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Dói

por Rei Bacalhau, em 29.11.15

Deveras. Dói. Absolutamente. Inequivocamente. Totalmente. Quase fatalmente.

Dói porque não o compreendo. Doí porque não consigo compreendê-lo. Não existe um manual. Não existe um vídeo na Internet a explicar. Não existe um especialista no assunto. Dói porque é impossível compreendê-lo. E isso é horrivelmente assustador.

É o pior sentimento que me pode afligir. É incontrolável, insubmisso, caótico, livre, e nessa sua liberdade, ou me ressuscita ou me volta a matar com as suas adagas metafóricas. Seja como for, sempre que me trouxe de volta para o mundo dos vivos, fê-lo apenas para poder ter o prazer de me dizimar de novo.

Admito, é uma sensação fantástica e embriagante que imagino que será mais poderosa que qualquer droga artificial. Por pouco tempo que dure, quando a minha mente está de novo apanhada nesse terrível vício, nada mais importa, em nada mais se pensa. Apenas se tem cabeça para se simular tudo o que se vai dizer, para repetir cenários possíveis ou impossíveis, para se preparar mental e verbalmente para o que se adivinha ser um evento importantíssimo. É feericamente inebriante.

Não há nada que seja tão simultaneamente certo e errado como o Amor. O Amor que se tem por alguém tão especial que mereceu ser elevada a um pedestal novo, criado de propósito para ela. Um pedestal que por momentos ofusca todos os outros amores "menos importantes"... o fraternal, o familiar, etc.. 

Mas dói. Verdadeiramente. Intrinsecamente. Irascivelmente. Quase mortalmente.

Dói porque sou um idiota. Dói porque sou inexperiente. Dói porque sou apenas um adolescente de 15 anos preso num corpo de 26. Dói porque já estou atrasado em relação a todos. Dói porque não sabia que iria doer tanto. Dói porque NÃO SABIA. Dói porque não percebo como é que eu era suposto adivinhar.

Dói porque não sabia que Ela gostava de outro. Como havia de saber? Existe algum sinal óbvio que eu, na minha ignorância comprovada, já devesse saber? Já era expectável que eu soubesse que é assim que isto funciona? Mal uma pessoa se apercebe que afinal gosta realmente doutra, então é aceitável descartar aquela à qual estava a alimentar esperanças? Tenho direito de estar zangado? Tenho direito de dizer que estou furiosamente fodido? Tenho direito de dizer que DÓI?

É Darwinismo puro? Sobrevivência do mais apto? Quem me dera que sim! Seria uma resposta tão docemente fria e objectiva que poderia talvez viver sabendo que não é realmente culpa minha. É genético! Não. Sabemos bem que não é tão simples. Senão não me doiria ainda. Não depois de um ano inteiro.

Um ano.

Neste dia, há um ano, estava a tremer de excitação. Menti a todos, ia para a faculdade, talvez voltasse tarde, não sei, não interessa, devo vir jantar. Nada que comece com uma mentira pode acabar bem, diriam os mais espiritualistas. Bom, por acaso, desta vez, se olhassem apenas para o dia em questão, pode-se dizer que correu muito bem! Foi perante a estranha audiência dos enormes peixes do aquário grande do Oceanário que dei o meu primeiro beijo.

Não sou de dar grandes relevâncias a este tipo de aniversários, mas tendo em conta que esse primeiro beijo despertou em mim sensações que não consideraria possíveis dantes, não me consigo abstrair de me relembrar desse dia com alguma nostalgia.

Hoje amaldiçoo esse beijo e os (relativamente poucos) vindouros. Esse beijo fez-me perceber que afinal faltava-me alguma coisa na minha vida. Aliás, era uma suspeita que já tinha, podendo então dizer-se que foi a confirmação. Uma confirmação que se viria a provar fatal. 

