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Música: Doobie Wah

por Rei Bacalhau, em 29.05.16

Estava a ouvir o álbum Frampton Comes Alive, mas a versão completa, que eu não conhecia ainda. Nesta versão há uma música que começa com o Peter Frampton a dizer algo do género:

 

"We'd like to get a little funky now.... this one's called... Doobie Wah"

 

"Olha, fixe, esta não conheço. Vou ouvir e tal", pensei eu, logicamente. Imediatamente associo o estilo da música aos Doobie Brothers, é extremamente parecido. "Eish, muita giro, 'tou a ver que vou curtir isto", continuei todo contente. E certamente curti. E ouvi outra vez. E curti ainda mais, como coloquialmente se diz. Mas a parecença estilística com os Doobie Brothers era demasiado flagrante para ficar descansado. Então, determinado em descobrir factos triviais sobre uma possível ligação entre os dois artistas vou ao querido Google e escrevo:

 

"peter frampton doobie wah doobie brothers"

 

Nem carrego no enter. Quer dizer, a resposta está mesmo na pergunta. A MÚSICA TEM DOOBIE NO NOME. Tornou-se escandalosamente óbvio que a sonoridade semelhante não era coincidental.

Sinto-me tão estúpido.

Enfim, Doobie Wah ao vivo, de Peter Frampton:

 

 

Para meter o dedo na ferida ainda mais: há um comentário no vídeo que anexo neste texto que explicita exactamente a ligação entre esta música e os Doobie Brothers, referindo que é um tributo a eles, aparentemente...

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Música: Tarkus

por Rei Bacalhau, em 22.05.16

Eu gosto de músicas grandes. No entanto, não gosto de saber que artistas que fazem/fizeram músicas grandes quinaram.

 

Foi com algum enfado, sem grande surpresa, que anteontem li por acaso sobre a morte de Keith Emerson em Março deste ano. Já era assim um bocado velhote, mas ainda conseguiu ter um morte de artista como deve ser, suicidando-se com um tiro, aparentemente. Afinal de contas, parece que o espírito dos anos 70 ainda não morreu totalmente.

Já tenho andado a adiar falar sobre os Emerson, Lake & Palmer há algum tempo, e suponho que este evento relativamente recente relembrou-me que eles ainda estavam na lista para apresentar. Sendo essencialmente uma banda de rock progressivo, não se pode dizer que a música deles tenha sobrevivido ao teste do tempo. Contudo, pelo menos uma música deles ainda tem a plausibilidade de ser tocada na rádio: Lucky Man.

Bem vistas as coisas, talvez não seja grande tributo ao Keith Emerson, já que o protagonista da letra também morre com um tiro. No entanto, gostaria de relevar a música não pelo seu conteúdo lírico, mas pelo solo instrumental usando um sintetizador Moog, que fazia uns efeitos sonoros todos xpto's para a altura, autoria de Keith Emerson.

 

Lucky Man, dos ELP:

 

 

Mas esta não é uma música grande, ora essa.

Pois claro que não. Qualquer conhecedor de ELP sabe que vou falar de Tarkus, o épico de 20 minutos sobre... nada? Ou nada de concreto, vá. Ou nada de compreensível para mentes leigas como a minha, claro. A história é sobre um tatu ciborgue com lagartas de tanque que anda à porrada com uma data de criaturas esquisitas e mitológicas. Deve haver algumas metáforas satíricas lá pelo meio, de certeza.

Musicalmente, é tudo o que se pode querer e requerer de uma banda deste género, com profundas inspirações clássicas fundidas com ritmo rock.

São uns 20 minutos bem passados com o que se poderá chamar uma obra prima do rock progressivo, mesmo que não se perceba o sentido da história. Até começo a pensar que era sempre esse o objectivo quando esta gente compunha músicas.

 

O épico Tarkus, de Emerson, Laki & Palmer.

