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Música: Mary Jane

por Rei Bacalhau, em 30.08.15

Estão os três na praia. Estão os três à beira-mar.
Um vai observando as pessoas a passear pelas ondas, que dançavam para as evitar ou faziam de propósito para as intersectar e consequentemente se refrescarem. Neste processo aproveita para apreciar as fêmeas que por ali passem, não de forma animalesca, mas de forma curiosa.
Outro tem os olhos colocados no horizonte ténue entre os azuis do céu e do mar, pensativamente.
O último constrói um castelo de areia.
O pensador nota, sem realmente olhar, a agitação do seu companheiro observador. Pergunta calmamente:
- Estás preocupado com alguma coisa? Consigo presentir que estás ansioso e devo dizer que isso distrai-me.
- Preocupado? Eu? Não, essa agora e ora essa! Estou só aqui a apreciar as vistas, a molhar os pézinhos e a apreciar aqui o belo ar puro aqui do belo mar, e tal. Falando em apreciar a vista, olha-me só essas miúdas que se aproximam, hem? Já viste que giras são?
As miúdas passaram-lhes à frente. O pensador nem se dignou a desviar o olhar, mantendo-se fixo num ponto imaginário no horizonte.
- Não, não vi, mas parece-me que já sei a causa da tua ansiedade. Procuras algo? Ou, melhor dizendo, procuras alguém?
- O quê? Não..! Que 'tás praí a falar? Só estamos aqui nós que eu conheça. 'Tás doido ou quê? À procura de alguém? Essa agora!
O pensador olhou lenta e demoradamente para o observador, que agora se tornava o observado.
- Insultas-me ao pensar que não sei o que se está a pensar. Crês mesmo que me consegues esconder algo? É verdade que não está aqui ninguém que conheçamos, mas isso não implica que não possa aparecer alguém. Repito a pergunta, e agradeço um maior grau de honestidade: procuras alguém?
- Bom... hum... não sei...
- Que seja, eu vou facilitar, já que me pareces estranhamente contido hoje. Informa-me se estiver errado. Desde que soubeste que a Maria João costuma passear nestas praias, por coincidência as mesmas a que nós vimos, que não deixas de perscrutar todos os transeuntes. Estás certamente à espera que ela apareça. Estou errado até agora?
- Bom... quer dizer... não, mas...
- Claro que não estou errado. É mais que óbvio. Diz-me, que farias se agora a próxima pessoa a passar fosse ela? Falar-lhe-ias?
- Bom... sim... acho que sim... gostaria, pelo menos...
- Ah, gostarias? Então nem tens nada definitivamente planeado para dizer? Seria por ventura encontrá-la e começar a falar magicamente e assumir que tudo correria fluidamente?
- Eh, 'pera lá, mas onde é que queres chegar? 'Tás a dizer que vou fazer um certo tipo de conversa com ela? Do tipo... enfim.. sabes?
- Do tipo romântico, queres dizer? Talvez seja isso que esteja a implicar, sim. Como para ti tudo funciona por magia e esperanças infundadas acredito que tu acredites que conseguirias ter tal espécie de conversa com uma mulher que mal conheces.
- Mal conheço? Então? Mas já conversei tanto com ela.
- Não a conheces, não te iludas. Já deverias saber isso. De nós os três pareces ser o único que não se apercebeu disso.
O constructor olhou brevemente para cima, e imediatamente resumiu a construção da sua obra sem dizer nada.
- 'Tá bem, mas que raio tens tu contra isso? És afectado por eu falar com ela, por acaso?
- Deveras, "por acaso" sou. O que te afecta acaba por sobrar para mim, por isso tens de compreender que é minha sina manter-te sobre controlo, não vás tu fazer alguma acção menos razoável. Tentemos ser objectivos: o que é que te atrai nela?
- Não podes dizer que ela não é bonita, pois não?
- Não, não posso, mas também não posso dizer que isso é razão suficiente para te interessares nela.
- É uma razão bastante boa!
- Não me ouviste. Eu disse que não era suficiente.
- Então que raio seria uma boa razão, ora bolas?
- Depende do teu objectivo. Gostarias de procriar com ela?
- Caramba homem! C'um catano, que raio de pergunta!?
- Perdão, deveria ter eufemizado a pergunta? Apenas quero saber se a achas interessante em termos genéticos para continuar a tua herança. Se tal for o caso, poderás avaliar os atributos dela de modo a saber se ela seria uma progenitora decente.
- Que raio... não dá mesmo para falar contigo sobre isto... não estamos no BBC Vida Selvagem!
- Vou então assumir que não estás necessariamente interessado nos atributos físicos. Passemos à subjectividade. Interessa-te a personalidade dela?
- Homem, não é tão simples. Nada disto são coisas que podes medir com uma régua.
- Eu sei, daí eu ter referido a subjectividade.
- Cala-te lá um bocado, porra! Olha lá, eu posso simplesmente gostar dela pelo pouco que conheço dela e ter a sensação que ela pode ser acertada para mim, mesmo que digas que isso vai contra toda a lógica e tal. Nestas coisas simplesmente sentimos uma.. sei lá... uma sinergia, já que gostas de palavras caras, uma sinergia portanto, com a outra pessoa. Ficas a pensar: Epá, se calhar até tentava alguma coisa.
- Mesmo depois de teres provas que não consegues manter uma relação por mais de uma semana? Mesmo depois de essa sinergia se desvanecer ao primeiro obstáculo que apareça, seja da tua parte ou dela? Mesmo depois de teres sido rebaixado a cão, ainda acreditas em tais palermices?
O ataque foi fulminante. O observador sentiu-se encurralado pelas facadas invocativas do passado. Ainda teve a coragem de responder:
- Sim, ainda quero acreditar que é possível.
- Nesse caso és estúpido, no sentido literal da palavra. A conversa por mim acabou.
O pensador colocou os auscultadores nos ouvidos e instruiu o dispositivo para reproduzir músicas aleatórias.
O construtor olha por momentos para o fundo da praia. Amedronta-se com o que vê. Em pânico, levanta-se e corre para o seu companheiro observador. Puxa-o e começa a levá-lo para longe.
- Olha lá, mas 'tás doido? Essa agora! Mas larga-me! 'Tás a brincar ou quê?
O pensador não compreendeu imediatamente a reacção do constructor, por muito habituado que estivesse aos caprichos súbitos dele. Olhou para o lado e apercebeu-se da razão. Uma mulher bela e singela percorria calmamente a linha das ondas. Parou ao pé do castelo inacabado do construtor e tirou-lhe uma fotografia, divertidamente. Passou à frente do pensador, mas não o reconheceu e este deliberadamente não lhe disse coisa alguma.
Distraído pelo construtor, o observador nem reparou que Maria João acabara de passar.
O construtor finalmente deixou o observador em paz, e ambos voltaram às posições iniciais.
- Aquele gajo 'tá cada vez mais doido! Perdi alguma coisa?
O pensador olhou-o com um ligeiro sorriso matreiro. Colocou-se a seleccionar uma música no dispositivo. Sinalizou ao observador para colocar um dos auscultadores no ouvido.
O dispositivo deu a resposta que o pensador não quis dizer e que o observador não queria ouvir, ao reproduzir a música de Rick James, chamada Mary Jane.

 

 

