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Música: Moonlight Shadow

por Rei Bacalhau, em 25.01.15

Por norma, um artista musical é conhecido pelo instrumento principal que toca. Como tal, se for parte de uma banda, será considerado como o guitarrista ou baterista ou vocalista dependendo da sua capacidade. Assumamos isto como caso geral, que eu sei que há muitas excepções.

Depois há artistas que tocam mais ou menos a solo, e a única companhia é o seu instrumento.

E depois temos malucos como o Mike Oldfield, que tocam todos os instrumentos imagináveis. Não acreditam? Vede e ouvi, e dir-me-eis:

 

 

Claro que o trabalho mais conhecido de Mike Oldfield é o famoso Tubular Bells, nos seus tempos de catraio, em que já aí tocou as dezenas de instrumentos do álbum.

No entanto, parece-me que há uma coisa que ele não faz, deixando sempre para um artista convidado: cantar.

Será algum acto de modéstia? Ou simples realização de que ele é um mau cantor? Não sei, porque num dos casos em que ele convidou um artista, a música tornou-se um dos seus sucessos mais populares.

 

Moonlight Shadow, de Mike Oldfield, cantado por Maggie Reilly:

 

 

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Ontem

por Rei Bacalhau, em 18.01.15

Devo admitir que os últimos dois anos foram dos mais cheios da minha vida, e daqueles em que aprendi mais, em particular o último.

Vou acabar a minha vida académica, comecei a minha vida profissional, comecei a tentar meter-me em mais actividades do que só jogar computador (coisa que aliás começa a ser cada vez mais rara fazer). Encontrei uma nova forma de viver na arte, de certa forma, pois tento dar uns toques na guitarra, tento fazer uns rascunhos com a escrita, tento procurar melhorar o meu português com a leitura... até já fiz algum trabalho em 3D! (aliás, eu trabalho numa empresa de arte, para quem, como eu, considerar os videojogos como a 10ª arte)

E no entanto não era suficiente. Faltava alguma coisa.

Então, há coisa de um ano, levei uma bofetada sentimental, e apaixonei-me por uma miúda. Em termos amorosos, eu era apenas uma criança, nunca tendo tido esse tipo de sentimentos. Era óbvio que não poderia dar certo, mas como primeira aproximação, ganhei uma boa quantidade de experiência. Não quer isto dizer que levei a derrota levianamente. Um leitor atento deste blog poderá ter reparado que deixei de escrever durante um tempo. Aprendi que estes assuntos conseguem realmente devastar uma mente mais fraca, não sei se por razões de personalidade ou simplesmente por causa de hormonas e outras reacções químicas inexplicáveis do nosso corpo. 

Como disse, em Setembro deixei de escrever aqui. Foi no dia dos meus anos que andei tão melancólico por causa do nada que eu era e do nada que tinha realizado na minha vida, com justiça ou não. Aceitei a minha derrota finalmente e decidi proteger-me atrás do meu lado Mau, suprimindo todo o sentimento e concentrando-me apenas no que é lógico, explicável, qualificável, etc. etc..

Mal sabia eu o que me iria acontecer.

Nesse mesmíssimo dia, coincidentalmente ou não, fui ver uma apresentação de projecto final de curso de uns amigos meus, um rapaz e uma rapariga. Resumindo, quando acabou a apresentação vi na rapariga algo que nunca lhe tinha notado, uma beleza e ternura interior que ultrapassava a exterior (e isto é dizer muito), pela alegria profunda que demonstrou por ter acabado o curso. Na altura não liguei, mas dei por mim a pensar nessa situação algumas vezes ao longo dos dias seguintes.

Mal sabia eu o que me iria acontecer.

Inevitavelmente apaixonei-me outra vez, apesar de ainda não ter a certeza se tal aconteceu por ainda estar fragilizado mentalmente pela primeira miúda. Pode perfeitamente ter sido o caso de eu ter querido encher o vazio que me ficou na mente com outra candidata. Também pode ser que seria atingido à mesma por aquele sentimento noutra situação mental mais estável. Não o sei. Não me interessa.

