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O Cidadão - Parte XIV

por Rei Bacalhau, em 29.09.15

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A reforma de Francisco Ponciano foi notícia cochichada no bairro durante algum tempo. Este pôs a loja à venda e voltou para a sua terra. Curiosamente, a loja foi imediatamente comprada legalmente, e supostas obras de remodelação começaram imediatamente. Sem dúvida que Pedro interpretou a venda da loja como uma retirada táctica, e comprou-a assim que soube que estaria à venda. Teria assim maior liberdade para fazer as alterações necessárias à loja para o dia da parada. De resto, para as outras lojas que não estavam vagas, fechariam todas misteriosamente um dia antes da parada, por "razões de saúde", para ainda haver tempo de os milicianos fortificarem a loja, o mais subtilmente possível.
Pedro procurou ainda pelo Cidadão, ou Lucas, ou Adérito. Vários pretos eram trazidos a Pedro, mas nenhum deles era Adérito.
- São todos iguais uns aos outros! - era o comentário normal nessas situações.
Pedro sabia que os esforços eram algo fúteis. Encontrar alguém que conseguiu eludir a captura durante anos e anos de Guerra não se tornava mais concretizável com o avançar da idade, antes pelo contrário. Pedro sabia que Ele iria tentar fazer algo. "Suponho que nos vemos em batalha...", tinha dito.
Pedro estremeceu ao lembrar-se da última vez em que ele dissera isso a alguém. Morreram centenas de soldados.
Que iria ele fazer? Iria arranjar um exército? Iria aliar-se ao inimigo? Iria incitar a população? De que maneira iria combater? A expectativa corroía Pedro por dentro. Mentalizou os seus soldados para um combate ainda mais sangrento, e deveras mais glorioso.
- Vamos expulsar a escumalha da cidade. Matamos os colaboradores, esfolamos os pretos e os estrangeiros e essa cambada toda. Corremos com eles para os países deles. Quando só estiverem cá patriotas como nós começamos a limpar a Nação, cidade a cidade, homem a homem. Se no final de tudo, ainda estivermos sedentos de mais, porque a vingança também saberia muita bem, invadimos o país inimigo! Violamos as mulheres! Chacinamos cidades inteiras como eles fizeram connosco! Quem se pode esquecer dos massacres? O massacre de Carfes? O de Almujoz? O de Vila de Malha? Aqui mesmo, o de Alvim! Este é o Momento rapazes! Seremos a ponta da lança que penetrará e foderá o cú do Inimigo. E se essa lança precisar de trespassar um ou outro traidor antes de se enfiar no Inimigo, que seja! Há para todos! A reconquista começa aqui, duma maneira ou doutra! É o Momento!
Os homens, enobrecidos pelas palavras, urravam gritos de alegria e de guerra.
Excepto um.
Por detrás da figura possante de homem violento e inquebrável, Adrien era inerentemente humano. Ele respeitara a visão de Pedro e seguira-o durante algum tempo, mas começava a não concordar com algumas ideias mais radicais. Perdera o respeito que tinha por Pedro ao longo dos tempos recentes. Se ainda combateria ao lado de Pedro e da sua milícia era porque queria sentir-se útil para a Pátria, e tentaria evitar os barbarismos que Pedro propunha. Eis que lhe aparece um homem que lhe cria um enorme dilema moral. Um homem que deu vários exemplos de ter a integridade e sanidade intacta mesmo depois da Guerra horrível. Um homem que tinha aparentemente liderado muitos homens para batalha, que tinha percorrido o País a levar a luta ao Inimigo e desaparecendo depois. Um homem com um plano a sério, pois o que Pedro dizia eram apenas mentiras motivadoras. Nisso Adrien mostrava ser inteligente, ao contrário de outros, como Diogo Anacleto, que idolatravam a palavra de Pedro.
Adrien esteve neste dilema durante uma semana.
Certo dia, Adrien observava do apartamento, já nosso conhecido, a praça onde tanta acção já se desenrolou. A equipa Cão estava em posição e auscultava a passagem monótona da vida rotineira das pessoas na cidade. Diogo Anacleto barafustava contra o calor e repetia pela milésima vez as partes que mais gostou de vários discursos de Pedro, o Chefe.
- Um rio de sangue, disse ele! 'Tás a ver ali a sarjeta? Imagina um fio contínuo de sangue colaborador a correr! Da maneira que ele disse consegui imaginá-lo, tipo visualizá-lo mesmo, 'tás a ver? Tu ouviste também, não? 'Tavas lá, n'é?
Adrien limitou-se a acenar, ignorando educadamente o seu colega.
"Como contactá-lo?" - pensou - "Não faço ideia de como o encontrar... Nem sei como fazê-lo procurar-me. Preciso de falar com ele! O Pedro só causará destruição se não for parado. Deverei alertar a Guarda Nacional ao invés disso? AH.. mas aí seria um colaborador, não posso, não posso..."
Olhou pela janela, onde há uns dias esteve o homem com quem queria falar. O tal "Cidadão preocupado". O verdadeiro Chefe.
Seria traição chamar-lhe isso? Não mostrou ele mais capacidade de liderar num dia que Pedro em mais de um ano? E se na verdade estivesse apenas a trocar um maluco por outro? Não. Aquele não. Aquele transpirava razoabilidade. Era Pedro que estava louco, certamente!
Mas como encontrá-lo?
Adrien levantou-se e aproximou-se da janela. Lembrou-se de como naquele dia, o Cidadão se colocou exactamente naquela posição e coçou o olho demoradamente. Aí, Adrien apercebe-se.
"E se fosse um código? Ele realmente demorou imenso tempo lá, e deliberadamente na janela. Como se fosse observado. O preto! O preto apareceu depois, a seguir-nos! Aquilo era um sinal! Então.. será que..?"
Temendo estar a cair no ridículo, olhou para trás, para Diogo Anacleto, mas este apenas prestava atenção a alguma coisa no telemóvel. Adrien olhou pela janela de novo. Procurou no horizonte, como se esperasse ver alguém a observá-lo. Nada viu. Resignou-se então a fazer uma figura que lhe parecia infantil. Esticou o dedo e coçou o olho direito demoradamente, quase dramaticamente, quase como quem grita:
- Olhem para mim, estou a coçar o olho!
Lançou o olhar vivo à procura de algum género de resposta. Nada viu.
Voltou para dentro e caiu no sofá.

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Música: Soldier of Fortune

por Rei Bacalhau, em 27.09.15

 