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O Cidadão - Parte V

por Rei Bacalhau, em 28.08.15

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O Cidadão sabia a verdade sobre o que tinha acontecido na mítica batalha. Desde então não voltara a Alvim senão recentemente, e mesmo assim não visitara ainda o bairro destruído. A lembrança não o colocava num bom estado de humor, mas conseguiu fingir boa disposição ao entrar na loja de Francisco Ponciano. Tinham passado apenas dois dias desde a sua conversa invulgar. Como tal, Francisco não pôde senão surpreender-se com a chegada inesperada do Cidadão. A loja estava vazia de clientes, o que daria as condições correctas para se discutirem assuntos sérios, mas o Cidadão não tocou no assunto discutido previamente.
- Bom dia, meu caro! - cumprimentou o Cidadão mais calorosamente que Francisco esperava. - É bom ver que os habitantes aqui do bairro têm genica para se levantarem cedo! Já anda toda a gente a trabalhar... agrada-me ver isso.
Apertou-lhe firmemente a mão, como dantes.
- Bom dia!.. - balbuciou Francisco. - Não estava à espera que me aparecesse aqui tão cedo... - hesitou, querendo fazer uma pergunta óbvia de se o Cidadão iria ajudá-lo.
Este reparou nessa hesitação, calculando o seu significado. Para evitar ter que responder, mudou imediatamente de assunto.
- A sua loja até está em boas condições. É limpa, arrumada, está bem iluminada (coisa rara) e tem mesmo aquele gostinho popular que me faria vir aqui todos os dias... Estou impressionado, deveras!
Naquele momento, Francisco pôde fazer uma melhor análise do homem que poderia ajudá-lo. Os seus olhos castanhos escuros, muito negros, vibravam e brilhavam ao examinarem escrupulosamente o espaço. A sua estatura delgada e a altura média em nada reduziam a presença que o indivíduo emanava na loja. Tinha vestido uma camisola de manga curta, que realçava os músculos muito secos e definidos nos braços, serpenteados por um labirinto de veias que se relevavam contra a pele. O cabelo, castanho escuro, tinha algumas madeixas brancas, não necessariamente indicadoras de idade avançada. A pele tinha várias marcas e algumas cicatrizes, mas só há pouco é que se deveriam ter começado a notar os primeiros vincos das rugas. Uma barba leve cobria-lhe o maxilar, queixo e a zona da boca. Ele mantinha a altivez observada no outro dia, e apesar de fisicamente não o parecer, estava ali um homem forte e orgulhoso, psicologicamente inabalável. E no entanto, por outro lado, sabia mostrar-se agora humilde e sorridente e simpático, conversando sobre banalidades, colocando-se à vontade como se ele e Francisco fossem conhecidos de há muito tempo atrás.
Conversaram então sobre diversos assuntos. Francisco Ponciano até contou a história da sua vida, enquanto atendia um cliente que entretanto chegara e apressadamente saíra, apenas para comprar tabaco.
- ... é que eu nasci no interior, sabe?, e trabalhei muito na lavoura com o meu pai lá nas terras, mas isso não era a vida que eu queria. Peguei no meu dinheirinho, pedi algum ao meu pai, coitadinho, e segui um primo meu aqui para Alvim. Depois, esse meu primo ajudou-me a montar um negócio de venda de legumes, que muitas vezes vinham da minha terra, quando podia ir lá buscá-los. Foram tempos difíceis, tinha que andar sempre a competir com os hipermercados que vendiam muito mais barato... Enfim, lá me ia arranjando. Entretanto casei-me, tive os meus filhos e consegui este negócio aqui, vendendo mais que só legumes. Aqui tenho um pouco de tudo, como vê. Pronto, quando a malvada Guerra rebentou dois dos meus filhos fugiram para o estrangeiro. O outro, o mais novo, alistou-se e desapareceu. Nem nunca soube se morreu ou não...
- Esse tipo de notícias seria difícil chegar aqui em certas situações, pois...
- O senhor lutou?... na Guerra, quero dizer..?
- Sim, com certeza que sim. - respondeu o Cidadão calmamente. - Quase todos os que são da minha idade terão lutado. Para onde é que o seu filho foi destacado? Sabe?
- A última vez que recebi uma chamada dele estava colocado em Forte Verde, que até era ao pé da minha terra.
- Forte Verde? Conheço bem a zona, de facto. Foi um dos pontos de entrada principais do Inimigo na altura. Se bem que Forte Verde em si não foi severamente atacado, os combates deram-se essencialmente nas redondezas. O seu filho nunca o contactou depois disso?
- Não, nunca, infelizmente.
- Como é que ele se chama, se me permitir a pergunta?
- Alfredo. - respondeu Francisco com voz trémula e olhos húmidos.

O Cidadão fez um longo silêncio e colocou-se a observar pela montra do estabelecimento.
- Diga-me Senhor Francisco, porque é que a praça parece estar enfeitada? - perguntou finalmente.
- Ah, é uma parada que vai haver a celebrar os cinco anos desde o fim da Guerra. É daqui a duas semanas, acho eu.
- O Senhor tem aqui uma bela vista para o evento, deve passar mesmo aqui à frente da loja, não?
- Ah... sim, acho que sim, que depois a marcha deve continuar para o centro da cidade.
- Deveras interessante. - aproximou-se de Francisco e estendeu-lhe a mão. - Despeço-me por agora, deverei voltar daqui a uns dias, talvez já amanhã, dependendo dos factores. Passe bem!
- Está bem, obrigado! Até amanhã!
O Cidadão sai quase a correr da loja e desaparece entre as ruas de Alvim.

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O Cidadão - Parte IV

por Rei Bacalhau, em 25.08.15

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Infelizmente, na confusão logística após o primeiro dia de combates, ninguém se lembrou de explicar ao grupo dos Cabrões o significado dos sinais. Como tal, quando o sinal de retirada soou, os Cabrões mantiveram-se firmes, na ignorância. Ainda não tinham visto muita acção na batalha, pois os ataques do Inimigo não se focaram naquele ponto por eles guardado. Não deixaram de ficar chocados quando viram milicianos a correr na direcção do bairro de Santa Margarida. O oficial que comandava os Cabrões (que ainda hoje não se sabe ao certo quem era) ordenou aos seus homens para ignorarem a retirada dos seus aliados e para se manterem atentos ao Inimigo.
Um miliciano que corria apressadamente, carregando com dificuldade uma metralhadora ligeira, surpreendeu-se pelos Cabrões não se estarem a mexer. Pelo contrário, estes olhavam para os fugitivos com olhos esbugalhados de dúvida. Considerando que o Inimigo certamente passaria por ali em peso para atacar o último reduto preparado, era no mínimo estranho que parecessem tão... imóveis. Arriscou preocupar-se e foi rapidamente na direcção deles. Foi com choque que todos se aperceberam da falha de comunicação. O oficial comandante notou que seria necessário bastante tempo para reorganizar a defesa no reduto final. O oficial disse então ao miliciano para ele ir juntar-se à defesa. Os Cabrões comprariam o tempo necessário. Um a um, os soldados desse grupo foram avisados que iriam ser sacrificados para comprar tempo para os restantes combatentes. Foi dada a cada um a opção de se juntarem às milícias, pois era provável não sobreviverem ou serem capturados caso ali permanecessem. Dos 236 homens, apenas 21 fugiram para Santa Margarida. Os outros prepararam-se para um último combate.
Como esperado, o avanço do Inimigo não se demorou e foram avançando sem resistência pelos edifícios desocupados (por esta altura muitos poucos civis ainda habitavam as suas casas). Consequentemente, menos preocupados, pensando que se havia tratado de uma retirada total, os soldados inimigos marchavam relaxadamente pelas ruas circundantes do que é agora o Bairro dos Bodes. Os Cabrões estavam escondidos e esperavam a melhor altura para atacar.
Sabem-se poucos pormenores sobre o que terá acontecido, mas o combate foi feroz, pois as tropas Inimigas foram chamadas para convergir em massa no local. Em pouco tempo era possível observar que o Bairro dos Bodes estava cercado em todas as direcções. As rajadas formaram um chinfrim denso e constante. Nos raros momentos que os disparos amainavam, ouviam-se os gritos de dor dilacerante, sendo impossível distinguir um grito aliado de um inimigo. A dor era a mesma.
Depois de um último combate feroz, e de uma sequência incrível de explosões, os sons de luta acabaram. Os Cabrões haviam sido finalmente derrotados. Não é certo se houve prisioneiros. Surgiram vários mitos logo na altura, e, por surpreendente que seja, os milicianos não perderam moral alguma pela derrota dos seus aliados. Pelo contrário, ficaram apenas mais motivados para lutar, para honrar o sacrifício feito. Chegou-se mesmo a falar de um contra-ataque para ir procurar sobreviventes, mas o bom senso reinou.
Os homens conversavam pouco, e faziam-no baixinho. A expectativa era imensa. O bairro de Santa Margarida era delineado por uma alameda, que fazia assim, naquele momento, uma fronteira entre o território ocupado e o último reduto. As árvores que lá existiam foram deitadas abaixo para melhorar a visibilidade. No bairro, os edifícios eram um complexo labirinto de defesas montadas obrigar o inimigo a convergir para praças de massacre, como os guerrilheiros lhe chamavam, onde poderiam ser atingidos de qualquer direcção a partir de pontos estratégicos circundantes. Foram também pensadas para serem inutilizáveis pelo inimigo no caso de serem tomadas (em particular, algumas barricadas tinham uma grande quantidade de explosivos pronta a explodir remotamente). Secretamente, os milicianos haviam aproveitado as caves dos edifícios para fazerem túneis que os permitissem atravessar de um ponto para outro rapidamente. Estes túneis estavam, obviamente, prontos a explodir também. Os milicianos foram obrigados a queimar os mapas que haviam sido impressos com o sistema de túneis, para evitar que caíssem em mãos inimigas.
As defesas estavam prontas, a última resistência iria ser infernal para o Inimigo.
Foi altura do Inimigo utilizar o arsenal secreto.
Os milicianos subitamente acordaram do seu torpor temporário com um som desconhecido por alguns e já quase esquecido por outros. Um murmurar muito grave, muito abafado, muito longínquo. Ouviram-se os primeiros assobios cortantes dos obuses.
O Inimigo tinha artilharia!
A artilharia era algo raríssimo naqueles dias, pois desde a Seca dos combustíveis que a grande maioria das armas pesadas havia ficado paralisada. Tornaram-se alvos muito fáceis para as milícias, mas irrelevantes, pois eram máquinas inúteis. O Inimigo, tendo-se apercebido disso, voltou a aplicar um tipo de locomoção não existente desde as grandes guerras do século anterior: animais. Uma bateria inteira de canhões médios foi puxada por cavalos pelas estradas desimpedidas para desconhecimento total das milícias, com tanto foco que houve nas preparações da defesa. Agora que a milícia restante estava concentrada num só sítio, era altura de aplicar estes instrumentos na sua forma mais cruel.
O som sibilante perfurou o ar e estrada e terra e cimento e carne e alma. O tenebroso assobio era apenas o prelúdio dos breves vulcões que se formavam quando chegavam ao seu fatal destino, vomitando fogo, fumo, pedras e morte. As lágrimas dos fracos não eram suficientes para acalmar os fogos. A urina dos cobardes era desperdiçada involuntariamente nas calças. Os gritos de dor e horror não suprimiam os assobios, não suprimiam a voz final das bombas, não suprimiam o ruir dos edifícios.
Não suprimiam os gritos de festejo por parte das tropas Inimigas, já ali ao virar da esquina.
O miliciano, ali há momentos, orgulhoso, patriota, estóico e inquebrável fugia no caos da sua defesa perfeita levada à ruína. Como formigas num formigueiro pisado, todos andavam para todo o lado, sem objectivo concreto, tentando levantar algum companheiro de armas do chão, conseguindo na verdade apenas arrancar-lhe despropositadamente o braço ou a perna que já mal se agarrava ao corpo decepado. Pedra por pedra, os blocos de apartamentos ruíam. Os explosivos tão ingenuamente colocados como medida de defesa apenas contribuíram para a desgraça geral, colapsando os astutos túneis e soterrando os infelizes que ali estivessem. A cadeira de comando que se havia mais ou menos estabelecido colapsou mais rapidamente que os edifícios. Os milicianos debandaram, fugindo pelo único flanco da batalha que não estava em mãos inimigas. Os bombardeamentos mantiveram-se durante algumas horas, para solidificar o domínio total sobre os defensores. Já tinham sido mais que suficientes há muito tempo. As Milícias haviam fugido totalmente, ou as que podiam, pelo menos.
Os soldados inimigos entraram tropegamente no bairro, ainda cautelosos, mas só se depararam com um cenário que não tinha pessoas, nem animais, nem barricadas, nem armas, nem defesas, nem postes de iluminação, nem casas, nem prédios, nem carros, nem sinais de trânsito, nem passeios, nem ruas. Era tudo uma papa uniforme de entulho e fumo, com uma ou outra cratera reconhecível, provavelmente das últimas bombas a cair. Estava tudo deserto, nem um gemido se ouvia, nem um movimento se via. Apenas se cheirava o queimado dos fogos que ainda deveriam deflagrar no meio do entulho. Respirava-se apenas poeira, que secava as gargantas dos soldados, e os fazia tossir.
A Batalha de Santa Margarida estava acabada. Alvim estava tomada.

