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Música: My Oh My

por Rei Bacalhau, em 25.10.15

Ontem tive uma conversa sobre músicas/canções de amor. O argumento que eu estava a tentar contrapôr era o de que a língua francesa é a melhor para ser utilizada em canções desse género. Será por hábito que podemos dizer isso? Por a música francesa, aos olhos ignorantes do mundo, estar irremediavelmente associada a Paris, cidade indiscutivelmente romântica? Será que a língua francesa terá mesmo os melhores fonemas silábicos para exprimir emoção? Não necessariamente aqueles que melhor penetram os nossos tímpanos, mas sim os que penetram a alma e tal?

Não sei, mas o que eu argumentei é que as outras línguas conseguem falar de amor se assim o quiserem, pois pelo menos a nível lírico há génios em todo o lado, como quem diz que poemas não faltam. Faltam eventualmente músicos para os cantar/tocar (leia-se, músicos/cantores com baixo grau de azelhice). Alguns dos exemplos que foram abordados na conversa já foram até falados anteriormente aqui no blog, nomeadamente os Trovante e o Rui Veloso.

Outro belíssimo exemplo que foi referido mas que ainda não teve relevo aqui foi uma músicazinha bem conhecida de Carlos Paião: Cinderela.

 

 

Este exemplo levou a conversa para outro argumento: até que ponto é que a letra tem de ser complexa para não deixar de ter a sua beleza ou um significado profundo? Até que ponto não se pode dizer tanta tanta coisa com a mais simples das frases? É verdade que aprecio uma música de amor bem escrita como qualquer outra pessoa (vem-me à cabeça aquela do António Variações, Canção do Engate, acho eu?), mas também vejo que mesmo com uma letra simples, existem outros factores que podem influenciar positivamente a música. No caso da Cinderela, o mérito é totalmente do Carlos Paião, que lhe adiciona uma doçura ternurenta com a maneira como a canta.

Tenho outro exemplo, agora puramente meu, e desta vez em inglês. Gostaria de provar que não é por uma banda se vestir e actuar de maneira ridícula que não consegue encher de poder emocional uma canção, por simples que seja. Os Slade têm imensas canções e músicas de beleza extrema, que normalmente são subvalorizadas por serem de uma banda "parva". How Does It Feel e Everyday são dois temas recomendáveis, mas hoje gostaria mesmo de acabar com My Oh My, que tem o melhor balanço das várias coisas aparentemente aleatórias que discuti hoje num texto tão desnecessariamente confuso.

Os Slade, com My Oh My:

 

O teledisco é que é muita estúpido.

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Música: Sei de uma Camponesa

por Rei Bacalhau, em 18.10.15

Estão os três na carrinha. Estão os três no campo.

Chegados ao destino, saem da carrinha e encavalitam-se na caixa desta para daí retirarem toda a panóplia de objectos, ferramentas e necessidades para a tarefa a realizar. Desaperta-se o elástico que prende a escada e retira-se esta de cima do resto, tiram-se os panos grandes e desastrados, tiram-se as sacas pardas e velhas expectantamente vazias, tiram-se os baldes pequenos mas manobráveis, tiram-se as garrafas de água e esconde-se o farnel.

Tudo isto é feito com níveis de agitação diferentes por parte de cada um dos três. Um resmunga:

- Não faças isso assim, faz muito mais sentido colocares esse em primeiro para os outros ficarem em cima. O vento está a vir daquela direcção, e é lógico que os panos voarão se colocares assim.

A isto responde outro, alegremente, de sorriso aberto:

- Epá, já começas logo de manhã! Poupa o fôlego que senão no final do dia já nem consegues falar. Vá, ajuda-me aqui a pôr como queres, vá! - virou-se para o elemento restante - Olha, ajuda aqui também, vai ali pôr aquela pedra!

Submissamente, ele lá foi, e assim fez.

Os panos estavam colocados, ondulando sobre a relva fresca de um Outono molhado. As sacas observavam a meia distância, gulosamente, quase jocando umas com as outras sobre qual seria a primeira a ser enchida. As operações da apanha começavam. A azeitona começou a tombar gravemente naquela área tão diligentemente delimitada pelos panos. Alguém que apenas ouvisse a cena diria que estava a chover, pois aqueles sons eram comparáveis à queda de grandes gotas de água que se espatifam numa superfície não tão mole como a terra. Quando se livrava uma oliveira da sua tão maternal carga, os panos eram enrolados em concha com mais ou menos habilidade de modo a que a fruta não se espalhasse pelo campo. Elegia-se uma manta onde se juntaria o resultado de toda a oliveira. Enquanto se escolhia a azeitona na manta, passavam-se os panos para outra oliveira. Entretanto enchiam-se as sacas, que devoraram a azeitona escolhida no seu íntimo, satisfeitas.

Na hora do almoço, reuniram-se os três, já algo cansados, a comer as suas sandes e a beber os seus sumos. Estavam sentados a mirar a aldeia daquela localização magnífica, com uma visão senhorial sobre o vale onde esta se situa.

O alegre começa:

- Vocês já viram o que seria viver aqui? Tipo, constantemente, e não só quando vimos à'zeitona?

O resmungão remata imediatamente:

- Não sei se gostaria. Não se têm as facilidades todas da cidade. As estradas são péssimas, a rede de telemóvel é péssima, Internet só se tem por satélite... acho que poderia estar aqui a tarde inteira a falar mal disto... ainda por cima teríamos de tratar da merda destas propriedades que não servem para nada.

- Epá, vamos lá a ter calma, ora essa! Tens de ver o lado positivo da coisa, então... Olha, por exemplo, ontem quando te deitaste o que é que ouviste?

- Nada.

- Pois! Vai lá à tua cidadezita e tenta ouvir o mesmo. Não consegues! Aqui é tudo tão natural, tão fresco, tão amigável. Olha, lá vai um velhote a descer a estrada, 'pera lá! - levantou-se e pôs-se a berrar jovialmente - Boa tarde amigo! Como vai!?

O velhote encurvado retornou o cumprimento com um sorriso desdentado mas sincero. O alegre voltou a sentar-se e pegou noutra sandes.

- 'Tás a ver? Tenta lá fazer isto na cidade! Não consegues, ora pois claro que não! Para além disso, acho que nos dias de hoje os problemas que referiste vão ser cada vez menos relevantes, não fôssemos nós fiéis crentes da tecnologia, hmm? Quanto às terras, o problema é só dar o primeiro tratamento, manter é mais fácil, digo eu.

O resmungão assentiu, ou porque não tinha mais argumentos, ou porque não queria manter a conversa. A possibilidade mais provável seria a primeira, pois depois de um silêncio apenas levemente interrompido pelo mascar de pão e o sorver de sumo, o resmungão recomeçou:

- Nunca seria possível fazeres vida aqui. Não a vida que queres, pelo menos.

- Essa agora! Porquê? Diz-me uma razão.

- Naquela vida utópica que levas na tua mente, tu achas que eventualmente arranjarás uma mulher ou namorada ou raio que o parta. Achas que conseguirias convencê-la a morar num sítios destes? Assumindo que essa companheira seria também uma citadina.

O sorriso do alegre desencurvou-se ligeiramente. Não havia pensado nisso.

- Sei lá... há essa possibilidade, não há? Algures haverá uma camponesa na mente de uma rapariga, mesmo que ela não o saiba. Tenho sempre que ter esperança. E tu, - virando-se para o submisso - que opinião tens?

O submisso apenas encolheu os ombros, parecendo muito mais fascinado pela vista diante dele do que pela conversa entediante ao seu lado, que tão raramente parecia sair fora desses assuntos presentemente discutidos.

- Vou ligar o rádio da carrinha, para ouvirmos alguma coisa enquanto comemos. C'um caraças, sabes mesmo dar cabo da conversa, pá...