 

 

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publicado às 00:27


As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 18.05.16

- Majestade, trago-lhe aqui um criminoso para ser julgado!
O Rei olhou com algum enfado para o seu Capitão da Guarda Real, perguntando:
- Fiel Capitão, porque trazeis tal indivíduo à minha presença? Olvidastes que apenas os mais miseráveis bandidos serão julgados directamente pela minha justiça divina? Este que observo não tem o aspecto perigoso de outros que já estiveram no seu lugar.
- Majestade, o crime é traição!
- Traição! Traição! Ah, deveras, miserável aquele que trai o Reino e Rei! Se assim é, exímio Capitão, procederei a um interrogatório, em nome do Reino, cuja defesa é minha função.
- Bravo, Majestade!
- Deveras! Deveras... Dizei-me o teu nome e ocupação, traidor, e se mereceis a dita acusação.
O traidor olhou em volta, confuso. Depois de alguma hesitação, decidiu finalmente responder, num tom firme.

- Sou Ventura Lobo, Majestade, caminhante e aventureiro. Afirmo que rejeito as acusações de traição, assumindo que a sua infinita indulgência o permita. Adiciono ainda, apesar de perceber que não o perguntou, que acredito que toda esta situação não passa de uma hiperbolização de um reparo inocente.
- Ah, um caminhante de língua afiada, mas será pérfida, pergunto-me? Devo ter cautela. Meu excelente Capitão, antes de prosseguir com a minha inquirição devo informar-me sobre quais os factos assistidos pela minha fiável Guarda. Reportai.
Ventura Lobo tomou a palavra.
- Perdão? Quem? Nós os dois?
- Silêncio, traidor! - rugiu o Capitão. - Sabereis quando Sua Majestade se referir a vós.
- Essa agora, mas quem?
- Silêncio!
Ventura Lobo encolheu os ombros em frustração, mas calou-se.
- Se me permitirdes, começarei o meu relatório.
- Por mim tudo bem, esteja à vontade. - rematou Ventura.
- Ninguém lhe perguntou nada!
- Não foi isso que ouvi, essa...
- Silêncio!
- Capitão, comece a sua explicação, cujo início, a meu ver, já está atrasado. - pediu o Rei, calmamente, senão ligeiramente divertido com a impertinência do aparente criminoso.
- Com certeza, Sua Majestade. Eu estava a fazer uma patrulha pessoalmente pelas ruas da cidade. Estavam a ser afixados os cartazes que continham o seu discurso glorioso à nação depois da derrota do exército das Fadas Vogais. Eu queria presenciar a alegria e o orgulho das pessoas ao lerem as boas novas, especialmente escritas pelo seu grande líder.
- Evidentemente, continuai.
- Num dos ajuntamentos percepcionei uma voz que disse uma blasfémia. Teve a ousadia de questionar a qualidade do discurso de Sua Majestade. Pois bem, esse larápio teve azar, pois prendi-o imediatamente e ei-lo na presença da Sua justiça.
- Ah, mas meu eficaz Capitão, o que é que ele disse em específico? Em que ponto duvidou ele da minha escrita perfeita?
- Tenho temor em dizê-lo, Sua Majestade, mas se insiste, devo dizer que este miserável fez um reparo à última frase no cartaz.
- Ah sim, um maravilhoso "Glória há Nação!". Como é que uma frase tão simples pode causar desconcerto numa mente simples?
- Perdoe-me a interrupção (e o Capitão confirmará isto), mas eu apenas disse que "à" está mal escrito. Deveria ser "à", ou seja, apenas um "a" com acento grave.
- Silêncio, patife! - o capitão desembainhou a espada. - Mais um atrevimento desses e sofrereis as consequências.
- Isso não é ir longe demais? O Rei não precisa de sofrer nada, creio. Bem vistas as coisas, nem eu, já que estou inocente.
- Enlouquecestes? Já nem fazeis sentido nas palavras corrompidas que proferis!
Ventura Lobo olhou outra vez em volta, confuso.
- Ainda não percebi bem com quem é que o senhor Capitão está a falar.
Enquanto a discussão prosseguia, o Rei reflectia na acusação feita ao seu texto. Finalmente levantou-se e dirigiu-se lentamente a Ventura Lobo.
- Reflecti. Cheguei à conclusão que o senhor Ventura poderá ter razão, mas não tenho a certeza. Capitão, não obstante a sua lealdade, achais que a acusação não terá justificação?
- Impossível, Sua Majestade! Se Sua Majestade o escreveu, tem de estar correcto!
- Sem dúvida, mas gostava de ter a sua opinião sincera.
O pobre Capitão, apanhado fora do seu elemento, desviou o olhar.
- Perdoe-me, Majestade, mas não sei.
- Não sabeis se a acusação deste homem é legítima?
- Não, Majestade, perdoe-me.