Sei que desta vez tinha muito mais confiança em mim mesmo. A Primeira foi um excelente teste e já evitei certos erros com o que aprendi. Cerca de um mês depois de ter sido atingido pela segunda vez, comecei o meu ataque, lentamente ao início, para testar as defesas. Surpreendentemente, Ela, a Segunda, não ofereceu muita resistência e avancei com uma velocidade incrível para o coração dela, lembrando os grandes conquistadores a marchar por uma nação, aniquilando tudo no seu caminho.

Pela primeira vez na vida, beijei uma mulher.

Nesse dia fatídico, os meus generais cá dentro discutiam a estratégia a realizar, mas um deles ganhou força sobre os outros. O Feio, aquele bicho horrível que se arrastou das profundezas do meu ser para dizer uma coisa nefasta. Uma única coisa. Uma frase simples. Quando foi dita, tudo mudou. O mundo desabou para mim e para Ela, como se eu tivesse acabado de esmagar todas as possibilidades de a ter como namorada, oficialmente. Amaldiçoei o meu lado Feio por ter demonstrado o que era verdade, inevitavelmente, mas uma verdade cruel e terrível que não podia ter sido dita. Não por mim. Não tão cedo.

Pela primeira vez na vida, disse a uma mulher que a amava. Olhos nos olhos, lábios nos lábios.

Tínhamos começado a sair há duas semanas, como é que é possível que isso pudesse ser verdade. Era demasiado cedo para se dizer isso. Sim, eu sei isso tudo, mas não me consegui controlar. A minha relação com Ela desceu a pique a partir daí. Dois dias depois Ela disse-me honestamente, que não queria o que eu quero, que não mo podia dar. Não consegui argumentar, fiquei em choque. Aceitei, ainda pensei que fosse uma fase. Mas não. Acabei por descobrir que Ela gostava (ou gosta) de outro, e que me tinha usado para tentar esquecê-lo, já que esse maldito não gostava dela. Eu que não gosto de clichés, vi-me vítima do pior cliché de todos: o triângulo amoroso.

Tenho a certeza que o facto de ter proferido as infames palavras naquele dia contribuiu para as reflexões Dela.

Num único minuto consegui foder-me.

Finalmente, depois de ainda ter tentado mais umas vezes, percebi que já não conseguiria nada com Ela. Decidi na semana passada começar o processo longo e moroso de supressão do sentimento. Desactivei o Facebook (outra vez...), apaguei todos os registos que tinha Dela, todas as fotos, todos os textos, todas as mensagens. Comecei a evitá-la de todas as maneiras possíveis. O meu lado Mau estava a controlar-me outra vez, e fez o seu trabalho bem.

Ela tentou, por duas vezes, falar comigo por SMS, e devolvi-lhe respostas secas, mas polidas. Não poderia ser mal educado, pois não posso estar chateado com Ela. Ela ensinou-me muito mais do que eu poderia esperar aprender em tão pouco tempo. Estou-lhe profundamente agradecido por isso na verdade.

Não é fácil esquecer. Aprendi que o truque é manter a cabeça ocupada com outras coisas. Então passei a semana a trabalhar 10 ou 12 horas por dia, e quando chegava a casa colocava-me a dormir quase de imediato. Nos transportes públicos tive a preciosa ajuda do livro do Padrinho, cuja forte narrativa me levou a devorá-lo em pouco tempo. Nos poucos tempos em que tinha a mente livre, dava por mim a pensar Nela, durante minutos a fio. Como é que Ela estaria? Sentiria a falta da atenção que eu lhe dava? Sentir-se-ia culpada? Sentir-se-ia sozinha? Já me teria esquecido e talvez tentado falar com o outro miserável? Espero que sim, pois só lhe desejo bem, e claramente eu não sou o homem que ela quer, nem o que Ela precisa, nem o que Ela merece, pois merece melhor que eu.