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O Cidadão - Parte XIII

por Rei Bacalhau, em 25.09.15

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- Eu vou supor que o Adrien saberá de tudo, e por isso é que permites que ele esteja aqui. - afirmou o Cidadão.
Pedro nada disse.
- Devo dizer que durante uns tempos conseguiste enganar-me, mas não tomes isto como um elogio, pois simplesmente nunca pensei que tivesses a capacidade de pensares num estratagema tão delicado, não obstante ser perigoso e fútil. Quando o senhor Francisco Ponciano veio pedir-me ajuda, eu fi-lo desenhar num mapa todos os locais que haviam sido atacados pelos tais criminosos misteriosos. Eu estava inicialmente a pensar em ver um padrão, mas surpreendi-me ao não ver nenhum. No entanto, a organização que os bandidos demonstravam era demasiado grande para não haver algum objectivo concreto. Os assaltos eram feitos rapidamente e à mesma hora. Depois pensei que a falta de um padrão era o padrão que estava à procura. De facto, não fazia sentido que algumas lojas fossem assaltadas enquanto que outras, igualmente desprotegidas mas mais potencialmente lucrativas, não foram de todo afectadas, como foi o caso de um minimercado, mesmo ao lado de uma barbearia que tinha sido assaltada. Continuando, certamente haveria algo de especial naqueles estabelecimentos específicos para serem relevantes. A única coisa que me ocorreu foi a sua posição estratégica, em termos de serem bons pontos de observação ou mesmo de ataque. Eu só não sabia era do quê, mas se fosse o caso, então saberia que estaria a lidar com uma organização militar. Sendo a única explicação que me veio à cabeça, imaginei que pudesse ser um dos meus antigos milicianos, pois pareceu-me uma táctica que, honestamente, eu também utilizaria, exceptuando a parte de atacar comerciantes inocentes. Pois bem, nos dias seguintes comecei a percorrer as ruas de Alvim, passando pelas várias lojas atacadas. Hoje arrisquei a entrar na barbearia que já referi, - olhou para o mapa na mesa e viu que a barbearia era representada pela peça de Monopólio de Cartola. - a que aqui está como Cartola, e fingindo pedir informações, pude ver que tipo de características tinha a barbearia. Tinha uma montra larga, com visibilidade frontal para uma rua que entroncava ali, e os prédios circundantes davam bastante protecção. Bem utilizado, aquele espaço poderia tornar-se um bunker autêntico e eficaz. O problema é que não poderia confirmar isto... era apenas uma teoria. Foi então que vi muito bem quem era o segurança que estava distraído à porta. - Pedro franziu a testa. - Eu nunca lhe soube o nome, mas conhecia-o de vista como sendo da Milícia do Prego. Isso não agoirava nada de bom. O Prego nunca havia sido confirmado como morto, por isso temi que fosse obra dele, e não de um dos meus. Seja como for, tinha pelo menos a confirmação que a presença de um miliciano ali não poderia ser coincidência. Neste ponto da situação, com os factos que já tinha acumulado, comecei a somar os factores, e todos começaram a convergir para um único ponto. Voltei para a loja do senhor Francisco onde se deu o episódio do miliciano Matias. Tive a pedir alguns esclarecimentos ao senhor Francisco, e foi aí que, por sorte, ele referiu este Bairro e as alterações mais recentes que havia sofrido. Fiquei surpreendido pela referência não só a mulheres, como a grávidas, aqui! Caso muito estranho. No entanto, tudo fez sentido. Vocês têm andado a usar mulheres, algumas grávidas, para fazer reconhecimento de terreno sem levantar demasiada suspeita. Coincidência estranha que uma mulher aqui do bairro apareça na loja do senhor Francisco no preciso dia em que passa lá um cortejo a celebrar o fim da Guerra. Não só isso, uma mulher grávida ou com um bebé pode passear à vontade pela cidade. As pessoas podem estranhar a sua existência nos dias de hoje, mas não podem estranhar estes passeios, que na verdade eram missões de reconhecimento. - Pedro perdeu o sorriso estúpido que ainda lhe delineava a cara aquando a menção do cortejo - Este reconhecimento tinha como objectivo preparar um ataque ao cortejo militar. Verifiquei que o trajecto do cortejo era o padrão que me tinha escapado logo de início, pois nem sabia que iria haver um cortejo. Todas as lojas atacadas estão convenientemente posicionadas para terem um ponto de ataque óptimo sobre o cortejo. Igualmente percebi que devem ter vários apartamentos alugados ao longo do trajecto, como aquele onde a equipa Cão estava hoje.
O Cidadão fez uma pausa para limpar a garganta, mas Pedro interpretou a pausa como o fim da exposição.
- Boa! Sim senhor chefinho! - aplaudiu jocosamente Pedro. - Mas é como te disse, não fazes ideia de qual é o verdadeiro objectivo disto tudo, mas até agora 'tás certo em relação a tudo. Já não é mau!
- Mas eu ainda não acabei de falar. Esta parte são só as conclusões mais observáveis que pude tirar. Só no espaço da última hora em que compreendi as ramificações que esperavas que o ataque tivesse. Vou continuar, se me permitires. Só percebi que o responsável por esta operação era inegavelmente um dos meus quando vi o senhor Adrien no meio da barafunda policial na loja do senhor Francisco, à espera de falar com ele. O seu traje, e o facto de outro miliciano observar a cena de uma janela, fez-me concluir que só um dos meus milicianos antigos poderia ter ensinado as mesmas precauções a uma nova geração de milicianos, como era o caso do Diogo Anacleto. Só tive a certeza que eras tu em específico quando Adrien impediu o Adérito de entrar no Bairro. Desde aí estive a reflectir qual era o objectivo do ataque ao cortejo. Porquê reconstruir o Bairro de Santa Margarida? Eu sabia que sempre tinhas tido uma panca pelo significado deste local, portanto pensei que fosse uma base de operações simbólica, pois seria mais fácil arranjar outra que reconstruir esta. Aí percebi, finalmente.
O Cidadão fez uma pausa dramática, com um leve sorriso. Pedro estremeceu.
- Tu queres recriar a Batalha de Santa Margarida que nunca ocorreu. Aquela que ocorreria se o Inimigo não tivesse artilharia, há 5 anos.
Pedro suspirou e coçou a fronte devagar. Era o sinal que não tinha conseguido enganar o seu mentor, como tão orgulhosamente queria.
- Tu queres atacar o cortejo militar de surpresa. Reforços serão chamados, certamente, e eles irão reorganizar-se e preparar um contra ataque. "Alguém" vai informar que os atacantes estão a fugir para o bairro de Santa Margarida. O Inimigo virá aqui e sofrerá baixas pesadas porque não sabem a fortaleza que está aqui habilmente escondida, como aqueles bunkers lá fora, disfarçados de casas de electricidade ou algo do género. Seria um massacre. Mas pensas certamente em ir mais longe. Pensas que ganharás a batalha. Pensas que uma vitória em Alvim, num sítio tão icónico, levantará a Nação de novo. Que até os enfermos, os deficientes, os decepados, as crianças, os velhos, as mulheres, enfim, todos se alistarão e lutarão de novo pela Pátria que ainda não está esquecida.
Lucas, surpreendentemente, falou:
- O Momento.
- O Momento! - gritou Pedro, levantando-se!
- O Momento, deveras... - repetiu o Cidadão. - Pedro... lamento informar-te, mas não é esta a altura do Momento. Não estamos preparados. Por muito que uma vitória destas como a imaginas desse algum rubor à população, seria imediatamente suprimido. O Inimigo é ainda muito forte, e ele enfraquece-nos pondo-nos a lutar uns com os outros. Tu não sabes que os homens que estarão no cortejo militar são da nova Guarda Nacional? São teus compatriotas!
- São colaboradores! Merecem morrer, tu próprio o dizes! - vomitou raivosamente Pedro.
- Não são colaboradores! São polícias! Muitos nem 20 anos têm, porra! Eles não lutaram na Guerra! O Inimigo recrutou-os sabendo que faríamos isto! Não os podes matar, Pedro! Eles são inocentes! Muitos fazem-no para poder ganhar a vida! Eles são liderados por colaboradores, esses sim, que se fodam, mas os jovens próprios não merecem morrer! Ouve-me, talvez eles possam ser convertidos para a nossa causa! Este não é o Momento, Pedro! Farás um enorme erro! Pensa objectivamente!
- Subestimas-me, chefinho! Tenho isto mais bem pensado que julgas! Ao fazer destes jovens um exemplo eles saberão que de nada valerá contribuírem para a causa errada. Vais ver, vão vir aos montes para o nosso lado sem precisarem de serem convencidos.
- Imbecil. Preferes liderar com terror do que com objectividade. Parece que não aprendeste nada das derrotas que todos sofremos.
- Estou a usar ar armas do Inimigo contra eles!
- Não, caralho! Estás a fazer exactamente o que eles querem que faças! Pedro, não acredito que me faças jogar esta cartada... Como teu Chefe, ordeno-te que não executes o teu plano. Não é razoável e é sim um total desperdício de recursos.
Os olhos de Pedro flamejaram, inchando-se de sangue. As veias do pescoço palpitavam visivelmente e todos os pêlos da sua barba pareceram eriçar-se de raiva. Levantou-se e virou a secretária herculeamente, espatifando vários objectos no chão. Berrou e rugiu furiosamente.
- Ordenas-me!! Ordenas-me! Quem pensas que és, filho da puta!? Julgas que me ordenas a alguma coisa!? Quem é que te dá autoridade!? Eu devia era matar-te, seu traidor da Nação! Ordenas-me! Aqui EU é que mando. E eu digo-te para te ires foder! Vai p'á puta q'te pariu! Sai! SAI! E leva o paneleiro do Lucas contigo, aposto que ainda te segue feito cãozinho! Maricas do caralho, vocês os dois! SAIAM! Eu é que te ordeno, chefinho de merda! SAI!
O Cidadão assistiu à cena com alguma precaução, caso tivesse que se defender. Tal não foi necessário. Ao ouvir a ordem de saída, sinalizou a Lucas que de facto iriam. No entanto, ainda arriscou dizer o que o protocolo lhe obrigava a dizer.
- Pedro, as tuas acções provaram que és um traidor ao Código. Ousas desrespeitar o teu superior. Como tal, expulso-te da Milícia dos 8, e viverás a tua vida restante como renegado aos olhos das Milícias Nacionais até te quereres redimir. Devo avisar, no entanto, que se realizares este ataque retirar-te-ei o direito de te redimires.
Pedro ainda praguejou incompreensivelmente enquanto o Cidadão e Lucas saiam. Quando o Cidadão estava para atravessar a porta, estacou repentinamente, e ainda falou.
- Pedro, quase me esquecia, as circunstâncias obrigam-me a pedir-te a tua parte da chave do Tesouro.
- O Tesouro!? Mais essa!? Toma lá, enfia essa história de fadas no cú! - urrou Pedro, já vacilando, pegando numa caixa previamente em cima da mesa, e arremessando-a com toda a força contra o Cidadão.
A caixa falhou miseravelmente o alvo, destruindo-se na parede ao lado. O Cidadão pegou num pequeno objecto que reconhecera como aquilo que procurava no meio dos pedaços partidos da infeliz caixa de madeira.
- Adeus, Pedro. Suponho que nos veremos em batalha, se não tiveres bom senso.
E partiu. Não deixou de ouvir a resposta angustiada de Pedro, obviamente. Entre as habituais pragas, notou-se a seguinte frase:
- Ameaças-me! Ameaças-me! Matem-no! Milicianos! Matem-no! Ele vai estragar tudo! Apanhem-no!
Instintivamente, ninguém fez nada. O Cidadão e Lucas encaminharam-se para a porta, atravessando o armazém sem dizerem palavra. Pedro ainda acorreu e apontou a sua carabina, mas os dois tinham acabado de sair e fechado a porta. Pedro precipitou-se mais velozmente que a sua estatura permitiria acreditar para a porta. Ao abri-la, apenas viu Lucas, que estava de costas para ele, parado. A porta fechou-se violentamente, desarmando Pedro. O Cidadão esperara-o. Apanhado de surpresa, Pedro ainda se levantou e lançou-se em fúria contra o Cidadão. Este sabia que Pedro era um adversário formidável e não o subestimou, não obstante a sua agilidade claramente reduzida. Os murros poderosos eram lançados infatigavelmente por Pedro, e desviados pelo Cidadão, que fazia o melhor para se defender. Pedro finalmente conseguiu acertar com um dos seus punhos de aço. Agarrou no Cidadão com a sua força incrível, levantou-o, e arremessou-o como um boneco contra o entulho.
Lucas apenas observava.
O Cidadão levantou-se com dificuldade, tinha batido perigosamente no entulho e era-lhe difícil respirar. Pedro já se aproximava de novo. O Cidadão lançou-lhe uma e outra pedra, para ganhar tempo. Uma atingiu Pedro na barriga, que agiu como trampolim, pois a pedra saiu catapultada como um ricohete. O Cidadão notou que sangrava do braço, da queda no entulho. Pedro agora corria, feito touro, numa tourada invertida. Era o touro que fazia o espectáculo! Lançou outro murro ao Cidadão, que o evade agilmente, contornando Pedro pela direita, e atingindo-o nas costelas. Antes que se conseguisse virar, ainda levou uma cotovelada na cabeça. O Cidadão sabia que seria inútil tentar atingir-lhe nas partes mais volumosas, e enfrentá-lo numa troca de murros era suicídio. Continuou a focar-se nas costelas de modo a cansar Pedro. Este vociferava, cada vez mais furioso e vermelho:
- Filho da puta!
Pedro conseguiu finalmente agarrar e prender o Cidadão, envolvendo-o no braço grosso. O Cidadão sentia-lhe o hálito ardente e salivoso.
- E agora, chefinho? Agora morres! - disse entredentes quase a rir-se, como louco.
O Cidadão sentiu a vida a começar a esvair-se. A adrenalina de sobrevivência começou a circular-lhe no sangue. Num esforço titânico, muito aquém do que normalmente conseguiria fazer, quase sobre-humano, o Cidadão colocou os dois pés bem assentes no chão e levantou Pedro do chão, com este ainda agarrado tenazmente ao seu pescoço, lançando-lhe socos para o imobilizar. De nada serviu tal violência. O Cidadão começou a andar na direcção do entulho e lançou-se de costas, antes que Pedro pudesse aperceber-se do seu plano.
Ambos lançaram gritos de dor, e Pedro teve de libertar a sua presa. O Cidadão aproveitou a abertura para lançar ele próprio um soco na face de Pedro, mas imediatamente caiu no chão, curvado, ofegante, exausto.
Verdade seja dita, já era a terceira vez que lutava naquele dia que parecia teimar em não terminar. Também é verdade que Pedro seria de qualquer forma o adversário mais forte dos três com que lutara.
Enquanto a luta fraternal durara, os milicianos haviam-se juntado para ver o desfecho, esperando, mesmo que não o admitindo, que o Chefe deles se esquecesse que eles ignoraram a sua mais recente ordem. Agora observavam dois homens no chão, quase inconscientes, sangrentos, doridos, transpirados, sujos.
O Cidadão começa a levantar-se. No meio da multidão aparece Matias, vendo uma boa altura para a sua vingança, e sai disparado armado com uma carabina, pronto para dar uma coronhada no Cidadão, indefeso.
Ouve-se um tiro.
Matias cai, segurando a perna com as mãos. Todos os milicianos, chocados, apontam as armas.
Lucas havia disparado não fatalmente contra o ataque cobarde. O Cidadão olhou para Lucas com um olhar de profunda gratidão, mas não disse nada. Lucas entregou a pistola a um miliciano e aproximou-se de Matias, que se retraiu assustado e agonizado. Lucas rasgou as calças de Matias e verificou que a bala trespassara a perna, e aplicou um torniquete usando o próprio cinto. O Cidadão aproximara-se de Pedro, ainda fora de combate, e certificou-se que não tinha nenhuma lesão mais grave. Pediu ajuda a um miliciano para o levantar, mas aí, como se tivessem despertado, acorreram muitos e tiraram o Chefe dos braços do Cidadão. O Cidadão pegou em Lucas pelo braço, mas este dirigiu-se ao miliciano ao qual tinha dado a sua arma para a pedir de volta. Também retirou o cinto que tinha usado em Matias, quando um tratamento mais eficaz já estava a ser aplicado.
Então finalmente os dois foram-se embora sem mais caso.
Teria sido um dia cheio de visões estranhas para os habitantes daquelas ruas de Alvim. Ao descer a rua que dava para a praça, os dois homens viam as caras de espanto com que as pessoas olhavam para o contraste entre um homem impecavelmente limpo e são, e o homem roto, sujo, dorido e sangrento que caminhava ao seu lado.
Um casal de idosos molengava rua acima. O Cidadão desejou-lhes boa tarde.
- Ò Joaquim, não é o mesmo de manhã? Minha Nossa Senhora, vem tão sujo! Ah...
- Deve ser das obras ali daqueles lados.
Chegados à praça, o Cidadão diz para Lucas.
- Lucas, tenho de ir ali avisar o senhor Francisco. Vai andando para o abrigo.
Lucas começou a andar, mas foi interrompido por uma mão no ombro.
- Lucas, obrigado, sei que te deve ter custado disparar outra vez.
O Cidadão disse isto com uma ainda maior expressão de gratidão e respeito que anteriormente.
Lucas nada disse, apenas acenou. Afastou-se.
O Cidadão pensou no dia bastante cheio que tivera. Ao menos conseguiu a parte da chave de Pedro. Isso até foi mais fácil do que pensava, teve sorte. Sorriu ao imaginar a expressão de Pedro ao saber que tinha dado sem mais nem menos uma coisa tão valiosa como uma das partes da chave do Tesouro. Estremeceu ao pensar que ele lhe tinha na verdade dado uma chave falsa. Pegou no seu telemóvel, como se apanhado em falso, activou uma aplicação e aproximou a chave do telemóvel.
A aplicação demorou algum tempo a processar, para grande expectativa do Cidadão. Fez um som.
A chave era válida.
O Cidadão suspirou de alívio. Certamente não queria entrar em guerra aberta com um dos seus milicianos por causa do Tesouro.
No fundo, no fundo, não contando as várias lesões que o iriam atormentar o resto da semana, até considerou que foi um bom dia. Entrou na loja de Francisco Ponciano.

