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O Rapto - Parte IV

por Rei Bacalhau, em 29.06.16

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Mariana rodou o manípulo e saiu. O ar que respirava era fresco, muito mais fresco do que estava habituada. Apesar disto, apetecia-lhe um cigarro, se tivesse um, o que lhe daria justificação suficiente para estar parada numa varanda e avaliar o ambiente à volta. 

A primeira coisa que notou foi um conjunto de escadas em degrau que dava acesso ao quintal. Não se aproximou imediatamente para não dar nas vistas a potenciais observadores. Debruçou-se no parapeito da varanda e apreciou as pequenas hortas com que os habitantes locais se entretinham, construídas com os materiais inconsistentes que estavam disponíveis. O quintal era comunitário e portanto servia os vários edifícios que o rodeavam. À primeira vista, Mariana não notou em qualquer outro meio de acesso para o exterior, a não ser através dos próprios edifícios mencionados, o que não era ainda totalmente implausível. Do outro lado do quintal, Mariana reparou numa varanda análoga àquela onde estava agora, com a particularidade de ter uma porta completamente desfeita. De facto, todo o prédio ao qual essa varanda pertencia aparentava estar abandonado e ainda parcialmente cicatrizado pela Guerra. Para a esquerda estava um muro de tijolo a separar outros dois prédios, e poderia potencialmente esconder um beco para a rua. Uma laranjeira estava suficientemente próxima para ser admissível que pudesse ser usada para galgar o muro. À direita Mariana não identificou nenhuma oportunidade. Em caso de desespero poderia sempre tentar forçar a entrada para dentro de um dos edifícios habitados, sem saber exactamente o que poderia esperar.
A horta estava praticamente deserta. Um homem de meia idade atacava a terra com uma enxada quase rachada em duas. Uma nova procura revelou a presença de um homem sentado num banco debaixo de sombra. A figura escura era irreconhecível, mas tendo em conta o campo de visão que aquele lugar tinha sobre o prédio onde Mariana estava, era provável que fosse um guarda dos captores de Mariana. Para se certificar, Mariana arriscou descer as escadas, mas estacou em sobressalto ao reparar que um outro homem estava descontraidamente sentado nos degraus mais baixos do primeiro lance, de costas para ela. Brincava com um gatinho cinzento de olhos amarelos, que se afeiçoara aos atacadores das botas do homem. O homem fez os atacadores girar à volta do gato, que se esforçava energicamente para desfazer o perigoso inimigo, dando piruetas ágeis no ar, para imensa satisfação dos dois.
O telemóvel do homem toca. Ele levanta-se, atende e Mariana não percebe que língua é que ele está a falar. Ele coloca-se de perfil, aparentemente alheio à presença de uma ouvinte.
Mariana dá um passo instintivo para trás quando reconhece o Chefe, esperando não ser vista. Olhou para o lado, e notou em dois olhos que a observavam atentamente. Era o homem no banco no piso térreo. Deste novo ângulo Mariana já distinguia perfeitamente a tez pálida e o cabelo negro deste guarda. Um calafrio percorreu-lhe as costas. Um calafrio não totalmente desconhecido.
- Olá Mariana. - disse uma voz conhecida atrás dela, assustando-a. - Ah, desculpa, não queria assustar-te. - Era o Chefe, que se havia subrepticiamente aproximado. - Vejo que estás a apreciar um bocado de ar fresco. Acho que fazes bem, mas acho que não deverias estar aqui demasiado tempo. Não quero arriscar que olhos menos patriotas te vejam. Onde é que está o Adrien? Ele deveria estar a...
- Estou aqui, Chefe, não se preocupe.
De facto, Adrien estivera ali aquele tempo todo, não deixando de controlar os movimentos de Mariana. Mariana voltou-se, horrorizada, ainda não habituada à sua nova sombra.
- Ah, bom, bem sei que posso confiar em ti. Seja como for, estava ali o Lucas de vigia, não fosse a menina Mariana tentar algo de pouco razoável. Devo avisar que na capital está tudo maluco à tua procura, mas por agora estamos seguros.
- Não estamos na capital? Mas então onde estamos?
- Estamos na vila de Macelada, a duzentos quilómetros da capital. Ah, mas já deves ter ouvido falar desta terra, certamente?
Mariana não respondeu.
- Bom, nós temos ainda alguns velhos amigos por aqui, o que nos permite alguns momentos de conforto, bastante contrastantes com os vindouros, calculo eu. Bom, voltemos para dentro, quero ver se acabo de ler um livro que a Dona Dina tem ali. Recomendo que leias algo também, Mariana, pois vamos estar aqui pelo menos mais uns poucos dias, mesmo que resolvas dar-nos a localização do teu pai mais cedo.
O Chefe voltara ao assunto principal de forma banal, mas Mariana manteve-se calada.
Estranhamente sorridente, o Chefe indicou com a mão a porta da cozinha, convidando Mariana a voltar a entrar.
Ela olhou para trás. Lucas observava-a ainda. Foi com um peculiar alívio que Mariana aquiesceu ao convite. Adrien seguiu-a. O Chefe não entrou. Notou a reacção de Mariana e, também olhando para trás, apanhou Lucas em contemplação. Desceu as escadas e sentou-se ao lado de Lucas.
- Passa-se alguma coisa, Lucas?
- Não.
- É por alguma razão que estavas a observar a Mariana com tanta atenção?
- Sim.
Um curto silêncio instalou-se, aos quais o Chefe estava habituado por serem típicos de Lucas.
- Podes dizer-me qual a razão?
- Ela estava a investigar o pátio por possibilidades de fuga. Eu quis ter a certeza que ela soubesse que isso não me passou despercebido. - respondeu secamente.
- Hmm, está bem. Percebeste se ela chegou a alguma conclusão?
- Não.
- Queres ser rendido? Já estás aqui há algum tempo.
- Não.
- Ok, até já. Depois já te chamo para almoço.