Por acaso durante a semana aconteceu-me algo engraçado. Fui à faculdade e encontrei a Primeira. Cumprimentei-a e fiquei a conversar com ela, com confiança e amizade, mas sem sentimento algum. Suponho que é verdade que para me esquecer de alguém preciso de outra pessoa, claramente. Mas sinceramente acho que não tenho a força mental para procurar outra neste momento. Vou tentar ocupar-me doutra maneira.

Sabem... Ela, a Segunda, faz anos hoje. Convidou-me para uma festa de anos que deve ter ocorrido ontem, tanto quanto sei. Rejeitei imediatamente quando me convidou, sabendo que eu não conseguiria aguentar a sua presença. Não sem me prejudicar a longo termo. E então menti-lhe, disse-lhe que não podia (quer dizer, não menti, não posso mesmo, mas pelas minhas razões ilógicas, e não por outro compromisso já marcado ou algo parecido).

E agora dou por mim, a querer ser consistente, e nem sequer lhe enviar uma chamada ou uma simples SMS de parabéns. Por teimosia. Por cobardia. Por raiva. Por precaução. Por ignorância. Não sei, escolham uma. Espero daqui a uns meses, se ou quando a vir outra vez, já a tenha conseguido esquecer, apesar de isso me parecer improvável. Ainda agora, tudo o que mais anseio é que Ela me envie uma mensagem a dizer que esqueceu completamente o outro, que podemos começar de novo, como se nada tivesse acontecido, que ainda haveria uma hipótese...

Não me iludo. Estou agora no trabalho, sozinho, e vou começar a trabalhar para afastar o pensamento dela, neste seu aniversário.

Tudo por causa de um dia. Tudo por causa de uma palavra. Tudo por causa de mim.

 

 

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...

por Rei Bacalhau, em 11.01.15

 

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Música: Nights in White Satin

por Rei Bacalhau, em 04.01.15

É um novo ano e tal.

 

Já referi o óbvio, como parece ser tradição para toda a gente nesta altura, por isso passemos ao importante.

O Ano Novo traz um evento que tenho feito tradição em ver, mesmo que isso implique acordar mais cedo num dia de "férias": o Concerto de Ano Novo, tocado em Viena pela sua banda filarmónica, ou lá como se chama.

Confesso, não percebo nada de música clássica. No entanto, isto só implica que se eu quiser saber ouvir música, tenho de começar por realmente ouvi-la, se é que isto faz sentido. Saber ouvir todos os instrumentos de corda (cujos nomes não me lembro, mas sei que os dei no 5º ou 6º ano), saber distinguir os instrumentos de sopro (repito o que disse para os de cordas)... e há uma outra categoria, mas não me apetece ir ao Wikipédia... será a percussão? Acho que sim... não tenho a certeza... BOM, é óbvio que percebo pouco do assunto, mas gosto de ouvir, como leigo. Imagino que um verdadeiro conhecedor, que saiba ouvir (nem que seja à sua maneira informada), conseguirá apreciar este género de música muito mais que o mortal comum.

Entre as agudezas dos violinos e as gravidades dos tambores, era claro que o foco era para a família Strauß. Contudo, uma das músicas era de um compositor de nome Franz von Suppé, com o nome Morgen, Mittag, und Abend in Wien. Pelo pouco que sei de alemão, quer dizer algo do género: Manhã, Meio-dia e Noite em Viena.

Aqui está uma versão de um concerto de Ano Novo anterior:

A música foi feita para um violocenti... viololocentie.... violoncelista brilhar naquela parte inicial, claramente.

O título intrigou-me, já explicarei porquê. Entretanto, parece que a música é conhecida para muitas pessoas devido a um episódio do Bugs Bunny (pelo menos é o que o pessoal diz nos comentários do Youtube onde fui buscar o vídeo anterior).

TIve de ir verificar rapidamente, e só encontrei uma versão ranhosa gravada directamente da televisão, mas que transmite a ideia de que pelo menos na altura os desenhos animados eram excelentes veículos culturais.