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O Cidadão - Parte XII

por Rei Bacalhau, em 22.09.15

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O quarto era na verdade uma espécie de gabinete, com uma secretária na parede paralela à porta. Nas paredes estavam pendurados vários mapas, maioritariamente rabiscados. A um dos cantos estavam várias armas encostadas, algumas de calibre maior que era hábito ver numa milícia. A sala não tinha janelas, sendo apenas iluminada por uma lâmpada fluorescente comprida. No centro, uma mesa dispunha de mais mapas, num dos quais se conseguia reconhecer o mapa de Alvim. Sobre o mapa estavam várias peças de Monopólio.
Um homem estava sentado impacientemente à secretária, virado directamente para a porta e enfrentando com o olhar os recém-chegados. Não era velho, mas já se lhe notava a falta de cabelo preto, que parecia ser compensada por uma barba espessa, mas bem tratada. Era um homem de olhos negros, cara volumosa, de bochechas cheias, que complementando o olhar violento que carregava, lhe dava um aspecto bovino. Estava vestido à civil, ao contrário dos seus presumíveis soldados.
O Cidadão estacou ao pé da mesa central. Adrien, que tinha entrado primeiro, desviara-se logo para a esquerda. Lucas encostou-se a um canto.
- Com que então ainda usas as peças de Monopólio como antigamente? Somos todos criaturas de hábitos, não é? - Apontou para o local no mapa onde estaria a loja de Francisco Ponciano. - Adrien, o senhor era aqui o Cão, imagino?
Adrien nada respondeu.
- Vá, - continuou, voltando-se para o homem na secretária - não estejas carrancudo. Não nos vemos há 5 anos, Pedro! É uma data de tempo para ainda estares zangado.
Adrien foi o que reagiu mais visivelmente, abrindo ligeiramente a boca, surpreendido. O Cidadão conhecia o Chefe Pedro!
O Chefe Pedro continuava em silêncio, acumulando as palavras que iria dizer. Certamente parecia que iria explodir.
- É com algum prazer que vejo que não te mantiveste quieto nestes anos. Tens aqui uma bela Milícia, e mais bem equipada que alguma vez vi, excepto talvez a do Prego. Temos claramente muito que conversar.
- Tu morreste... - disse levemente Pedro.
- E ressuscitei, como vês!
- Mas eu vi a explosão. Não poderias ter saído de lá!
- Eu dir-te-ia a mesma coisa. A última vez que te vi foi a entrar para o que restava do arsenal. Não faço ideia como é te escapaste. Ouvi um tiroteio imenso, e o Inimigo não parava de atacar a tua posição. Depois o tiroteio acabou, e imaginei o pior. Eu julgava-te morto até muito recentemente.
- Como é que soubeste?
- Tenho certos contactos que me avisaram. A verdade é que tenho andando à tua procura e qualquer rumor seria suficiente para desconfiar que pudesses ser tu. Alvim não foi a minha primeira paragem antes de te encontrar.
- E andas só à minha procura?
- Não Pedro, podes calcular com razão que não. Como vês, o Lucas acompanha-me, portanto não és o primeiro que encontro. Digo mais que estou à procura no geral, e se encontrar um bom rumor, óptimo, sigo por aí. A rede nacional de Milícias caiu, por isso a informação não está tão disponível.
Pedro olhou para Lucas, que parecia indiferente à conversa.
- Olá Lucas, tudo bem? - perguntou.
Lucas nada disse, apenas acenou levemente com a cabeça.
- Ainda o mesmo conas, está-se a ver. Encontraste mais alguém dos antigos?
- Dos 8? - perguntou o Cidadão.
- Sim.
- Sim, mais uns quantos. O Adérito era para vir, mas os teus homens disseram que ele não poderia entrar.
- O preto!? Nem esse monte de merda morreu!? - rugiu Pedro, levantando-se.
- Sim, o preto. Sei que nunca gostaste dele, mas ele é um dos nossos. Há que haver respeito, Pedro, então?
- Não podia ter ido lá para a terra dele, ter com a escuridão toda!?
- Esta É a terra dele, lembra-te disso... Seja como for, não foi para isso que vim cá.
- Ah, mas isto é mais importante! - interrompeu Pedro. - Já descobriste quem é que nos traiu há 5 anos? Quem nos diz que não foi o preto? Poderíamos ter aguentado se não fosse por ele!
- Pode ter sido qualquer um, Pedro. Reflecti durante muito tempo sobre o assunto, e nada me leva a crer que tenha sido o Adérito. Objectivamente falando, terias tu mais razão de ser o traidor. - prevendo o efeito que tais palavras fariam em Pedro, o Cidadão assertou a sua afirmação. - Nota que não estou a dizer que penso que sejas o traidor, longe disso.
De facto, Pedro não reagiu violentamente ao que quase pareceria uma acusação.
- Continuo a achar que deve ter sido ele. Ainda bem que não o trouxeste, senão seria imediatamente executado!
- Pedro, - começou o Cidadão mais seriamente - não achas que o teu racismo e xenofobismo infantil já está um bocado gasto? Digo-te agora o que te dizia na altura, a única coisa que te podes queixar em relação aos pretos, por exemplo, é que têm pila maior.
- Estou-me a cagar para ti e para as tuas piadas de merda! - explodiu Pedro, completamente ruborizado. - Aqui sou EU que mando e se entra aqui um filho da puta de um preto, é fodê-lo com um tiro no cú!
Pedro tinha enfatizado a palavra "EU" de propósito, como se fosse uma provocação, facto esse que não escapou ao Cidadão. Este respondeu friamente:
- Eu sei e sempre soube que o que tu sempre quiseste foi mais poder. Querias ter a tua própria Milícia para poderes fazer tudo à tua maneira. Eu sempre tolerei isso pois sabia que eras um bom líder e um recurso precioso. Mas digo-te agora, Pedro: podemos ter sido derrotados há 5 anos, mas nunca disse que a Milícia dos 8 estava desbandada. Lá porque pensavas que quase todos tinham morrido, nada te dá direito de pensares que eu não sou o teu Chefe ainda. Não penses que podes fazer tudo o que te apetece e sair impune!
Pedro estremeceu ao ouvir as palavras malditas. Era verdade. O Cidadão era de facto o seu Chefe para todos os efeitos. Ninguém ficou mais espantado que Adrien, que acabara de descobrir que o homem com quem ainda naquele dia tinha lutado fisicamente era o famoso líder da quase mítica Milícia dos 8, apenas conhecido como "o Chefe". Adrien percebia agora porque é que o Chefe Pedro insistia que o tratassem por Chefe. O espanto era total.
- E já agora - continuou o Cidadão, emocionado - que merda é esta de andares a atacar comerciantes inocentes pela cidade? Não me vais dizer que são todos colaboradores, ou vais!?
Pedro sorriu pela primeira vez.
- Ah, chefinho, mas não entenderias... ah ah! - Pedro riu-se a dentes soltos - Aposto que te deve parecer muito estranho o facto de alguns comerciantes aleatórios serem de alguma forma relevantes!?
- Ah não, eu tenho uma bastante boa noção do que estás a fazer, só não percebo é porque é que vais contra as regras e envolves inocentes nos teus planos aparentemente tão maquinalmente pensados.
- Não, não fazes ideia, é muito pior que imaginas!
O Cidadão fez uma careta de enfado.
- Está bem, então eu vou-te contar o que acho que andas a fazer, e dir-me-ás no que estou errado. Mas deixas-me falar até ao fim, sim? De acordo?
Pedro colocou um sorriso parvo e infantil na face bochechuda enquanto se voltava a sentar na cadeira, apoiando as mão na barriga e cruzando os dedos, como quem assume que está a falar com um ignorante.
Foi a forma com que Pedro consentiu que o Cidadão expusesse a sua teoria.