Quando tudo descambou, um risível mês depois, sensivelmente, senti-me perdido. Agora tinha a certeza que me faltava alguma coisa para ser um humano completo. Agora quase conseguia tocar e sentir o vazio dentro de mim. O sangue fluía de maneira diferente quando pensava no assunto, parecendo quase gemer pelo calor de alguém. 

Doía, portanto.

Doía porque não conseguia preencher o vazio, por muito que tentasse. Doía porque eu achava que não tinha feito um erro assim tão grande que justificasse tal abandono e desprezo cruéis.

 

O tempo sara tudo, diz-se. O problema é que a nossa sociedade vive baseada num calendário cíclico, e as datas repetem-se. As lembranças retornam. 

Dói. Indubitavelmente. Incisivamente. Dilacerantemente. Dolorosamente.

Como tudo é ciclíco, voltam as mesmas dúvidas, voltam as mesmas questões, voltam as mesmas inseguranças, volta o mesmo dramatismo exagerado, assumo eu, com que ilustro esta situação.

Como é que eu sou suposto poder confiar numa mulher outra vez? Como é que sou suposto confiar em mim próprio? Como é que eu sei qual é aquela palavrinha ou gestinho ou pormenorzinho que pode num segundo deitar tudo por terra abaixo? Porque é que eu haveria de arriscar outra vez, sabendo que dói imensamente se eu falhar? Sabendo que falhar será o mais provável? Como é que se pode fazer uma decisão objectiva com factores tão pouco quantificáveis?

 

Como é que eu poderia gostar de alguém de novo? Como é que eu, com as melhores condições possíveis reunidas, poderia mesmo assim confessar o meu interesse por alguém? Já nem digo amor! Só o simples interesse! Só o confessar! Só o pedido mais respeitoso de licença para cortejar. Nem para isso tenho coragem já. Eu apenas tenho coragem para dizer isto num estúpido de um blogue que ninguém lê, precisamente porque ninguém o lê.

Como é que eu chego aos meus melhores amigos e lhes digo isto? Que mais uma vez desisto? Que é tudo fútil, que vou chegar aos 50 anos completamente sozinho ainda a jogar videojogos e a lamentar-me miseravelmente escrevendo num blogue anonimamente? 

Como é que eu digo que dói?

 

 

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É tudo irrelevante

por Rei Bacalhau, em 25.11.15

É tudo irrelevante. Para mim, é tudo.

É peculiar que tenha chegado a um ponto da minha vida em que eu, sendo tão novo ainda, não encontre grande sentido na minha existência. Nada me alegra, nada me entristece, nada me choca, nada me excita. Paradoxalmente, o único sentimento que ainda possuo é a apatia total. Nada me interessa. É tudo irrelevante.

O meu desemprego recente pouco contribuiu para este estado de espírito, pois já é algo que me amaldiçoa há muito tempo. No entanto, só agora é que tive paz de espírito suficiente para reflectir naquilo que me atormenta. A conclusão a que cheguei é a seguinte: é tudo irrelevante.

Tenho 26 anos. Tenho competências e graus académicos nos computadores, implicando assim excelentes possibilidades de emprego. Mas mesmo que tenha emprego? E depois? Vou ganhar dinheiro para o quê? Considero tudo irrelevante. Não vou dar passeios, não faço viagens, não visito nada. Não saio à noite, não tenho passatempos dispendiosos. Até jogar videojogos se tornou difícil para mim. Tenho um computador com uns 5 ou 6 anos, posso mudar-lhe as peças para actualizá-lo, mas até para isso me falta vontade. Para quê? Para meu proveito? Não é preciso, é irrelevante. Para quê ter um bom emprego? Nunca hei-de constituir família, hei-de sempre viver ou sozinho ou com os meus pais. No máximo só estarei a acumular dinheiro para providenciar uma velhice confortável aos meus pais, ou para emprestar a um familiar que precise mais dele. Talvez o possa dar para caridade... Mas para quê? É tudo irrelevante!