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publicado às 11:00


O Abade - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 28.06.16

Anteriormente...

 

Sinceramente, Ventura Lobo não fazia ideia de como iniciar a sua busca pelo Livro, importante o suficiente nesta epopeia para merecer ser tratado como um substantivo próprio. Ele soube da sua existência há muito tempo, mas mencioná-lo publicamente só lhe trouxera complicações, especialmente porque os saloios incultos com que se cruzava não sabiam o que era um livro sequer, quanto mais O Livro dos livros. Escoraçavam-no dos povoados, alegando feitiçaria, bruxaria e elitismo literário.
- Expulsem-no! Daqui a nada começa a envagelizar o Zé Saramago e a Agustina Bessa-Luís.
Ventura Lobo tentava explicar em vão que não era esse o seu objectivo (muito menos começar por esses autores, c'um catano!). Pretendia convencer os enraivecidos cidadãos ignorantes que o interpelavam que existe um livro que beneficiaria todos quantos o lessem, ou assim rezava a lenda, pelo menos.
A resposta normal por parte dos camponeses era a tentativa de converter Ventura Lobo numa salada requintada, atirando-lhe comida estragada e exoticamente temperada, como o cliché obriga. Ventura tinha tanto de modesto como tinha de astuto, e por isso começou a enervar camponeses de propósito quando lhe apetecia uma refeição frugal e barata.

Voltando ao Livro, ele lembrou-se que a primeira vez que ouviu falar no Livro foi numa altura no início das suas aventuras, quando ele vagueava aleatoriamente pela serras do Norte, não porque procurasse o tesouro de um monstro viscoso, mas simplesmente porque se perdera depois de se ter ido aliviar a um arbusto e ter notado que o resto da caravana mercantil com que seguia o deixara para trás.
Foi a última vez que pediu boleia a um camião do Pingo Doce.
Seja como for, na sua deambulação pelas serras, deparou-se repentinamente com uma espessa neblina que lhe bloqueava toda a visão. Veio a saber depois que a neblina aparentemente mágica foi o resultado de um convívio de feiticeiros, cuja sardinhada correra catastroficamente mal pois cada um tinha uma opinião diferente de como melhor assar as sardinhas. Ventura Lobo andou tropegamente pelo fumo, subindo o que parecia ser uma espécie de monte.
Subitamente, caiu num buraco.
A queda foi surpreendentemente inofensiva, por duas razões: em primeiro, não se pode aleijar seriamente o herói de uma saga, senão temos de ficar uma data de tempo à espera que ele se cure decentemente, para o sindicato não se queixar; em segundo, o facto de ele ter caído em cima de um velhote esquelético, mas estranhamente fofo, ajudou imenso.