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Música: Green Onions

por Rei Bacalhau, em 20.09.15

Isto tem estado difícil. Eu quero escrever alguma coisa, ou melhor dizendo, quero obrigar-me a escrever alguma coisa para acompanhar a música de hoje, mas não me vem nada à cabeça. Parte da razão talvez terá a ver com o facto de não haver grande coisa a dizer sobre a música em si.

Apreciemos só o silêncio, se calhar, e relaxemos.

Booker T and the MG's, com Green Onions:

 

 

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O Cidadão - Parte XI

por Rei Bacalhau, em 18.09.15

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O Bairro de Santa Margarida, antes da Guerra, era nada mais que um conjunto de edifícios parecidíssimos uns com os outros, ou mesmo iguais, construídos como cogumelos talvez por capricho de algum empreiteiro ou investidor insano. Não eram demasiado altos, tinham 4 ou 5 andares, e havia bastante espaço para estacionamento. Quando ainda havia possibilidade para tal, os jardins eram verdes e frescos, com relva simples, mas eficaz na sua função de contrastar com o cimento decorado de painéis amarelos e castanhos do prédios. Nos andares térreos fazia-se o comércio habitual de um bairro. Cafés, restaurantes, a farmácia, uma ou outra mercearia ou minimercado, papelarias de conveniência, o cabeleireiro unissexo (mais frequentado pelas senhoras), os balcões de bancos concorrentes, as pequenas "capelas" para os cultos religiosos mais obscuros, etc.. Colocado num ponto mais alto da cidade, era considerando um excelente sítio para se morar e criar uma família.
Quando a Guerra começou alguns edifícios ainda estavam a ser construídos, apesar de grande parte dos restantes já ser largamente habitado, mas não totalmente. As obras nunca continuaram, pois os construtores foram recrutados como sapadores improvisados. Com o progredir da Guerra, o bairro foi-se tornando mais vazio, menos produtivo, menos humano, como todos os outros blocos residenciais do país. Como se disse, a única coisa que fez este bairro mais relevante foi a derrota aniquilante que as Milícias lá sofreram no final da Guerra, tendo o local sido elevado a santuário, e os defensores elevados a mártires.
Era a primeira vez que o Cidadão entrava no bairro desde o final da Guerra. Para ser preciso, na última vez que ele passara por ali a defesa de Alvim estava a ser montada, e ele preparava-se para sair da cidade e atacar o Inimigo nos arredores. O seu grupo miliciano foi dos poucos que não concordou em defender Alvim, por lhes parecer que os recursos seriam melhor gastos em tácticas de guerrilha, como era costume fazer. Desde a mítica batalha que lhe ficara um peso insuportável na consciência, pois o Cidadão, estando nos arredores da cidade, conseguiu interceptar a infame bateria de artilharia quando esta ainda se aproximava de Alvim. A milícia do Cidadão poderia ter escolhido atacar o comboio militar que as escoltava e transportava, mas seria uma missão suicida certamente. A alternativa seria avisar Alvim sobre o perigo de um bombardeamento inesperado, mas as telecomunicações não funcionaram (soube-se depois que por interferência do Inimigo). Apressaram-se a voltar a Alvim, mas as estradas iam-se enchendo com soldados inimigos, atrasando fatalmente o regresso. Desesperaram quando começaram a ouvir as primeiras descargas da artilharia. Quando finalmente chegaram, na esperança de ainda irem a tempo, de que as descargas que estavam a ouvir há várias horas estivessem por milagre a ser disparadas noutra direcção, a cidade já fumegava sombriamente, em particular o último bastião de defesa planeado.
Puderam apenas observar a ruína da Milícia.
O Cidadão lembrava-se apenas vagamente do aspecto do bairro, mas sabia certamente distinguir as diferenças do "antes" e do "depois", ou, melhor dizendo, do "agora", pois algumas obras de remodelação já haviam sido feitas.
O entulho formava uma massa disforme de cimento, ferro, vidros, mosaicos e imensos objectos domésticos que ainda ali jaziam semienterrados, o que implicava que aquele local quase assombrado de dor até os pilhantes afastava. A paz relativa do bairro aparenta apenas ter sido corrompida pela chegada deste novo grupo de milicianos anónimos. Que milagre teria mantido as forças governamentais fora daquela operação era um dos mistérios que fustigava o Cidadão de curiosidade.
Era notável que a operação de remodelação tinha-se concentrado no essencial logo desde o início: uma única estrada tinha sido limpa para acesso mais conveniente aos poucos edifícios que estavam reconstruídos. Era presumível que a estrada servisse de acesso a veículos, mas não se via nem um. Existia uma espécie de muro feito de entulho. No mínimo, o entulho parecia ter sido colocado ali deliberadamente, já que criava uma clara fronteira entre o bairro e o resto de Alvim. O Cidadão olhava em volta e via estruturas improváveis, feitas de fresco, que se assemelhavam a pequenos cubos de cimento, como se fossem alguma barraca utilitária. O estranho era a quantidade destas estruturas que haviam, que estavam distribuídas pela tal espécie de muralha referida. O Cidadão conseguiu olhar para o interior de uma delas e as dúvidas que poderia ter dissiparam-se completamente. De facto, bem vistas as coisas, o que observou era um facto que poderia ter reflectido facilmente, tão óbvio se tornara.
Adrien não gostou particularmente do facto de o Cidadão ter espiado algo que não deveria, sendo que não confiava nele plenamente, mas o seu chefe teria uma boa razão para permitir um aparente desconhecido entrar na base de operações. Adrien estremeceu interiormente quando viu o Cidadão subitamente sorrir admirado, como quem tinha chegado a alguma conclusão arquimédica. Teria concluído alguma coisa na sua mente?
Entraram num edifício feio, cinzento, mas aparentemente sólido. Lá dentro, o ambiente escuro não conseguiu esconder as várias falhas estruturais que afinal existiam. O edifício não tinha sido construído com divisões. Era apenas uma espécie de armazém relativamente vazio. Ao pé das janelas do primeiro andar existiam patamares onde uma pessoa poderia estar erguida. No canto mais afastado existia um pequeno quarto, o único que aparentava ter algum tipo de privacidade. Ao encaminharem-se para este, o Cidadão notou a grande quantidade de sacos-cama e provisões espalhadas pelo chão. Finalmente viu um miliciano que o observava desde que tinha entrado. Protegido pela obscuridade, o Cidadão não o conseguiu reconhecer, mas rapidamente este facto foi remediado, pois o próprio observador lançou-se na direcção dele.
Uma arma reluziu na pouca luz que alumiava a cena. O Cidadão deparou-se com uma carabina de assalto apontada à cabeça. O homem apresentava-se em traje de combate, mais moderno e sofisticado que alguma vez tinha visto num miliciano.
- Já é a segunda vez hoje... O senhor Adrien acha que me pode ajudar aqui? - perguntou o Cidadão com um tom de dúvida.
Adrien, que estava distraído, acorreu imediatamente.
- Matias! Baixa já a arma caralho! - a voz imperativa de Adrien ressoou gravemente no espaço, reverberando os suportes que tão infatigavelmente combatiam as forças de gravidade.
Mais milicianos acorreram à situação, uns mais equipados que outros.
- Ah, espera, eu conheço-te, jovem! Ainda hoje estavas na loja de Francisco Ponciano, com um saco de gelo na cabeça. O mundo é pequeno. - zombou o Cidadão.
- Adrien, este gajo foi o que estragou o plano na loja! Como é que o trazes aqui!? É um traidor! Um colaborador! É preciso executá-lo! - vociferou Matias, que se reconhece como sendo o líder dos assaltantes da loja de Francisco Ponciano.
Um rubor violento atravessou a face do Cidadão. Lucas revirou subtilmente os olhos, já sabendo o que se seguiria.
- O teu chefe está a chamar-te, Matias, se esse é o teu nome. - disse o Cidadão, com uma calma sarcástica.
Matias olhou com segurança para o quarto previamente referido, não esperando uma reacção por parte daquele que ele assumia subjugado. Estava um homem à porta, de facto, mas não o chamara. A carabina é pontapeada para cima e Matias sente um ataque nos genitais. É habilmente derrubado e numa questão de segundos Matias tem uma faca a perfurar-lhe levemente o pescoço.
- Ouve-me bem meu conas. - começa entredentes o Cidadão, colérico, quase cuspindo-lhe na face - Não penses que me podes chamar de colaborador e sair impune. Agora nem vais respirar ou rasgo-te do pescoço à pila, se é que tens uma.
Ninguém fez nada. Alguns pelo choque da reacção, outros por pensarem que Matias já merecia uma lição há algum tempo. A maneira fleumática como Adrien tinha reagido à situação exortou a que todos se mantivessem passivos. Deveras, se aquele desconhecido tinha sido trazido por Adrien, certamente razões haveriam para ele não estar morto ainda.
- Não quero ter que te dar uma segunda tareia, ouviste? As hormonas já te passaram? Estamos mais tranquilos? - o Cidadão esperou uns instantes como que requerendo uma resposta, mas Matias nada disse, apenas arfou mais um bocado. - Vou-te largar. Aconselho a que vás lamber as feridas para um canto qualquer. Tenho assuntos mais importantes a tratar do que disciplinar soldados que nem são meus.
O modo totalitário com que isto foi dito foi suficiente para apresentar este homem aos milicianos. Um certo grau de respeito subconsciente impôs-se aos que observavam a cena.
O Cidadão levantou-se e Matias protestou quando este ainda tentou ajudá-lo a levantar-se, afastando bruscamente a mão que se estendia. Levantou-se sozinho, colocou a mão ao pescoço para avaliar a quantidade de sangue da ferida que sentia. O Cidadão ofereceu-lhe diplomaticamente a carabina, travando-a em primeiro, mas Matias não a aceitou e catapultou-se ferozmente para a rua. Fechou a porta violentamente ao sair. Era a segunda vez naquele dia que a mesma porta era brutalizada pelo mesmo homem.
- No meu tempo não tínhamos nada disto. - disse o Cidadão apreciando sorridentemente a carabina que Matias abandonara. - Gosto de ver, sim senhor!
Deu a carabina a um miliciano.
Adrien, algo impaciente, olhou para o Cidadão sugerindo que prosseguissem. Este concordou. Ao recomeçarem a trajectória interrompida viram o homem que estava à porta do quarto a entrar para dentro.
Era um reencontro que deixava o Cidadão muito expectante, pois poderia correr moderadamente bem, ou terrivelmente mal.
Adrien olhou para Diogo Anacleto, sinalizando-lhe que já não era necessário. Adrien foi o primeiro a entrar, seguido do Cidadão e de Lucas.