 

Mas o título intrigou-me, como disse. 

Em 1967, uma banda de rock fraquita decidiu gravar um álbum em conjunto com uma orquestra. Esse álbum acabaria por catapultar essa banda para o sucesso comercial.

Não, não falo dos Deep Purple, esses foram depois. Falo dos Moody Blues, e o álbum tem o nome de Days of Future Passed. O propósito do álbum é de falar sobre as fases diferentes de um só dia, dando o ciclo completo desde uma madrugada à outra. Daí a música no concerto me ter feito lembrar que este álbum pode não ser totalmente desinspirado. Uns 40 minutos magnificamente compostos, em que música orquestral e rock se combinam, num que pode ser considerado dos álbums pioneiros do que se viria a chamar rock progressivo. 

"Mas que raio? Mesmo na altura não se lançava uma banda para o sucesso com um álbum desses. Seria necessário um single!" É uma pergunta válida e respondo dizendo que o álbum termina com um single, sobre o qual preciso de dizer nada ou pouco.

Para já, o álbum total, cujo vídeo acompanhante deve ter dado um trabalho desgraçado ao autor, mas que combina perfeitamente:

Days of Future Passed, dos Moody Blues:

 

 

E para acabar, dou relevo ao famoso single:

 

Nights in White Satin:

 

 

 

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A Batalha de Ano Novo

por Rei Bacalhau, em 01.01.15

Duarte surge do arbusto onde foi defecar. Disciplinou-se com esse hábito para evitar o que era tão habitual acontecer na expectativa antes e durante a batalha. Como tal, antes de qualquer escaramuça, fazia o esforço para evacuar os excessos digestivos. Coxeando ligeiramente, como já não conseguia evitar, aproximou-se do seu bando de companheiros, que lhe apontaram as armas imediatamente, não querendo arriscar. Duarte levantou a mão da maneira especial que todos conheciam, e voltaram às suas posições de vigia e espera.

Mais adiante, afastado do bando, estava um homem mais velho, de farto bigode, e menos barrigudo do que já teria sido, a julgar pelas roupas largas que tinha vestidas. Numa mão, uma espingarda, na outra, um par de binóculos, na cara, um olhar preocupado. Sem olhar, pressente a aproximação de Duarte:

"Deves 'tar cada vez mais orgulhoso dos teus cagalhões... Até aqui vem o cheiro!"
"Vai pó caralho, Sargento." - Era a resposta tradicional dele. Chamava-lhe Sargento porque foi assim que o conheceu, mas há muito que haviam abandonado o Exército, e numa milícia a patente vale pouco mais que o nome. - "Que contas de novo?"
"Pouco movimento...há ali um ou outro Inimigo filha duma puta a rondar e a patrulhar, mas nada de especial."

Mantiveram-se silenciosos, à espera de notícias. Era véspera de Ano Novo, e o frio observava-se na respiração, sentia-se no tiritar, e ouvia-se no praguejar ocasional.

"Foda-se, 'tá mesmo frio!..."

Batiam as onze badaladas, ecoando calmamente pelos vales rurais, um aviso para o chinfrim que viria na Passagem de Ano. Tinha sido acordado um armistício entre os dois exércitos da nações, mas a Milícia não se importava com tais burocracias. Não iriam dar misericórdia pois também não esperavam nenhuma. É a vantagem e ao mesmo tempo desvantagem de se trabalhar de forma independente. E se uma tão boa oportunidade de ataque se apresenta, as convenções de guerra são facilmente ignoradas. Os foguetes de celebração iriam rapidamente ser substituídos por disparos transportadores de dor e morte. Pelo menos era esse o plano: quando derem as doze badaladas e as celebrações começarem... ataca-se.

Duarte e o Sargento observavam estoicamente o alvo da noite, ignorando o medo e o frio. Tinha-lhes sido dito para estarem prontos a receber ordens às 23 em ponto, mas nada se soube, e a expectativa aumentava. Tinham deixado as carrinhas a uns dois quilómetros de distância, para evitarem ser vistos ou ouvidos e fizeram o possível para estarem no sítio suposto à hora marcada.