- Chamai o Mago, ele saberá.
- Chamem o Mago! - gritou Ventura repentinamente.
- Silêncio! Mas quem lhe disse que podia chamar o Mago!?
- Essa agora, foi o próprio Rei mesmo agora.
- Sua Majestade falava comigo, seu pulha.
- Não foi isso que ouvi, essa...
- Calai-vos, vil criatura!
- Mas o Senhor Capitão ouça-me, acho que há aqui uma falha de comunicação.

Na confusão, o Mago veio. Entrou desalmadamente, pisando e tropeçando várias vezes na própria barba grisalha longuíssima.
- Muís D'Latos, meu grande feiticeiro de poderes tremendos e incomparável sabedoria, tenho um desafio para lhe apresentar.
- Ah, Majestade, apanhou-me num momento crucial da minha investigação sobre a etimologia da palavra "etimologia". Peço-lhe que reúna toda a sua generosidade e que não me dê nenhuma tarefa demasiado longa.
- É simples, na verdade. Capitão, dê-lhe o cartaz. Leia, meu caro.
Muís D'Latos leu de uma ponta a outra a informação do cartaz.
- Derrotámos as infames Fadas Vogais!? Ah, poderemos certamente respirar fundo de alívio! Mas, Majestade, não compreendo qual o desafio.
- Notastes alguma coisa de estranho no texto? Alguma coisa mal escrita?
O mago estranhou a pergunta, pensando que seria alguma armadilha. O Rei notou esta preocupação.
- Não se preocupe, amigo Muís. Dizei-me com sinceridade. Não é um teste à sua lealdade, que considero inabalável.
O mago releu o texto. Hesitou na última frase. Olhou infantilmente à volta.
- Bom... se quer que seja sincero...
- Sim, exorto-o a sê-lo.
- Quando eu era muito novo, quando não tinha um único pêlo na cara, o meu mestre forneceu-me uma quantidade de conhecimentos há muito perdidos que ele adquirira de uma maneira muito especial. Um dos conhecimentos que me foi passado foi... enfim... que existe uma diferença gramatical entre a palavra "há" e "à" que tem imenso impacto na semântica da frase.
- Mas então, a última frase do texto está incorrecta?
- Bom, enfim, não. Sim... Não. Depende. Por um lado, está gramaticalmente correcta, mas na sua forma actual, parece que Sua Majestade está a informar alguma senhora chamada Glória sobre o facto de existir uma Nação. Se me permite, para ser diligente, faltaria ainda uma vírgula para a frase ter esse sentido. Se o objectivo for apenas de dar esta informação a uma Glória específica no Reino ou a todas as Glórias, posso argumentar que o objectivo foi cumprido. Por outro lado, se o propósito era engrandecer a nossa Nação com exaltações de glória... - fez uma curta pausa, acompanhada de uma careta. - devo... dizer... que deveria ter usado "à".
- "Há"?
- Não, "à".
- "Ah"?
- "à".
- Ah!
- Não, "à".
- Ai!
- "à", Majestade!
- Eu sei.
- Perdão?
- Há majestade, claro, senão não estaríamos aqui, mas não é isso que estamos a discutir, meu caro Muís D'Latos.
- Não, Majestade, não nos confundamos, eu quero dizer que a forma correcta é "à".
- "Há"?
- "à".
- "Ah"?
- "à".
- STAYING ALIVE! STAYING ALIVE! - berrou Ventura Lobo.