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O Cidadão - Parte X

por Rei Bacalhau, em 15.09.15

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Entraram os três num apartamento. A porta foi fechada pelo segurança. Penetraram na sala onde estava um homem sentado no sofá, apanhado a tentar soltar-se das mordaças que lhe haviam imposto. O olhar de confusão não poderia ter sido maior quando viu o seu colega, o nosso conhecido segurança, a entrar na sala juntamente com os seus agressores. Este apenas lhe deu um olhar grave, mas tranquilizador. Foi solto. Não disse nada, assumindo que a explicação se seguiria, apesar de não conseguir impedir-se de fazer uma careta odiosa aos dois desconhecidos.
As duas facções dividiram-se na sala. Os desconhecidos ficaram em pé, em frente ao sofá, onde o homem previamente amordaçado se tinha mantido sentado e ao qual se juntou o segurança, que se sentou pesadamente, não perdendo de vista os futuros interlocutores.
Um dos desconhecidos começou.
- Eu e aqui o meu amigo Lucas somos milicianos, apesar de já não termos recursos suficientes para mantermos as tácticas pelas quais as nossas milícias eram outrora famosas. Como tal, apenas podemos resolver problemas menores nos dias de hoje. A loja do senhor Francisco foi um problema que nos chamou à atenção, e, tendo-nos oferecido para o ajudar, foi com pouca diligência que o fizemos, aparentemente, senão algumas das lesões de hoje poderiam ter sido evitadas, tanto minhas, como as dos senhores, como até as dos vossos associados que atacaram a loja.
Os dois milicianos entreolharam-se.
- Escusam de tentar fingir. Tenho alguma boa ideia do que se está a passar e qual o vosso plano. Existem algumas lacunas na minha lógica, mas tenho confiança na minha teoria. Eu já disse honestamente o que é que faço aqui, agora agradecia que os cavalheiros se justificassem igualmente, pois penso que deverei um pedido de desculpas aos dois se o vosso objectivo aqui for nobre, ao contrário do que aparenta.
O miliciano com qual o Cidadão lutou limpou a garganta, preparando-se para falar. Era deveras um homem de porte considerável, deveria ter os seus 35 anos, e tudo nele era prova que havia sido miliciano, caso ainda não se tivesse percebido. Os cabelos e barba eram negros e espessos. As feições eram brutas e fortes, com um maxilar poderoso, dentes enormes, uma testa larga e preocupadamente enrugada, um nariz sobressaído. O olhar era poderoso, simbolizando que aquele era alguém que estava habituado a comandar. Grande parte da rudeza da cara teria sido obtida de conflitos, pois a mesma cara, se fosse imaculada, teria uma certa beleza masculina da Antiguidade. As cicatrizes, o nariz torto, as feições deslocadas, um ou outro dente desaparecido... eram todos indicativos do sofrimento que este homem teria passado, pelo menos do que era visível.
- Chamo-me Adrien Ferreira. Este é o miliciano Diogo Anacleto. - disse, apontando para o colega ao seu lado. A sua voz era profunda como o olhar, e penetrava gravemente nas pessoas que a ouvissem. - Ouça, posso confirmar que somos milicianos, como está a dizer que somos. No entanto, se você foi miliciano também deve saber que se estamos em missão não podemos dar detalhes. O Código assim o diz.
O Cidadão suspirou. Era a segunda vez que o miliciano referia o Código. Isto só trazia mais confirmações ao que o Cidadão teorizava. No entanto, ele teria de manter a conversa num rumo que lhe fosse propício.
- Não existe tal coisa. O Código que ouvi falar morreu há pelo menos cinco anos, com o fim da Guerra.
- Oficial... - interrompeu Adrien.
- Deveras, o fim oficial da Guerra. - concordou o Cidadão. - Custa-me mesmo assim crer que esse famoso Código ainda seja utilizado, ainda por cima considerando que nem todas as milícias o usavam antigamente. Mais improvável isso me parece agora.
- Espere lá, - interrompeu bruscamente Adrien, sem rodeios. - em que milicia é que você serviu durante a Guerra? Parece que sabe demasiado sobre o assunto!
- Ah!, invoco o direito de segredo também, desta vez. Não é relevante para a discussão, já que o senhor também não me respondeu adequadamente ao pedido de esclarecimentos que inicialmente fiz.
- Já lhe disse que não posso dizer nada sobre a minha missão.
Foi a vez de Diogo Anacleto falar. Este era um homem mais novo, de feições de fuinha. No entanto, a face ruborizada permitia inferir que este homem não seria tão experiente, apesar de parecer ter perto de 30 anos.
- Gostava era de perceber porque carga d'água é que você parecia saber que éramos milicianos e mesmo assim andou com esta parvoíce de me atar e andar à pancada com o Adrien!
- Essa é fácil, - respondeu o Cidadão - pois eu não sabia como é que reagiriam se me tivesse identificado imediatamente como miliciano também. Não podia deixar-vos escapar antes de vos fazer certas perguntas. Aparentemente a minha suspeita estava correcta, pela reacção que ambos tiveram pela minha aproximação inicialmente bastante diplomática.
- Você não pode pensar que pode atacar um membro da Milícia e sair impune! - trovejou Diogo, para espanto do seu colega Adrien - Eu por mim ainda não acredito que você seja miliciano e acho que deveria já ser executado!
Dito isto, pegou na pistola que estava despreocupadamente em cima da mesa. Apontou-a. Adrien levou as mãos à cara, mortificado pela reacção estúpida e inesperada de Diogo.
- Mas 'tás doido!? Pousa a arma já, imbecil! - berrou.
- Não enquanto este gajo não dizer quem ele é! Nem sabes o nome dele! Só sabes aqui o do magricelas.
O Cidadão observou a cena com mais interesse do que receio. Levantou a mão, pedindo para falar. Os dois milicianos estranharam o gesto. A mão de Diogo tremia.
- Jovem Diogo, pois para mim não passa de um jovem, eu compreendo a sua relutância em aceitar as minhas palavras como verdadeiras. Eu também sou muito suspeito de pessoas que eu não conheço. No entanto, nunca levantei uma arma a alguém que não se está a mostrar ser agressivo. Ainda há pouco tempo apontei uma pistola aqui ao Senhor Adrien, mas fi-lo pois sabia que intenções ele tinha se conseguisse alcançar-me. Gostaria de lhe perguntar então que movimento fiz eu para neste momento o jovem me achar uma ameaça?
Adicionalmente ao tremer da mão, algumas gotas de suor profusas reflectiam o estado nervoso de Diogo Anacleto, que nada respondeu.
- A sua hesitação mostra-me que não tem uma resposta. Peço-lhe então que baixe a arma. Não é de bom grado que permito que me apontem armas. Digo-lhe já que há uns anos, quando eu era menos indulgente, o jovem provavelmente já estaria morto.
Diogo Anacleto continuou com o braço estendido. As palavras do sujeito não pareciam estar a ter o efeito desejado, pois Diogo sentia-se cada vez mais insultado pelo palavreado, que agora tornara-se levemente ameaçador. Um esgar apareceu-lhe no rosto.
- Gostaria de saber como é que me matarias! - rematou ironicamente.
- Não disse que seria eu a matá-lo, meu caro. Não assuma que eu sou a pessoa mais mortífera nesta sala. Para além disso, considerando que a sua arma não tem munições e está travada, ainda teria uns segundo para o subjugar antes que desse por isso.
O tom calmo com que o Cidadão disse isto enganou Diogo ao ponto de o fazer confirmar rapidamente a verdade da afirmação. Olhou instintivamente para a pistola, apercebeu-se quase imediatamente do logro, e quando ia apontar a arma de novo surpreendeu-se com o facto de o Cidadão não ter feito um gesto.
- Não deverias estar a olhar para mim. - zombou o Cidadão - Neste momento o Lucas é mais interessante.
De facto, Lucas retirara a sua arma e juntou-se ao impasse. Os seus olhos gelados apenas viam um ponto fatal na cabeça de Diogo, a ser utilizado como destino final de uma bala bem colocada. Era uma estátua viva, fria, imóvel, de expressão impiedosa.
Diogo apontava agora a arma a Lucas, que não se deixou perturbar um momento sequer. Na distracção, o Cidadão retirou mais uma vez a sua pistola, para contribuir ainda mais para o frenesim nervoso de Diogo. Estava em desvantagem numérica.
- Agora jovem, parece-me que há apenas um desfecho possível para esta situação: alguém terá de ceder. - disse o Cidadão, sorrindo. - Lucas, agora!
Lucas e o Cidadão pousaram os braços calmamente, e voltaram a guardar as armas. Os outros milicianos ficaram boquiabertos.
- Repito, noutros tempos já estaria morto, meu caro, como pôde perceber.
Diogo achava-se vencido pela força das acções que acabava de presenciar. Relutantemente começou a pousar o braço. Adrien suspirou profundamente. Um tiro audível teria sido horrível naquela situação, pois a presença policial do outro lado da praça, lá fora, ainda era substancial.
- Obrigado, vejo que o bom senso imperou neste momento. Vou voltar ao assunto anterior. Estão no direito de não me dizer detalhes da vossa missão, e eu, como miliciano, tenho o direito de exigir falar com o vosso superior. Eu já o teria feito, mas não quis entrar no bairro de Santa Margarida sem grande noção do que me espera lá.
Ao referir o nome do bairro, apenas Adrien conseguiu esconder a cara de espanto. Quem era afinal este homem que aparentava saber tanto sobre a operação? Diogo olhou expectantemente para Adrien, como se aguardasse algum tipo de resolução de sua parte. Este, ainda deveras zangado pela reacção anterior de Diogo, apenas lhe devolveu um olhar profundamente reprovador e colocou-se a reflectir em silêncio. O Cidadão, notando isto, aproximou-se da janela para avaliar o caos que ainda decorria na praça, enquanto esperava uma resposta.
- Você tem que ter um nome, não? Se você é tão bem-educado, pelo menos agracie-nos - e disse isto duma forma jocosamente formal - com o seu nome, se não se importar.
- Eu não tenho nome. Se precisar de me identificar, digamos apenas que sou um Cidadão preocupado. - respondeu secamente.
A resposta não conveio a Adrien. Apesar disto, decidiu fazer uma chamada, para a qual se afastou da sala, longe dos restantes homens. Diogo Anacleto manteve-se a brincar com a pistola nas mãos, agoirando alguma tragédia por falta de cuidado, apenas para desafiar o Cidadão e Lucas.
Adrien seleccionou o contacto e fez a chamada. Tocou apenas uma vez quando uma voz lhe soou.
- Sim Chefe. Fala o Cão.... Sim... ah, já sabe, sim é verdade, aparentemente falhou... Não, quando fui lá ainda não sabia. Não sei porquê! O pequeno disse-me que tudo correu normalmente. Sinceramente acho que ele deve ter adormecido, o imbecil!, e contou-me a tanga de que tudo correu bem. É a única explicação... pois! ... POIS, exacto! Quando ele olhou para lá deve ter visto a algazarra de pessoas e bófia que pensou que tudo correu b... diga? Sim.... Sim.... Não, aliás, nisso já vou à frente. O Francisco tinha lá um gajo a defendê-lo... - ouviram-se vários berros do outro lado, ao ponto de Adrien ter de afastar o telemóvel da face - Sim, é isso... sim, eu sei! Chefe, eu sei que ele é só um, mas o gajo é um indivíduo especial, ou parece ser! - mais gritos - Sei porque ele está aqui no apartamento comigo!... Não, está solto, estávamos a falar.... Ouça, não vai acreditar, mas ele diz que é miliciano, mas não dos nossos. - o telemóvel quase entrou em combustão pela fúria demonstrada pelo interlocutor de Adrien ao ouvir estas palavras. - Chefe, acalme-se, ele sabe do Código e tudo, e já me poderia ter morto se quisesse... Ele tem outro gajo com ele, e ambos parecem fodidos o suficientes para terem lutado na Guerra.... Ouça, o gajo é muita forte, ele deu-me uma valente sova, e sabe que não gosto de dizer isto.... Não sei, ele não quis dizer, ele só disse que agora só resolve problemas mais pequenos, seja lá o que for que isso significa... como, desculpe?... ah... sim, esse é um problema... ele diz que não tem... sim, ouviu bem, ele diz que não tem nome.
Qualquer pessoa num raio de alguns metros daquele telemóvel teria ouvido distintamente a reacção a esta afirmação:
- Vai p'ó caralho!
- Acalme-se Chefe, ouça lá!.... Ele diz que é apenas um cidadão preocupado. O amigo dele chama-se Lucas, mas não disse apelido.... Sim, Lucas.
Adrien ouviu um longo silêncio, interrompido apenas pelo praguejar colorido do "Chefe".
- Chefe?... Estou?... Sim.... Não sei, ele queria saber o que é que nós estávamos a fazer aqui, mas não dissemos, claro. Disse que queria falar com o nosso superior. Ouça, este gajo parece saber muito do assunto de Milícias, com as coisas que ele disse hoje... Sabe? Como é que o Chefe sabe?.. Mas conhece-o!? O quê!?.... Tem a certeza?... Bom, 'tá bem, desculpe, vamos já praí.
Adrien desligou a chamada, atónito. Tentou recompor-se rapidamente da ordem tão inédita que lhe fora dada. Voltou calmo para a sala, apesar do sentimento de dúvida que lhe rondava a cabeça. Todos se viraram para Adrien. Este falou:
- Você quer falar com o nosso superior, não é?
O Cidadão acenou que sim.
- Então siga-me, vamos para lá rapidamente. Diogo, vem também, a limpeza do apartamento fica para depois. Agora temos a prioridade de escoltar estes senhores à base.
- Óptimo! - disse alegremente o Cidadão - Permita-me no entanto fazer uma única coisa antes de vos acompanhar.
Dirigiu-se à janela. Coçou demoradamente um dos olhos com um dedo.
- Estou pronto. Vamos?
Saíram todos do apartamento, fechando-o à chave. Adrien, Lucas e o Cidadão caminhavam lado a lado, não trocando uma única palavra. Diogo ficou uns metros atrás, tomando precauções em como não eram seguidos.
Ao subirem a rua previamente descrita numa fuga umas horas antes, Diogo notou que um homem acompanhava-os à distância, não fazendo qualquer esforço para não ser visto.
- Adrien! Temos companhia!
- Onde? Ah, aquele ali? Está a seguir-nos?
- É um preto!
- Os pretos normalmente não vêm para aqui. - estranhou Adrien.
- Ah, não se preocupem, ele está comigo, ele está aqui apenas como prevenção.
- Tudo bem, mas ele não vai entrar no Bairro. Não pode.
- Não pode? Essa agora? Porquê?
- O Chefe não deixa.
O Cidadão acenou com a cabeça, desapontado, pois sabia o significado daquela condição.
Bom, está bem... - suspirou, acenando um gesto ao tal homem.
O homem parou e sentou-se numa escadaria dum dos edifícios modernos.
- Pronto, podemos continuar, se não houver mais nenhum grupo étnico ou racial a deixar de fora. - disse o Cidadão ironicamente.
O grupo de quatro homens penetrou no bairro, sob a vigilância diligente de olhos invisíveis nas janelas.