O aparelho brilhou e o som vibrou alto pelo campo até ali pacífico com um anúncio qualquer. Finalmente começa uma música, de Rui Veloso, do seu primeiro álbum, Ar de Rock, tão ironicamente apropriada para a ocasião: Sei de uma Camponesa.

 

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publicado às 23:08
editado por José da Xã a 19/10/15 às 18:33


Música: Losfer Words (Big 'Orra)

por Rei Bacalhau, em 11.10.15

Epá, já não dedico um texto exclusivamente aos Iron Maiden há algum tempo! Não pode ser.

 

Se o Bruce Dickinson é célebre por ser o vocalista mítico dos IM, nada implica que ele seja totalmente necessário para eles, como banda, brilharem. Infelizmente, apesar dos temas dos IM terem grandes períodos instrumentais, há poucas músicas que sejam totalmente instrumentais, o que é uma pena. No entanto, por raras que sejam, as músicas intrumentais que existem valem a pena serem ouvidas, preferivelmente não dentro de um carro, com o risco sério de se cometerem várias infracções de trânsito quando os níveis de adrenalina subirem por excitação sonora.

Este tipo de músicas situam-se principalmente nos primeiros álbuns, o que é estranho para mim, mas a verdade é que o Steve Harris sempre teve a panca de ser um letrista decente e se calhar nunca teve grande necessidade de criar temas instrumentais por falta de letras.

A música de hoje chama-se Losfer Words (Big'Orra). Creio que é algum tipo de trocadilho fonético, pois se calhar deve querer dizer Lost for Words (Big Horror), o que não deixa de parecer implicar um augúrio cataclísmico qualquer.

Seja o que for, serve. 'Bora ouvir os Iron Maiden, com Losfer Words!

 

 

