Sei que me vão afectar, mas também sei que não posso fazer nada contra isso, já que é impossível contra-atacar toda a corrupção que colocar poucos no poder dos muitos causa.

 

E não é com revoluções que se vai lá também.

 

Por outro lado, nestes dias ainda se vêem uns fogos de artifício. Até fica bonito de se ver.

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publicado às 21:42


Música: Parade of the Charioteers (Ben-Hur)

por Rei Bacalhau, em 20.04.14

Esta é a história de como um dos meus objectivos de vida ficou realizado. 

 

Na Sexta-Feira estava a acabar de almoçar quando começa a dar um filme na RTP. Pelo aspecto do logótipo da MGM via-se imediatamente que era um filme dos antigos. E aí começou a banda sonora. Inicialmente estranhei, porque tinha algo de muito familiar. Pensei para mim: "Isto tem quase aspecto de ser o Ben-Hur, só pelo tipo de música que tá a dar..."

 

As primeiras cenas do filme demonstravam o recenseamento dos judeus na altura em que Jesus nasceu. Pensei imediatamente, "ah, deve ser um filme sobre a vida de Jesus, realmente faz sentido já que é Sexta-Feira Santa. Mas é pena, porque ainda pensei que fosse o Ben-Hur, eles dão sempre isso nesta altura, e eu nunca o vi do princípio..."

 

Os Reis Magos lá se aproximam do estábulo e comento mais uma vez: "Aquele actor até parece o que faz de Baltasar no Ben-Hur... mas o Ben-Hur ocorre muito depois..."

 

Eis então, que acabando brilhantemente o suspense, aparece escarrapachado numas letras vermelhas enormes como se não quissesse deixar qualquer dúvida:

 

BEN-HUR

 

 

 Exalei de alegria! O Destino havia-me trazido repentinamente algo pelo qual anseava há tanto tempo: conseguir ver o Ben-Hur do princípio ao fim! Normalmente só o apanhava na parte das galeras, por isso maior parte do que acontece daí para a frente sempre me foi um bocado estranho.

 

Finalmente posso afirmar com toda a confiança e coloquialismo:

 

O Ben-Hur é um ganda filme!

 

É óbvio que não sou um critíco de cinema, longe disso. Aliás, o próprio conceito parece-me um bocado fútil, considerando toda a carga subjectiva normalmente associada a essa prática. No entanto, acredito piamente que posso dar a minha opinião e eventualmente tentar fundamentá-la.

 

Para já, é uma história que consegue pegar e mostrar todas as emoções humanas possíveis. Temos primariamente o amor, mostrado na forma de romance, patriotismo, religião, família, amizade, etc. Tem-se o ódio, na forma de vingança e na forma de guerra. A alegria, em tantos personagens que intervêm no decorrer do filme. A tristeza, amargura e desespero, profundamente marcantes em tantos pontos chave do filme. É devastadora, por exemplo, a reacção de Ben-Hur quando vê a sua mãe no Vale dos Leprosos; ou então quando é traído pelo seu grande amigo de infância.

 

A verdade é que escolheram o actor perfeito para o papel principal. Charlton Heston dá o rosto à personagem e modifica-o de forma tão credível que me faz pensar se nos dias de hoje haveria algum actor capaz de representar como ele o fez (não é um insulto aos actores de hoje, mas sim um elogio elevado ao Charlton Heston).

 

É um filme muito pesado, com muitas cenas de diálogo, mas que para mim se passaram muito bem, especialmente pelo bom trabalho dos actores principais. O mesmo não se poderia talvez dizer dos figurantes. É verdade que parecem ser às centenas ou milhares, mas lembro-me de uma ocasião, numa parada militar, que uma figurante anda a atirar flores com uma cara de profundo enfado, como quem dizia: "estou-me absolutamente a cagar para isto, vou atirar estas flores pó ar e despachar isto!" Bom, talvez esteja a ser um bocado injusto. Não é por um ou outro ter feito as coisas um bocado à papo-seco que vou generalizar para os restantes. Na verdade, uma ocasião em que se pode notar um bom trabalho nos figurantes é lá mais para o final, quando Jesus está a carregar a cruz, mostram-se vários planos das pessoas, cada uma a reagir de maneira diferente ao que está a presenciar. É notável, porque realmente vêem-se expressões faciais!

 

Uma prova de como os actores encarnavam bem as personagens é vísivel nas cenas em que há interacção com os cavalos árabes, tanto por parte de Ben-Hur como do seu dono, o árabe. Os cavalos punham-se a trincar e a brincar com os actores e eles não podiam quebrar a cena. Pelo contrário, continuavam como se estivessem à espera destes actos aleatórios dos cavalos e brincavam eles também com os cavalos.

 

É também um filme cheio de pormenores, e cada vez que o vejo pareço notar um diferente. Quando a galera de Ben-Hur se começa a fundar vêem-se alguns remadores agrilhoados a fazer de tudo para se soltarem. Mostram-se inclusive alguns planos do que parece pele e carne a ser arrancada da perna e nas cenas a seguir vários remadores ou não têm um pé ou uma mão, ficando apenas com um ossinho branco de fora. Quando o Ben-Hur ganha a corrida de quadrigas, há um plano a mostrar um figurante a pegar no capacete esquecido do mau da fita e a celebrar por ficar com ele. Um cego que manda a esmola que recebeu para o chão por ter percebido que veio de alguém que pode ter lepra. Todos estes pormenores pequenos duram apenas um segundo no filme, mas enchem-no com um nível de realismo que simplesmente não consigo ver nos dias de hoje.

 

OK, tudo bem, o realismo é relativo. Faça-se notar que não existiam computadores na altura, alguns padrões eram mais baixos. A mítica cena da batalha naval vê-se perfeitamente que foi feita com barcos de brincar. Mas como somos levados pelo ímpeto do que está a acontecer, nem sequer notamos nisso! Mesmo assim diga-se de passagem que os cenários ao longo do filme foram sempre contruídos com meticulosa atenção. Tem-se realmente noção da grandeza que era Roma, e estamos a olhar apenas para algo pintado!

 

Falta falar de um grande elemento. Já o referi como sendo o que me permitiu quase identificar o filme. A banda sonora. É um apoio fundamental para quase todas as cenas do filme. A maneira como a música tomava um tom gravíssimo quando acontecia algo de horrível ao Ben-Hur. O que seria das cenas de batalha sem o épico trovar duma orquestra a encher os nossos sentidos. E no entanto, os criadores sabiam que a música não era obrigatória. Reparei desta vez que existe uma cena que, supreendentemente,  NÃO tem música alguma: a corrida das quadrigas. É toda puro caos de sons de cavalos, multidões, atropelamentos, chicotes e o rolar das quadrigas. Dá uma sensação imensa de imersão, porque focaliza a nossa atenção para o que está a acontecer. De certeza que para compensar este facto decidiram no entanto colocar uma das músicas mais míticas de qualquer filme apenas instantes antes da corrida, quando as quadrigas fazem um desfile perfeitamente sincronizados à volta do circo. É esse vídeo que quero partilhar hoje:

 

 

Para quem viu o filme todo até aquele ponto, é de ir às lágrimas.