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Música: Catch the Wind

por Rei Bacalhau, em 13.09.15

 

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O Cidadão - Parte IX

por Rei Bacalhau, em 11.09.15

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O ajuntamento de pessoas ainda lá estava, apesar dos esforços policiais para manter a multidão afastada. Dois polícias falavam com Francisco Ponciano, que suava ao fazer os melhores esforços para dar a explicação verdadeira mas absurda de que um homem só o tinha defendido e causado tanto alarido. As pessoas discutiam o evento distraidamente, pois já não era a primeira vez que aquilo acontecia nas redondezas, apesar de ter sido a primeira vez que os assaltantes foram impedidos de levar a cabo o assalto. Seja como for, a polícia não gostava de vigilantes que fizessem a própria justiça, e por isso as pessoas não discutiam o assunto muito profundamente, receando serem mal interpretadas e levadas para a esquadra por terem feito um comentário errado (nomeadamente, a favor do suposto vigilante). A algazarra policial era total. Os agentes corriam de um lado para o outro, cumprindo ordens. A porta da loja jorrava pessoas nervosas de e em todas as direcções, freneticamente. Grande parte do corpo policial era muito jovem e inexperiente, pois consistia maioritariamente de recrutas jovens. O objectivo disto era controlar as camadas mais jovens de potenciais milicianos, pois apesar das milícias terem quase completamente desaparecido, bastaria que houvesse recursos humanos disponíveis para reatar os fogos da revolta. A consequência disto era que a força policial era trôpega e ineficaz. Só a simples acção de manter a população afastada do local manteve os agentes ocupados durante imenso tempo.
Os poucos agentes que eram mais velhos eram, por norma, antigos colaboradores das tropas invasoras, que assim subiram na carreira quando o novo regime foi implementado. A sua tarefa principal era estar à escuta de comentários potencialmente comprometedores tanto por parte dos civis como por parte dos seus próprios delegados. Patrulhavam lentamente e soberbamente a zona do crime, soltando às vezes uma ordem banal, prestando mais atenção ao que ouviam do que ao que viam.
O Cidadão não gostou de ver as luzes dos carros da polícia. Não estava à espera que a polícia se interessasse tanto ao ponto de enviar carros, que mesmo para as forças governamentais eram raros na altura. Parou e reflectiu por instantes. Chegou à conclusão que este último facto faz sentido, e que já deveria ter pensado nisso, pois era totalmente coerente com a direcção do seu raciocínio até agora. Só faltaria um elemento, uma confirmação, que esperaria poder encontrar algures na praça. Perscrutou com toda a minúcia possível o cenário, procurando o que a confusão policial facilitaria esconder, mas nem por isso deixou de notar num homem no meio da multidão, erecto, observador, de porte orgulhoso e fixo. Um homem que deveria ter a sua própria idade. O que mais lhe chamou à atenção foi o seu traje. Calças de ganga azuis, e uma camisola leve preta, em pleno Verão. Era mais que certo, pois aquele era um traje típico de miliciano urbano, pelo menos há cinco anos atrás. Olhou em redor, esperando confirmar outra coisa. Numa das janelas num prédio do outro lado da praça estava um outro homem a observar. O Cidadão aproximou-se e identificou algumas características deste outro homem. Não lhe conseguia ver a roupa, mas viu que o seu olhar estava direccionado para o primeiro homem que se falou. Era a confirmação que precisava: um miliciano nunca está sozinho em missão.
Estes homens estavam a seguir o código antigo das milícias, em que milicianos em missão pública se vestiriam assim para impedir interferência por parte de grupos de milícias diferentes. Este código era quase absolutamente ignorado pela população, e as forças de autoridade não tinham a idade sequer para conhecerem tal particularidade. Só o olho de um outro miliciano poderia reconhecer o padrão, ou então um antigo soldado Inimigo, mas já não haviam muitos desses nas cidades. Era de estranhar a utilização desse vestuário, mas para o Cidadão tudo se tornava claro.
- É um dos nossos, certamente. Tenho de avisar os outros. - pensou para si.