Há 10 anos eu era conhecido como um rapaz de ideias muito fixas e defendia-as ardentemente. Defendia paradigmas quase infantis como se fossem dogmas. Sem ser por ordem de importância, alguns destes dogmas eram: a Pátria, o Sporting, o Deus Cristão, a minhas ideias políticas de direita, o Amor, a Família.

Hoje quase nada resta dessas ideias. Eu diria que o Sporting foi o primeiro a ir, pois como não percebia muito de futebol, o meu fervor era mais devido a hábito do que a amor à camisola. Cada vez me interessei menos. Deus foi a seguinte vítima. Tendo aprendido a duvidar de tudo o que me dizem e a ver tudo o mais objectivamente possível, não consegui continuar a acreditar em mãos invisíveis. Não sem provas. Tornei-me agnóstico, suponho eu. Depois foram as ideias políticas. Comecei a fazer as contas mentalmente e pareceu-me que haviam muitas coisas numa sociedade democrática que não faziam sentido. Tornei-me uma espécie de anarquista, mas mesmo isso não muito fervorosamente.

Depois disto, para variar um bocado, tomei conhecimento de um novo dogma que eu acreditava sem o saber. O Amor. No entanto, esse foi o que menos tempo perdurou, e foi rapidamente chacinado pela realidade brutal de que não existe tal coisa. Falo de amor conjugal, claro, e falo no meu caso. Sei que supostamente há que ame e seja amado nestas condições, ou que pelo menos ache ingenuamente que sim, o que suponho que para eles seja suficiente.

A Pátria é dos poucos que me resta, mas já o comecei a repudiar, lasca a lasca, perguntando-me se valerá a pena o conceito de nação como sendo delimitado por umas linhas tortas num mapa.

Resta-me apenas um, inabalável até agora. A Família. A minha única restante real razão de viver. Aquilo pelo qual talvez ainda consiga ressuscitar os fogos que haviam em mim no passado.

Felizmente ou infelizmente, há um enorme conjunto de actividades que a Família não precisa, e como não precisa, eu não tenho motivação para as fazer por interesse próprio. Deixei de tocar guitarra, não consigo fazer o videojogo que queria fazer, não escrevo, não saio de casa. Parece-me que enquanto estiver desempregado estarei sempre em estado inactivo, e só serei ligado quando for requisitado. Porque é que haveria de ser doutra maneira? É tudo irrelevante.

Eu não acredito em destino e, consequentemente, sei que o estado actual da minha psique é inteiramente culpa minha (e eventualmente do ambiente que me rodeia). É deliberadamente que renuncio de "viver", no sentido mais belo da palavra, passando apenas a "subsistir", pelo menos enquanto eu for necessário.

É verdade que com tantos dogmas que já me caíram por terra, este (o da apatia mórbida) pode ser apenas mais um. Talvez um dia me cure, talvez não. Não sei. Quase que não me interessa.

Deveras, é tudo irrelevante.

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publicado às 19:16


Música: Code Monkey

por Rei Bacalhau, em 22.11.15

Os tempos mudam. As pessoas mudam. A Música muda.

Nada parece mais óbvio e desnecessariamente filosófico. No entanto, esta afirmação aparece-vos num blogue onde são apresentadas maioritariamente músicas "antigas", como quem diz "músicas do tempo da minha avó". É um bocado incoerente da minha parte, mas se é verdade que não tenho o hábito de ouvir músicas dos dias de hoje, também o é que exista uma ou outra excepção em que certos e determinados contextos me revelaram a existência de um ou outro tema que acabei por gostar.

Nesse aspecto, a música que apresentarei hoje também se incide sobre novos paradigmas sociais (quer dizer, não necessariamente novos, mas relativamente recentes e ainda relevantes e observáveis).

Felizmente ou infelizmente, Portugal é bastante atingido por um estereótipo na área da informática: o programador macaco. A definição pode variar, mas normalmente é aquele programador júnior que está bastante abaixo em qualquer hierarquia de importância e cujo trabalho é programar o dia todo consoante especificações que lhe deram. É um trabalho que nada tem de criativo considerando que estamos sempre sob alçada de alguém e não temos liberdade alguma. Claro que exteriormente são simplesmente homens normais, maioritariamente bacanos e essencialmente humanos, mesmo que o trabalho deles faça um leigo pensar que eles passam o dia todo fechados numa cave em condições subóptimas de existência.