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publicado às 16:51


O Cidadão - Parte XVII

por Rei Bacalhau, em 09.10.15

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- Milicianos! Hoje seremos publicamente elevados a heróis. Hoje é o dia em que começaremos a Reconquista! Hoje é o dia em que os novos jovens saberão que têm algo pelo qual lutar! Hoje derramaremos o sangue dos colaboradores!
"Morte aos colaboradores!"
- Amanhã derramaremos o sangue dos pretos e dos ciganos!
"Morte à escumalha!"
- Depois derramaremos o sangue do Inimigo!
"Morte ao Inimigo! Morte ao Inimigo!"
- Vamos renascer a pátria das cinzas, uma nova geração de milicianos vai-se erguer e agarrar todos os inimigos da Pátria pelos tomates!
"Assobia! Assobia!"
- AH AH! E não vão conseguir! E depois cortamo-los! Mostraremos ao mundo que não precisamos de ninguém. Estamos sozinhos contra todos, mas venceremos, pois a nossa alma e a nossa força patriótica alimenta-nos quando temos fome! Embebeda-nos quando temos sede! Fortifica-nos quando caímos! Pela Pátria! Estamos sós, mas orgulhosamente!
"Orgulhosamente sós!"
- Outra vez! Orgulhosamente sós!
"Orgulhosamente sós! Orgulhosamente sós!"
- Hoje é o Momento!
"É o Momento!"
- Hurra, caralho!
"Hurra!"
"Hurra!"
"Hurra!"
Os discursos não fatigavam Pedro. Davam-lhe cada vez mais força, pois conseguia perceber que tinha todos aqueles homens cegamente sob o seu controlo. Os homens dispersaram. Muitos estavam vestidos à civil para poderem ir para os pontos de ataque na cidade sem levantar suspeitas. Nas lojas já estavam os equipamentos necessários para o massacre, pois tinha sido tudo preparado no dia anterior. Na base de Santa Margarida faziam-se os preparativos finais para quando as tropas da Guarda Nacional sitiassem o bairro.
Quando perguntado sobre Adrien, Pedro respondia ao seus soldados que tinha ido numa missão secreta urgente, e só chegaria à batalha depois. Foi preciso a sua força de vontade inteira para não destruir totalmente o seu gabinete ao aperceber-se da traição de Adrien.
A hora fatídica chegara. Eram dez da manhã. Ao longe ouvia-se a banda filarmónica a começar a tocar. A parada militar começara. Os milicianos nos seus esconderijos suavam de expectativa, apertando as armas com força. Diogo Anacleto, por exemplo, cuja companhia no apartamento era o já conhecido miliciano Matias, imaginava na sua cabeça como a acção se iria desenrolar: imaginava-se a aparecer na varanda e a apanhar de surpresa todos os "soldadinhos" da Guarda Nacional, nos seus uniformes de gala, e a manchá-los de sangue e vísceras; de seguida lançaria as granadas que iriam explodir e desfazer os colaboradores em dois; quando o massacre inicial acabasse, desceria e procuraria sobreviventes e tirar-lhes-ia essa classificação; conseguia imaginar voltar para a fortaleza no bairro de Santa Margarida, pegar numa das metralhadoras lá montadas e deliciar-se a dizimar vaga após vaga de colaboradores atacantes. Que dia glorioso imaginava este jovem!
Deixemos estes pensamentos fundamentalmente fratricidas, pois a parada militar já começara, como se disse.
As pessoas acorreram à cidade para ver a parada, não tanto para celebrar a ocupação inimiga, mas para celebrar o fim da Guerra. Eventos deste tipo eram raros, e por isso as pessoas aproveitavam. Muitas famílias tentavam ver algum dos seus familiares na Guarda Nacional a marchar. A parada não era aos milhares, mas era um número significativo de soldados. No entanto, tal nomenclatura de soldado poderá ser um exagero. A grande maioria destes jovens inexperientes era usado na força policial e não estavam devidamente treinado para fazer nem uma coisa, nem outra. O Inimigo era esperto ao ponto de propositadamente dar um treino inadequado aos agentes que deveriam manter a paz e estabilidade. O Inimigo queria colocar o território num estado de guerra civil sem eles próprios saberem, para drenar a força do povo. Até agora o plano estava a resultar na perfeição e o massacre planeado para o mesmo dia seria um grande sucesso para o Inimigo.
Mas a parada! Bela, enorme, folclórica, fanfarrona. À sua vanguarda vinha uma única peça de artilharia puxada por cavalos. Os soldados marchavam o mais direitamente que sabiam. As suas espingardas, que mal sabiam usar, reluziam com algum orgulho ao sol. Alguns camiões eléctricos acompanhavam a parada, lançando enfeites com as cores do Inimigo e replicando a música tocada pela banda. Estes camiões eram escoltados por soldados Inimigos profissionais, uniformizados de forma diferente para impedir potenciais entusiastas milicianos de interferir. Igualmente escoltado por um grupo destes soldados vinha um carro que transportava o Chefe da Polícia e o Presidente de Alvim, que acenavam levemente à multidão.
A parada passou pela primeira loja com milicianos escondidos, a barbearia referida há muito. Os milicianos tinham ordens para disparar apenas quando fosse dado o sinal. A euforia lá fora contrastava terrivelmente com o silêncio gelado que se mantinha nas terríveis lojas. A parada subiu a avenida que eventualmente acabaria na praça onde era a loja de Francisco Ponciano. Os milicianos sabiam que se aproximava o momento. Os corações palpitavam de adrenalina. A parada começa a entrar na praça, que fora mantida completamente livre de pessoas, como em qualquer outro ponto do trajecto. Subitamente a parada é obrigada a parar.
Do seu ponto de observação, Pedro estremeceu quando a parada estacou. Pensou no pior.
"É jogada dele... é jogada dele! Foda-se!"
Pegou no rádio.
- Atenção a todo o tabuleiro! Se alguma peça vir a causa da paragem diga ao banqueiro imediatamente!
Pouco depois, veio a comunicação.
- Daqui o Cão! Pararam na praça, mesmo à minha frente. - houve uma breve hesitação - É o tal traidor! Está com outros dois gajos.
O grito de raiva quase se ouviria pela cidade toda, tamanha foi a frustração de Pedro.
Deveras, à frente do cortejo, enfim, à frente dos cavalos, estavam três homens, equipados como soldados profissionais, uma complicação incompreensível de cintas e bolsos e padrões de camuflagem urbana. Tinham todos carabinas de assalto, mas um deles carregava uma mala comprida. Derrubaram alguns polícias para poder entrar, e isso colocou todos os outros em alerta. Os três homens tinham várias dezenas de polícias a acorrer à situação, apontando as armas de várias direcções. Nenhum dos três homens fez um gesto ameaçador, nem disseram nada.
Um oficial da Guarda Nacional finalmente interpela os homens.
- Quem são vocês e que fazem aí!? Pousem já as armas!
Dos três homens, um destacava-se por ter a mala. Foi este que avançou um passo. E gritou:
- Patriotas!
Instalou-se um silêncio tumular. Nem os pássaros se atreveram a chiar perante tal palavra publicamente proibida. Os polícias, jovens e confusos, entreolharam-se espantados.
- Certamente não matareis um irmão! - continuou depois de uma longuíssima pausa. Este era um homem que queria a sua mensagem perceptivelmente difundida.
- Não me conheceis!? - trovejou outra vez.
- Chega disto, - exclamou o oficial - aproximem-se! Prendam-nos!
Os civis já estavam a ser evacuados da praça. O evento lançou a parada no caos.
O homem pousa a mala. Abre-a. Todos apontam as armas, expectantes, prontos a disparar ao ver o que sai de lá de dentro.
A expressão de surpresa não poderia ser maior em todos os presentes.
O homem retirara da mala um machado, que não parecia ser mais que um machado de lenha. Da forma como reluziu notou-se que estava afiado, apesar de parecer bastante usado. O homem elevou este machado no ar, para que todos o vissem. Ninguém reconheceu o homem, mas todos reconheceram o machado, que tinha sido um dos símbolos pelo qual a mítica Milícia dos 8 era conhecida.
- Não vim aqui para vos combater, mas sim para vos ajudar! Quereis provas? Abri alas então! - e apontou com o machado na direcção de um edifício.
Deveras, vinha de lá um homem enorme, igualmente equipado, e arrastava um quinto homem, que vinha ensanguentado.
Era Adrien a arrastar Diogo Anacleto.
Juntou-se aos aparentes companheiros no centro da praça. Tirou o rádio de Diogo. Deu-o ao Cidadão.
- Este homem é um miliciano, tal como eu sou. Mas este homem pertence a um grupo que vos prepara uma emboscada. Se quereis viver, saí das ruas, pois não consigo garantir que o ataque não esteja iminente.
Falou depois para o rádio.