- Ah, atacam-me? Mas como? Estou completamente sozinho! Há tantos anos que o estou! Será a minha mente que finalmente vacila sob o peso destes anos de prisão miserável? Será o fim da minha existência subterrânea, libertando-me desta vida terrena e levando-me para outros planos de existência?
O velho tinha o aspecto de poder ser utilizado por agências de publicidade no Natal, ou em adaptações amadoras do Senhor dos Anéis. A cara enrugada, barba comprida, olhar ligeiramente maníaco, o cheiro a alguma espécie de água-de-colónia que nunca ninguém tem coragem de dizer que "cheira muita mal". Tudo contribuía para descrever um personagem tão típico num ambiente fantasioso medieval.
- Perdão, meu senhor, mas receio ter de o informar que não o venho libertar de nada, excepto de uma aparente solidão enlouquecedora. Permita-me que me apresente: Ventura Lobo, aventureiro amador e futuro herói de uma série de histórias que um gajo há-de criar no futuro.
Ajudou o velho a levantar-se, verificando se lhe partira mais do que uma dezena de ossos. Menos do que isso é admissivelmente ignorável.
- Pois aventureiro, és louco em vires meter-te aqui! Estarás para sempre preso como eu! - berrou o velho exasperadamente, mas rapidamente se acalmou e apresentou-se. - Sou o Abade Fazia.
- Fazia o quê?
- É o meu nome!
- Fazia o seu nome? Deixou de o fazer? Ah, eu só fiz o meu nome uma vez. Aliás, nem isso, porque o meu nome fizeram-no por mim, o que me parece algo injusto.
- Idiota, o meu nome é Abade Fazia!
- Ahh! Peço desculpa, nunca conheci ninguém com esse nome, daí a confusão. Só espero que nunca se torne abade, porque senão seria ridículo pensar que a combinação do seu título com o seu nome ficaria Abade Abade Fazia, que mais parece um nome possível para um personagem irritante da Guerra das Estrelas.
- Mas Abade é já o meu título!
- Então já se pode tratar por Abade Abade Fazia?
- Não! É apenas Abade Fazia.
- Então... Abade Apenas Abade Fazia? Já mais parece um provérbio popular.
O velho de nome invulgar fez uma pausa, coçou a cabeça impacientemente, e tentou de novo.
- Chamo-me Abade Fazia, que é a combinação do meu título, "Abade", e do meu nome próprio, Fazia.
- Ah, claríssimo. Cristalino, mesmo. Que faz aqui, se me fizer o obséquio de explicar?
- Fui aqui preso há muitos anos por autoridades invejosas, injustamente!
- Obviamente, como é que o leitor poderia empatizar com a sua personagem se algo de horrível não lhe tivesse acontecido?
- Pois claro.
- Deveras. Deve-me perdoar por perguntar, Abade Fazia, mas agora que penso, o seu nome é-me algo familiar, e parece-me que apenas grandes fãs do Richard Harris é que vão perceber a referência.
- Sim, talvez, mas há pelo menos três maneiras que eu saiba de chegar à referência que eu sou.
- Algumas são obscuras, talvez?
- Admito que sim. E tu foste lembrar-te logo da mais obscura de todas!
- É um bom filme.
- Mas não é uma adaptação fiel do livro.
- Continuemos, meu caro Abade, este não me parece o sítio para discutir cinema fora de contexto. - disse Ventura Lobo, olhando em volta. - Nunca tentou sair daqui? É verdade que apenas vejo aquele buraco por onde caí como saída, mas esta espécie de gruta há-de ter outra escapatória.
- Não, jovem, não tem. Mas não é por isso que eu tenha desistido de tentar. Comecei a escavar um túnel quase no mesmo dia em que cá cheguei. Já avancei vários metros.
- Ah sim? Mostre-me o túnel, talvez o possa ajudar. Seremos dois, por isso o trabalho avançará mais rapidamente.
- Mas jovem, tu estás no túnel!
Ventura Lobo não compreendeu imediatamente, ficando pensativo e confuso.
- Desculpe, mas está a tentar dizer-me que esta gruta é o seu túnel?
- É isso mesmo.
- Escavou-a toda?
- Todinha.
- Mas onde é que arranjou os materiais para o fazer?
- Fui aproveitando os materiais da minha cela.
- Mas qual cela? Não vi nenhuma!
- Então jovem, a que está em cima do monte! De onde tu caíste!
- Mas não estava lá nada!
- Agora não, é claro que não, não me estás a ouvir! À medida que ia escavando o túnel ia arrancando as tábuas do chão, retirava as barras de ferro das grades, lascava as pedras das paredes até não restar nada. Enfim, tive de sacrificar a minha cela para fazer o túnel. Infelizmente, a cela já não me dá os materiais de escavação necessários e o trabalho ficou mais lento nos últimos anos.
- Bom, bem vistas as coisas, nada impede o senhor de ir à cidade mais próxima buscar mais materiais, já que a cela não existe.
- Mas estás doido, jovem? Eu estou preso!
Ventura Lobo olhou para o Abade, perplexo. Quando se propôs tornar aventureiro sabia que iria encontrar estranhas criaturas e situações impossíveis, mas esta desafiava toda a lógica.
- O senhor nunca pensou em escavar lateralmente em vez de verticalmente?
- Claro que sim! Mas sempre que escavo para o lado começo a encontrar raízes, e não continuo para não chatear as plantas, já que uma vez, quando era miúdo, pus a mão numa urtiga e decidi que nunca mais importunaria uma planta a não ser que tivesse a certeza que ela não me atacaria. Ora, vendo apenas a raíz, sei lá o que poderá estar à superfície.
- Então o senhor continuou a escapar por medo a urtigas?
- Precisamente.
- Faz sentido. Felizmente, eu não partilho esse medo.