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Música: Running On Empty

por Rei Bacalhau, em 23.08.15

Se estou a fazer o mês de Agosto dedicado a músicas de Verão, devo dizer que nem todas serão com os ritmos que tenho falado em textos anteriores. Antes pelo contrário, hoje vou apresentar uma música que não tem nada a ver com o Verão.

O Verão é uma época em que nos reservamos para fazer tudo aquilo que dissemos ao longo do ano que "vamos deixar p'ó Verão". Para mim, uma dessas coisas é correr. Como tenho a possibilidade de ir a uma praia com uma grande extensão de areira e que não é muito populada, tenho o privilégio de poder correr livremente sem grande preocupação em desviar-me de crianças que se catapultem para a água ou em desviar-me das centenas de bolas de tamanhos variados que sobrevoam erraticamente as praias, impulsionadas pela azelhice e/ou insolência dos banhistas.

Correr, portanto. Livre, rapida e despreocupadamente, e às vezes, só porque apetece, sem ter algum objectivo concreto em mente.

Ouço várias pessoas dizer que correr, simplesmente correr, é chato. Não se faz nada, simplesmente põe-se uma perna à frente da outra durante meia hora e pronto. Eu normalmente penso para mim: "Essa agora! Eu diria que não tens a banda sonora correcta!". Reproduzir uma música mentalmente ou mesmo sonoramente quando se corre pode fazer toda a diferença. Um bom exemplo é que no circuito de cidade onde costumo ir correr fora de férias existe uma inclinação a uns 90 graus durante uns 300 metros. É nessa altura que activo o modo Rocky e reproduzo mentalmente a música de treino dele (não é o Eye of the Tiger, não me venham com essa). Muitas vezes é que o que me faz conseguir subir a treta daquela subida.

Mas estou de férias. Estou na praia. Não preciso de uma injecção de adrenalina de um calibre tão grande como o exemplo que acabei de dar. Preciso apenas de música de acompanhamento, para esses momentos em que "simplesmente me apetece correr". Eu coloquei a última expressão entre aspas por uma razão muito específica.

Existe um certo filme cujo personagem, subitamente, simplesmente apeteceu-lhe correr, como ele próprio diz. Este personagem partilha o nome com o filme: Forrest Gump. Todo o filme é icónico, e esta parte específica não é excepção. Forrest Gump simplesmente decide começar a correr, e percorre os EUA duma ponta à outra (várias vezes), por razão nenhuma.

Não pela paz mundial. Não por caridade. Não por protesto. Não para perder peso.

"I just felt like running."

Na montagem que envolve esta parte, Forrest Gump percorre paisagens acompanhado de várias músicas que ficaram inerentemente associadas àquela corrida. E para mim, por consequência, correr sem propósito associa-se a algumas destas músicas, especialmente uma: Running on Empty, de Jackson Browne.

A música não tem nada a ver com corrida como desporto ou actividade física. É uma autobiografia de Jackson Browne a contar como a sua vida foi sempre a correr metaforicamente pela estrada fora a tocar e a fazer pessoas felizes, de cidade em cidade, às vezes quase sem gasolina para continuar (ou pelo menos é o que o título implica).

Não me interessa, o ritmo da música já está tão associado à cena do filme que acabei por considerá-la uma das músicas predilectas para os meus momentos de paz atlética.

E se no futuro for à praia, quando o "chap, chap, chap" dos meus pés estiver a bater na fronteira das ondas com o areal, poderíeis ver-me cansado, trôpego, suado, coberto de areia, a ser atacado por gaivotas ou assediado por senhoras de terceira idade em topless. Mas estaria sempre a correr. Sem razão aparente.

Jackson Browne, com Running on Empty:

 

 

 

 