- Milicianos! Sei bem que me ouvem. Sei bem que juraram lealdade ao vosso Chefe. Mas ouçam-me! Os homens que vocês vão matar são vossos irmãos. Não são colaboradores! Muitos deles nem vinte anos têm! Nem lutaram na Guerra! Eles são parte da Guarda Nacional pois é a única forma de subsistirem. Ouçam-me, eu disse isto ao vosso Chefe, mas ele não foi razoável, talvez vocês sejam! O Inimigo quer pôr-nos a matar-nos uns aos outros, não percebem isso? Se vocês atacarem estarão a matar a nossa juventude. Estarão a perder a Guerra outra vez! Digo-vos apenas isto, se quiserem matar alguém, matem apenas os oficiais, eles são os verdadeiros colaboradores! Eles é que controlam os nossos jovens! Espero que tomem a decisão certa.
O rádio inundou-se de insultos por parte de Pedro que o Cidadão ignorou. As ordens que se ouviam eram simplesmente:
"Ataquem! Ataquem! Pela Pátria! Matem os colaboradores! Matem esse traidor!"
Foi a vez de Adrien, que tirou o rádio da mão do Cidadão.
- Milicianos. Fala-vos o Grande Cão. Ignorem o nosso Chefe. Os que confiarem em mim venham ter à praça. Vamos batalhar hoje, mas é contra o verdadeiro Inimigo. Ponto final.
O Cidadão sorriu a Adrien, agradecendo-lhe assim. Ele recomeçou a falar, mas com um público-alvo diferente.
- Jovens da Guarda Nacional! Há muito que a nossa força é drenada pela escumalha colaboradora que nos sabota a todo o custo, para seu benefício egoísta. Pois bem, isso hoje vai mudar! Hoje vamos limpar as vossas camadas superiores. Eu já identifiquei quais é que nas vossas fileiras são colaboradores. Peço apenas que não façam nada enquanto fazemos o nosso trabalho. Vocês são nossos irmãos! Não vos queremos matar. Mas qualquer um que defenda um colaborador será considerado também um colaborador. Qualquer um que se revolte agora será considerado um miliciano! Abaixo com o Inimigo!
Ao proferir isto, o barulho de soldados a correr e gritos aproximava-se da avenida. Os soldados profissionais Inimigos que defendiam o cortejo estavam a chegar. Posicionaram-se em frente dos homens no centro da praça. Um oficial do exército Inimigo berrou, com um sotaque suficientemente compreensível:
"Já chega! Um movimento em falso implicará execução imediata! Pousem as armas já!"
Os milicianos nada fizeram. O Cidadão gritou:
- É a vossa vez, patriotas! Recusais levantar-vos!? Ousais ver-nos a morrer em vão!?
- Chega! - replicou o oficial Inimigo, que começou a instruir os seus homens para abrir fogo.
"Não! Alto! Não disparem!"
Vários polícias corriam em direcção aos soldados, apontando por sua vez as suas armas a estes. Apesar de mal equipados, os polícias tinham uma enorme vantagem numérica.
"Larguem vocês as armas! No chão, já!"
Os soldados não tiveram escolha. Largaram as armas sem resistir e ajoelharam-se. O único que resistiu começou a levar pontapés de vários jovens que se haviam tornado violentos, inebriados de um novo sentimento revolucionário.
O Cidadão correu para travá-los.
- Alto! Os soldados são prisioneiros agora, e serão tratados como tal. Nada de violência desnecessária. Querem dar porrada a alguém!? Têm ali um que tem muita para levar.
E apontou para um oficial da polícia. Um colaborador. Este ficou branco de medo.
- Espalhai a notícia. Apanhai os colaboradores. Trazei-os todos para esta praça.
A cidade inflamou-se em insurreição contra as forças colaboradoras. Felizmente as massas souberam distinguir o conceito de colaborador, pois trouxeram não só oficiais corruptos da polícia, mas também do governo regional e municipal. Muitos milicianos de Pedro juntaram-se a Adrien, como este tinha pedido. Os restantes voltaram para a base. Pedro manteve-se uma incógnita durante o resto do dia. O Cidadão não se preocupou mais de qualquer forma. Não imediatamente, pelo menos.
No final da tarde, a cidade já acalmara. Muitos aproveitaram para pilhar lojas, mas iam sendo apanhados e igualmente levados para a praça. Já estavam reunidos várias dezenas de colaboradores (ou pilhantes) naquela praça, mas os mais importantes só chegaram depois. Um pequeno confronto entre soldados Inimigos e milicianos comandados por Adrien resultou na captura do Presidente e do Chefe da Polícia, que tentavam escapulir-se da cidade.
Reuniram-se centenas, senão milhares, naquela praça pequena. O Cidadão tomou a palavra.
- Cidadãos! Temos aqui muitos prisioneiros hoje. Estes aqui são soldados Inimigos. Receio informar que estes serão poupados totalmente, sem questão. Mas temos o problema dos restantes, que são muitos. Colaboradores e ladrões, as piores pragas da nossa nação. Que me dizem? Vivem? Ou morrem?
"Morte! Morte! Morte!"
- Morte, dizeis! E quem a aplicará? Eu? - a multidão aplaudiu. - Eu com o meu machado? - elevou o machado acima da cabeça; a multidão vibrou de euforia. - E porque não vós? Vinde cá! Dou-vos esse prazer!
A multidão acalmou-se, confusa.
- Vá! Peço um voluntário para matar a sangue frio um homem com este machado!
A multidão calou-se, enquanto olhavam uns para os outros.
- Então? Ninguém? Mas é fácil jovens, é só espetar! - levantou um dos colaboradores presos e pontapeou-o para a frente, fazendo-o cair. - Diz-me o teu nome, colaborador! - berrou como se possesso.
- M... Ma... Marco! - respondeu, choramingando.
- Marco quê!?
- Marco Gonçalves!
- Assumes que és colaborador!?
Marco não respondeu imediatamente, mas inferiu-se que sim, pois começou a chorar.
- Sim, sim, sou, colaborei com.. com o Inimigo.. Perdoe-me! Por favor!
- Ouvi isto, meus irmãos. Notai como ele pede perdão! Um colaborador! Ainda lhe querem a Morte!?
Ninguém respondeu.
- Marco! Diz-me: tens família?
- Ah não.. não!
- Mentes! - berrou o Cidadão, soqueando-o. - Tens ou não família?
- Tenho! Tenho uma esposa e dois filhos!
- Notai! Ele, por ser colaborador, tem uma esposa e dois filhos, pois é isento de pagar o imposto de natalidade! Estamos a criar uma nação de colaboradores! Quem é que o quer matar!? Ele tem uma mulher e filhos! Quem é que o quer matar? Tu? Tu? - repetia, apontando para vários espectadores. - Ninguém aqui quer matar este homem!?
O homem desfazia-se em lágrimas e baba e ranho. Um sentimento de pena invadiu a multidão, mesmo aquelas pessoas que não conseguiam ver o aspecto do homem.
O Cidadão subitamente levanta o machado e enterra-o nas costas de Marco, que solta um grito gutural. O machado prendera-se nas costelas, e por isso custou mais a sair. Levantou-o de novo, esguichando sangue para o ar. Nova machadada, apenas reagido com um espasmo por parte de Marco. Outra machadada, completamente mortal. Marco morrera agonizado, e a sua expressão final demonstrava-o. Vários homens vomitaram com o espectáculo de carnificina que presenciavam. Outros limitavam-se a não olhar. Alguns prisioneiros desmaiaram. Muitas pessoas foram-se embora, aterrorizadas.
O Cidadão acalmou-se. Depois de um longo silêncio de reflexão. Finalmente disse, com a voz rouca.
- Ide para casa irmãos. Amanhã o Inimigo voltará, senão mesmo hoje. Muitos de vós ireis presos, se não fugirem. Eu digo-vos: fugi! Ide para outras terras, a não ser que consigam explicar que nada tiveram a ver com o assunto de hoje. Desenrascai-vos! Eu apenas quis evitar um massacre hoje, não sem sacrifícios. Se alguma coisa, o dia que hoje provou que ainda não é o Momento.
Fez uma breve pausa, como se reunindo forças.
- Ouviste, caralho!? Ainda não é o Momento!
Ninguém, com poucas excepções, soube com quem é que ele estaria a falar.
- Adrien, garantes-me a lealdade destes homens, por agora?
- Sim, sem dúvida.
- Eles são experientes? Parece-me que reconheço um ou outro de vista.
- Sim, todos eles lutaram na Guerra, principalmente nas milícias do Norte.
- Óptimo, tratas de lhes pedir para executar os colaboradores todos?
- Sim. - respondeu Adrien secamente.
- Depois disso vamos pegar nas nossas coisas e aproveitar estes camiões eléctricos do cortejo, vão dar jeito. Eu vou prepará-los. Depois é bazar, sim?
- Sim, Chefe.
- Lucas, ajuda-me, sim?
A Milícia Nacional Geral partiu à noite. O Cidadão desactivou os transmissores que os camiões tinham, para não serem seguidos.
Era a segunda vez que a batalha de Santa Margarida nunca realmente ocorrera.
Pedro e a sua milícia restante desapareceram, deixando apenas edifícios vazios no bairro.
Um fio contínuo de sangue colaborador corria nas sarjetas da praça. Curiosamente, parte desse sangue era o de Diogo Anacleto.