 

Sinto que não tenho muito mais a dizer, excepto que é verdadeiramente uma obra prima do cinema, merecedora de todos os inúmeros prémios que recebeu, e merecedora também do privilégio de ser depois de tantos anos o filme que passa TODAS as Páscoas na televisão.

 

E enquanto puder, ve-lo-ei sempre. São três horas e meia que dou por bem gastas.

 

Como eu sei que o Youtube não gosta de vídeos a quebrar direitos de autor, vou assumir que o vídeo que coloquei acima não há-de funcionar muito tempo. Como tal, coloco aqui outro que é a mesma música, num contexto diferente, mas igualmente impressionante.

 

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publicado às 00:46


Música: Pictures of Matchstick Men

por Rei Bacalhau, em 13.04.14

Depois da semana passada ter posto tanta tanta coisa (mais do que devia) aqui no blog, decidi aligeirar um bocadinho hoje. Como tal tive bastante tempo a pensar nalguma coisa pop como música para hoje.

 

Passei algum tempo pelo Youtube e pela minha colecção de músicas para determinar algo leve o suficiente para partilhar. Nada me estava a agradar porque pareceu-me que estava à procura de algo de uma época como os anos 60 mas que fosse obscenamente virado para vender.

 

Eis então que me lembrei de uma das primeiras músicas dos Status Quo, antes de eles se tornarem a banda de rock como são conhecidos hoje. Tinha um sabor psicadélico (em voga na altura, imagine-se porquê), mas o objectivo era claramente passar na rádio. FOi então uma solução perfeita para o meu dilema desta semana.

 

Pictures of Matchstick Men, dos Status Quo.

 

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publicado às 19:09

 

 

O Aprendiz olhava-A expectante. Notava-se claramente que Ela tentava sacudir a força do Demónio Nela. Ela transpirava e as veias realçavam-se na sua pele, tal não era o esforço que fazia. Uma pequena aura negra começou a formar-se à sua volta. O Aprendiz percebeu que seja o que fosse que ela estivesse a fazer, estava aparentemente a resultar! As influências do Mal estavam a sair! Finalmente, um rasgão negro sai disparado na direcção onde Ela estava a olhar, e cai no chão, desmaiada.

 

Ao acordar, deu consigo com o Aprendiz a olhar sorridente para Ela. Ele beijou-a várias vezes e longamente, tendo conseguido reconquistar o seu Amor do Mal. Ela lembrou-se do que a tinha feito despertar, pois disse apenas disse:

 

"Sim."

 

O Aprendiz, que já quase se havia esquecido do que Ela se referia, franziu por instantes, confuso. Quando finalmente se apercebeu do que ela queria dizer, pegou de novo na Jóia e apertou-a na mão dela, beijando-a mais uma vez. A sua vida estaria completa agora, assim que acabasse a guerra com o Demónio.

 

Ao ouvir estas palavras, Ela tremeu e implorou ao Aprendiz que acabasse esse assunto. Disse que não o quereria perder e que não se podiam dar ao luxo de arriscar o seu Amor por guerras que não são da importância deles. O Aprendiz tentou justificar-se, pois o destino do mundo estava nas suas mãos e dependia do sucesso desta campanha. Ele havia-se comprometido a destruir o Demónio, ou morrer a tentar.

 

Ela chorou impiedosamente, que feriu desesperadamente o Aprendiz. Ela chamou-lhe egoísta e tentou de todas as maneiras fazê-lo mudar de ideias, virando-se de costas para ele e encostando-se a uma parede, em lágrimas.

 

O Aprendiz saiu do quarto e foi ter com os generais. Ele avisou que depois de cuidada reflexão, não poderia continuar a campanha. Existiam coisas mais importantes a ter em conta, e não poderia sacrificar agora aquilo que já tinha de certo. Sem mais uma palavra, partiu, para felicidade Dela, e a campanha iria prosseguir sem ele.

 

Foram os dois então na direcção completamente contrária à do exército, procurando voltar para a aldeia onde foram tão felizes. O Aprendiz estaria sempre lá para a defender, e não haveria nada poderoso o suficiente para o impedir.

 

Eis então que à noite, quando se deitaram para descansar, o inesperado aconteceu. Certamente Ela ainda se lembraria de como se deitavam e o quão acomodados ficavam a olhar um para o outro até adormecerem. No entanto, nessa noite Ela não conseguiu ficar virada para ele. Evitava-o até. O Aprendiz perguntava o que se passava, mas obtia respostas vagas. Ele estranhou e pegou nela e virou-a bruscamente para ele, para a fixar e obter uma resposta concreta. E aí, assustou-se!

 

Os olhos não eram os Dela! Não tinham o brilho terno a que estava habituado e que tanto o atraiu originalmente. Tinham ódio e maldade, um efeito que era apenas aumentado pelo escuro da noite... O Demónio ainda estava lá!

 

Levantou-se imediatamente e Ela tentou atacá-lo, quando se apercebeu que a farsa havia sido descoberta! O Aprendiz lançou um feitiço que a envolveu em gelo puro, congelando-a num bloco inquebrável. Não lhe foi difícil fazer isso pois sabia que não era mesmo ela que estava a controlar o seu corpo.

 

Aquele animal! Que estúpido, pensar que a maldição seria desfeita tão simplesmente! Todo este tempo o Demónio planeou isto, para o controlar como uma marioneta e afastá-lo da campanha que certamente o destruiria. O Aprendiz fartou-se! Era demais! Esta perfídia teria de acabar de vez!

Aproximou-se do bloco de gelo que aprisionava a sua Amada. Gentilmente tocou-lhe e prometeu-lhe que usaria todo o seu Conhecimento e Magia para a livrar da influência dele. Usaria todos os Elementos à sua disposição. Olhou para os seus olhos, possivelmente pela última vez.

 

Parecia que o Cosmos havia parado e reunido todo o seu poder, pois um raio de luz fortíssimo foi projectado sobre o Aprendiz, proveniente das estrelas. Ele sentiu-se infundido especialmente pelo elemento que o Círculo não lhe havia ensinado, pois eles não o poderiam conhecer. Pois para derrotar o Mal, é preciso uma grande quantidade de Bem, e isso só vem do poder do Amor.

 

O Aprendiz, sentido-se mais poderoso que nunca, lembrou-se que havia prometido há muito tempo atrás espalhar o Bem pelas terras, seguindo os passos do seu primeiro mentor e inimigo, o Mago. Pois bem, ele faria melhor! Ele próprio chamar-se-ia a partir de agora de Mago e mostraria como é que o Bem deve ser aplicado.

 

Preparou-se, e apesar de ser de noite, iria imediatamente ao encontro do Demónio. Este, que sabia que o seu plano havia falhado, também se virou na direcção do Mago.

 

Não haveriam exércitos nem cultos a combater-se. Não haveriam mais inocentes prejudicados por esta guerra.

 

Haveria apenas o Demónio e o Mago.

 

 


O mundo todo tremeu e arrepiou-se, como se sentisse o que estava prestes a acontecer. Os anciãos do Círculo notaram estas duas energias opostas que se encaminhavam uma para a outra. Eles sabiam.

 

A Batalha Final estava prestes a começar.

 

 

 

Era noite escura. O Mago chegou ao campo onde pressentiu maior Maldade. De facto, lá estava ele, o Demónio. O Mago sabia que estava no domínio dele e teria de ter cuidado.