Um silêncio absoluto instalou-se no salão perante as caras estupefactas dos presentes, que olhavam Ventura com um olhar de preocupação sobre a sua saúde mental.

Muís D'Latos arriscou insistir.
- Sua Majestade, talvez seja mais fácil que eu escreva.
- Sim, concordo.
O feiticeiro teve uma ideia e olhou para cima.
- Aliás, nem preciso. Se Sua Majestade olhar para cima verá que no nosso diálogo está a forma correcta.
- Ah, tendes razão, teria sido mais simples. Mas não achais que é algo subreptício usar tal método para chegarmos a tal conclusão?
- Talvez seja, Majestade, mas não apeteceu ao autor deste texto descrever uma cena em que escreveríamos a forma semanticamente correcta da palavra em questão.
- Então, ao invés de descrever um simples gesto de escrever num papel ele preferiu criar um diálogo desnecessariamente complexo em que nos tornamos conscientes que somos personagens de ficção?
- Artistas, Majestade, como poderemos alguma vez entendê-los?

O Rei virou-se para Ventura Lobo.
- Senhor Ventura, aparentemente o senhor tinha razão. Como é que sabíeis da diferença entre as duas palavras se me dizem que é um conhecimento há tanto tempo perdido?
- Aprendi na escola.
- Na escola? Como? Este é um mundo fictício baseado em fantasia medieval. Há magos e fadas. Normalmente neste tipo de contextos não existe ensino público, nem do mais básico.
- Então como é que as pessoas são supostas conseguir ler os cartazes que são afixados?
- Entre todos os meus poderes divinos por direito, a omnisciência não é um deles. Apenas posso responder que ou esse facto é uma incoerência que o autor deste texto não pensou ou então os cidadãos nunca realmente leram os cartazes e simplesmente gostam de olhar para os desenhos. Seja como for, começo a achar que o Senhor Ventura tem mais que se lhe diga sob essas tristes roupas de campónio que trazeis.
- Bom, devo ter subido imenso na consideração de Sua Majestade para me tratar como mais do que uma pessoa. Ou isso ou está aqui mesmo alguém invisível que apenas eu não me apercebo.
- Não compreendo. Explicai-vos.
- Majestade, com quem é que está a falar? Sei que me inclui, mas não sei com quem mais é que fala.
O Rei olhou para o Capitão e para o Mago. Ambos fizeram uma careta de confusão e encolheram os ombros.
- Não sei quanto ao outro indivíduo invisível, chamemos-lhe Joel, mas se ele não se quiser juntar à minha explicação como Sua Majestade requeriu terei o maior prazer em explicar-me sozinho. Tenho estado este tempo todo confuso com a vossa maneira de falar, pois usais a segunda pessoa do plural para se referirem apenas a uma pessoa. Quem tem uma aproximação mais pragmática sobre a língua que fala tem em conta estes pormenores. Devo perguntar: o Joel existe?
- Não sei de que falais. - respondeu o Rei.
- Sim, não compreendo o que dissestes - concordou o Mago.
- Lá está, devo estar maluco. Tenho impressão que só eu é que falei, e no entanto, vós implicais pela forma verbal usada que houve outra pessoa além de mim que falou. O tal Joel. Podereis explicar-me porque falais assim?
- Quem? Eu ou o Muís?
- Vós!
- Mas qual de nós?
- VÓS! Os dois! Segunda pessoa do plural! Ambos falais assim e isso confunde-me.
- Então, mas dê um exemplo de como deveríamos falar!
- É simples, não usai formas verbais com os "eis" e os "ais" no final quando falais com uma só pessoa.
- Mas vós estais a usá-los!
- Mas vós sois dois! Eu sou apenas um!
- Eu sou dois? Isso não faz sentido.
- Ai ai ai ai ai... Ouvi-me por um momento!
- O senhor ouviu-se por um momento? É normal.
- Não, é o imperativo!
- Ouviu o imperativo?
Ventura Lobo começava a ficar impaciente.
- Se eu tivesse aqui um certo Livro mostrar-vos-ia...
- Qual Livro? 
- Um Livro que tiraria todas as dúvidas que pudéssemos ter sobre a forma como falamos e escrevemos.
- Mas tal Livro existe? - perguntou o Rei excitado.
O Mago forneceu a resposta.
- Sim existe. Ou existiu, pelo menos. Foi de um tal Livro que o meu mestre aprendeu tudo. Ele não me passou todos os seus conhecimentos. Ele dizia que a viagem para obter o livro ensinava tanto quanto o livro em si. Nunca me propus procurar o Livro. Entretanto caí num buraco metafórico onde todos os sonhos e vontades se extinguem.
- Que terrível, Muís D'Latos! Como caiu nesse buraco?
- Tornei-me funcionário público, como bem sabe, Majestade.