Uma chamada no meio da noite acorda um homem. Rabugento, lá atendeu o telefone.
- Sim?
- Ele voltou.
- Ele?..
- Ele.
Desligaram a chamada. O homem lançou um enorme suspiro. Levantou-se e começou a vestir-se.

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O Cidadão - Parte XVI

por Rei Bacalhau, em 06.10.15

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O episódio que acabara de tomar parte tinha sido tão emotivo e inesperado que Adrien nem estranhou o facto de estar quase a arrastar um homem ferido pelo meio da rua, sob os olhares medrosos dos habitantes que presenciavam à cena. Chegaram a um beco escuríssimo, no qual Adérito poderia esconder-se confortavelmente sem nunca ser detectado. Uma única porta existia. Entraram. Subiram com dificuldade um lanço de escadas velho e sujo, que não parecia ser capaz de suportar 3 homens ao mesmo tempo. Uma porta estava entreaberta e uma luz daí vindoura alumiava o corredor do primeiro andar. Arrastaram Dário para dentro do apartamento, que contrastava completamente com o restante bairro. Poder-se-á reconhecer este apartamento como o mesmo onde Francisco Ponciano inicialmente conheceu o Cidadão. Deveras, o Cidadão acorreu à porta e ajudou os seus companheiros cansados a transportar a sua carga para a cozinha, onde esperava um estojo de primeiros socorros.
- Adérito, podes fazer-me o favor? Tenho de falar com o Adrien.
- Sim... claro... à vontade... Chefe... - respondeu Adérito, ainda ofegante.
Adrien foi convidado a entrar na sala de estar. O Cidadão acendeu um candeeiro. Lucas estava obscurecido ao canto, mas visível. Uma espingarda com uma mira estava apoiada no parapeito da janela. Adrien investigou a espingarda e a visão que a janela providenciava. Pegou sem cerimónias na espingarda e olhou pelo retículo. Não conseguiu ver grande coisa, mas notou que tinha alcance e visão sobre o campo de batalha recente. Posou a espingarda, não satisfeito. Ia fazer a pergunta, mas o Cidadão, que observava silenciosamente, não lhe deu a oportunidade.
- Sim, fui eu. Teria pedido ao Lucas, mas ele não gosta de disparar. Senão teria ido eu próprio lá com o Adérito também.
- Salvou-me a vida, então.
- Talvez. - respondeu o Cidadão secamente - O Adérito também ajudou pelo que vi. Eu diria que investi uma bala num projecto potencialmente benéfico. Compreenderá que o meu interesse em mantê-lo vivo não é necessariamente por razões de amizade nem de solidariedade. O senhor é-me útil. Ou poderá ser, enfim!
Adrien compreendeu o significado destas palavras. De qualquer forma já tinha feito a sua escolha. Retirou um objecto do bolso e colocou-o na mão do Cidadão. O recipiente estranhou o gesto e analisou o objecto. Era uma peça de Monopólio. Um cão.
A expressão de surpresa do Cidadão foi genuína, ao ponto deste olhar para Lucas, mostrando-lhe o objecto, sorridente.
- Esta não estava eu à espera, admito - disse, rindo-se. - Ah, diga-me uma coisa... diga-me que esta é a peça que o Pedro tinha na mesa dele.
Adrien acenou que sim.
O Cidadão largou uma enorme gargalhada e até Lucas esboçou um sorriso.
- Adoraria ver a cara do Pedro quando ele perceber que um dos seus subchefes o abandonou! Muito bem Adrien, estou a ver que estamos sintonizados, eu e o senhor! Vamos a assuntos mais sérios. Ah, nem me lembrei! O senhor está bem? Ainda foi bastante ferido naquela luta.
Dito isto, o Cidadão acendeu a luz para melhor inspeccionar o estado de Adrien, que entretanto também se esquecera que poderia estar ferido, ao contrário do que a adrenalina que lhe percorria o corpo permitiria inferir.
- Ui, amanhã vai ser bonito vai. Mas o senhor deve ser feito de ferro, ainda imaginei sentir-lhe umas costelas partidas, mas parece estar tudo relativamente bem. Deixe-me só limpar aqui estas feridas.
Enquanto lhe tratava das feridas, o Cidadão continuou a falar.
- O senhor passou por muito antes de conseguir ter esta entrevista. Sinceramente não planeei que o Dário e o seu bando aparecessem exactamente ali àquela hora. Peço-lhe desculpa, pois sinto-me responsável pelas dores horríveis que deve ter agora e que terá certamente amanhã. Para mim, o teste seria apenas aquela brincadeira de coçar o olho, que me permitiu inferir que tem a perspicácia necessária para sobreviver no ambiente hostil que é uma milícia fantasma, como eu lhe chamo.
- Milícia fantasma?
- É uma milícia que não existe, mas que puxa os cordelinhos por trás dos bastidores, se me faço entender.
- Então, mas o coçar o olho não é um código vosso?
- Não, - respondeu o Cidadão sorrindo - era apenas uma maneira de o pôr a comunicar comigo caso necessário.
- Mas só nos tínhamos visto pela primeira há menos de meia hora? Tenho assim uma cara de traidor tão grande que foi logo óbvio?
- O senhor só me conheceu nesse instante, sim. O que é que o faz pensar que eu não o conhecia a si?
A resposta impressionou Adrien, pois já tinha visto que este era um homem de recursos, com um poder que ele não imaginava. Era desconfortável saber tão pouco sobre alguém que por seu turno sabia tanto sobre ele.
- O senhor já me conhecia? - rematou Adrien - Mas mesmo assim porque é que supôs que eu iria trair a minha milícia? E como é que soube que me iria encontrar ali?
- Eu não sabia, fiquei agradavelmente surpreendido por o ter encontrado, até previamente pensava que pudesse estar morto. Foi por ironia do destino, se acreditar em tais palermices, que por acaso o encontrei associado à facção que menos me convinha. Mas lá o convenci a vir para o meu lado, não é assim? Respondendo à outra pergunta, repare que "trair" é uma palavra forte, meu caro. Talvez não a devêssemos utilizar, parece mal. No entanto, eu sei qual é o seu itinerário no seio das milícias ao longo da Guerra. Eu sei o que fez. O senhor, atrás dessa máscara de brutalidade machista que usa, é comprovadamente humano. Eu sei da história que se passou em casa da família Silva.
Adrien empalideceu terrivelmente ao ouvir o nome. Como é que aquele homem poderia saber tal coisa? Ele estava sozinho na altura. Ninguém poderia saber.
- Não se preocupe. Eu compreendo que é uma máscara que quer continuar a usar. Mas eu preciso de homens como o senhor. Certamente não é por o senhor ter morto duas pessoas hoje e muitas outras anteriormente que vou pensar menos de si. Repito, o senhor é comprovadamente humano, quando tem de o ser.
- Mas o que é que precisa de mim?
- Preciso de várias coisas, mas temos assuntos urgentes a tratar, nomeadamente o massacre planeado para amanhã!
- Sim! É preciso impedir o Che... o Pedro! de realizar o ataque, ou pelo menos enfraquecê-lo. Sei de cor as posições das várias equipas e sei quando é que o ataque deverá começar. Já pensei em várias formas de aniquilar a ofensiva totalmente, com baixas mínimas, espero eu. Não sei é como é que o Pedro utilizará as suas tropas de reserva, que mantém na base no bairro. Já sabe que as equipas de ataque são só um engodo, não é?
- Sim, sei e calculei isso tudo, porque foi assim que ensinei o Pedro. Há uns anos seria o que eu faria. Agradeço o seu entusiasmo, mas receio que o seu raciocínio todo, apesar de excelente e louvável, é em vão.
- Então? Porquê?
- Porque a batalha não ocorrerá.
- Como? Como assim? O que é que vamos fazer?
- Vamos ser honestos, simplesmente. Iremos preparados para fazer batalha, mas vamos também dizer que não a faremos. E explicaremos porquê.
Adrien ficou confuso. Pensou que alguém ali enlouquecera, e não sabia se tinha sido ele próprio.
- Desculpe, não estou a entender.
- Amigo Adrien, não se preocupe, contar-lhe-ei tudo, a devido tempo. O cortejo começa às 10, não é verdade? Temos então umas 6 horas para discutirmos, comermos e dormirmos um bocado. Amanhã vai ser um dia em cheio, e é bom que esteja preparado para lutar, não vá o Diabo tecê-las. No entanto, há ainda umas formalidades a tratar. Queira seguir-me, se lhe for possível.
O Cidadão dirigiu-se para a cozinha. Adrien seguiu lentamente, começando a sentir as dores inevitáveis. Dário estava sentado numa cadeira, amarrado, sem calças, com uma ligadura grande à volta da coxa esquerda. Adérito estava em pé por trás dele. O Cidadão puxou uma cadeira e sentou-se virado de frente para Dário.
- Adrien, puxe uma cadeira também, não esteja em pé. - sugeriu o Cidadão.
Adrien sentou-se. Observou o homem que tentara matá-lo ainda há pouco. Tremia descontroladamente, de dor ou de medo. O suor escorria-lhe profusamente deixando um cheiro intenso na cozinha. Ele nem se atrevia a olhar para cima, para não ter de enfrentar o Cidadão.
- Senhor Dário, deve ter alguma ideia porque é que está aqui. Foi uma sorte o termos encontrado tão despreocupadamente a patrulhar as ruas que considera suas. Será que assumiu que já nos tínhamos ido embora só porque nunca mais nos viu? Devo admitir que o senhor provou ser bastante astuto a esconder-se e defender-se de nós. Confesso que estávamos a ficar sem ideias de como conseguir capturar o senhor. - o Cidadão fez uma breve pausa e suspirou. - Estou desapontado, sabe? Ter-se deixado cair num erro tão básico. Diga-me, em que é que estava a pensar quando pensou em atacar um homem do tamanho de Adrien só com 6 homens? É suicídio! Só conseguiu chamar a nossa atenção. Nem quis acreditar quando o vi frente a frente aqui com o meu amigo. Ainda por cima trouxe depois o resto do seu bando! Não compreendo. Deveras que não! Adérito, compreendes o porquê de ele se ter mostrado tão despreocupadamente? Eu não, de certeza.
Adérito sorriu.
- Ele estava a vir para aqui, para ter connosco.
- Não! Não pode ser! Que raio, mas isso seria muito generoso, porque carga de água é que se viria entregar?
Dário não aguentou mais. Vomitou furiosamente a afirmação bastante clara:
- Vinha para matar-te, branco do caralho! A ti e a todos que aqui estão!
O Cidadão soprou um assobio de espanto, jocosamente.
- Então, mas como é que o senhor soube que estava aqui? Temos sido bastante cuidadosos em não revelar a nossa posição.
Dário não respondeu. Adérito interveio.
- Fui eu que lhes disse. Bom, não directamente, mas foi através de mim que eles souberam disso. Espalhei o boato, que chegou ao Dário mais rapidamente que eu esperava.
Dário urrou de raiva, não acreditando no que acabava de ouvir. Tinha sido tudo uma armadilha.
- Mesmo assim - continuou o Cidadão - o que é que o fez pensar que conseguiria atacar a nossa posição? A vantagem que tem em números de nada lhe serviria se estava a planear atacar-nos de frente, como me pareceu. Não se ofenda, mas se o senhor tivesse lutado na Guerra teria compreendido isso. Já agora, nada disso justificaria atacar o amigo Adrien, que estava pacatamente à espera de um encontro.
Adrien, instintivamente, comentou com base no que tinha percebido da conversa:
- É possível que eles tenham pensado que eu fosse da sua equipa, e pensaram em começar comigo.
- Sim, é o mais provável. Por outro lado, o senhor Dário tem uma reputação em atacar pessoas inocentes sem provocação. Que me diz, senhor Dário?
Nada, aparentemente. O Cidadão virou-se para Adrien.
- É verdade o que disse. O senhor não é parte da minha equipa. Mas pode passar a sê-lo, se assim o entender. Considerando que está aqui, por princípio gostaria de assumir que aceitaria o convite de pertencer à recém-formada Milícia Nacional Geral. Adrien Ferreira, convido-o a fazer parte da nossa milícia, para a reclamação dos nossos territórios, se não hoje, certamente no futuro.
- Essa milícia já é grande? Tem muitos membros sob o seu comando?
- Sim, tenho alguns e excelentes. Neste momento somos três, o que já é um bom número. Consigo seríamos quatro.
Adrien não compreendeu se aquela resposta era algum tipo de piada, pois o Cidadão disse-o com a mais profunda seriedade. Não foi razão suficiente para reflectir mais no assunto. A sua decisão há muito que estava feita.
- Sim, aceito, se você me aceitar.
- Ainda bem que diz isso, pois resta-lhe um teste. Já testei a sua inteligência e sem querer já testei a sua força...
Deixou a frase morrer. Dirigiu-se a Dário.
- Dário Cunha, é acusado pela Milícia Nacional Geral dos crimes contra a Pátria de pilhagem, roubo, traição, colaboracionismo, violação sexual, homicídio em vários graus e de indecência pública. As provas e as testemunhas são avassaladoras. A Pátria, por mim representada, considera-o culpado, e a sentença é execução imediata. Qualquer membro do seu bando que venha a ser capturado poderá ser redimido se o senhor afirmar agora que eles agiram sob as suas ordens, tomando então a responsabilidade dos actos deles.
Dário nada disse.
- Muito bem, serão executados também aquando da sua captura. A sua família não será notificada directamente, mas a desonra das suas acções será afixada publicamente num sítio da Internet, quando este estiver disponível. Não lhe dou o direito de tentar explicar-se ou sequer de tomar a palavra. O senhor é um cão imundo, e morrerá como um.
Pegou numa faca, que reluziu fatalmente naquela cozinha. Virou-se para Adrien.
- Este é o seu teste, Adrien. Mate-o. - e dizendo isto, deu a faca para a mão de Adrien.
Adrien tê-lo-ia feito sem hesitar há pouco mais de uma hora. Agora era diferente. Não havia honra nenhuma em matá-lo de forma tão bárbara, estando ele amarrado e incapaz. Adrien não esperava tal teste. Não esperava que o Cidadão se baixasse aos mesmos níveis que Pedro. A verdade é que a acusação era feita de uma maneira muito semelhante às poucas que tinha visto Pedro fazer. Começou a pensar se mais uma vez não teria feito um erro ao aceitar a proposta de entrar na milícia. Depois de um longo momento de hesitação, constantemente observado pelo Cidadão, Lucas, Adérito e até Dário, que gemia expectantemente, finalmente disse:
- Não posso matá-lo a sangue-frio. Preciso de saber o que é que ele fez, em concreto. E porquê!
- Isso não interessa, caro Adrien. Eu disse-lhe para o matar. Recusa obedecer-me?
A pergunta teria várias implicações. Adrien estava farto de obedecer cegamente a ordens. Não. Bastava já!
- Desculpe, mas sim, recuso obedecer-lhe. Não posso executar alguém só porque mo mandam fazer. Não abandonei um tirano para me juntar a outro! Que se lixe este seu teste de obediência!
O Cidadão sorriu. Estendeu a mão a pedir a faca a Adrien, que lha deu com algum desdém. Pousou-a no balcão e apertou calorosamente a mão de Adrien, que ficou atónito com tal reacção.
- Bem vindo à MNG! Este teste não era de obediência, mas de senso comum. O que disseste (e agora vou-te tratar por tu, agradeço que faças o mesmo, se quiseres) é muito acertado. Nunca aceites uma ordem minha que vá contra os teus princípios, mas peço-te que nessas situações me expliques porquê. Eu provavelmente terei de te pedir que faças algumas coisas horríveis. Dou-te sempre o direito de rejeitares a ordem. Por muito zangado que eu fique contigo na altura, nunca deixes de seguir o que te parece correcto. Obviamente, não podes é trair o Código.
Virou-se dramaticamente de novo para Dário.
- Está a ver senhor Dário? O senhor já foi útil para determinar se aqui o Adrien é ou não um homem às direitas. Receio informá-lo que o desfecho para si será o mesmo, não obstante o facto de Adrien o ter poupado.
Dito isto, o Cidadão pegou na faca que tinha pousado e cortou o pescoço de Dário num golpe rude. O chão inundou-se de sangue. Um pequeno esguicho jorrava do pescoço, mas enfraqueceu em pouco tempo.
- Não te preocupes Adrien. Podes confiar em mim que este homem fez mais que o suficiente para merecer tal tratamento. Um dia mostrar-te-ei o processo dele.
Olhou de novo para o cadáver de Dário e abanou a cabeça.
- Pessoal, vamos embora, já não há nada a fazer aqui. Lucas, a polícia está lá fora?
- Está lá ao fundo. Parecem ocupados.
- Agarrem no equipamento e vamos para o abrigo. Ainda quero dormir uma horita ou duas.
- O Dário fica ali? - perguntou Adrien.
- Sim, nós depois informamos a polícia onde é que podem ir buscar corpos. É uma questão de saúde pública e tudo. Ah, aliás!
O Cidadão foi buscar uma folha de papel. Escreveu um texto a explicar a situação, incluindo o nome da vítima, as acusações e outras informações relevantes. Colocou-a em cima do balcão.
- Vamos!
Os quatro homens saíram do edifício carregados com algumas malas e meteram-se por um beco, desaparecendo na escuridão.