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O Cidadão - Parte III

por Rei Bacalhau, em 21.08.15

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O Sol penetrou os edifícios cúbicos que marcavam a Rua Lamparina, reflectindo os seus tons ainda laranjas nas superfícies ainda adormecidas, ou pelo menos naquelas cuja luz não era fatiada por obstáculos. Era o começo de um dia como qualquer outro, e os sons e os movimentos rotineiros não demoraram a demonstrar-se. Algumas luzes acendiam-se e revelavam a presença humana naquela habitação. Algumas primeiras buzinadelas iam-se ouvindo, distantes. Um ou outro "bom dia.." cansado entre residentes daquela zona davam início às interacções sociais da manhã. Os postes de iluminação desligaram-se, descansando finalmente da sua função nocturna nobre.
As pessoas lentamente injectavam vida à rua. Esta era longa, preenchida por edifícios de apartamentos dos dois lados, formando quase um túnel, com excepção das raras brechas existentes entre os prédios. Outra excepção era um cruzamento que formava uma espécie de praça, sendo o local mais agitado da rua, apesar dos poucos carros que circulavam depois da Guerra. Numa das esquinas desse cruzamento, voltada para a rua que ia em direcção ao centro da cidade, situava-se o minimercado de Francisco Ponciano. O estabelecimento já tinha visto melhores dias, mas ainda mantinha alguma da dignidade da loja tradicional pré-guerra. Com a destruição quase completa dos sistemas dos hipermercados, este tipo de negócios pequenos voltou a ter algum sucesso comercial, mas não total. Os assaltos recentes não ajudavam muito, obviamente. Mas repete-se, o estabelecimento tinha uma certa doçura exterior, típica da familiaridade de bairro que emanava.
Os restantes edifícios variavam no que tinham a dizer aos seus observadores. Alguns, bonitos, restaurados, pintados e coloridos, diriam que aquele seria um dia que valeria a pena viver, pois o passado foi lá atrás e deve ser preferivelmente esquecido. Outros, estragados, cinzentos de fumo, esburacados, rachados, quebrados, partidos, disfuncionais, relembrariam a todos que a Guerra não foi assim há tanto tempo, pois as cicatrizes ainda estavam visíveis, se não sangrassem mesmo ainda. A cidade de Alvim foi palco de alguns cenários particularmente violentos, onde a Pátria sofreu pesadas derrotas. É, por muitos nacionalistas, considerada uma das maiores cidades-mártires da Guerra. Depois da Ocupação, a cidade foi, de forma não oficial, promovida a uma espécie de santuário por todos aqueles que queriam um lugar relativamente livre da chamada "tirania" dos invasores.
A pior dessas derrotas deu-se no bairro conhecido como Santa Margarida. Coincidentemente, não é muito longe da loja do senhor Francisco, e se calhar alguns dos danos visíveis nos prédios circundantes ainda seriam dessa altura. Os relatos sobre o que aconteceu variam muito, dependendo da lealdade da pessoa que o conta. Há a versão dos invasores, que a contam como uma vitória esmagadora sobre os restantes combatentes de uma cidade praticamente tomada. Há a versão dos defensores, que a contam como uma resistência heróica que durou semanas e que resultou na destruição de divisões inteiras do Inimigo. Felizmente, como em todas as histórias, há a versão de uns, a versão de outros, e a Verdade:
A cidade de Alvim situava-se como um dos últimos pontos estratégicos fundamentais para um avanço contra a capital, pois na prática dividiria o território invadido em duas partes. Para a liderança Inimiga isto era o mais conveniente, pois teriam a capacidade de impedir o envio de tropas para salvar a capital. Ambos os exércitos tinham noção disto, e a ambos foi cultivada uma fúria de conquista e defesa, respectivamente. Contudo, o exército nacional estava desorganizado, mal equipado, desmoralizado e malnutrido. Estavam em retirada constante há semanas, combatendo algumas escaramuças antes de fugirem, muitas vezes deixando equipamento para trás. Chegavam às centenas a Alvim, que já não conseguia suportar um tão crescente número de soldados e civis (que também fugiam desesperadamente do interior). Os que ali chegavam eram abordados por patrulhas para seguirem caminho para o Sul, se pudessem (e em certos casos mesmo que não pudessem). Os que tinham mantimentos próprios obedeciam, até porque lhes diziam que o exército Inimigo iria chegar em peso em pouco tempo. Apesar disto, muitos não tinham escolha senão ficar, especialmente quando começaram os boatos de roubos e ataques aos viajantes indefesos.
Os recém-chegados amontoavam-se nas casas que ficassem vagas quando os donos partissem, se estes tivessem sorte. Por vezes, estes donos eram obrigados a partilhar a casa com outras famílias, ou por "caridade" ou por ameaças. A Guarda Nacional pouco podia fazer para controlar estas situações, já que estava tão ocupada a preparar a cidade para um eventual cerco, que se adivinhava inevitável.
Quando se confirmou que o exército Inimigo marchava sem oposição em direcção a Alvim, o exército nacional convocou uma reunião pública, na esperança de discutir uma estratégia de defesa com os vários grupos de milicias existentes. Isto era inédito até à altura, e pouquíssimas vezes se fizeram reuniões semelhantes no resto da Guerra. O Exército Nacional tinha várias divergências com as milícias, em termos tácticos, estratégicos e patrióticos, já que grande parte das milícias era composta por desertores do exército, por discordância total com as ordens por vezes suicidas que os oficiais de topo davam. Estranhamente, nesta situação específica, os oficiais Nacionais tiveram mais senso militar que as milícias.
Para o Exército a cidade de Alvim era fundamental para o controlo da região circundante, mas o ponto verdadeiramente relevante seria a abertura quase total a que a capital estaria exposta no caso de Alvim ser conquistada. Contudo, situava-se numa posição geograficamente pouco defensável, e o Inimigo teria facilidades em rodear e flanquear a cidade, cortando linhas de abastecimento, por poucas que fossem. Defender a cidade, por muito heroicamente estóica fosse a decisão, era impensável, mesmo tendo em conta as consequências estratégicas. Estavam em inferioridade numérica, menos bem equipados e abastecidos, numa posição caótica... Haveria apenas uma hipótese para os estrategas Nacionais. Recuar alguns quilómetros e concentrar as defesas em duas vilas com muito melhores características para uma defesa duradoura. O plano seria então de abandonar Alvim, começando o mais cedo possível a evacuação.
As milícias não reagiram com choque. Já esperavam uma decisão desse género. Vários chefes milicianos contestaram a ideia. Alvim era uma cidade importantíssima, não só em termos militares, mas culturais principalmente. Era necessário lutar por ela, correndo-se o risco de se perder parte da identidade nacional. Na verdade, conscientemente ou não, os milicianos precisavam da presença do exército Nacional para a atenção do Inimigo não estar concentrada nas milícias, que conseguiam agir com algum conforto no meio das linhas inimigas. Se tal retirada proposta viesse a acontecer isso poderia significar a perseguição feroz das milícias daquela zona por parte do Inimigo. Muitas poderiam ser apanhadas desprevenidas, já que a comunicação entre grupos de milícias diferentes não era bem organizada, salvo específicas excepções. Não seria possível avisar as várias centenas de homens nos campos nos arredores que lutavam a guerrilha. Não todos, pelo menos. O argumento da importância cultural da cidade era portanto uma meia-verdade. Na política, a autopreservação dos indivíduos e dos seus interesses fá-los arranjar justificações, verdadeiras ou não, para as suas acções e decisões. A guerra é apenas uma forma mais violenta de política.
As discussões continuaram várias horas, e depois de vários desentendimentos, o Exército finalmente decidiu: iam retirar. Quem os quisesse seguir que se concentrasse nas vilas de Ralhões ou de Marmada. Por sua vez, os milicianos declararam que ficariam.
E ficaram.
Chamaram o maior número de milicianos possível das zonas circundantes. Os poucos grupos de milícia que tinham meios de comunicação entre eles usaram-nos para chamar milícias de muito mais longe, e, para surpresa dos milicianos de Alvim, depois da retirada das tropas Nacionais, começou a chegar um número muito maior de milicianos de terras muito longínquas, do Norte e do Sul. Aparentemente, de maneira completamente inesperada que ia contra a normalidade miliciana, vários grupos receberam a mensagem de pedido de auxílio de Alvim, e quase todos pensaram que poderia ser o momento de viragem da guerra, onde as milícias poderiam triunfar onde o Exército, corrupto, desorganizado e ineficaz, não conseguia: derrotar o Inimigo. Apesar de parecer improvável, a verdade é que as milícias eram muito mais experientes que os novatos do exército Nacional, e em certos casos estavam melhor equipadas, com armamento roubado ao Inimigo. Nas duas semanas em que este fenómeno se verificou, notou-se um aumento da organização intermilícias, pelo menos para aquela batalha. Cada grupo agiria de forma independente, mas haveria um mapa geral que delinearia as zonas pelas quais cada grupo seria responsável por defender. Certos grupos agiriam como reforços em zonas mais atacadas, e avisou-se os vários milicianos que poderiam ter de se integrar noutro grupo no meio da batalha. Esse mapa também delinearia três orlas principais da cidade. Todos os grupos deveriam retirar para uma orla mais interior caso um sinal combinado fosse activado: um alarme sonoro para retirar para a segunda orla e um foguete de sinalização para a primeira. Deste modo nenhum dos grupos seria apanhado de surpresa num flanco. Construíram-se defesas nos limites dessas orlas, com todos os objectos que se encontrassem. Empilharam-se sacos de areia nos locais mais importantes, e noutros o mobiliário dos habitantes ausentes teria de ser suficiente. Este tipo de barricadas já se havia provado relativamente eficaz contra ataques de infantaria, que era o esperado para esta batalha. A segunda orla aproveitava o rio para estabelecer pontos onde o Inimigo teria de se afunilar, facilitando a defesa. Se as pontes caíssem, a primeira orla situava-se numa pequena colina, num bairro pacato, mas com excelente visão da acção: o Bairro de Santa Margarida. Seria esse o último ponto de defesa, caso necessário.
Duas semanas e meia depois da retirada do Exército, ouviram-se os primeiros disparos nos arredores de Alvim. O Inimigo havia-se finalmente organizado e preparado o ataque. Duas divisões inteiras, com cerca de 20000 homens, marchavam cautelosamente sobre Alvim, perscrutando emboscadas nos caminhos até à cidade. No início da batalha, os milicianos tinham conseguido amassar 5383 homens e mulheres combatentes, e um número indeterminado de auxiliares civis, como pessoal médico, despenseiros, entre outros. Tinha sido deveras conveniente que algum atraso no exército Inimigo o tivesse feito demorar mais tempo que esperado, e portanto tivesse havido tempo para reunir forças. Sabe-se agora que era esse o plano do Inimigo desde que perceberam que tantos milicianos se haviam juntado num só sítio.
A pior praga de uma milícia é o colaborador, ou seja, aquele que coopera com o Inimigo, traindo os seus compatriotas em troca de algum benefício. Foi precisamente um destes que informou que as milícias de quase todo o país estavam a convergir em Alvim. As milícias eram um espinho bem preso na máquina de guerra Inimiga, e por isso o comando Inimigo decidiu aproveitar a rara oportunidade. O plano seria então deixar as milícias reunirem-se e prepararem-se. Dum só golpe poderiam aniquilar as milícias e equilibrar imediatamente as linhas de abastecimento que eram constantemente atacadas pelos mesmos. Seria a altura perfeita para usar uma arma secreta, que as milícias não esperariam.
A Batalha de Alvim começou com uma série de ataques pequenos para testar as defesas das milícias. Era uma táctica frequente do Inimigo. Há muito que tanques e camiões e aviões e artilharia e outras máquinas estavam ausentes dos campos de batalha, com a falta global de combustível. Como tal, cabia à infantaria fazer todo o trabalho da invasão sem suporte algum. Isto dificultava imenso a transposição das barricadas construídas, e normalmente resultava numa perda significativa de homens por parte do Inimigo. Os ataques pequenos mencionados serviam para expor os melhores pontos de penetração na orla defensiva montada. Estava claro para o comando Inimigo que a defesa era cerrada, como previsto. Mesmo assim, decidiram reservar a surpresa que tinham para o fim, já que parecia que iriam defender a cidade até ao fim, teriam com certeza um ponto final de resistência montado. O objectivo seria eliminar o máximo número possível de milicianos nesse local.
O ataque em massa deu-se essencialmente em três sítios, onde parecia inicialmente haver alguma esperança de aguentar firmemente a posição para os milicianos. No entanto, depois de duas horas de combates muito intensos e violentos, com perdas horríveis para ambos os lados, os milicianos cederam. Iriam retirar para as pontes. Soou o primeiro sinal, o alarme.
Em quinze minutos, as restantes barricadas da orla exterior foram abandonadas, e os vários grupos de milícias foram sendo reorganizados para novas posições ao longo da hora seguinte. Conquistar as pontes seria uma tarefa mais complicada para o Inimigo, pois não tinham vantagem alguma em termos tácticos, como atacantes. Diz-se que neste ponto nem os soldados Inimigos sabiam que de facto existia uma vantagem possível, mas que estava conscientemente a ser poupada para o fim. É discutível se os soldados não pensassem duas vezes antes de irem deliberadamente para a morte sabendo que existia uma opção.
Passou-se o dia sem novo ataque.
A milícia redistribuiu munições, tratou de feridos ligeiros e recebeu de bom grado alguns reforços do Sul durante a noite, 236 homens liderados por um oficial do Exército Nacional que havia desertado quando soube da batalha heróica que a Milícia iria lutar sozinha. Chamaram-lhes afectivamente "Os Cabrões" e foi-lhes designada uma área para defender relativamente maior, devido ao seu número mais elevado. A essa zona chamou-se futuramente Bairro dos Bodes (pois "cabrão" poderia ofender), em honra aos que lá lutaram.
O ataque Inimigo recomeçou logo de manhã, ao raiar do dia, esperando apanhar os defensores desprevenidos. Nesse sentido falharam, pois levaram imediatamente com fogo pesado. O Inimigo colocou vários botes nos rios, para espalhar a atenção dos milicianos. Alguns soldados inclusivamente nadavam apenas com uma pistola, que desesperadamente tentavam manter seca, para causar a confusão na outra margem. Em alguns locais estes nadadores e estes desembarques tiveram sucesso em perfurar a orla defensiva, mas sem apoio algum foram rapidamente mortos. As granadas de fumo eram o pior risco que os milicianos enfrentavam, pois poderiam tapar o avanço do Inimigo, reduzindo significativamente a letalidade de uma tentativa de atravessar uma ponte. Foi com este estratagema, que depois de inúmeras tentativas, o Inimigo rompeu a barricada montada na Ponte dos Azeites. Os defensores ainda tentaram demoli-la, mas os explosivos que haviam sido colocados como precaução não detonaram (veio-se a saber que foi por obra de um colaborador, entretanto apanhado e "julgado" sumariamente). Explodiram-se as restantes pontes, e todos os esforços concentraram-se na Ponte dos Azeites, numa tentativa de a recapturar. Foi um dos pontos marcantes de toda a batalha, pois a carnificina foi particularmente hedionda nas ruas que rodeavam a ponte. As facções avançavam e retiravam dinamicamente, e os cadáveres abraçavam-se e acumulavam-se, já quase sem distinção entre miliciano e soldado. As nascentes vermelhas que brotavam dos corpos desaguavam no rio, que tomava uma cor escarlate quase bíblica. Ao anoitecer, a situação mantinha-se, mas era óbvio que o Inimigo iria conseguir transportar muitos mais homens por aquela ponte. A situação tornara-se indefensável. Lançou-se um foguete de sinalização. Era o segundo sinal.
A batalha de Santa Margarida iria começar.