- Tenho uma ideia! - exclamou o Rei. - Uma ideia que fará o enredo avançar. Muís D'Latos, meu competente controlador de elementos, e se enviássemos este jovem aventureiro em busca desse fabuloso Livro? Ele poderá trazê-lo e guardá-lo-íamos como um tesouro real!
- É uma ideia esplêndida, Majestade.
O Capitão discordou.
- Majestade, perdoe-me, mas quereis enviar um desconhecido numa demanda tão importante para o Reino? Porque não confiais na Guarda para o fazer?
- Olha, agora já estou todo confuso com os "ais" e "eis" também. Já nem consigo falar de maneira toda pipi. Envio um desconhecido nesta missão porque os argumentos de maior parte dos livros medíocres e filmes de Hollywood parecem safar-se com isso e até ter sucesso. Para além disso, é preciso que esta história tenha um mau da fita, e se eu meter inveja ao meu querido Capitão da Guarda, ele certamente fará tudo para sabotar os esforços de Ventura Lobo.
Voltou-se para Ventura.
- Que me diz, Ventura Lobo? Quer aceitar esta aventura e desbravar os recantos perigosos do Reino na sua busca? Escalar os Montes dos Adjectivos de Grau Superlativo, explorar as Selvas de Narrativas Densas, atravessar os Pântanos de Palavras Obsoletas, correr pela Planície da Dicção? Aceita enfrentar os perigos que certamente encontrará?
Ventura Lobo empertigou-se e respondeu orgulhosamente.
- Claro que sim, Majestade. Farei tudo pelo enredo.

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publicado às 12:15
editado por José da Xã às 22:50


Música: Even in the Quietest Moments

por Rei Bacalhau, em 15.05.16

Shhhhhh.....

 

 