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Música: The Way It Is

por Rei Bacalhau, em 05.10.15

Eu evito falar de política.

De modo algum isso significa que não tenha inclinações políticas. Tenho-as é numa direcção que raramente encontro noutras pessoas.

Suponho que é a primeira vez que o admito, mas suponho que sou, de certa maneira, anarquista. Reparem que a definição simplista de anarquia é uma sociedade que não tem um Governo. Por agora, tal definição chega-me.

Não consigo imaginar porque é que eu haveria de gostar de ser governado por alguém que não faz o que eu concordo. Ninguém gosta de fazer alguma coisa obrigado. Não deveria ser sempre opção da pessoa fazer x ou y? Não é essa uma definição de liberdade?

Mas o conceito de Governo faz-me menos confusão do que o conceito de eleger alguém para governar: a democracia. É isso que quero discutir.

Se tenho alguma vergonha em dizer que sou anarquista, não me impeço de modo algum de dizer que não sou democrata. A democracia é utópica, do mesmo modo que o anarquismo e o comunismo são. Nunca podem funcionar perfeitamente, pois o elemento humano faz estes sistemas sempre imperfeitos (se calhar estou a falar de modo demasiado absoluto, pois não sei se no futuro haverão sistemas políticos e sociais perfeitos, ou pelo menos melhores).

Eis o argumento mais comum com que sou abordado: "Ah, mas votar é essencial para pelo menos demonstrares que não estás contente com ninguém."

Tretas.

A nossa sociedade já está tão formatada para votar que não compreende que ao fazê-lo está deliberadamente (mas não conscientemente) a rescindir da sua liberdade como pessoa. Sendo parte de um processo que colocará OUTRAS pessoas a gerir o dinheiro delas quase que lhes tira o direito de se queixarem (é óbvio que não tira, não é isso que quero dizer, estou apenas a hiperbolizar; quero apenas dizer que os eleitores mais ou menos fizeram a própria cama).