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O Cidadão - Parte II

por Rei Bacalhau, em 18.08.15

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O Cidadão observou o par improvável a subir a rua, e era visível que Francisco Ponciano avançava muito mais seguramente do que tinha originalmente vindo. O quarto ficou com um ambiente abafado, quase húmido, sem dúvida de toda a transpiração que havia decorrido naqueles recentes momentos. A respiração tornara-se cansativa e os olhos cansados. Era o momento provavelmente ideal para abrir uma janela.
Uma brisa leve soprou para o quarto, ainda mais influenciada pela enorme diferença de temperaturas que se notava entre os dois espaços, o interior e o exterior. O quarto inteiro pareceu respirar de alívio; as cortinas esvoaçavam relaxando-se; os cristais do candeeiro chocalhavam docemente uns com os outros, criando uma música caótica, embora suave; os mapas, tão recentemente e habilmente escrevinhados e riscados, faziam uma tentativa de fuga da mesa que os suportavam, auxiliados pela brisa, mas impedidos pelos vários objectos que lhes repousavam em cima, como canetas, marcadores, telemóveis, um cinzeiro inutilizado, o candeeiro que tentava iluminar a sala, mais canetas e mais marcadores, todos actores numa batalha fútil entre as forças gravíticas e as forças do vento.
O Cidadão observou silenciosamente a noite, que parecia retribuir-lhe o gesto, penetrando-o com o luar particularmente forte que se havia agora posto.
- O que é que achas, Lucas?
Um indivíduo entra no quarto a partir de outra divisão contígua. Procede imediatamente, com calma, a apagar a luz do candeeiro. O quarto parece adormecer até os olhos se adaptarem à ainda mais tépida luz da Lua. O homem aproxima-se do Cidadão, ainda sem lhe responder verbalmente. Coloca-se lentamente ao seu lado, e contempla quase romanticamente a noite, parecendo procurar uma resposta à pergunta.
Suspira.
- Poderá ser obra dele. Tem todo o aspecto disso. - responde finalmente Lucas. A voz era tímida e fraca e a frase foi dita com substancial passividade, deveras delicadamente.
- Sabê-lo-íamos detectar não é verdade? - esperou que Lucas acenasse afirmativamente - Creio que o Adérito também sentiu isso quando ouviu falar deste estranho caso pelas ruas. Acho que esta parte não sabes, mas não foi por acaso que o Adérito foi à loja do senhor Francisco. Ele está sempre atento a este tipo de notícias incomuns, felizmente. Se assaltos não são de todo raros, sendo que ainda hoje há pilhagens num ou noutro sítio, é de estranhar a grande capacidade de organização que mentes simples de assaltantes conseguem ter neste caso. Não pode ser coincidência... Já olhaste ali para o mapa que desenhámos? As lojas que eles escolhem assaltar parecem ter sido rigorosamente escolhidas, pois há outras na área que nunca foram sequer tocadas, tanto quanto percebi. O que é que estas lojas em específico têm de especial? Tenho uma teoria, que vou verificar a partir de amanhã com ajuda do Adérito, e é o que me faz pensar que é obra de um dos nossos.
- Porque é o que nós faríamos, certo..? - completou Lucas.
- Deveras, porque é o que nós faríamos. - confirmou o Cidadão.