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The Ballad of Hollis Brown

por Rei Bacalhau, em 08.05.16

Quatro figuras avançavam pelo pinhal denso na noite escura. Fugiam, olhando constantemente para trás. Eram milicianos. Haviam emboscado um camião inimigo de víveres, escoltado por uma quantidade considerável de soldados Inimigos. O assalto correu mal e o grupo miliciano separou-se, infiltrando-se para a protecção dos bosques em retirada.
O miliciano à frente levantou o braço. Comandou uma paragem, para descanso.
- Gabriel, faz um reconhecimento, e depois volta.
Gabriel partiu.
- Não viram mais ninguém connosco, pois não? - perguntou o comandante, o Sargento Oliveira, aos restantes.
Pedro ia começar a falar, mas o Sargento impediu-o.
- Olha Pedro, não comeces com as tuas merdas, não queremos que o Inimigo nos ouça, 'tá bem? Fala baixo.
- Foda-se, ia só a dizer que vi o Adérito e o Lucas a retirar para o Sul. no sentido da estrada. Os outros não vi, mas...
Ouviu-se uma rajada de tiros ao longe, respondida instantes depois com uma violência maior. Apesar disto, os três baixaram-se.
- Não é para nós. - disse Duarte, aliviado.
- Caralho! - resmungou o Sargento. - Como estamos de munições?
- Ainda tenho, - respondeu Pedro. - e sei que o Gabriel vasculhou alguns soldados, por isso deve ter também.
- Eu também apanhei alguma coisa. Aliás, tenho granadas a mais, tomem lá. - disse Duarte, entregando algumas.
- Óptimo, poderemos ter que chamar a atenção para nós para dar uma hipótese ao resto do pessoal, mas temos de encontrar um sítio estratégico.
Ouviram-se estalos e o remexer de folhagem. Gabriel voltara.
- Chefe, há uma fazenda naquela direcção. Lá ao pé também há um morro de penedos no meio do pinhal.
- Havia sinais de vida na fazenda?
- Não, parecia abandonada, há já algum tempo.
- Óptimo, vamos, 'bora.
Seguiram Gabriel, sempre atentos ao horizonte negro à procura de silhuetas ameaçadoras. Passaram pelo tal morro, que mais parecia uma pequena fortaleza natural.
- Ok, boa, isto pode servir, mas vamos à fazenda em primeiro.
De facto, dali já se via uma clareira a poucas dezenas de metros. Aproximaram-se e pararam na orla do pinhal.
Uma casa visivelmente deteriorada por negligência parecia lutar para se manter em pé. Os campos à volta estavam completamente secos, e nem as ervas daninhas pareciam subsistir. Uma carrinha ferrugenta, muito antiga estava completamente arruinada, rodeada por uma quantidade imensa de tralha e lixo.
- O que é que achas, Duarte?
- O morro parece-me uma melhor ideia como posição defensiva, mas uma casa assim tão aparentemente esquecida no meio de nenhures pode ser útil à Mílicia.
- Hmm... sim, gostaria de ir lá vê-la agora mesmo assim. Nunca se sabe o que poderemos encontrar.
O Sargento reflectiu.
- Pedro, Gabriel, vão para o morro e preparem-se. Façam sinal se algo acontecer. Acho que não nos demoramos muito.
Os dois milicianos deixaram o Sargento e Duarte. Estes começaram a avançar cautelosa e rapidamente pelo campo aberto. No meio da propriedade agacharam-se atrás de um poço, que estava completamente seco. Continuaram num ápice para a fazenda. Grande parte das persianas estavam abertas ou caídas. Os donos devem ter saído à pressa, ou então a casa já recebera visitantes posteriormente. No entanto, as janelas estavam relativamente intactas e fechadas. Subiram para o patamar que dava acesso à porta principal. Duarte empunhou e apontou a carabina enquanto o Sargento tentava abrir a porta.