A polícia finalmente largara Francisco Ponciano, e o homem na multidão interpelou-o, chamando a sua atenção.
- Boa tarde Senhor Francisco. Desculpe incomodá-lo nesta altura, mas eu represento o que poderá ser o fim dos seus problemas. Sou da firma de segurança privada SPA, e gostaria de lhe oferecer os nossos serviços, visto que é claro que precisa deles. - a proposta foi feita rapida e directamente, como quem não tem tempo a perder. O segurança sabia que Francisco teria de aceitar. - Provavelmente já deve ter ouvido falar de nós, e temos reparado num aumento de crime nesta zona, e por isso iremos oferecer-lhe um desconto tendo em conta que acabou de ser roubado.
- Obrigado amigo, mas não me roubaram nada, apenas me puseram a loja de pantanas. Acho que por agora ainda não vou precisar da sua ajuda com o excerto de porrada que os jovens levaram.
A negação inesperada empalideceu levemente o segurança, que estranhou principalmente a última parte da frase.
- Como assim? Então mas o que ouvi foi que foi assaltado pelo menos por 4 homens! Não me está a dizer que os desancou sozinho, pois não? - disse, sobressaltado.
- Não, claro que não! É o que estava a tentar explicar aos senhores agentes, mas eles não estavam a acreditar (e acho que ainda não acreditam). Foi um homem que me ajudou e ele sim deu cabo deles sozinho!
- Um homem apenas? Sozinho!? Contra quatro homens!? Ele estava armado!?
- Não, deu cabo deles com os punhos, até me pediu gelo!
- Mas o senhor conhecia-o? Sabe quem ele é? - o "segurança" tentou fingir um teor profissional ao fazer esta pergunta, como quem pensa num potencial recruta, sendo que na verdade a pergunta foi no sentido de perceber se tal homem seria uma ameaça.
Francisco Ponciano mostrou-se hesitante pela primeira vez, temendo dizer mais do que devia.
- Não lhe sei o nome, mas é um cliente que vem às vezes que por acaso estava cá hoje, e ainda bem! - mentiu, tremendo ligeiramente o lábio.
O segurança lançou um olhar sarcástico a Francisco. O segurança sabia que era mentira, pois ele sabia muito mais sobre a loja do que Francisco pensava. A mentira provava ao segurança que ele escondia alguma coisa, mas aquela não era a altura para o interrogar mais profundamente. No entanto, ainda rematou cepticamente:
- Isso parece muito estranho, o senhor tem a certeza do que diz?
- É como lhe digo, juro-lhe por tudo! Ele depois deixou um deles ir-se embora e pôs-se a segui-lo, não sei bem porquê.
- Seguiu-o!? Sabe em que direcção foram!? - perguntou o segurança, parecendo ficar progressivamente mais preocupado com esta última informação.
- Sim, acho que foram na direcção do Bairro de Santa Margarida.
O segurança tremeu e empalideceu brutalmente, como se atingido pela morte. Não só havia o plano falhado como agora havia algum desconhecido no encalço da sua organização. Sem responder a Francisco, voltou-lhe as costas e ia fazendo um sinal ao seu colega na janela.
Mas este já não estava lá.
O segurança praguejou e apressou-se para o interior do edifício onde estaria o seu colega, para o qual tinha uma chave. Rodou a fechadura, entrou, fechou a porta e mergulhou no silêncio escuro do prédio. Cautelosamente preparou-se para subir as escadas. Colocou a perna direita no segundo degrau da escada. Subiu a calça e retirou de lá o mortífero reflexo de uma faca. De faca em riste, continuou, como um réptil, a arrastar-se silenciosamente escada acima.
- Miliciano! - estrondou uma voz atrás dele, quebrando o silêncio gelado - Tanta cautela e cometes o erro de não olhar atrás das portas?
O segurança virou-se num instante, atordoado pela surpresa. Um homem de estatura média observara-o aquele tempo todo, e sorria levemente, quase paternalmente, como se tivesse apanhado um filho a fazer alguma patifaria. O segurança arribou do torpor momentâneo que o choque lhe tinha proporcionado. Agora mais senhor de si, avançou contra o estranho, com o propósito de o subjugar, pois ele teria algumas respostas a dar!
Contudo, o estranho não estava para responder a perguntas, mas sim para fazê-las. Prevendo a intenção do segurança, tomou um ar muito mais grave e retirou uma pistola que tinha escondida nas costas. Apontou-a sem hesitar. O segurança estacou, vendo-se em desvantagem.
- Vou destravar a arma neste momento. A partir de agora o que te acontecer será responsabilidade tua. O teu colega lá em cima foi bastante cooperativo nesse sentido. Agradeço que cooperes também.
O segurança nada disse. Sabia que estava batido. O silêncio seria a sua única opção a partir de agora. Certamente o homem à sua frente era um "porco colaborador", provavelmente a trabalhar para os serviços secretos dos invasores, considerando que este lhe tinha chamado de "miliciano". Não foi sem incredulidade que reagiu ao ouvir a próxima afirmação do homem com a arma.
- Para mim é estranho apontar uma arma a um miliciano. Normalmente aponto-a ao Inimigo, e não aos meus irmãos de armas. Proponho uma trégua. Temos bastante para conversar, diria eu. Que dizes, miliciano?
O segurança nada disse. Ele conhecia os truques que os colaboradores utilizavam para ganhar confiança. Até este ponto ainda não largara a faca, estando portanto ainda pronto para combater à menor oportunidade. O homem armado notou isso.
- Deveras, estou a gostar do que vejo. Não sabia que ainda existiam milicianos deste calibre. Sabes que eu poderia tomar a tua impertinência como um insulto se realmente te quisssse matar?
Era o que o segurança precisava de ouvir. Num impulso lançou-se contra o homem, com o objectivo de o derrubar, esperando que este não tivesse mesmo intenção de disparar. Era o tudo ou nada.
Tal ousadia não era inesperada por parte do homem, mas mesmo assim não se conseguiu defender da placagem, porque de facto não tinha intenção de disparar. Rebolaram os dois no chão, lutando descontroladamente. O segurança era incrivelmente forte, e as tentativas de defesa do homem tornaram-se incrementalmente difíceis. O segurança elevou a faca acima e preparou-se para a enfiar no coração do seu adversário. Este notou o movimento, e num reflexo impossível, agarrou-lhe a mão enquanto esta vinha na sua trajectória fatal. As feições do homem tornaram-se fogosas e cheias de raiva, circulando agora um surto de adrenalina incontrolável. O segurança bem aplicou a força do corpo todo no golpe, mas a faca era lentamente afastada pelo homem, tomado pela força sobre-humana com que parecia ter sido infundido. Era agora a vez do homem passar ao ataque, pois conseguiu empurrar o segurança para o outro lado do espaço relativamente pequeno do hall de entrada do prédio. A faca foi lançada para longe, e então o segurança só podia contar consigo próprio para se defender. O homem, cego de raiva, lançou-se despreocupadamente para cima do outro, levando um soco nas costelas, que pareceu ignorar. Atingiu o segurança na face duas vezes com a parte de baixo do punho, parecendo querer esmagá-lo. O ataque manteve-se contínuo, e cada vez mais golpes atingiam o segurança, à medida que as suas forças consideráveis iam diminuindo sob o poder da investida aparentemente imparável que ia sofrendo.
Uma figura sombria desceu as escadas e energicamente retirou o homem atacante de cima do segurança. O homem ainda se lançou mais uma vez, mas foi impedido pela sombra recentemente entrada em cena.
- Já chega. - disse calmamente - Não se esqueça que este é um dos nossos.
O homem, completamente ofegante, consciencializou-se do que acabara de fazer na fúria dos sentidos. Respirou fundo várias vezes, perdendo o fogo dos olhos e arrefecendo-se no silêncio novamente imposto pela interrupção da luta. O segurança, ainda consciente, não disse nada para além de uns gemidos. A sombra aproximou-se do segurança e ajudou-o a levantar-se. Este aceitou a ajuda sem deliberar, quase como se tivesse à espera de ser ajudado depois de uma batalha. Impressionado, finalmente quebrou o seu silêncio:
- Um colaborador nunca ajudaria um inimigo depois da batalha. - disse, também arfante - Eles nunca seguem o Código. No entanto, você ajudou-me agora como se fosse amigo. Afinal quem é que são vocês?
- Falemos lá em cima, onde está o teu colega amordaçado. Tirar-lhe-emos as mordaças e poderemos conversar, agora que já há alguma confiança, aparentemente. - respondeu levemente o homem que há cinco minutos atrás tê-lo-ia morto, possesso de raiva.
E subiram as escadas. O segurança foi o último a subir.