Eu diria que o grande sonho de um macaco deste género seria conseguir evoluir na cadeia humana social e poder colocar-se numa situação de realização absoluta, saindo do abismo da apatia e inércia profissional que as suas tarefas implicam.

Ou se calhar é esta a minha visão por EU ser um macaco programador (ou era, quando estava empregado, AH!.... pois... ok, continuando...).

 

Voltemos à música, pois claro! Este meu devaneio não é completamente despropositado, pois o tema de hoje fala de um caso, entre tantos milhares, de programador macaco. Tem o nome deveras apropriado de Code Monkey, e é da autoria de um Jonathan Coulton. Pelo que me lembro (não fui verificar), este artista trabalhou na área de informática durante um tempo até se associar aos videojogos de várias maneiras. Já fez músicas para a banda sonora de jogos (particularmente os da excelente saga Portal). No entanto, a certa altura, há muito tempo, deu-lhe um vibe e colocou-se a si mesmo o desafio de fazer uma música por semana durante um ano (acho que foi isso pelo menos). Estas músicas envolviam sempre de alguma maneira ficção científica, tecnologia, videojogos, etc., etc.. Músicas geek, enfim. Uma alminha na Internet descobriu isto e começou a montar vídeoclipes destas músicas usando imagens, modelos e vídeos de um jogo infame chamado World of Warcraft. Eis que o "eu" adolescente descobre estes vídeos através desse jogo (admito, foi dos videojogos que mais joguei na minha vida; não recomendo).

Mesmo depois de me ter curado desse vírus virtual que era o World of Warcraft, certas músicas do Jonathan Coulton ainda se me mantiveram na memória, não sei se por nostalgia ou se por factual qualidade musical e lírica. Eis um vídeo de Code Monkey, com imagens do tal WoW:

 

Falei de qualidade lírica, mas nota-se na música que a letra parece estar escrita por um homem das cavernas que faz lembrar o Tarzan. Bom, tendo em conta o contexto, é precisamente isso que considero que adiciona um imenso charme à musiquita. Desta forma, o artista realmente quer dar-nos a entender a simplicidade do personagem, não de mente, mas de coração. Ele apenas quer alguém, e secretamente considera-se como o que a sua amada precisa. Para além disso, ele sabe que quer sair daquele buraco. Ele sabe que um dia terá tudo. Por agora apenas espera.

Suponho que é a nossa maldição...

 

Eis um vídeo muito interessante da mesma música, com a letra apresentada de uma forma toda apelativa e xpto. Jonathan Coulton, mais uma vez com Code Monkey:

 