Estava fechada à chave. O Sargento pegou na sua gazua e começou a trabalhar no fecho. Pouco depois a porta abria-se. A primeira coisa que notaram foi o cheiro nauseabundo que emanou imediatamente de lá de dentro, como se desesperado para ser libertado.
- Foda-se... já se 'tá mesmo a ver... - murmurou o Sargento.
- Pois...
Era habitual encontrarem-se casas em que velhotes isolados haviam morrido sem serem socorridos, e esse foi o primeiro pensamento que passou na mente dos dois milicianos. Colocaram máscaras cirúrgicas na cara e entraram calmamente, sabendo o que esperavam ver.
Apontado as lanternas, investigaram as primeiras divisões e ficaram admirados ao encontrar alguns brinquedos sujos e maltratados no chão. Os dois homens trocaram olhares confusos e ingénuos, não compreendendo a causa de tal facto. À medida que se aventuravam mais para dentro de casa, o cheiro ficava mais insuportável. Chegaram a um quarto, que tinha a porta entreaberta. Abriram-na lentamente para descobrirem dois cadáveres no chão, já quase totalmente esqueléticos. Duas manchas enormes à volta dos corpos sinalizavam os fluidos corporais que se haviam derramado no processo de decomposição. Alguns restos mortais de insectos vários também eram visíveis, mas o que chamou a atenção naquela cena macabra era uma espingarda caçadeira em cima de um dos corpos. O cadáver mais afastado estava dramaticamente caído poucos metros do corpo com a caçadeira, e tinha roupa colorida de mulher. Atrás dele, a parede estava coberta de uma mancha escura de sangue seco e buracos de chumbos. O outro corpo era claramente o de um homem, mas o seu crânio estava completamente despedaçado, especialmente a partir do maxilar.
A conclusão óbvia era que ele matara a mulher e suicidara-se a seguir.
- Foda-se, ò Duarte... Quando pensamos que já vimos de tudo... Vamos embora, não há aqui nada senão dor.
- Ainda podemos usar esta casa, Chefe, não é por ter dois cadáveres que deixa de ser relevante, por difícil que seja olhar para esta cena.
- Foda-se, ò Duarte... 'Tá bem, deixa-me pensar, ainda faltam umas divisões, a ver se têm provisões.
Saíram lugubremente do quarto.
A porta da divisão a seguir estava completamente aberta. Uma mancha de sangue era visível no chão no corredor, proveniente do quarto. Duarte olhou para o Sargento, apontando-lhe a mancha. Aproximaram-se lentamente, agora nervosos com o que iriam encontrar.
Iluminaram o quarto com as lanternas.
Era um quarto aparentemente pequeno, pelo facto de estar cheio de camas, uma delas um beliche, e outra um berço. O chão estava pegajoso e os milicianos temeram o pior, que era óbvio. Cada cama tinha algo por debaixo dos lençóis. Haviam no total 5 massas por debaixo dos lençóis rasgados pelos tiros claros de espingarda, a mesma que estava na divisão vizinha.
Duarte ia retirar os lençóis de uma das camas, para se certificar.
- Duarte... não. Não faças isso.
- Eles não se importam, com certeza, só quero certificar-me.
- Não é por eles que digo, mas por ti. Não faças isso.
Duarte compreendeu e hesitou. Não obstante a advertência do Sargento, elevou o lençol de modo a que apenas ele visse. Observou durante alguns segundos e voltou a pousar gentilmente o lençol.
- Vamos embora, Chefe.
O Sargento nada disse. Fecharam a porta ao sair. Andaram uns passos pelo campo aberto até que Duarte parou e vomitou.
- Que insanidade terá feito aquele homem cometer tal crime? Como é que é possível, Chefe? - perguntou, depois de se recompor minimamente.
O Sargento não respondeu.