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Solidão

por Rei Bacalhau, em 10.09.15

Por princípio, nenhum humano merece estar sozinho, a não ser que tenha feito algum crime que o justifique. Não é sem razão que a solitária nas prisões é tradicionalmente um local macabro donde as pessoas saem endoidecidas, nem que seja temporariamente (excepto talvez o Steve McQueen).
O ser humano foi concebido para ser social, para interagir com membros da mesma espécie (argumente-se, até de outras espécies). Existem indivíduos que talvez não precisem de tanta interacção como outros, mas poucos devem conseguir viver sozinhos. Absolutamente sozinhos.
Então reflicto que se calhar há graus e classes de solidão. Conceptualmente, talvez uma pessoa tenha vários tipos de solidão possíveis que tenham de ser atendidos quase como necessidades básicas de sobrevivência moderna. Uma pessoa pode ter pessoas em casa, familiares, e esse vazio está preenchido. No entanto, se não tiver amigos fora da família, talvez possa sofrer de solidão fraternal, por não ter ninguém exterior com quem comunicar. Até poderá ter contacto exterior, mas não ter confiança com ninguém. Enfim, não ter amigos.
Existem centenas de variações exemplares para o que num só indivíduo pode ser a solidão.

Falemos da minha opinião, e talvez do meu caso.
Eu não sou a pessoa mais social do mundo. Digo isto no sentido de que não gosto particularmente de sair à noite para bairros e bares e pessoas bêbadas à porrada e a berrar e crianças a tirar selfies com shots na mão, etc. etc.. Isso não faz de mim exactamente um bicho do mato. Eu gosto de conversar com pessoas, e para tal gosto de um sítio calmo, onde as ideias possam fluir dignamente e não meio gritadas no meio de um espaço apertado com luzes epilépticas. Conseguir estar uma hora seguida a conversar com alguém cansa, mas preenche-me totalmente se a conversa for estimulante. Dou imenso valor a essas conversas e às pessoas com quem as tenho, mais do que na verdade essas pessoas poderão imaginar.
Infelizmente, há também o lado oposto em mim. Se eu não tiver nada a dizer, consigo estar imensas horas sem falar. Não consigo fazer conversa barata com pessoas que mal conheço, o que me leva a vários silêncios embaraçosos. Normalmente, se estiver acompanhado, deixo as outras pessoas falar por mim e coloco-me conscientemente em segundo plano.
Fui assim a minha vida toda, e estava confortável. Nunca tive sentimentos de solidão. Nunca pensei que a minha vida pudesse ser mais do a rotina normal: ir para o trabalho, banalizar com os colegas, ter conversas profundas e reais com as selectas pessoas que me dignam com a sua amizade, comer, lavar os dentes, cama, repetir. De facto, conseguia funcionar perfeitamente como ser humano.
Bem vistas as coisas, por comparação, eu era feliz, mesmo não o sabendo.

Depois apaixonei-me. Metaforicamente, o que os poetas chamam de coração inflamou-se-me e inchou-se-me. Tornara-me humano, verdadeiramente humano, agora que a minha existência estava finalmente totalmente justificada. O coração cresceu, de facto, e teria de ser preenchido pelas interacções românticas que agora eram novidade absoluta. Tudo bem, não deveria ser problema, pois o meu interesse romântico era recíproco, e haveria muita ocasião para preencher o meu coração tão severamente expandido.
Mal sabia eu que me havia condenado a uma maldição.
Tão depressa como se criou, a faísca desapareceu, o interesse deixou de ser recíproco (se é que realmente alguma vez o foi, enfim). Morri.

Não, não morri. Sobrevivi, mas a marca ficara. O coração manteve-se inchado, anseando por ser preenchido. E nada do que eu fizesse me tirava o sentimento de que o tinha de preencher. Era um fardo constante, ter de carregar um coração demasiado grande.

E então senti-me só.

E então SINTO-me só.

É que de repente, sem querer, acordei para um assunto para o qual não estava devidamente treinado para lidar. De repente vieram-me pensamentos do género: "Olha, eu gosto de gostar de alguém! Eu gosto que alguém goste de mim, romanticamente! Isto é mesmo giro! Gosto!". De repente isso é possível! É possível que alguém goste de mim, e dexei-me escapar ingenuamente para essa armadilha, onde fui esquartejado em pedaços, esmagado, pulverizado, aniquilado. Agora estou amaldiçoado a uma existência em que quero que alguém goste de mim outra vez, mas simplesmente não consigo chegar a esse objectivo. Não consigo obrigar ninguém. Não existe um caminho predeterminado a percorrer que garanta que encontre alguém que me ame. Dessa vez fatídica foi quase... sorte? Será sorte a palavra certa? Destino não é, não acredito em tal coisa. Coincidência? Sim, talvez coincidência... A horrível coincidência que ela precisava de alguém para se esquecer de um outro, e eu apareci, atraído como um insecto. Fui conveniente.

Mas acham que desisti? Nem o meu coração me deixaria! Como disse, ele anseava por ser satisfeito, estando em tal estado solitário e ferido. Então fui à procura de alternativas. Saí da zona de conforto, saí para os horríveis bares e para as noites. Nada. Tudo superficial. Tudo regado a cerveja e drogas. Tudo metaforicamente maquilhado. Tentei a internet. Talvez lá se encontrasse alguém na mesma situação que eu, talvez até com a mesma personalidade. Alguém que esteja só. Nada. Foto atrás de foto, mensagem atrás de mensagem, eu não era bom o suficiente. Era normal que alguém simplesmente parasse de enviar mensagens, e quando isso acontecia sabia-se que havia encontrado alguém melhor. Desisti. Na internet a proporção maior de homens em relação às mulheres favorece estas pois acabam por ter muita mais escolha.

E o tempo passou-se. Mas o coração não aquiesceu. Apenas doía mais e mais. E apesar de ter toda a abençoada companhia que preciso nas outras categorias, a familiar e fraternal, a categoria romântica tornou-se a mais significativa, por ser a única que se queixa. Foi toda uma espiral que me arrrastou para baixo, afundando-me incrementalmente mais nesse poço tão negro da solidão romântica. Por lá me arrasto, derrotado, batido, aniquilado, etc., etc..

"Por princípio, nenhum humano merece estar sozinho, a não ser que tenha feito algum crime que o justifique."

Então que caralho fiz eu? O que é que justifica que eu mereça estar sozinho? Que crime cometi para que a minha primeira experiência amorosa me retirasse todo o amor-próprio que tinha? Não duvido de modo algum que os outros métodos que tentei falharam por falta de estima, pois pensei que iria errar outra vez. Que iria outra vez dizer algo errado que justificasse que me abandonem. Mas que merda disse eu? Mas que merda posso eu dizer? É que eu nem tentava com gordas e feias, pela mesma razão que não tentava com belas e singelas: o medo, MEDO, horrível, incontornável de falhar outra vez. De dizer uma única palavra errada que na puta da mentalidade não-indulgente das mulheres parece significar imediatamente que sou defeituoso. Estou a generalizar, obviamente, mas foda-se, que é frustrante, podem ter a puta de certeza que é.

Tenho amigos e colegas, do género masculino, que dizem que sou um gajo impecável. Dizem que não sou feio, alguns até dizem pelo contrário. Dizem que sou 5-estrelas em termos de ser prestável e outras merdas. Já me disseram que me porto como um cavalheiro, especialmente para com as raparigas. Admito, sempre tratei as mulheres e raparigas com deferência, não por as achar inferior (não me venham com conices de feminismo, bem aí é que me passava) mas apenas por uma questão de cortesia. Então que raio mais tenho de fazer?

Não me interpretem mal. Não quero dizer que a sociedade me DEVE alguma coisa. Acho simplesmente estranho que tudo o que eu faça seja um tiro ao lado. Será que fui criado duma maneira que é incompatível com a possibilidade de atracção feminina? Será que tenho de me comportar com um idiota completo e ser basicamente cabrão para com todas as gajas que conheça? É isso que elas querem? Um bad boy, crazy motherfucker, com vocabulário de um mamute? Não... mesmo que tentasse, não o conseguiria ser. Conas como sou, ainda assim, AINDA ASSIM, consigo pensar que os meus princípios são mais importantes.

Não... eu quero que me aceitem pelo que sou. Não consigo mudar. Ou pelo menos, não consigo mudar sozinho. Preciso que me digam o que é preciso fazer para arranjar companhia. Para preencher o vazio. Pesquiso eternamente uma resposta, sempre atento ao que acontece, a ver se alguma coisa, ALGUÉM, ALGURES, tem a resposta que preciso. Se alguma coisa, alguém, algures me consegue fazer mudar. Se alguma coisa, alguém, algures me consegue completar.

Estou sem ideias. Estou sem esperanças. Estou sem vontade. Quero apenas desistir. Quero apenas voltar ao que era antes. Quero não ter um coração, ou ter um muito pequenino, que apenas aguente algumas pessoas e já é suficiente.

Poderá ser essa a alternativa? Treinar-me para ser uma pedra? Desistir de toda a tentativa de arranjar companhia? Tornar-me um pária romântico? Um asexual voluntário? Destruir e suprimir tudo o que seja sentimento amoroso ou carnal ou atractivo? Nada me garante que isso funcionará. Eventualmente só aprofundará o poço onde já estou. O estoicismo já me ajudou noutras circunstâncias, mas o assunto não era o mesmo. Temo que estarei alguns anos ainda antes de oficialmente declarar o que já parece óbvio agora, mas que me é difícil assumir:

Estarei para sempre sozinho.

Nunca terei namorada. Nunca terei filhos. Não darei netos aos meus pais. Não terei ninguém a quem dar a minha herança, tanto material, como outras. Como humano e como ser vivo, falharei. Aliás, falho.

Há pessoas com piores situações que eu, certamente, mas isso não me traz grande alívio. Estou-me nas tintas para os outros. Se eles tiverem problemas, escrevam, e libertem o vapor, como eu.

Estou cansado. Estou farto. Farto farto farto... Quero pensar noutras coisas. Dizem-me para ir passear, ir a museus, ir a cinemas... Para quê? Para quê ir sozinho? Para não ter ninguém com quem partilhar o momento? Para me estar constantemente a lembrar que não tenho ninguém? Toda a gente tem a sua vidinha. Toda a gente tem amigos, namoradas familiares com quem vão dar uma voltinha, relaxar, divertir-se. Eu estou preso dentro de mim próprio, pois não vejo a necessidade de sair. Não há nada para alguém como eu.
Quanto mais tempo passa menos possibilidades tenho de arranjar alguém. As pessoas vão envelhecendo e juntando-se. Nesse aspecto, eu já sou velho. Velho porque fiquei para trás nessa corrida louca.

 

 

Já escrevi o suficiente. Nem vou rever o que escrevi. É só um devaneio aleatório, quase. Raios partam tudo.

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