Esse é outro argumento, agora que me lembro... "Ah, se não votares, então não te podes queixar."

Tretas.

Sou um humano livre, em princípio. Por eu não ser parte do processo democrático não posso ter ideais políticos? Não posso discordar com decisões que me afectam? Vivemos nalgum regime em que a liberdade de expressão é limitada? Que eu saiba não. Então porque carga d'água é que me haveria de calar? Que direito têm os outros de me dizerem que eu não posso ter opinião?

O pessoal está tão mentalizado para a democracia que não conseguem imaginar outros sistemas de eleição políticos, parece-me. E reparem que a democracia, como a vemos funcionar pelo menos em Portugal é algo do género: temos uma relativamente pequena percentagem de pessoas a decidir pela população inteira. Isto apenas pode funcionar se as pessoas que estão a decidir forem ultra competentes e informadas. Mas não. Os eleitores vêm de todas as classes sociais, o que é notável, mas irremediavelmente fatal.

A Dona Estefânia, da peixaria, vai votar e decide que o Passos Coelho é o melhor candidato. Porquê? Porque leu as propostas de todos os partidos e está convenientemente informada? Não, eu diria que não. Eu diria que votou nele porque lhe deu um beijinho quando ele passou pelo mercado em campanha. Estou a simplificar demasiado o exemplo (para me ajudar no argumento, admito), mas creio sinceramente que como a Dona Estefânia existem muitos com muito melhores qualificações para saber votar, e que mesmo assim votam não-objectivamente.

Reparem, vota-se em pessoas que não conhecemos, para fazer algo que não compreendemos totalmente, por razões pouco fundamentadas. Eu não confio nos candidatos e não confio nas pessoas que os elegem. 

Fala-se no direito de voto... fala-se no quase DEVER de voto... quem fala na competência para votar?

A democracia é uma ilusão, e quem a defende tão irascivelmente como às vezes vejo deveria reflectir um bocado mais objectivamente. Pode-se dizer que a democracia é o sistema de eleição de Governo menos mau. Tudo bem, mas eu não estou exactamente pronto a aceitar isso como desculpa até ter um bocado mais de vivência (que às tantas é o que me falta).

 

Infelizmente, sendo membro da sociedade, tenho apenas de coadunar com o Governo e as suas palermices. Eu, como indivíduo não posso fazer nada, e por isso supostamente deveria resignar-me ao que a sociedade me oferece.

É simplesmente como a vida é.

Mas não acreditem nisso.

 

 

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O Cidadão - Parte XV

por Rei Bacalhau, em 02.10.15

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Era o final da tarde. O Sol já há muito começara a descender para desaparecer no horizonte, mas este ainda não tinha nenhum daqueles tons coloridos que anunciam o fim do dia. Os dias eram longos e por isso o calor ainda se fazia sentir, especialmente nos corpos que permaneciam fechados em apartamentos, como se inseridos em estufas humanas.
Se por um lado Diogo Anacleto adormeceu, sem dúvida por causa da sonolência que tal calor e ócio implicam, Adrien por seu lado estava bastante desperto. Amanhã seria o cortejo. As últimas preparações ainda estavam a ser feitas pelas ruas fora. Adrien tremia mentalmente pensando nas acções horríveis que faria amanhã em nome da Pátria, já que a sua outra alternativa havia falhado há uns dias, apesar de ter experimentado o gesto ridículo mas umas vezes, cada vez mais demoradamente. Poderia fugir, simplesmente não participar, mas isso colocaria em risco toda a operação, e talvez morressem mais homens que fosse necessário. Talvez fosse realmente o melhor a fazer... lutar, isto é. Nenhuma guerra é ganha sem sacrifícios, é bem sabido.
O pensamento de Adrien foi interrompido pelo bater na porta. Era de estranhar, pois não tinha ouvido a porta do prédio abrir-se. Seria alguém de dentro do edifício? Algum vizinho? Adrien levantou-se do sofá e espreitou pelo buraco na porta. Apenas viu tenuemente um rapaz muito novo, com roupas de adolescente e cabelo a tapar-lhe a face, a esperar pacientemente que abrissem a porta.
- Quem é?
O jovem nada disse. Baixou-se e aproximando-se da porta pareceu tentar enfiar algo por debaixo da porta. De facto, Adrien sentiu e ouviu uma folha de papel que lhe acariciou as botas pesadas e insensíveis. Pegou na folha, que tinha apenas uma morada escrita e uma hora, que Adrien nem leu devidamente. Confuso, olhou pelo buraco de novo. O jovem coçava o olho direito.
Adrien abriu a porta, mas o jovem já descia as escadas. Pediu-lhe para esperar, mas este não parou, mantendo o seu passe calmo. Adrien agarrou o jovem pelo ombro. Este virou-se finalmente. Adrien reconheceu, espantado, Lucas, vestido de adolescente por alguma razão. Por instinto, largou-lhe lentamente o ombro e deixou-o ir. Lucas saiu do prédio sem dizer palavra e desapareceu.
Adrien escondeu o papel no bolso, enquanto subia as escadas balbuciando interjeições de perplexidade. Ao fechar a porta, Diogo Anacleto surpreendeu-o, perguntando:
- Quem era? Acordei contigo a chamares por alguém.
Adriem, impassível, respondeu simplesmente.
- Eram uns putos a pregar partidas. Pensavam que aqui viviam só velhos. Quando abri a porta desandaram logo, mas ainda fui tentar apanhá-los, não fossem ser espiões... O Chefe bem nos disse que isso poderia acontecer por parte do traidor.
- Então... e eram?
- Sei lá! Acho que não. O outro gajo sabe desde já que estamos aqui, o que é que ganharia em mandar cá putos a bater à porta? Só se for p'a chatear. Seja como for, fica de olho aberto, menino, se eles voltarem temos de apanhá-los, nunca se sabe.
Diogo Anacleto praguejou, não sabendo se o "olho aberto" não era uma referência sarcástica a ele próprio.
Adrien não releu o papel senão muito depois, para que Diogo não suspeitasse. Assim que o fez, notou que era desta forma convocado às duas da manhã dessa noite, na morada especificada.
A morada era num bairro não muito animador para alguém na sua posição. Estar numa Milícia com ideais xenófobos colocava Adrien num mal-estar constante ao entrar neste tipo de bairro, pois ele próprio, branco como era, era a minoria naquela situação. Seja como for, esse mal-estar não se apresentava em nervosismo, pois Adrien era um homem capaz de se defender perfeitamente numa luta justa. Adrien chegou pois à morada especificada, e deparou-se com uma casa abandonada e semidestruída, provavelmente atingida pela Guerra. Chegou com alguns minutos de antecedência. Hesitou, não sabendo se deveria tentar entrar na casa ou simplesmente esperar. Optou pela última opção. A rua estava deserta e horrivelmente mal iluminada. Será por isso necessário desculpar Adrien por não ter visto um grupo de indivíduos a aproximar-se sorrateiramente.
- Sócio, m'é'q'ié? A noite 'tá mesmo bacana, n'é?
Adrien ficou rapidamente rodeado. O homem que falou colocou-se à sua frente. Para Adrien todos tinham um aspecto feio e asqueroso, e nem era por uma questão de racismo. Um homem inferior ter-se-ia deixado intimidar pela situação. Não era o caso de Adrien.
- 'Tá agradável, 'tá. Posso fazer alguma coisa por vocês?
- Relaxa bacano, - disse quase imperceptivelmente o homem. - 'tás tenso irmão. Que fazes aqui no nosso bairro? O irmão branco nunca vem aqui. Não sei, devem ter medo. Olha lá, tu não tens medo, pois não, mano?
- Eu não sou teu irmão, e muito menos tenho medo de pretos como vocês. Desandem antes que vos foda a fuça!
Adrien arriscou tudo com tal afirmação. Estava em desvantagem numérica, estava rodeado, não sabia se eles estavam armados, e estava num local que não conhecia e onde não poderia realisticamente esperar ser ajudado. Podia apenas esperar que aqueles jovens não estivessem à procura de sarilhos e que simplesmente se afastassem.
Não foi o caso.
Da linguagem imperceptível dos atacantes, Adrien pouco compreendeu. Eram seis homens no total. Os primeiros a atacar foram os homens que estavam na lateral, para lhe agarrarem os braços. Adrien seria mais que suficiente para lutar com dois ao mesmo tempo. Os jovens atacavam com alguma incerteza. Adrien era um homem possante, como já se disse, e um miliciano experiente. Adrien pegou no jovem à esquerda, levantou-o do chão com os poderosos braços e rodopiou-o para a direita, embatendo no outro jovem. Adrien lançou-se contra outro jovem, e desferiu-lhe dois socos na barriga. Entretanto os outros três acorreram e controlaram a fúria de Adrien por um momento. Adrien soltou-se, agarrou num deles, elevou-o e espetou-o no gradeamento da casa abandonada. O corpo ficou mole e suspenso fatalmente. Os outros não se aperceberam disto e continuaram o ataque. Os dois primeiros tinham arranjado paus da casa abandonada, e bateram indiscriminadamente em Adrien. Enfraquecido, não se deixaria morrer tão facilmente. Levantou-se, afastou-se, virou-se e ia levando uma paulada, mas conseguiu agarrá-la. Com a sua força superior, puxou o jovem atacante para si e desfez-lhe a cara com o punho, saltando sangue. O jovem, agora no chão, queixoso, levou com a bota esmagadora de Adrien, que desferiu o golpe com um rugido ensurdecedor. Armado com um pau, Adrien podia agora passar outra vez ao ataque, com dois oponentes a menos. Notou, no entanto, que estava outra vez rodeado, desta vez por todos os lados. Adrien afastou os seus adversários rodopiando o pau como intimidação. Decidiu, na sua fúria, atacar um deles, e acertou-lhe com um soco na cara enquanto o jovem se tentou defender do pau. Caiu inconsciente com a brutalidade do impacto, mas Adrien rapidamente recebeu golpes nas costas. Conseguiu afastá-los de novo, mas estava dorido, estava cansado, custava-lhe respirar e sangrava em vários locais. Olhou curvado para os três restantes inimigos. Notou que atrás deles aproximavam-se vários homens. Vários traziam armas. Era claro que vinham acudir os atacantes. Quando chegaram, verificaram os corpos dos três homens que estavam imóveis (um deles pendurado ainda no gradeamento). Dois deles estavam mortos.
Adrien deparou-se então com pelo menos vinte homens, para ele de fealdade variável mas indesmentível. Cuspiu para o chão e tentou endireitar-se. Largou o pau, que nem notara que se tinha partido no último golpe.
- Venham! Venham! - trovejou com uma voz grave e cortante que causaria temor no coração dos mais irredutíveis. - Um a um se tiverem coragem. - fez uma pausa para respirar. - Cobardes de merda! Sem armas e sem truques! Um de cada vez, aguento com vocês todos, caralho!
O homem que interpelara inicialmente olhou para trás e pediu algo. Deram-lhe uma pistola. Apontou-a a Adrien.
Não se interprete como redundância o facto de se repetir agora que Adrien não era um homem comum. Se se repete a informação é apenas para reforçar esta característica deste miliciano exemplar. Adrien, apesar de tudo, tinha o sangue a ferver, e não morreria executado como gado. Morreria como um leão.
Tinha 10 metros de distância até ao seu carrasco. Juntou todas as suas forças e fôlego e lançou-se numa última carga, armado apenas com os punhos.
Muitos gritaram "Dispara!" ou simplesmente riram-se desdenhosamente da acção aparentemente louca daquele branco.