 

Olharam-se longamente, preparando-se para a violência que decerto ocorreria daí a instantes. O Mago, furioso ainda, pergunta quem é que o Demónio de acha? Se se achava um mestre da ilusão para pensar que o Mago estaria a sonhar ao ponto de cair nas armadilhas dele durante muito tempo?

 

Quem se julgava ele para pensar que tinha o direito de moldar o mundo à sua maneira maléfica sem razão nenhuma, quando o mundo já era Bom o suficiente e as pessoas viviam alegremente? Pois bem, o Mago viria aqui agora para lançar um feitiço de Bem. Para livrar o mundo da praga que é o Demónio e o Mal que ele representa. Cauterizaria a ferida que o Demónio impõe nas pessoa com fogo mágico. Quebraria o feitiço que o Demónio tem sobre tantos inocentes que não podem escolher ser bons!

 

O Demónio sorriu maleficamente. Informou o Mago que ainda não sabia bem com que poderes ele se estava a meter. O Demónio enchê-lo-ia de medo. O mais pequeno pensamento sobre o Demónio seria suficiente para o causar a vergar-se e obedecer à sua vontade. Não se deixaria mandar abaixo por um homem, que em termos de magia era apenas um fedelho. Não havia esperança nenhuma para o Mago. O Demónio recomendou que ele fugisse enquanto pudesse. Ele é o Mal encarnado no mundo e as trevas são as suas ferramentas.

 

Dito isto, o céu tornou-se ainda mais denso que antes. Tempestades assolavam a terra à volta. Árvores ardiam quando atingidas por raios fulminantes. As rochas tremiam pelo ímpeto que o Demónio transmitia.

 

O Mago não se deixou intimidar. Lançou-se ao ataque. Reuniu o fogo das árvores circundantes e lançou-o ao Demónio. Este respondeu com uma barreira negra que absorveu o impacto. O Mago lançou mais bolas de fogo conjuradas por ele. Levitou rochas pesadíssimas e catapultou-as. Redireccionou um relâmpago que ia na sua direcção. Todos estes feitiços foram na direcção do Demónio e este mesmo assim conseguiu evitá-los com a mesma barreira.

 

O Demóno contra-atacou, criando um exército de figuras de fogo demoníacas e soltou-as. O Mago gerou os seus próprios guarda-costas com a água da chuva e rapidamente o campo, outrora pacífico, tornou-se um cenário de batalha campal entre elementos de fogo e água.

 

O Demónio insistiu no seu ataque, atirando raios vermelhos de fúria, ou raios roxos de maldade. Estes raios eram tão perigosos que a própria terra parecia morrer onde tocassem. O Mago era poderoso o suficiente para se proteger destes raios, retaliando com o lançamento de estalactites de gelo. Quando se viu que isso não bastou, o Mago tomou controlo das nuvens por cima de si e fê-las descarregar os seus ventos para apagar as criações do Demónio.

 

O Demónio estava progressivamente a ficar mais impaciente e decidiu que era altura de acabar com a batalha. Com um gesto tremendo as trevas intesificaram-se. De várias direcções sombras puras de maldade voaram na sua direcção, completando-o, dando-lhe o poder para se transformar. Estas sombras eram o que mantia os cultistas no seu poder, o que significava que o poder do Demóno estava na verdade repartido por todo o mundo. A transformação que o Demónio passou foi horrível! O seu tamanho aumentou bastante, atingindo as dimensões de uma torre. Cresceram-lhe membros adicionais, entre eles tentáculos e cornos e espigões pelo corpo inteiro. Parecia absorver qualquer espécie de luz que lhe estivesse perto, tanto que só se via preto quando para lá se olhava.

 

O Mago teve de reagir depressa. Lembrou-se do que realmente lhe dá o seu poder. Então, invocou a todos os elementos que, em nome do Bem, e em nome do Amor que pertence por natureza às pessoas e às terras, que se reunam e lhe dêem forças uma última vez. Os elementos responderam. As terras formaram-se e construiram uma estátua do Mago colossal. As águas entraram em acção e penetraram na estátua, e deram-lhe maleabilidade. Os fogos das estrelas trespassaram as trevas e deram vida à estátua. Os ventos pegaram no Mago e embuíram-no na estátua, que agora era uma com o Mago.

 

Os dois titãs olharam-se. O "status quo" mantia-se. Lançaram-se furiosamente um ao outro, desta vez fisicamente, com um impacto brutal. O Demónio rugia com cada investida, mas o Mago mantinha-se forte. As florestas e as montanhas e tudo o resto à volta iam caindo com o combate brutal entre as duas entidades. Um cenário verdadeiramente cataclísmico formava-se e seria sempre a prova desta luta que ultrapassava as barreiras pessoais, indo na verdade para o nível da luta entre o Bem e o Mal absoluto.

 

A batalha durou mais umas horas, que pareceram intermináveis para os dois intervenientes. Completamente exaustos, lançam-se uma derradeira vez para tentarem finalmente derrubar o outro. O golpe que ambos deram um no outro foi tão forte que a onda de impacto propagada se sentiu em terras muito distantes. A estátua desmoronou-se, pois até os elementos estavam de rastos. As nuvens negras do Demóno dissiparam-se e viram-se bem os vários corpos celestiais. O próprio Demónio voltou para a sua forma original. Ambos caíram para o chão, completamente fatigados. Ambos tinham provado ser um adversário à altura do outro. Não haviam forças para mais.

 

O Sol nasce.

 

Os primeiros raios começam a iluminar as terras ardidas e estragadas pela batalha. Ouvem-se alguns animais a voltarem, agora que tudo terminou, e a aura maléfica do Demónio já não é tão poderosa.

 

O Mago notou isto, e ameaçou o Demónio, dizendo que a noite estava a acabar, e que o seu domínio escuro se iria dissipar. Agora o Demónio não tinha poderes para manter a escuridão constante com que conseguia viver. O Sol nascia, e o seu calor iria radiar por tudo quanto era sítio e limpar todo o Mal que o Demóno fez.

 

O Mago afirmou então... "Perdeste!"

 

O Demónio pareceu assustado. O primeiro raio de Sol aproximava-se, mas ele não se mexeu. Quando o atingiu, a sua pele pareceu fumegar, mas mais nada lhe aconteceu. O Mago ficou perplexo, pois pensava que o Sol seria suficiente para o destruir.

 

O Demónio riu-se. Ele não precisava da noite ou do escuro para viver. Chamou ao Mago de tolo por acreditar que algo como o Sol lhe conseguisse fazer algo. O Demónio era o Mal em pessoa, era verdade, mas ele existia não porque estava rodeado de escuridão e tempestades e miséria. Ele existia no próprio conceito de Vida. Ao contrário do que muitos pensam, ele sempre existiu, de tantas formas diferentes, em todos os animais, plantas e especialmente nas pessoas.

 

O Demónio afirmou então... "Perdeste!"

 

Olharam-se mais uma vez. Apesar de tudo, pareceram concordar mentalmente que estavam empatados. Nenhum era mais poderoso que o outro.