Ouviram-se tiros. Estavam perto.
- 'Bora Duarte, o Pedro e o Gabriel precisam de nós, anda!
E mergulharam no pinhal rapidamente, mas não sem Duarte ter dado um último olhar para aquela casa onde sete pessoas morreram.

 

 

The Ballad of Hollis Brown, de Bob Dylan, interpretada lugubre e espectacularmente pelos Nazareth:

 

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Música: Hope of Deliverance

por Rei Bacalhau, em 01.05.16

Esta semana eu queria apresentar uma música mais pop só para não ter que pensar muito no assunto. A ideia surgiu-me ao ouvir a rádio e apareceu o tema Hope of Deliverance.

Eu já tinha uma presença mental dessa música e decidi que talvez pudesse ser uma boa candidata, apesar de não saber nada sobre ela. Peguei num bocadinho da letra, Google com ele e fiquei admirado ao saber que a música era de Paul McCartney. Verdadeiramente, depois de saber isso, a voz parece a dele, mas é daquelas coisas que eu não notaria se não soubesse já, como aliás aconteceu.

Ah, mas a treta da música é viciante. É verdade que estamos a falar de Paul McCartney, e quem melhor que ele para fazer uma música popularmente cativante? Tem daquelas particularidades que nos ficam ciclicamente na mente e que cantarolamos estupidamente ao longo do dia.

Até aí, nada de especial, somos apenas humanos se fazemos isso. Até com os estúpidos dos jingles do Pingo Doce ficamos na cabeça, quanto mais uma música decente como a que referi.

 

Melodia e instrumentação são os maiores responsáveis por uma música nos ficar na cabeça, digo eu. Explico isto argumentando que muitas pessoas não fazem ideia da letra de certa canção, mas tentam blasfemá-la à mesma. Isso só é realmente problema quando se canta a tal canção em público. Olhem, lembrei-me agora de um bom exemplo:

 

 

A internet é uma cena fantástica.

 

Enfim, continuando.

Se por um lado é mau que uma letra seja mal cantada, por outro lado é talvez pior quando é mal interpretada. Ora, a letra de Hope of Deliverance é suficientemente vaga para qualquer pessoa lhe dar a interpretação que quiser. Se isso é propositado ou não, não sei. Sei que vejo comentários de todos os tipos sobre o possível significado da música.

A letra fala de deliverance, que é uma palavra que acho que tem conotações religiosas, mas que significa, no geral, liberdade, ou melhor dizendo, libertação de algo.

We live in hope of deliverance from the darkness that surrounds us.

Esta linha, brilhante, pode ser aplicada a tudo. Tudo o que tiver rodeado de dificuldades mas onde houver a esperança de as ultrapassar pode usar esta música como hino. Vi comentários nas internets a referirem-se a religião (claro), a ataques terroristas, ao estado da Música, a amor, a depressões, a exames académicos, etc., etc.. O mais ridículo que vi, e que infelizmente não consegui encontrar de novo, referia-se a prisão de ventre.

Começo a reflectir então. Todos temos problemas. Todos temos algum tipo de escuridão metafórica sobre a qual queremos lançar alguma luz, igualmente metafórica. É esse o seguimento lógico da letra, que começa um inquérito impossível. "Quando é que se resolverá?" "Como é que será depois?" Não se sabe. Não posso criticar esta resposta como sendo preguiçosa. É, na verdade, factual. As perguntas é que são fúteis, pela incapacidade pessoal que todos temos de avaliar correctamente assuntos que não controlamos directamente.

A solução dada? Esperança. Palavra horrível e cruel, mas tão necessária. Como é que alguma coisa se faria neste mundo se não houvesse esperança? Todos os dias fazemos coisas sem saber se terão sucesso, ESPERANDO que os planetas se alinhem e por algum truque de magia negra, feitiçaria ou vudu as coisas nos corram como ESPERÁVAMOS.

Mas isso parece ser bom não é? A esperança é então a grande fonte de produtividade de uma pessoa! 

Sim, admite-se que sim, se seguirmos a lógica parva que descrevi. Mas a esperança é tanto uma maldição como uma benção, pois podemos convencer-nos de algo que nunca virá objectivamente, ESPERANDO a tal magia ou milagre ou seja o que for. E ESPERAMOS, e essa esperança corrói-nos e mói-nos. Conjura-se uma batalha tremenda entre o nosso ser esperançoso e o céptico.

 

Nem sei porque é que estou a deambular sobre este assunto. Talvez seja por eu não ter esperança em nada, e a tal música me ter lembrado que tal sentimento existe no mortal comum. Repito e acrescento, em TODO o mortal comum. 

Mas não sinto esperança por nada. O que raio é que eu quero? Tem de haver alguma coisa sobre a qual eu tenha esperança.

Não sei. Não me lembro de nada. Devo-me sentir mal sobre isso? Provavelmente não. Se calhar a lógica do problema é mais complexa e nem toda a gente precisa de esperança para viver e ser produtivo.

 

Enfim, Paul McCartney, com Hope of Deliverance:

 

 

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