Ouviu-se um tiro.

De seguida ouviram-se vários outros. O carrasco foi o primeiro a cair, logo no primeiro tiro. Os tiros eram dirigidos à pequena multidão, que agora estava em debandada, ou que tentava devolver fogo em direcção desconhecida. Os que ficaram foram caindo um a um. Adrien estacou naquele caos todo, protegendo-se depois por trás de um muro da casa. O fogo parou, mas recomeçou logo a seguir. O atirador apenas recarregara a arma. Adrien viu um homem a correr cautelosamente na direcção da multidão, querendo garantir que apanharia todos. Desapareceu ao fazê-lo.
Adrien ficou só.
Aproximou-se dos vários corpos que agora decoravam a estrada, maioritariamente cadáveres. Ouviu gemidos. Alguém ainda vivia naquele local tão sepulcral! Adrien verificou que quem se mexia era o seu potencial carrasco, que se arrastava desesperadamente, gemendo e ganindo, vendo-se indefeso. Adrien parou-o, colocando uma bota no peito. Agarrou na pistola que ele deixara cair. Apontou-a.
- E agora, irmão preto? Agora é a minha vez não é?
- Não! Não... Não!
Fez-se um longo impasse silencioso, enquanto Adrien debatia-se com o resto da sua humanidade para decidir se deveria puxar o gatilho.
Uma voz interrompeu a cena.
- Se eu o quisesse morto já o teria feito. Por alguma razão ele está vivo.
Adrien virou-se para o vulto que se aproximava, obscurecido pela iluminação ausente. Só quando se aproximou é que Adrien reconheceu um homem totalmente equipado para combate, quase relembrando algum tipo de membro de forças especiais. Já o tinha visto antes, mas apenas de longe. Só agora lhe via bem as feições. Estendeu uma mão, deixando a arma a balançar-lhe no corpo, presa por uma cinta. Adrien cumprimentou sinceramente com um olhar agradecido este seu salvador.
Era Adérito.
- Desculpe dizer-lhe, mas depois de estar numa milícia que trata os pret... - Adrien hesitou, corrigindo-se - os negros como trata, quero dizer, nunca pensei em ser salvo por um.
- Foi uma sorte para ambos, por acaso. Eu vinha aqui ter consigo, mas atrasei-me e informaram-me que tinha sido apanhado aqui pelo Dário e pelo bando dele. Equipei-me o mais rapidamente possível, pois tenho andado atrás deles há algum tempo e pareceu-me uma boa oportunidade para apanhá-los. Quando ouvi o primeiro tiro estava a virar ali a esquina, pensei o pior.
Adrien estranhou. Quem é que tinha disparado o tiro então?
- Adrien, tenho de lhe pedir que tire o pé de cima do Dàrio. Temos de levá-lo ao Chefe.
Adrien, cada vez mais perplexo, respondeu irritado:
- Mas ele tentou matar-me! Que mais é que poderá querer dele, é matá-lo já e acabar com isto.
- A batalha acabou, - disse Adérito, sorrindo, mostrando os grandes e afáveis dentes brancos - há muito a corrigir agora, e a morte dele não resolve nada. Ajuda-me a levá-lo? O ferimento na perna não é grave, mas tem de ser tratado.
Adrien percebeu a mão do "Cidadão preocupado" neste assunto. Aquiesceu. Ambos pegaram em Dário, semi-inconsciente.
- Desculpe, nem me apresentei, mas vi que sabe o meu nome.
- O senhor não sabe o meu?
- Digamos que não.
- Adérito. Muito prazer.
- Adrien Ferreira. O prazer é todo meu. Pode crer que sim!

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Inominável

por Rei Bacalhau, em 01.10.15

Já há algum tempo que andava com a ideia de falar de videojogos aqui.

A oportunidade surgiu-me noutro formato.

A Revista Inominável é um esforço colaborativo de vários bloguistas, entre eles eu, aparentemente, para fazer uma revista escrita apenas pelo pessoal que anda nestas atmosferas virtuais.

Apesar de este blogue não ter grande tráfego, suponho que é apenas justo que também faça uma referência a este embrião.

Boa sorte a todos, digo eu.

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