O Mago então põe-se de pé e começa calmamente a ir-se embora. Ele partia e deixava o Demónio, por agora. Prometeu que o Demónio nunca o derrotaria e era bom que ele viesse preparado para a próxima vez que lutassem. Ele iria arranjar um exército, cujas armas eram o Amor e a Verdade. Esse exército segui-lo-ia para onde fosse preciso e faria sempre o necessário para lutar contra o Demónio e os seus capangas.

 

Ambos então ameaçaram-se em uníssono, exclamando que nunca poderiam quebrar o feitiço um do outro, o Bem e o Mal, respectivamente. Ambos conjurariam os maiores fogos infernais e as maiores tempestades ciclónicas para lutar. Ambos se aconselharam mutuamente: era melhor não continuarem já a luta que sabiam que não conseguiam ganhar; era bom que cada um se certificasse de observar o outro e as suas acções porque de certeza que nenhum iria descansar antes de erradicar o outro.

 

A luta entre o Bem e o Mal continuará para sempre.

 

 

 

EPÍLOGO:

 

O Mago manteve a sua luta contra o Demónio. Entre os dois directamente houve várias batalhas posteriores, cada uma mais horrível que a anterior. Como ficavam ambos exaustos depois de cada uma, cada um decidiu criar outras maneiras de praticar os seus caminhos.

 

No caso do Mago, ele criou uma organização de homens e mulheres que ele treinava pessoalmente à qual chamou de Aprendizes do Bem, em honra à organização com o mesmo nome que a sua terra natal original tinha. Quando, finalmente, ele achou que haviam razões para se poder retirar, o Mago, agora velho, propôs-se a um estilo de vida quase eremítico, isolando-se do mundo até ao momento em que ele pudesse ser necessário outra vez.

 

Para tal, o Mago escolheu um sítio numas montanhas, rodeado de florestas de difícil acesso. Só um louco é que apareceria ali.

 

Certa noite estava a brincar com o lume que tinha à porta da sua casa. Conjurou um elemento de fogo para lhe tocar alguma música e diverti-lo. Qual não é o seu espanto quando ouve um barulho atrás de si. Um homem, jovem, estava perdido nas florestas e tropeçou quando o Mago lançou o feitiço para criar o elemento. Ia a fugir, mas o Mago convida-o, pois as visitas não são frequentes.

 

Apresentaram-se, beberam, contaram histórias e o jovem estava obviamente fascinado pelas aventuras do Mago. No fim, o jovem acabou por adormecer.

 

O Mago manteve-se acordado e olhou fixamente o Viajante. Tremeu. Um arrepio subiu-lhe espinha cima, como se toda a região circundante tivesse subitamente congelado. O horror nos seus olhos era tremendo, sendo o suficiente para empalidecer o mais vigoroso dos mortais.

 

Eis que o Mago descobriu algo que já lhe devia ter sido óbvio há tanto tempo. Olhando melhor, agora reconhecia o jovem. Era ele mesmo. Este jovem é o Viajante! Ele próprio era o Mago que o enviou para a viagem... a viagem cósmica! Pois claro! A viagem espacial foi na verdade uma viagem para o passado!

 

Era claro o que o Mago tinha de fazer. Teria de manter o ciclo! Se ele não o enviar para trás no tempo sabe-se lá o que o Demónio conseguirá fazer! Sem dizer uma palavra reuniu todo o seu poder, fazendo uma careta impressionante.

 

O Viajante acorda perante este espectáculo estranho. Confuso com a inesperada e inexplicável reacção do Mago, tenta perceber o que poderá ter feito que suscitasse tal efeito. Contudo, é tarde demais. O Mago lança um feitiço estranhíssimo e o Viajante é envolto numa aura branca levitante. Completamente imobilizado, é com algum temor que verifica que está a começar a subir em direcção aos céus.

 

E sobe...

 

E sobe...

 

E sobe...

 


Ela sai de casa, acordada pelo alvoroço.

 

"Quem era?"
O Mago aproxima-se e beija-A como sempre o fez. De seguida, olha para as estrelas, e responde:
"Um Viajante no Tempo..." Sorriu. "Anda, vamos deitar-nos."

 

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publicado às 08:00


Especial: Demons and Wizards: All My Life

por Rei Bacalhau, em 05.04.14

 

O Aprendiz depressa adquiriu muitos conhecimentos de magia, em particular em magia destrutiva, que se pensava que iria ser bastante usada. Apesar do pouco tempo que tinha para se treinar, a experiência dos anciãos e a sua capacidade natural de manipulação de feitiços foram críticos para o rápido desenvolvimento das suas capacidades.

 

O Aprendiz partia então para a guerra.

 

O exército imperial acompanhava-o e as palavras do Aprendiz eram motivação suficiente para combater um inimigo tão perigoso como os cultistas eram. As batalhas eram evidentemente horríveis, mas os poderes magníficos do Aprendiz permitiam utrapassar todos os obstáculos. Ele lançava bolas de fogo, erguia paredes de pedra para protecção, limpava as feridas dos soldados com água pura e mágica, chamava tempestades de areia para atordoar os inimigos.

 

Os grupos organizados dos cultistas dissolviam-se e muitos membros individuais ficavam ofuscados pelo poder do Bem emanado pelo Aprendiz. Rapidamente reganhavam a esperança que o culto lhes tinha tirado e o Império deixava-os voltar para casa, a pedido do próprio Aprendiz. Os anciãos do Círculo seguiam a campanha a partir da Capital e regozijavam de alegria ao saberem as várias fantásticas vitórias que o Aprendiz adquiria. Eles sentiam o poder dele a crescer diariamente, mas pensaram que talvez não fosse suficiente para derrotar o Demónio.

 

No entanto, havia um poder que os anciãos desconheciam. Um poder com que o Aprendiz foi abençoado que nem milénios de estudo os permitiriam compreender.

 

Um dia, a campanha ataca um campo de cultistas que ainda resistia e aterrorizava as localidades circundantes. Dos vários prisioneiros capturados haviam sempre aqueles que já estavam demasiado sob a influência do Demónio para poderem voltar para o Bem. O Aprendiz falava, sempre futilmente, com cada um deles na esperança de os despertar. Desta vez, no entanto, fez uma descoberta que não esperava. Aproximou-se de um membro do culto coberto por um capuz. Removeu o capuz e assustou-se. Reconheceu-lhe os olhos, a boca, o nariz, a cara ainda meiga.

 

Era Ela.

 

 

Durante um momento não soube o que fazer. Depois, sem hesitar, abraçou-A longamente, sem no entanto receber uma acção recíproca. Ela parecia distante, olhando sempre numa certa direcção fixa. Não dizia uma palavra, mas por vezes tentava soltar-se das cordas que A amarravam. O Aprendiz usou as suas melhores palavras e magia para A acordar, mas nada resultava. A maldição havia-se apoderado do seu Amor...

 

Ele não o podia permitir. Não poderia ter sacrificado e lutado tanto para chegar a este ponto e agora, tão perto do seu objectivo, falhar. Só lhe restava uma alternativa. Meteu a mão ao bolso do seu robe e retirou de lá um objecto gentilmente apertado na sua mão. Pegou na mão Dela e proclamou para sempre o seu Amor por Ela, pousando na sua palma a Jóia de matrimónio. Ele que na sua vida anterior nunca havia imaginado que poderia querer casar-se, estava agora na situação mais improvável a declarar-se, procurando usar a derradeira arma contra o Mal para A despertar:

 

O Amor.