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publicado às 02:00


Guerra e Paz

por Rei Bacalhau, em 15.11.15

Duarte vira-se para um som de uma viatura a aproximar-se. A toda a sua volta os fogos crepitam ainda, estalando lugubremente na paisagem hedionda que se presenciava. Ele estava apenas acompanhado de dois outros colegas, que faziam o reconhecimento do perímetro, tentando desesperadamente encontrar sobreviventes.
Uma carrinha aproxima-se, saltando os buracos e crateras e escalando os montes de entulho inevitáveis do que costumava ser a aldeia de Carfes. Duarte mantem-se gravemente direito, com o olhar vidrado no cadáver à sua frente. A carrinha pára. De lá saltam hesitantemente meia dúzia de homens, apavorados com o que viam à sua volta. Um deles aproximou-se de Duarte.
- É pior do que pensávamos... Duarte... ai meu De... ai ai... Duarte... nunca vi nada aasim... nem nos nossos piores dias... - interrompia-se balbuciando, não conseguindo verbalizar o horror à sua volta.
- Pois é, Sargento. - e calou-se.
Os incêndios já quase haviam ardido tudo o que podiam, mas o fumo ainda se levantava em espessas e negras cortinas de fumo, maliciosamente contemplando a sua origem e esmagando a moral dos milicianos que acabavam de chegar. O céu, já naturalmente nublado, tomava tons ainda mais escuros, parecendo mergulhar toda a existência numa noite artificial e infernal sem fim. As faúlhas dançavam ainda quentes e cobriam tudo ao aterrarem, simulando uma espécie de manto vulcânico. Todos os animais haviam fugido, e nem os habituais necrófagos arriscavam entrar em local tão nefasto. O cheiro a sangue e carne queimada seria em princípio suficiente para atrair tais predadores oportunistas, mas a aura de pura dor, sofrimento e morte que a aldeia emanava era repelente. Os corpos descansavam miseravelmente em todo o lado, e já nenhum vertia sangue, o que não implicava que o fedor deste não congelasse o coração daqueles homens (os vivos) que ali estavam agora. Alguns corpos pareciam implorar que acabassem o sofrimento que ainda pareciam ter. Outros estavam enrolados sobre si, numa posição fetal submissa de desespero e trauma total.
Nada se mexia, nem os homens que acabavam de chegar, duvidando da sua sanidade perante uma visão tão grotesca e nauseante.
Um deles vomitou.
- Orlando, então?... Pois... eu sei... vá... não te preocupes... é horrível... horrível... - acudiu um dos milicianos. - Vá, levanta-te... 'Tás melhor?
Ninguém havia sido nem poupado nem enterrado. O Inimigo certificou-se de criar a cena mais brutal e inumana para o milicianos descobrirem. Crianças, mulheres, velhos... todos tinham sido indescriminadamente mortos, num ataque surpresa cobarde a uma aldeia que não tinha guarnição alguma, e como tal totalmente inofensiva. A única coisa que poderia explicar tal ataque seria o pequeno apoio de mantimentos que fornecia a milicianos.
Mas entre um ataque táctico e um massacre tão violento vai uma grande distância.
- O Lucas e o Pedro? - perguntou subitamente o Sargento, sabendo que teria que colocar os seus homens a repôr alguma da dignidade que aquelas pessoas mereciam.
- Estão a vasculhar o perímetro. Nem quero imaginar que outras surpresas o Inimigo terá posto por aí. Sei que o Sargento já viu muita merda, mas se quer que lhe seja honesto, não entre naquela casa ali.
O Sargento Oliveira olhou inquisitivamente para Duarte, como se perguntasse a razão de tal conselho. Houve uma breve pausa em que os dois homens trocaram um olhar rápido.
- Era a creche... - explicou Duarte, baixando o tom de voz involuntariamente.
Um arrepio percorreu o Sargento de cima a baixo, como há muitos anos não lhe acontecia.
- Pessoal, toca a acordar, temos de dar alguma decência a este lugar. Orlando, arranja aí dois gajos para cavar. O resto que comece a acartar os corpos.
Um miliciano dirigiu-se para a creche, mas Duarte impediu-o.
- Basta apenas um de nós ficar com pesadelos. Acredita em mim. Eu trato da creche. Eu já vi o que... - interrompeu-se, e não continuou a frase.
Duarte pegou num carrinho de mão que já procurara e encaminhou-se para a creche.
Passou-se uma hora quando Pedro e Lucas voltaram. Lucas retornava grave, mas calmo. Pedro vomitava berros desesperados de fúria.
- Estes filhos da puta! Cobardes de merda! FILHOS DA PUTA! Foda-se, temos de os pôr no lugar, enquanto não os matarmos todos não podemos descansar. É sair daqui e irmos nós para as terras deles arrebentar aquela merda toda! Cobardes, foda-se! Sargento! - reparou finalmente que o seu Chefe havia chegado. - Chefe, temos de nos vingar! Não pode ser! Filhos da puta, eles todos, merecem só morrer por um ataque tão cobarde! - a fúria de Pedro começava a atingir um grau só muito raramente visto - ELES MATARAM DEZENAS DE PESSOAS INOCENTES! Há sangue por todo o lado! Há pedaços de pessoas por todo o lado! Casas destruídas e incendiadas com pessoas lá dentro! Foda-se! Caralho! - o tom de voz acusou momentaneamente uma lágrima. Pedro verdadeiramente sofria, como qualquer outro ali.
Os homens haviam parado para ouvirem o desabafo explosivo de Pedro. Todos sentiam o mesmo. Todos ferviam por dentro com uma sede de vingança e justiça (que nestas alturas parecem a mesma coisa). Todos olhavam para o Sargento à espera da sua resolução.
Duarte aproximou-se, depois de ter despejado mais um carrinho de mão visceral com orgãos e membros variados.
O Sargento preparou-se para falar.
- Não, Pedro. Não te posso dar homens para matares o nosso Inimigo com o mesmo espírito com que eles mataram os nossos compatriotas. Mesmo que ganhes, mesmo que os mates todos, não terás provado nada, não terás feito nada. Começarás uma batalha horrível sem fim. Repara que a vingança gera vingança. Temos de tratar de descobrir os responsáveis por este crime, mas não podemos assumir que todo o Inimigo seja assim. Não podemos matar sem pensamento e sem lógica. Estamos em Guerra, é verdade, mas nada nos obriga a descer ao nível deles. Temos que ter fé e esperança, confiando que a Paz acabará por ganhar. Pedro, o que aconteceu aqui é horrível, mas não podemos deixar as nossas almas magoadas transformar o nosso sofrimento em fúria, em raiva e em sede de vingança...
Todos ficaram calados enquanto o próprio Sargento parecia reflectir nas palavras que acabara de dizer.
Duarte, concordando com as palavras do seu Chefe, começou a cantar docemente:

 

 

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publicado às 03:03


Música: The Worker

por Rei Bacalhau, em 08.11.15

Estou desempregado.

 

Não sei durante quanto tempo. Eu tenho confiança que não será muito tempo, mas pela primeira vez na minha vida estou completamente desassociado de qualquer compromisso.

Estou livre.

Gostaria de tentar aproveitar este potencialmente pequeno espaço de tempo que tenho para mudar um bocado os meus hábitos. Talvez ir dar uns passeios, ver coisas interessantes, aprofundar alguns passatempos que já tenho na cabeça há algum tempo, etc. etc..

E entretanto vou vendo o pessoal à minha volta a ir para o emprego maquinalmente, sem saber se me hei-de sentir ligeiramente culpado ou não.

Para reflectir no que estou a falar, proponho Fischer Z, com The Worker:

 

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publicado às 23:36


Música: Black Blade

por Rei Bacalhau, em 01.11.15

Bu.

Estamos na época do Halloween. Longe de ser uma tradição portuguesa, não se pode dizer que a febre que a cultura americana nos impõe possa ser ignorada. Como tal, conformista como sou, vou entrar no espírito.

Não estando inspirado para escrever, vou deixar o trabalho de vos entreter com os Blue Öyster Cult. Há uma data de tempo, o vocalista, Eric Bloom, juntou-se com um escritor inglês conhecido por escrever histórias de fantasia, aparentemente. Michael Moorcock escreveu um livro sobre um tal Elric of Melniboné e a sua espada, Stormbringer, que aparentemente o controla para fazer coisas menos socialmente aceitáveis tipo destruir o mundo e todo o conceito de existência. Giro.

Bom, Michael Moorcock ajudou a escrever a letra de algumas músicas dos BOC, entre elas Black Blade, que fala exactamente de Elric e Stormbringer, e a sua relação complicada equiparada a um casamento normal. O tema parece-me suficientemente assustador para poder ser tocado neste evento e suponho que faça sentido que a banda de hoje seja americana, exactamente como o Halloween.

Black Blade, dos Blue Öyster Cult, do álbum ao vivo Extraterrestial Live, que diga-se de passagem, é fenomenal para qualquer rockeiro:

 

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