O telemóvel do Sargento finalmente vibra.

"Foda-se, ò Fonseca, só agora!? Já me estava a preocupar... sim... sim, estamos todos prontos.. han!?.... não!, estamos todos prontos caralho!... 'pera, já me ouves?.. ok.... sim... siiim.... então mas.. ah... ok, sim, sim.... pela frente.. ah, mas eu não tenho gajos aqui para isso!, arranja mais um grupo para essa casa... não, não vi muito, pelo menos não cá fora.... sim, isso confirma-se... não caralho, mas tu... ah... 'pera, deixa ver, só um momento... ò Duarte, vê lá se vês uma luz na terceira casa a contar da esquerda... é? 'tá!... 'tou? 'tá lá? oh foda-se, 'tás-me a ouvir?... ah, sim, 'tá lá uma luz sim... ah é? óptimo então, parece-me bem.. vou fazer um reconhecimento final e já te mando mensagem se tiver tudo bem... até já!"

O Sargento guarda o telemóvel cuidadosamente, para não se notar a luz.

"Olha Duarte, vai chamar o pessoal, para se dar uma ideia do plano."

O bando contava com 14 membros no total, o que era relativamente grande para um grupo independente de milicianos. Quatro deles eram novatos, tinham visto muito pouca acção ainda, e um deles ainda quase não tinha disparado a espingarda. No entanto, os restantes eram muito mais experientes, sendo que o Sargento e Duarte já lutavam juntos quase desde o início da guerra. Os outros 8 foram sendo adicionados aos poucos, e eram uma possível prova de que quanto mais tempo se está numa guerra mais probabilidade se tem de sobreviver. Reuniram-se à volta do líder não oficial, o Sargento, para receber instruções.

"Sei que não é normal fazermos trabalho directamente com outros grupos, mas desta vez a oportunidade é de ouro. Ouçam lá bem, que agora já há confirmação do que é que nos viemos meter: naquela aldeola está a descansar uma companhia inteira de tropas Inimigas experientes, que foram fundamentais na queda recente de Macelada. Sabemos todos o que essa derrota pesada custou ao Exército e por isso cabe a nós fazê-los pagar, já que esses paneleiros levaram na boca. Com a merda do armistício e tal, eles não 'tão exactamente à espera de serem atacados, mas não podemos subestimá-los, os cabrões são espertos. Falei agora com o Fonseca, da Milícia de Azinhos, e ele diz para atacarmos uma vivenda onde estão os oficiais da companhia. Fica mesmo na orla da aldeia, por isso é ataque directo! Matar e bazar!"

Duarte interveio, como era seu costume quando pressentia algo de errado: "Desculpa, mas então estamos a falar daquela vivenda já ali?" - o Sargento assentiu afirmativamente com a cabeça. Duarte ficou silencioso, olhando pensativamente para o alvo.

"Bom, os nossos flancos vão estar protegidos por outro grupos, pelos menos durante um tempo. Deverá ser suficiente para fazermos o nosso trabalho. Vocês os cinco já sabem o que fazer com certeza, rotina do costume, vão pela direita. Vocês os quatro, novatos, cobrem-nos a retirada, não vos vou arriscar ainda onde vai 'tar mais quente. Sabem o que isso significa, certo? Se for preciso, dividam-se em dois e cubram os flancos. Vamos usar aqueles muros para avançar e retirar, por isso devemos estar safos, mas nunca se sabe..."