 

Ela olhou demoradamente para a bela Jóia. Notou-se um brilho nos seus olhos, era claro que Ela lutava para se soltar do controlo do Demónio.

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publicado às 07:00


Especial: Demons and Wizards: Rainbow Demon

por Rei Bacalhau, em 04.04.14

 

Eis a tenebrosa e misteriosa estória do Demónio, como o Círculo a contou:

 

Em terras distantes, quando nem o Império existia, os utilizadores de magia praticavam a sua arte sem limites. Não havia Mal nenhum, pois nunca nenhum dos magos da altura pensou na magia como uma ferramenta de destruição. Aliás, o próprio conceito de Maldade não existia!

 

Reza a lenda que então houve um mago que experimentava combinações perigosas de magia e fez um erro crasso. Quando concebia um feitiço novo, chegou-lhe a infeliz notícia a partir do seu aprendiz que um animal selvagem havia morto a sua amada esposa. Muitos sentimentos passaram pela cabeça do feiticeiro e, sem querer, passou-os para o feitiço que ainda não estava pronto. O feitiço tornou-se instável quando todas as sensações de raiva, culpa, vingança, ódio e afins se tornaram fisicamente presentes.

 

Uma enorme explosão cataclísmica, de impacto global, mudou para sempre as terras e os seus habitantes. As pessoas que sobreviveram ficaram sempre com a marca do Mal dentro delas e seria algo que passariam sempre de geração em geração. O mundo ficou para sempre condenado. Felizmente o Bem não deixou de existir e conseguiu, com o passar do tempo, balancear as vontades das pessoas.

 

Contudo, houve um ser em que isso não aconteceu. No centro da explosão emergiu uma figura negra, que emanava o Mal. Esse ser puramente mágico que seria o responsável principal por todas as acções vis que as pessoas começaram a realizar. Esse ser nojento, horrível, perigoso e assustador. Esse ser a que chamaram...

 

Demónio.

 

Os anciãos sempre o pressentiram ao longo dos séculos e olhavam-no atentamente e para as suas acções. Felizmente ele agia sempre através dos seus subordinados, cultistas normalmente. Nunca havia agido ele próprio contra os povos do mundo. Os anciãos sempre souberam que não o conseguiriam derrotar pelo seu imenso poder, e por isso a sua inactividade relativa deixava-os aliviados. No entanto, mantiveram a magia um segredo de todos ao longo dos tempos, para que não se voltasse a repetir o cataclismo.

 

 

Tudo esteve bem, até recentemente. É verdade que os cultos tinham tido uma maior actividade, mas isso era controlável. As más notícias ocorreram no dia em que do céu choveu uma bola de fogo. No dia em que o Aprendiz chegou. Os anciãos estremeceram quando sentiram o Demónio pela primeira vez a mexer-se. Ele vinha aí, das terras longínquas na orla do Império. Na altura, os anciãos do Círculo não compreenderam o porquê de só agora ele se movimentar, depois de milénios adormecido. Mas eis que chega a notícia do Viajante e os anciãos perceberam finalmente.

 

O Demónio aí vinha. Montado no seu cavalo flamejante, galopando a toda a velocidade. Sombras maléficas acompanhavam-no, alimentadas pelo ritmo alucinante das trevas.

 

Percorria os campos dia e noite, por entre as brumas que ele próprio gerava. De facto, por onde ele passava não existia luz. Tempestades incríveis, densas e negras assolavam as terras infortunas. Ninguém se atrevia a barrar-lhe caminho, pois o seu poder de morte era muito grande. Os que sequer conseguiam olhar para a espécie de rosto que ele tinha só lhe conseguiam ler uma vontade insana, como se possuído por um propósito de vida ou de morte.

 

E de facto era-o.

 

A conclusão a que o Círculo chegou foi muito simples: o Demónio pôs-se em movimento porque estava em risco. Algum poder forte o suficiente o acordou. Um poder forte o suficiente para possivelmente o destruir. Esse poder estava todo contido num homem de Bem, a salvação do mundo, o único lutador possível.

 

O Aprendiz.

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publicado às 06:00


Especial: Demons and Wizards: Circle of Hands

por Rei Bacalhau, em 03.04.14

 

O Viajante chega exausto à Capital. Era uma cidade maravilhosa! Branca, limpa, majestosa. Os soldados do império tinham trajes coloridos, mas ao mesmo tempo ameaçadores. Os comerciantes vendiam os seus bens nas ruas numa grande gritaria e as pessoas tinham moviementos quase aleatórios, passando como formigas umas pelas outras. Todo este rebuliço confundia o Viajante. Ele já tinha estado em muitas cidades, mas nunca numa tão movimentada.

 

Depois de alguma exploração, encaminhou-se para o centro da cidade onde estava o edifício do Círculo. Era uma torre grandiosa e colossal, que com certeza permitiria ver a grandes distâncias. O que era de estranhar era toda a actividade militar que aparentava ocorrer à volta do edifício. Os soldados marchavam completamente armados e os oficiais vociferavam ordens. Para quem acabou de vir de outra zona da cidade, o contraste era total, como se em vez de haver prosperidade, existissem sim preparações para uma guerra.

 

O Viajante estava determinado e aproximou-se da entrada da torre. Vários guardas correram na sua direcção, armas em punho e perguntaram-lhe que propósito tinha. Informaram-no que o Círculo de Máos estava ocupado e não estava a receber pedidos de ajuda neste momento. Pediram indelicadamente que o Viajante se retirasse. Este não o fez.

 

Escapuliu-se por entre os guardas, que com as armaduras tiveram dificuldade em apanhá-lo. Nada impediria o Viajante de falar com o Círculo! Precisava das suas respostas. Depois de procurar pelos corredores algo labirintícos da torre, deparou-se com uma porta grande. Ouvia os guardas a aproximarem-se e entrou apressadamente por essa porta.

 

Deparou-se com um pequeno grupo de anciãos, de barbas grandes e longas e rugas profundas na cara. Por acaso era exactamente essa a expectativa que o Viajante tinha do Círculo. Olharam-no com alguma surpresa e estremeceram. O Viajante ainda pensou que eles pensavam que ele era uma ameaça, e disse imediatamente o contrário, que apenas queria respostas.

 

Os anciãos riram-se levemente. Referiram que não o achavam uma ameaça porque ele não poderia fazer nada contra eles. O Viajante não percebeu estas palavras, já que todos tinham um aspecto muito frágil e não poderiam esperar ganhar numa luta. Nisto entram os guardas que rodeiam rapidamente o Viajante. Este tenta explicar-se, mas antes de começar um dos guardas ataca-o.

 

O Viajante, desarmado, fica imóvel, em pânico, sabendo que nada pode fazer. Quando a lança do guarda está prestes a trespassar o corpo do alvo, acontece algo que o Viajante não via há muito. A lança torna-se em água e desfaz-se para o chão. Magia!

 

Silêncio.

 

Os guardas olham, estupefactos para o que viram, e recuam, supersticiosos. Olham todos para o Círculo à procura de uma resposta. Os anciãos apenas sorriem e pedem aos guardas que saiam e que fechem a porta. Estes obedecem hesitantemente, lançando olhares ao Viajante, que ainda não compreende bem o que acabou de acontecer.