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Música: Jin-go-lo-ba

por Rei Bacalhau, em 16.08.15

Permitam-me o cliché de dedicar este mês de Agosto ao Verão.

Uma pessoa irá imediatamente pensar em sons africanos ou caribenhos ou uma junção das duas. Bem se sabe que nós europeus não temos nenhum desses ritmos quentes (excepto talvez o Flamenco, lá das Espanhas, mas não tenho a certeza).

Enfim, não será com dificuldade que se adivinhará que hoje o protagonista principal será Carlos Santana. Se alguém combinou famosamente os ritmos africanos com rock e tal, terá sido ele o pioneiro, pelo menos.

É com alguma pena que o Santana nesse aspecto seja mais geralmente reconhecido, mas não necessariamente atribuído, por esta música: Smooth.

 

Não me interpretem mal! Não desgosto da música, apesar de preferir não ver o videoclip, pois fede a anos 90. Poderá ter sido assim uma das últimas músicas "recentes" extremamente pop que teve um solo de guitarra dos tempos antigos.

Seja como for, não é certamente esta música que reflecte o que é/foi Santana.

Em 1959, um ugabuga qualquer compôs uma música de percussão, e acho que conseguem imaginar como é que será uma música africana com bongos e tambores e essas coisas que um branquelas como eu não consegue identificar (para quem tiver curiosidade, o ugabuga do qual desrespeitosamente falo, mas sem ofensa, chama-se Babatunde Olatunji, e não é da Ugabugalândia, mas sim da Nigéria).

A música chama-se originalmente Jin-Go-Lo-Ba. Não estava a planear meter a versão original aqui, mas bem vistas as coisas, é relevante em termos culturais, e por isso decidi fazê-lo. Como tal, Jin-go-lo-ba, de Babatunde Olatunji:

 

A música só ficou realmente conhecida quando o Carlos Santana pegou nela para o seu álbum de estreia, ainda no agrupamente homónimo, Santana. Se me dizem que não é uma música de Verão, achar-vos-ei malucos, pois ela transpira ritmo, calor, dança e sexo.

Poderia colocar aqui a versão original, mas parece-me que o tempo é mais recompesador se for gasto a ouvir uma versão ao vivo com o Eric Clapton e restante banda de suporte, que fazem um trabalho estupendo.

Ora portanto, Santana, com Jingo!

 

 

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publicado às 16:17


"Era preto!"

por Rei Bacalhau, em 16.08.15

Hoje estava a conversar com a minha avó.

A certa altura ela estava a descrever um homem, não interessa o contexto.

Foi o seguinte, não palavra por palavra, mas muito perto:

 

"Era um ladrão. Ah não, não é ladrão que quero dizer, era preto!"

 

O meu comentário racista preferido de hoje.

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publicado às 01:13


Aljubarrota

por Rei Bacalhau, em 14.08.15

—"Como! Da gente ilustre Portuguesa
Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?,
Como! Desta província, que princesa
Foi das gentes na guerra em toda a parte,
Há-de sair quem negue ter defesa?
Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
De Português, e por nenhum respeito
O próprio Reino queira ver sujeito?

 

Os Lusíadas, Canto IV, estrofe 15

 

 