O Sargento brilhava com a sua aura de líder natural. Com os factores actuais, as decisões pareceriam ser as mais acertadas. Ele indicou meticulosamente a posição das sentinelas e patrulhas que já tinha descoberto. Designou a cada miliciano um conjunto de alvos a abater na aproximação à vivenda, que seria a etapa mais perigosa, se feita sem rigor.
Duarte continuava pensativo. Finalmente, perguntou:

"Sargento, quem é que nos deu as informações com que estamos a basear o ataque?"4
O Sargento suspirou, já sabia que o Duarte era paranóico quanto a ataques organizados por outros. Felizmente, era normal as suas suspeitas confirmarem-se. Como tal, o Sargento alinhou nas perguntas.
"Um contacto do Fonseca, supostamente, porquê? Cheira-te mal? Tu é que foste cagar há bocado."
Duarte sorriu e pediu os binóculos, mas em vez de inspeccionar a aldeia ou a vivenda, olhou noutras direcções opostas, procurando algo. Subitamente, chama o Sargento e pede-lhe para olhar numa direcção.

"Naquela casa isolada, ali, olha pela janela, não vês vultos?"
"Caralho, é outro gajo de binóculos, e não é dos nossos! Vá lá que não está a olhar para aqui senão via-nos de certeza. Baixem-se, caralho! Foda-se, eles 'tão à nossa espera!"
"Pergunto de novo, quem é que nos deu as informações?"
"O conas do Fonseca diz que tem um contacto! Caralho, contacto dou-lhe eu se o vir outra vez. 'Pera aí!"

O Sargento retira o telemóvel de novo, e liga rapidamente ao Fonseca.

"'TOU!? Ò meu grande asno, filho duma puta, mil caralhos te fodam! É uma armadilha!, os gajos 'tão à nossa espera! Sim!... vi uma quantidade deles a olhar pelas janelas, como se estivessem à espera.... han!?... diz lá!... han!?... sim!, claro que sim... não... quem foi o cabrão que te deu informação?.... então manda-o 'pó caralho por mim sim? diz a todos para bazarem, senão é uma chacina... ah é? então morre tu se quiseres, não contes comigo, vai para o caralho, filho da cona!"

"Vamos embora, andor!"
"Mas então não vamos lutar?" - perguntou timidamente um dos novatos.
Enlouquecido de fúria, o Sargento insultou-o violentamente e informo-o que não há nenhum contracto assinado para aquela Milícia. Se ele quisesse, estaria à vontade para ficar e morrer. O novato engoliu em seco e acompanhou-os de volta para as carrinhas antes dos combates começarem. Duarte aproxima-se dele e tenta reconfortá-lo, explicando que o machismo é a melhor forma de morrer numa guerra.

"Todos nós somos orgulhosamente cobardes, e por isso vivemos mais que os outros. Tácticas de guerrilha implicam mesmo isto, jovem...."
"Então, mas o que é que te fez duvidar da situação...?"
"É simples: como eu disse, todos nós somos cobardes, e os oficiais de um exército ainda mais. Não faria sentido estarem numa vivenda na orla da aldeia, mesmo a pedir por serem atacados. Seria demasiado óbvio. Uma companhia de tropas experientes não faria isso. Há que ser pessimista nestes casos. Como tal, imaginei que se fosse uma armadilha, as tropas Inimigas estariam preparadas fora da aldeia, para nos rodearem. Daí ter tentado observar para lá dos limites da aldeia. Despachemo-nos agora, vamos, que não acredito que todos vão ser tão sensatos como nós..."

O Sargento vociferava para o telemóvel, implorando a vários líderes de bandos que fugissem.

Tocou a primeira das 12 badaladas. O silêncio da noite foi interrompido pelo rugir de explosões próximas e distantes, sendo difícil discernir entre fogo-de-artifício e sons de batalha. Contudo, o barulho ensurdecedor de disparos e explosões tornou-se imediato. O ataque havia começado, e pela maneira que começou, é óbvio que iria fracassar. Não havia nenhum elemento surpresa para auxiliar as Milícias que ainda lá ficaram, por teimosia ou desconhecimento.

O Sargento praguejou a longa marcha de volta para as carrinhas, insultando várias gerações da família do Fonseca e do seu informador.

Duarte olhou tristemente para trás, e observou as chamas na aldeia, enquanto os últimos disparos se faziam ouvir. Era mais uma derrota pesada para a Milícia.

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