 

O Círculo rodeia o Viajante e fraternalmente pede que ele conte a sua estória e o que o traz aqui.

 

 

O Viajante recompõe-se. Veio aqui para isto mesmo e começa a sua narrativa. Estes sábios eram claramente mais conhecedores do que os agricultores dos ambientes rurais. Estaria portanto à vontade para falar de tudo.

 

Começou a sua oração ao Círculo de Mãos com o início da sua vida e o objectivo das suas viagens. Falou do encontro com o Mago (e aqui os sábios entreolharam-se curiosos) e da sua viagem cósmica. Falou depois do seu regresso e de como quando estava à procura do Mago, seu inimigo, deparou-se com o seu Amor e de como todos os sentimentos de vingança pareceram tão fúteis a partir daí. Finalmente contou o episódio recente do desaparecimento de pessoas no campo e como parecia ser uma tendência crescente.

 

Nisto, os anciãos tomaram uma atitude mais grave. Agora falariam eles, pois, segundo o que disseram, já sabiam a resposta antes sequer do Viajante ter feito a pergunta.

 

Eles sabiam há muito do desaparecimento de pessoas. É obra de um grupo de fanáticos que idolatram o Mal, que é composto de bandidos, ladrões, bruxas e outros do género. Querem todos atingir um nível de Completude, e é com este argumento que de alguma maneira as pessoas são enfeitiçadas para aderir ao grupo, que na verdade mais se pode chamar de culto. Eles são o Mal enraizado nas pessoas e refugiam-se da Luz e do Bem, escondendo-se em cavernas, caves e outros sítios escuros. Têm medo do Sol, porque pode dar esperança aos membros do culto e fazê-los voltar às suas vidas normais, e então só atacam de noite.

 

O Viajante ouvia atentamente, e compreendia muitas das coisas que tinha visto acontecer ao longo dos tempos. Todos os crimes que ouvia falar, feitos sempre à coberta da noite!

 

Os anciãos continuaram: Era realmente altura de tomar acção e por isso começaram a mobilizar o exército para perseguir este culto. Daí os preparativos todos a ocorrer e a segurança reforçada no acesso normalmente livre à torre. As pessoas conseguiam perceber que a guerra seria necessária. O culto não poderia existir livremente e causar caos no Império. O que as pessoas não conseguiriam perceber era o modo como a guerra seria travada. Os anciãos fizeram uma pausa.

 

Isto confundiu o Viajante, e este perguntou de que modo é que seria travada esta guerra.

 

Os anciãos entreolharam-se outra vez e aparentemente houve consenso. Um deles tomou a palavra, mas percebia-se que estava a meditar profundamente nas palavras que dizia. Disse portanto que as pessoas conseguem perceber a guerra quando é lutada com espadas e lanças e flechas. Não a compreendem quando é lutada com magia, com feiticeiros a lançar os 4 elementos em fúria uns aos outros. O Viajante estranhou. A magia era perfeitamente normal de onde ele veio e era sempre usada para o Bem. Quando não o era, os Aprendizes do Bem traziam Justiça!

Os sábios interromperam. Informaram o Viajante que ele é o primeiro humano em milénios a ter conhecimento de magia fora do Círculo. Isto para além dos Feiticeiros do Mal que começaram a aparecer associados ao Culto da Completude. Isso significava que alguém estava a ensinar poderes mágicos a humanos apesar da magia ter sido mantido um segredo durante tanto tempo. Não poderia ter sido ninguém do Círculo de certeza, e por isso a teoria dos sábios era muito mais assustadora. Hesitaram durante um instante.

 

Este perigo já é real há muito tempo, mas o Círculo nunca havia feito nada para o impedir, assumindo que o bom senso das pessoas triunfaria. Quando pensavam que era tarde demais para impedir o Mal que se formava no Império, souberam de um evento peculiar. Um grupo de camponeses relatou um acontecimento muito estranho em que uma bola de fogo desceu dos céus e onde aterrou coisas fantásticas tinham ocorrido. Chamas dançantes, por exemplo. Nos tempos seguintes, o Círculo ouviu rumoures de um Viajante que tinha dado vida às terras por onde passava, espalhando o Bem. O Círculo sabia que era apenas uma questão de tempo até esse Viajante vir ter com eles.

 

O Viajante protestou, quando se apercebeu que o Círculo se estava a referir a ele. De maneira nenhuma ele sabia usar magia como eles insinuavam. Ela dava vida às aldeias porque espalhava o caminho do Bem, porque o praticava, e não porque era algum feiticeiro. Para além disso, de onde ele vem existe magia e praticantes de magia, o que quer dizer que por eles não conhecerem ninguém no seu Império pequeno que saiba magia, não quer dizer que no resto do Mundo não se faça.

 

O Círculo estranhou o argumento. Apontaram-lhe um mapa colossal do "pequeno" Império a que o Viajante se referiu. Foi com algum espanto que o Viajante notou que o Império ocupava grande parte do Mundo conhecido. Conseguiu inclusive localizar a sua terra natal e verificou que fazia parte do Império. Este facto confundiu enormemente o Viajante, e seria uma dúvida que o atormentaria durante muito tempo, porque isso implicava que o Mago, que sabia que tinha explorado aquelas terras todas, deveria ser com certeza conhecido, e não o é.

 

Um dos sábios tomou a palavra e perguntou ao Viajante como é que ele explicava a transformação da lança em água. O Viajante respondeu que havia sido o próprio Círculo com certeza! Todos negaram. Disseram que foi o Viajante que, em desespero e sem saber, soltou os poderes escondidos dentro dele. Disseram-lhe que sentiram algo na atmosfera mágica mudar no dia em que o Viajante chegou das estrelas. Souberam que a salvação tinha vindo. A guerra seria horrível se não fosse travada antes de começar e para isso era necessário alguém muito poderoso para fazer frente à raíz. Esse alguém era o Viajante, com os seus poderes intrínsecos.

 

O Círculo ensinaria tudo o que o Viajante necessitaria para lutar o Mal. Como controlar os seus poderes, como combater, como identificar um agente do Mal, entre outras várias coisas. Ele, o Viajante, parou as suas viagens. Faria de tudo para recuperar o seu Amor, mesmo que isso implicasse ser um soldado fundamental numa guerra horrível como seria. Ele que já não será conhecido por Viajante, mas sim por Aprendiz.

 

O Aprendiz pergunta finalmente ao Círculo exactamente contra o que é que vão lutar.

 

O Círculo responde em uníssono:

 

O Demónio.

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publicado às 05:00


Especial: Demons and Wizards: Poet's Justice

por Rei Bacalhau, em 02.04.14
 

 

Que feliz era o Viajante, apesar de agora ser errado chamar-lhe isso, tendo assentado na aldeia com Ela, a sua amada. Todos os dias eram radiantes, mesmo quando chovia. Todas as notícias do Mal que ia ocorrendo nas terras vizinhas eram descartáveis, visto que ele só tinha necessidade de A ouvir. Todos os seus sonhos mais profundos não eram comparáveis à realidade que era viver com ela. A vida anterior do Viajante parecia ser tão insignificante agora, em comparação.