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publicado às 21:29


O Cidadão - Parte I

por Rei Bacalhau, em 14.08.15

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Àquelas horas tardias, a rua estava deserta, fria e escura. A Lua estava numa luta constante com as nuvens para poder observar o seu domínio nocturno. Os postes de iluminação curvavam-se tristemente pela estrada fora, contemplando o alcatrão, esperando pelo menor sinal de movimento. Eis que surgem dois homens, e não poderiam ser o oposto um do outro de forma mais marcante.
O primeiro, um preto, de cara alegre e pouco enrugada, confiante no seu passo como se todas as preocupações do mundo conturbado em que vivem fossem inexistentes. Era de estrutura magra, mas atlética, e mais baixo que o seu companheiro de viagem.
Este segundo era um branco idoso, de cabelos brancos bem definidos pela sua calva. Era alto, enorme, barrigudo, e bafejava nervosismo ao andar, claramente desconfortável pelo seu passeio.
O velho aparentava seguir o preto, pelos múltiplos olhares hesitantes que lançava em redor, e pelo facto de parecer estar sempre um passo atrás, como se não soubesse para onde se dirigiam. Nas tentativas fúteis em que o preto abordou o velho para uma conversa banal, este respondia monossilabicamente com a voz tremida. O aspecto dos edifícios assustava-o, pois nunca tinha estado dentro dum destes bairros, e tinha certeza que a noite o fazia ver coisas que não poderiam realmente estar lá. Figuras estranhas, vultos a saltar para os becos, como se o observassem. Na verdade, era bastante possível que se não fosse pela sua companhia, este pobre velho já teria sido abordado por vários indivíduos, com intenções certamente criminosas.
Mas eles sabiam quem era aquele preto. Mais ainda, sabiam a quem o preto estava a levar o velho. E, nessa assunção, sabiam por último que abordar aqueles cavalheiros só traria complicações. Pelo menos enquanto Ele estivesse por ali.
Subitamente o preto pára. À direita dos dois homens está um beco, escuro como breu, fatal como o covil de uma aranha. O mais triste e solitário dos candeeiros ilumina unicamente o beco, e mesmo assim falha periodicamente na sua nobre função, deixando o beco num negro constante e terrível. Uma única porta é acessível por aquele beco, e é para lá que o preto se começa a dirigir, depois de tomar algumas precauções, olhando cautelosamente para a rua expectante.
São apenas alguns passos, mas o velho não pôde deixar de notar o lixo empilhado, o cheiro nauseabundo a algum animal morto, a humidade estranha que se lhe colava aos sapatos, a sensação constante de ser observado por uma ou mais entidades escondidas, sendo que quase se sentia o seu desejo de atacar este forasteiro nervoso. Mas nada viu, nem nada ouviu. Não conseguia mesmo assim compreender como é que alguém se permitia viver em tal antro aparentemente selvagem. E, no entanto, daí a instantes iria conhecer um homem que satisfazia tal loucura.
A porta estava aberta, e o preto entrou despreocupadamente, segurando a porta para o velho. Quando este a fechou, sentiu-se como se encurralado, e teve um reflexo para verificar se a porta não estaria agora bloqueada. Contudo, impediu-se de o fazer, não querendo causar a impressão errada. Numa primeira atitude disfarçada de coragem, pôs-se a seguir o preto, desta vez com o passo decidido, se bem que mesmo assim um tanto trémulo ainda. Ambos sobem umas escadas velhas e gastas de madeira, que rangiam à menor pressão aplicada. Notam-se ainda as marcas, como fronteiras, de alguma espécie de alcatifa que algures no tempo terá embelezado aquele lanço de escadas ordinário. Às paredes ia caindo a tinta e a humidade espalhava manchas enormes e negras como se a Natureza se quisesse expressar através destes padrões artísticos aparentemente involuntários. Chegados ao primeiro piso, escuro pois não havia electricidade no corredor, são atraídos como insectos pela luz proveniente de uma porta encostada, pacientemente à espera dos dois visitantes. Estes entram sem uma palavra trocada, fecham a porta e deparam-se com um contraste agradável ao exterior. O preto já estava claramente habituado, pois não deu muita importância e teve de chamar a atenção do velho quando reparou que este reparava na limpeza e organização geral do apartamento.
A primeira divisão da casa, o vestíbulo, era iluminada mais decentemente que se poderia imaginar, num bairro cujas potencialidades eléctricas eram duvidosas. Era uma entrada simples, pouco mobilada, mas se a primeira impressão é a mais forte, o velho ficou com a noção que o dono seria um homem de rigor só pelo estado de limpeza e arrumação que era apresentado a um visitante logo ao entrar. Na cardência, até os poucos objectos presentes pareciam estar impecavelmente alinhados, consoante alguma regra visual apenas conhecida pelo dono, mas claramente existente.
O preto acorda o velho do seu êxtase em ver beleza relativa de novo, e finalmente condu-lo à sala, que faz um novo contraste em termos de iluminação, sendo esta tepidamente fornecida apenas por um pequeno candeeiro de mesa no canto da sala. Do lado oposto, encontra-se erecta uma figura, masculina, quase camuflada pela falta de luz, penetrando o infinito da noite com uma expressão grave e dura no rosto.
O homem, ainda obscurecido, roda a cabeça para observar os recém chegados. O velho estava, erradamente, à espera que o homem com que se iria encontrar também fosse preto, mas tal não era o caso. Agora mais perto, conseguiu reconhecer um indivíduo branco, de contornos faciais finos e bem definidos, um nariz torto e sobressaído, que lhe dava um ar altivo, apesar das restantes características faciais mostrarem maior humildade. Uma barba não muito espessa cobria-lhe o maxilar, que mesmo assim escondido revelava-se largo, poderoso e definido, cobrindo ainda a área à volta da boca, tornando esta uma ilha vermelha distinta, mas séria e imóvel.
Foi aí que o velho observou este novo conhecido nos olhos, que o observavam com incerteza. Eram olhos perscrutadores e muito vivos, dois pontos escuros afundados numas olheiras que enganariam qualquer um a pensar aqueles olhos não poderiam ser muito activos. Brilhavam ao movimentarem-se incansavelmente, saltitando de um ponto para o outro, vendo, recolhendo, analisando, minuciando, detalhando, violando todo o pormenor do velho. Naquela primeira impressão, aqueles olhos pareceram verdadeiramente vorazes, quase psicopatas, olhos que já haviam visto mais do que poderia ser facilmente contado. E no entanto, o homem não parecia ter ainda 40 anos.
O homem aproximou-se do preto finalmente, sorrindo, para surpresa do velho, com visível agrado, numa transformação facial confortante. Abraçou-o.
- Adérito, meu caro, há dois meses que não te vejo, homem! - hesitou, olhando para o velho, e continuou. - Assumo que terá corrido tudo bem desde essa altura, com todos os assuntos? - reforçou esta última palavra, como para dar a entender do que falava sem revelar mais.
O preto, sabe-se agora que tinha Adérito como nome, mostrou um sorriso branco que tanto lhe contrastava com o seu tom, especialmente com a fraca iluminação, e respondeu:
- Sabes bem que não, mas talvez possamos arranjar uma solução para o problema. Por agora, gostava de te apresentar uma pessoa, que é a razão pela qual estou aqui, como te disse há bocado.
O homem assentiu, e viraram-se os dois para o velho, que quase se sentia só, deixado à porta da sala na expectativa. O homem estendeu a mão com um sorriso afável e honesto, como um cumprimento normal noutra situação social banal qualquer, que esta não era de certeza.
- Este é Francisco Ponciano, e a história dele chamou-me a atenção quando ia a passar na rua e ouvi gritos e confusão. Com o que vi acontecer, pensei que pudesse utilizar os teus serviços. - Adérito sorria misteriosamente ao acabar a frase.
O homem avaliou Francisco mais uma vez, mas o seu olhar tornara-se menos intimidador, tendo-se transformado em algo mais divertido e curioso, com expressão facial a condizer, pois sorria levemente. Os dois desconhecidos selaram o aperto de mão, e o velho notou uma força enorme na mão firme que apertava, força esta que não hesitou em retribuir. Isto pareceu satisfazer o misterioso homem, que falou de seguida, numa voz calma e pausada.
- Obrigado por ter vindo Senhor Francisco. Conte-me o seu problema e eu dir-lhe-ei se sou a pessoa mais indicada para o ajudar ou não. - dito isto, convidou todos a sentarem-se no sofá, para mais confortavelmente se poder começar aquela reunião. Os sofás eram demasiadamente macios, sendo que seria uma tarefa árdua quando fosse para se levantar, pois os corpos enterravam-se na espuma. Talvez por essa razão, ou por outra, o homem manteve-se em pé, junto à janela.
O velho não sabia bem por onde começar a história toda, visto que os eventos eram ainda muito recentes e não saberia se lhe faltaria dizer algum pormenor importante. Notando isto, o homem em pé disse simplesmente:
- Conte tudo desde o início, mesmo que já tenha contado ao Adérito. Não tenha medo, nada do que for dito aqui será sabido por outros. No final poderei fazer algumas perguntas para clarificar algum ponto menos bem entendido.
- Sim, claro, caro senhor, não terei problema algum, agradeço desde já... -a voz começou trémula, mas foi ganhando confiança à medida que as frases eram sofregamente proferidas. - Chamo-me Francisco Ponciano, como já sabe, - aqui hesitou porque lembrou-se subitamente que o homem não se tinha apresentado com qualquer nome - e sou dono de um minimercado no Bairro da Barrada. Já cá estou há 20 anos e acho que nem no tempo da Guerra vi as coisas da maneira como estão.
Fez-se um breve silêncio, pois a presença do homem de pé pareceu ganhar volume ao ser proferida a Guerra, após uma inspiração longa e demorada, e tenebrosa. A afirmação que Francisco havia feito tinha um peso muito maior do que poderia imaginar para os restantes presentes naquela sala. O homem moveu-se ligeiramente, como se subitamente incomodado, e colocou-se a observar a rua pela janela, mantendo a atenção na narração de Francisco. Adérito fez uma careta enrugada e preocupada como se soubesse o que o homem estaria a pensar, e recostou-se ainda mais profundamente no sofá engolidor.