 

O Viajante sabia muitas estórias, e ele pensava que esta seria daquelas que teria um final feliz. Pedir-lhe-ia em casamento (já tinha tratado de alguns preparativos para isso, inclusivamente a jóia de matrimónio que lhe foi oferecida por um joalheiro que precisou da sua ajuda recentemente), contruiria uma casa grande, teria muitos filhos, ensiná-los-ia os caminhos do Bem, engordaria e morreria velho com Ela.

Mas mais uma vez, o Destino, horrível e incompreensível, tinha outros planos.

 

Um dia, o Viajante acorda. Era normal que Ela já se tivesse levantado, pois tinha de preparar a comida e apressar-se para ir dar as aulas às crianças da aldeia. Na verdade, o Viajante nem notou por ela deitar-se na noite anterior, já que ela disse que tinha um compromisso e que chegaria mais tarde. Mesmo inquieto, o Viajante adormeceu.

 

Qual não é a sua surpresa por a comida não estar pronta e por não A encontrar em casa! Encontrou sim uma carta, endereçada a ele, com a letra Dela. O inexplicável havia acontecido. Que horror e tristeza avassalou a alma do Viajante! Ela havia-se ido embora! Deixou tudo para trás em busca do que Ela chamou de Completude, que era algum tipo de disparate que alguém lhe prometeu. Teria sido naquele compromisso que ela foi na noite anterior que lhe puseram tal ideia na cabeça? Ele deveria ter suspeitado! Com os rumores de pessoas a desaparecer nas aldeias vizinhas seria de supor que eventualmente o mesmo aconteceria aqui! Mas como é que ela teria deixado tão simplesmente a vida genuinamente bela que tinham!? Teria sido erro dele? Teria de o descobrir!

 

Saiu de casa e foi tentar procurar os responsáveis na aldeia, talvez ainda estivessem perto. Reparou que muitas famílias choravam, todas afectadas pela mesma aflição! Maridos, mulheres, filhos e pais, muitos haviam desaparecido. Todos apresentavam o mesmo desespero que o Viajante, e, ao vê-lo, quase todos o rodearam, implorando ajuda!

 

Pela primeira vez o Viajante não sabia nem o que fazer nem o que dizer. Num acto chocante, pôs-se de joelhos e chorou igualmente com os restantes aldeãos. Uma tristeza profunda invadiu a aldeia. Fizeram-se esforços nos dias seguintes para encontrar algum vestígio dos desaparecidos, mas foi em vão.

 

O Viajante bradava aos céus, pedindo a quem ouvisse que o levassem para o seu Amor. Ele precisava de a encontrar, de a livrar de seja qual for a maldição que a tenha possuído! Nada resultou. O Viajante entrou num estado apático e o ambiente à sua volta sofreu com isso... A vivacidade nos seus olhos morreu. As estórias que tinha para contar pareciam-lhe desmotivadoras e passava longos momentos em silêncio. As plantas da aldeia murcharam... Os poços secaram... As terras tornaram-se duras e inférteis... Os fogos apagavam-se com a mais leve brisa... O ar ganhou um cheiro fétido inexplicável... Era como se tudo tivesse voltado ao ponto em que estava antes da chegada original do Viajante.

 

Uma noite, o Viajante estava sentado à janela, a reflectir, mastigando um pedaço duro de pão. Olhou para as estrelas e confessou-lhes o que sentia mais uma vez. Ele sem Ela não era completo. Sentia-se metade de si próprio e não sentia o poder do Bem que em tempos tanto gostava de espalhar pelas pessoas. Todo o seu Conhecimento e todas as suas estórias eram inúteis. Ele próprio era inútil. Foi então que reparou, na escuridão intensa, uma luz no horizonte, uma que nunca tinha visto. Perguntou-se o que seria e determinou que parecia ser uma construção. Não sabia como é que nunca havia reparado nela, mas estava definitivamente lá.

 

Aí, lembrou-se do Círculo de Mãos. Ele sabia que a Capital era naquela direcção. Será que eles teriam uma resposta!?

 

Um pensamento horrível passou-lhe pela cabeça. E se isto fosse tudo obra do Mago? Deveras, se ele o teria mandado naquele castigo cósmico poderia ser que tivesse de alguma forma ficado corrompido. Deveras, apenas Ele teria o poder para convencer uma pessoa de um dia para outro deixar tudo o que tem. Não... seriam notícias demasiado más se tal tivesse acontecido.

 

Precisaria de saber. Pegou nalguns mantimentos necessários para a viagem. O Viajante reuniu a sua energia e mais uma vez se poria a caminho, e desta vez nada o deteria. Iria voltar a ver a sua Amada, prometeu isso aos céus! Pegou na Jóia que lhe queria oferecer e apertou-a na mão. Colocou-a no dedo mais fino, já que era demasiado pequena para um homem.

 

Em frente portanto, para a Capital. Para o Círculo!

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publicado às 04:00


Especial: Demons and Wizards: Easy Livin'

por Rei Bacalhau, em 01.04.14

 

Atordoado pela fantástica queda, o Viajante ziguezagueou tonto pelo local da aterragem. Tinha de se habituar a andar outra vez. Inevitavelmente caiu, várias vezes até. A área circudante parecia ter sido alvo de um fogo florestal em ponto pequeno, pois apenas um círculo perfeito à sua volta é que tinha ardido violentamente. Algumas chamas ainda flagravam, mas o Viajante notou que não lhe pareciam quentes. Na verdade até lhe pareciam... simpáticas? O Viajante abanou a cabeça, estaria com certeza a alucinar para associar tal adjectivo a uma chama.

 

Sentou-se por um momento numa pedra, e reflectiu, cansado. Onde estaria? O que faria? Que interpretação dar a toda a sua aventura? O Mago haveria com certeza de o saber... Tinha de o encontrar, e se fosse necessário, obter retribuição por esta experiência algo produtiva admita-se, mas sempre aterradora!

 

Levantou-se da pedra, enérgico, e preparou-se para tomar caminho.

 


Algumas horas depois chegaram alguns populares, que haviam visto de longe uma grande bola de fogo a despenhar-se na floresta. Depararam-se com o cenário de aterragem do Viajante, apesar de ele há muito ter partido. Os populares procuraram vestígios do que poderia ter acontecido ali e encontraram algumas anormalidades. Em primeiro, uma pedra que parecia ter a forma exacta de uma poltrona confortável. De seguida notaram uns seres misteriosos que timidamente olhavam entre as pedras. Quando se aproximaram dum deles qual não foi o espanto deles que na verdade eram chamas vivas, em forma de humanos pequenos. Não eram agressivas, mas os populares, por medo ou superstição, imediatamente as destruíram mandando-lhes terra para cima.

 

Algo de muito estranho havia ocorrido ali. Os populares souberam logo que os únicos com Conhecimento suficiente para esclarecer aquilo seriam os anciãos do Círculo.

 


Voltemos ao Viajante. Eis que finalmente sai da floresta onde andou perdido algum tempo, apesar da sua experiência de caminhante. O lugar onde estava era-lhe estranho. As árvores eram diferentes e mais densas, a vegetação era abundante, o céu era mais constantemente nublado. Tudo isto lhe dificultou a navegação. Felizmente, ao sair da floresta, deparou-se com uma estrada, o que era indicativo de civilização. Contudo, a estrada era completamente diferente de tudo o que tinha visto dantes. Tinha um aspecto muito novo e direito, nada a ver com as estradas de terra à qual estava habituado na sua terra. Eram muito brancas e via-se que os seus construtores tinham orgulho no que fizeram, pois até criaram ornamentos ao longo da via.