- Há umas semanas atrás, estava a ser um dia relativamente calmo em termos de fregueses, maioritariamente o pessoal habitual do bairro, quando entram uma quantidade de miúdos, ou jovens, como quiser, de aspecto muito duvidoso. Eles andaram por lá como se andassem a preparar alguma, e eu já me estava a alertar. Ora então eles começam a pegar em produtos das prateleiras e a fugir, mas sem grandes preocupações. Vou a correr atrás deles, mas já não os apanho. Obviamente chamei a polícia municipal, - o homem à janela esboçou um esgar que poderia parecer um sorriso - mas eles pouco ou nada fizeram. Disseram que já tinham havido outros problemas na zona recentemente e que estariam no bom caminho para os apanhar. Infelizmente não foram rápidos o suficiente, porque mais uma vez os mesmos jovens apareceram na semana a seguir e já sem grandes preocupações roubaram e fugiram com mercadoria, mesmo antes que eu os visse! A polícia prometeu maior vigilância, e por uns dias apareceram alguns agentes lá à porta, mas não tornaram a aparecer. Há dois dias, assaltaram-me outra vez, e desta vez roubaram dinheiro, e apontaram-me uma faca! - as mãos a e voz de Francisco tremiam com a recordação atroz. - Eles estão a levar-me à ruína. Nem tanto pelo dinheiro, mas pelos nervos que me causa isto tudo, compreende? Eu já não sabia o que fazer, apesar de chamar mais uma vez a polícia... Já receava pela minha vida... - Os olhos de Francisco humedeceram-se e este não conseguiu impedir um soluço de se lhe escapar da alma.
- Continue, peço-lhe. - afirmou, tranquilizantemente, o homem ouvinte.
O pobre velho recompôs-se e prosseguiu, finalmente:
- Outros comerciantes que estavam a sofrer do mesmo tipo de ataques disseram-me que estavam a ser abordados por uns indivíduos de uma empresa de segurança privada, que sabiam que estavam a haver problemas naquela zona, e que ofereciam a protecção necessária, por um custo relativamente pequeno. Tanto quanto sei muitos acabaram por aceitar, nem que seja só para conseguir manter o negócio. Sermos assaltados todas as semanas não pode ser! Foi então que ontem, quando o seu amigo Adérito veio à minha loja fazer umas compras e ainda viu algumas coisas partidas e aí perguntou o que é que se passava. Eu imaginei logo que o seu amigo fosse um dos tais indivíduos da empresa de segurança, mas contei-lhe à mesma, nem que fosse para saber qual seria a oferta. Ora... quando chego ao final, aqui o senhor Adérito fez-me uma proposta que não estava à espera:
"Conheço um homem que é capaz de o ajudar, um cidadão especializado neste tipo de situações. Ele não lhe deverá pedir nada em troca."
- Demorei um bocado a ser convencido, mas o senhor Adérito foi tão insistente, e eu tinha pouco a perder, que acabei por concordar vir aqui, mesmo que fosse a estas horas suspeitas da noite...
- Posso assumir que o senhor Francisco já chegou ao fim da sua narrativa? - interrompe subitamente o obscuro homem.
Francisco assentiu com a cabeça, e o homem afastou-se com um impulso da janela e juntou-se aos companheiros nos sofás devoradores, refastelando-se num dos sofás individuais. Meditou uns momentos no assunto e finalmente rematou:
- Vou-lhe agora fazer umas perguntas, dou-lhe o direito de não responder se não quiser. É um caso muito interessante, mas as repercussões poderão ser maiores do que aquelas que o senhor imagina. Responda-me então com a maior certeza possível.
Parou como que esperando um assentimento por parte de Francisco Ponciano. Depois começou.
- O senhor não fez nada que os fizesse aumentar a agressividade dos assaltos? Não estou a contar o facto de ter chamado a polícia. Tentou de algum modo magoá-los quando os perseguia?
- Não, claro que não, eu não teria hipótese de me defender! - respondeu Francisco, quase chocado com tal sugestão.
- Eles atacam sempre à mesma hora?
- Mais ou menos, foi sempre à volta das 11 da manhã, nunca fugia muito.
- Os seus colegas comerciantes que também foram vítimas, sabe se a eles também atacaram à mesma hora?
- Não, não sei, mas sei que alguns foram nos mesmos dias que eu.
- Deveras? - o homem esboçou um sorriso leve. - E esses "alguns" estão relativamente perto de si?
Francisco pensou por instantes, querendo ser completo e preciso na resposta, pois a tenacidade com que lhe perguntavam estes factos parecia querer dizer que o homem tinha alguma teoria em mente que queria comprovar.
- Deixe-me facilitar-lhe a vida, se calhar. - disse impacientemente o homem. Levantou-se a aproximou-se de uma mesa, e convidou Francisco a fazer o mesmo. Este ficou admirado por se encontrar com um mapa da cidade. Nele estava apenas desenhado um círculo com marcador, e surpreendeu-se mais por perceber que era a posição do seu minimercado. - Acha que sabe apontar-me os restantes locais dos assaltos? Se puder mostre-me primeiro aqueles que foram assaltados no mesmo dia que o senhor, e depois os restantes. Sei que é preciso algum esforço, mas tente-se lembrar, peço-lhe. Esta é informação que me é difícil de obter, mas totalmente fundamental para a compreensão do caso.
Francisco já suava, relembrando-se, forçosamente, um a um, de todos os comerciantes aos quais havia ocorrido o mesmo.
- Há o Almeida, tem a mercearia não muito longe, é no final da rua, deixa lá ver... é mais ou menos aqui.. está aqui o cruzamento, pois.. sim, é aqui... O Vasco tem o quiosque ao pé da estação, mas ele só foi assaltado uma vez, mas aponto-o já... O Trindade e o Silva são doutro bairro, espere lá que visto daqui não consigo compreender bem... ora, segue-se esta estrada, rotunda, sim, agora aqui, pois o Silva é já nesta esquina, e o Trindade tem o talho numa rua paralela, deve ser esta.. é sim, deve ser...
Francisco Ponciano fez um trabalho notável. Demorou algum tempo, e precisou às vezes do recurso ao telemóvel de Adérito para consultar em visão 3D a rua, para se certificar que tinha a posição certa. Um a um, o mapa foi sendo preenchido de círculos desenhados nervosamente e de várias cores, para distinguir segundo os critérios que lhe foram pedidos. No final, levou a mão à testa, como se aliviado, esperançoso de que esta informação fosse valiosa. Francisco olhou então para o homem, e as suas faces haviam-se tornado mais sérias, como se lhe tivesse sido relevada alguma grande aflição futura. Os olhos saltitavam e faziam voltas pelos pontos marcados no mapa, analisando e raciocinando. Suspirou.
- O senhor Francisco portou-se admiravelmente. Acho que tenho em si uma excelente fonte de informação. Admito, com o seu perdão, que estava à espera de menos. - fez uma pausa, e olhou de novo para o mapa, mas agora parecia mais aliviado. - Terei de pesquisar mais um bocado e sondar o terreno, e só depois poderei dizer-lhe se posso fazer alguma coisa por si. Na verdade isto leva-me à última pergunta, que o senhor não estará pronto para responder.
Isto foi dito com um tom assustadoramente frio, que pareceu reduzir a temperatura da sala. Os olhos do homem tornaram-se mortos e tristes, mas ainda penetrantes. A expressão corporal era calma, sendo que ele entrelaçou os dedos em cima da barriga ao sentar-se de novo, como se no meio de alguma discussão pacata. Francisco já começara a compreender que aquele não era um homem representante de nenhuma empresa de segurança, mas também notara que não poderia ser um amador em assuntos que fossem além da lei. Senão, que pergunta é que seria tão estranha que ele não poderia responder?
O homem, sentado, inclinou-se para a frente:
- Assumindo que eu aceito o seu caso, o que é que o senhor deseja exactamente que eu faça?
Francisco Ponciano hesitou, e se o suor já lhe havia acalmado, voltou a brotar como pequenas infiltrações dum oceano de dúvidas que lhe passavam pela cabeça. O teor fundamentalmente frio, calculista e pragmático da pergunta fez o seu raciocínio balbuciar uma resposta que terá sido semelhante a: "Que quer dizer com isso?"
- Quero com isto perguntar qual é que deverá ser o destino final para os responsáveis pelos crimes, ou quais os objectivos das minhas acções.
Francisco coçou a cabeça, tentando compreender se o homem estava a propor fazer o que ele pensava que estava a propor. Respondeu, enfim, cuidadosamente:
- Eu gostava apenas que estes assaltos acabassem, seja à minha loja, seja às outras. Mas especialmente as que não forem protegidas pelas tais empresas de seguranças.
- Vou ser mais directo então - rematou o homem, sorrindo - quer que o livre deste problema por qualquer meio necessário?
- Homem, não os mate! Só preciso que os assuste ou impeça de fazer patifarias, mas sem nada de demasiado exagerado! - explodiu finalmente Francisco, soltando todos os seus receios, provavelmente num volume de voz mais alto do que afirmação merecia.
O homem e Adérito riram larga e jocosamente pela reacção, menos preocupados com o barulho gerado.
- Meu amigo, finalmente tenho alguma reacção honesta da sua parte. Relaxe, não se preocupe, era mesmo isso que eu queria que me dissesse. Se eu aceitar o seu caso, farei o melhor para não os magoar mortalmente. Repare numa coisa, no entanto: este tipo de gente não é facilmente lidada com palavras, pois aprenderam a respeitar a força bruta primariamente. Se eu puder, ensiná-los-ei o contrário, mas não prometo que ninguém vá parar ao hospital. - Fez uma pausa, lembrando-se que havia uma última pergunta relevante a fazer.
- O que é que o Senhor Francisco está disposto a sacrificar para resolver o assunto?
- Está a falar de pagamento? Mas tinham-me dito que nã...
- Não, - interrompeu - estou a falar de modo mais geral.
- Ah... enfim - Francisco Ponciano hesitou várias vezes com vários murmúrios e exalações diferentes - tudo menos a minha vida, nem que seja pelo bem de todos. - disse no que pareceu ser um estado, inédito, quase divertido.
- Óptimo, óptimo, assim consigo garantir mais certamente uma resolução, se eu for em frente com isto. Dê-me uns dias para decidir então, como já lhe tinha dito. Não me tente contactar, pois não conseguirá. Não venha aqui, pois não me encontrará, e não garanto a sua segurança neste bairro. Se eu quiser aceitar esta missão, chamemos-lhe assim, eu contactá-lo-ei, no máximo no prazo de uma semana. Se nada lhe disser até lá, assuma que estará por sua conta. Parece-lhe justo?
- Não me deixa grande alternativa...
- É uma resposta inteligente. Creio que nos vamos dar bem, meu caro. O Adérito irá acompanhá-lo até a sua casa, da mesma maneira que veio até cá. Assim nos despedimos - disse, estendendo de novo a mão aberta - e veremos se nos voltaremos a ver.
Francisco Ponciano apertou com firmeza a mão deste homem misterioso, lembrando-se novamente de um facto importante, e arriscou-se a perguntar:
- Desculpe, mas nunca me disse como se chama...
O homem olhou para Adérito, e este encolheu os ombros. Sorriu, e respondeu:
- Sou apenas um cidadão preocupado com o bem estar da sociedade. Chame-me isso.
- Como? De Cidadão?
- Sim, se assim quiser. - dito isto, voltou para a sua posição à janela, agora plenamente alumiado pela Lua que finalmente tinha vencido o combate contra as nuvens.

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