 

O Viajante já tinha ouvido falar deste tipo de estradas em estórias que lhe contaram em tempos. Falavam de um império antigo governado por um conjunto de Anciãos, chamado de Círculo de Mãos, que resolviam os problemas do povo e lhe trazia prosperidade. No entanto, pensava-se que esse império havia completamente desaparecido. Será que ele havia aterrado num local do mundo onde essas tradições antigas se mantiam? Será que os anciãos lhe saberiam responder às muitas perguntas que tinha, nomeadamente como encontrar o Mago? Teria de descobrir, e o melhor método de o fazer seria seguir a estrada até encontrar uma população.

 

Investigou o horizonte para tentar determinar em que direcção deveria ir. Não encontrou vestígios como fumo ou luz ou uma construção humana, e por isso decidiu ir numa direcção escolhida ao acaso. Depois de alguma distância deparou-se com uma pequena quinta, com árvores de frutos na parte de trás. Decidiu ir pedir comida, com a esperança que os possíveis habitantes estivessem dispostos a trocá-la por nada mais que estórias das suas aventuras. Aproximou-se da porta e bateu gentilmente. Identificou-se e proferiu o seu propósito, esperando conseguir derrotar a timidez clara dos ocupantes.

 

Para sua surpresa ouviu vozes a berrar atrás de si. Um homem e os seus filhos apontavam-lhe armas improvisadas das ferramentas de agricultura. O Viajante caiu de espanto e nem tentou levantar-se, imediatamente levantando as mãos em submissão, apavorado. Era claramente uma reacção que o agricultor não estava à espera, pois a sua cara de espanto tornou-se igual. Percebendo o seu erro, o agricultor declara paz, e oferece a hospitalidade rural ao Viajante. Este agradece, especialmente por não ter o estofo necessário para lutar contra três homens ao mesmo tempo.

 

O agricultor partilha alguma comida e pede desculpa ao Viajante, mas com os recentes ataques de bandidos lunáticos, ele tem de proteger a sua família de alguma maneira. O Viajante achou estranho. Contou que na sua terra não haviam quase bandidos nenhuns, já que eles tinham protecção dos Aprendizes do Bem. O agricultor encolheu os ombros, dizendo ao forasteiro que nunca tinha ouvido falar de tal coisa.

 

Conversaram muito, mas o agricultor franzia os olhos sempre que o Viajante contava as suas estórias mais fantásticas (não contou a sua viagem espacial, com receio de parecer insano). Era como se o agricultor nunca tivesse ouvido falar de magia, que para o Viajante era bastante normal ver. Por fim, perguntou se tinha alguma vez ouvido falar do Mago, mas o agricultor mais uma vez desconhecia. Propôs, no entanto, que falasse com o Círculo, já que eles poderiam ser os únicos com as respostas que ele pocurava. Felizmente, o local ao qual ele chamou de Capital não era muito longe, alguns dias de viagem para um caminhante experiente, e haviam muitas aldeias e cidades pelo caminho.

 

O Viajante despediu-se fraternamente e agradeceu a hospitalidade, a comida e a informação. Achou estranho como apesar de estar a falar de assuntos tão estranhos para o agricultor, este mesmo assim não conseguia desviar o olhar. Era como se algo no Viajante o chamasse a atenção. Passou por uma ribeira e decidiu olhar para o seu reflexo. À primeira vista parecia estar normal. Olhando com mais atenção, no entanto, verificou algo de diferente nos seus próprios olhos. Emanavam uma vivacidade e uma confiança diferente. Era deveras estranho. Lavou a cara com a água turva da ribeira e prosseguiu.

 

 

Não reparou que as águas da ribeira tornaram-se limpas e cristalinas e as gotas dançavam alegremente ao darem vida às plantas circundantes.

De facto, passou por várias aldeias, onde o olhavam sempre com alguma suspeita. Apesar do que ele lhe tinha feito, o Viajante estava determinado a aplicar os ensinamentos bons do Mago. Iria trazer a felicidade e o Bem a estas pessoas, mesmo que só por um tempo. E então, sempre que fazia uma paragem escolhia ficar um tempo e falar com as pessoas, em vez de se dirigir para o seu destino real, a Capital. Partilhava bebidas e estórias nas tabernas, brincava com as crianças e ensinava-lhes coisas novas, socorria alguém que precissasse de ajuda para arranjar a carroça. E fazia-o de graça, apenas de vez em quando pedindo um bocado de comida quando via que não era inconveniente. E as pessoas começaram a recebê-lo mais alegremente. As notícias que um Viajante praticava acções de Bem espalharam-se depressa, e deram esperança às pessoas. Agora, o Viajante entrava numa cidade e havia rejubilo! Festas, danças, músicas e vinho!

 

Foi numa tal altura, numa taberna, que ele A viu pela primeira vez.

 

Algo lhe chamou a atenção Nela. A pele clara e a forma elegante do seu andar. O cabelo longo que ora transmitia sensualidade ou pureza. O riso, que ofuscava qualquer outro que tivesse visto. Os olhos, tão convidativos, tão ternos. Que donzela mais magnífica. Por um momento ainda pensou que pudesse ser uma alucinação, eventualmente da quantidade grande de álcool que tinha ingerido. Mas não, Ela existia mesmo e personificava para ele a mulher perfeita.

 

Ela também olhou para ele, tímida no início. Ela sabia que ele era a razão da festa e não se quis intrometer. Mas não sabia Ela que já há muito que o Viajante a tinha marcado como alvo. Ele aproximou-se. Apresentou-se com confiança, fazendo o possível para a impressionar. Tal não foi preciso, pois o Viajante, habituado a contar, deu consigo simplesmente a ouvi-La, querendo sempre saber mais sobre Ela. Ela partilhava o sentimento que crescia, e os dois passaram a noite a conversar e a apaixonarem-se.

 

O Viajante fazia tudo com ela agora. Ela era uma professora na aldeia, e ele juntou-se para A ajudar, já que tinha tanto para contar e partilhar com as crianças. Quando não haviam aulas, o Viajante passeava pela aldeia e auxiliava as pessoas, como sempre. Não se esqueceu do seu objectivo principal, de chegar ao Círculo e perguntar pelo Mago, mas agora tudo isso lhe parecia menor, em comparação com o que tinha com Ela. Na verdade, a vida na aldeia parecia ter melhorado tanto desde que ele chegou: a água corria mais limpa, o ar tornara-se puro, as terras ficaram férteis e os fogos crepitavam mais calor que costume. A população associou, por superstição, tais acontecimentos à chegada do Viajante, mas ele negava sempre ter alguma influência nisso. Dizia, pelo contrário, que se calhar dantes as pessoas andavam demasiado ocupadas a serem tristes para repararem na qualidade das coisas à sua volta.

 

Que fácil era viver agora! Por consequência deste episódio, mais uma vez sem se aperceber, o Viajante havia aprendido o último elemento que o Destino lhe havia reservado. O Viajante aprendeu o elemento do Amor.

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