Num gesto dramático, Ventura Lobo desembainhou a sua poderosa espada e num golpe único e forte atacou as paredes da gruta. Desabaram imediatamente, e a poeira da terra misturou-se com a neblina fumarenta e fresca de origens ictióides. A luz invadiu a gruta imensa que o Abade Fazia escavara.
Não se via nem uma urtiga. Aliás, não se via nada, pois a poeira ainda não assentara. Lentamente, Ventura Lobo e o Abade começaram a ver um vulto a surgir divinamente através da poeira e fumo. Tinha um aspecto feroz e na mão parece trazer uma arma mortal, talvez um machado.
É óbvio que vem aí mais uma tentativa de piada inesperada, pois o vulto revela-se como sendo nada mais nada menos que Xico dos Cavalos, um camponês sujo das redondezas, armado com uma enxada, famosa e amplamente conhecido num raio de dois quilómetros como o homem que não aprendeu a letra "a".
- Que signific isto? Quem fez este burco? I, s minhs couves! Bndidos! Gtunos! Fscists! Gbirus!
- Acalme-se, meu caro, este buraco tem razão de ser pois estamos a devolver uma alma à sua liberdade roubada. Tenha um bocado de compreensão!
O camponês inicialmente assustou-se, exclamando um "H", e agitando a enxada.
- Eu dou-vos com minh enxd!
Ventura Lobo respondeu razoavelmente, apresentando-lhe vigorosamente a sua espada luminosa e afiada. Xico dos Cavalos, ou Xico dos Cvlos, como ele preferia ser tratado, aquiesceu enfim ao sentimento de indulgência pedido.
- Bom, no nos chteemos, enfim, bons senhores! No vos quero ml, ms nos dis de hoje, qundo vemos um pedço de terr desprecer noss frente, é motivo pr ficr preocupdo. - e dito isto, fez uma leve pausa ao olhar para o Abade, que só agora começava a ser reconhecível depois de se sacudir da poeira. - Ms é o Bde Fzi! No sbi que ind er vivo!
- Pois é Xico, mas eu muitas vezes pedi ajuda e nunca ninguém veio, e afinal estavas aqui mesmo ao pé!
- H, sbe, é que eu psso muito mis tempo cuidr ds minhs bnns e dos meus nnses, que esto um quilómetro nquel direcço. Ms fico contente por o ver vivo!
- Dos seus quê?
- Bnns e nnses! Li, pr o ldo onde tenho s nons.
- Pá, inicialmente ainda 'tava a perceber, mas agora já não apanho patavina. Ó Ventura, o que é que ele disse?
- Bnns e nnses e tal. Depois acho que falou em francês.
- Ess gor! Ento porque eu no consigo dizer um letr do becedrio vocês j se sentem todos superiores? É sempre mesm cois. Todos se chm doutores porque no tive mesm educço. É sempre, ò Xico, diz l o teu nome, e eu digo, Xico dos Cvlos, e desmnchm-se rir. Sbem que mis? Vou-me embor, s minhs bnns e os meus nnses precism de mim, e no vou gstr o meu tempo convosco! Vo pr o crlho!
Ventura Lobo guarda a espada, troca um olhar com o Abade, e diz-lhe sorridentemente:
- Era mesmo francês. Ele teve a amabilidade de dizer que se seguirmos a estrada chegaremos a uma aldeia.
- Ele disse isso?
- Foi o que eu percebi, pelo menos.

Instalou-se um curto silêncio. A neblina mágica começava a dissipar. Observavam-se agora os belos montes verdes decorados com flores campestres em toda a força da pujança primaveril, preenchidos aqui e ali por pequenos e densos bosques embalados por uma leve brisa proveniente das serras altas tocadas de neve. A vida animal recomeçara o seu ciclo de sobrevivência. O nobre falcão retomou a sua vigia mortal dos céus, atento a uma próxima refeição. A refeição, na forma de coelhinhos alegres, saltitava escondida de erva em erva e de flor em flor, atrasando irremediavelmente o seu destino natural. As borboletas esvoaçavam aleatoriamente, os pássaros improvisavam uma melodia, os camponeses sulcavam as terras, os dragões pequeninos jogavam à bola...
- Para onde vai agora, Abade Fazia? - perguntou Ventura Lobo, interropendo rudemente a descrição da cena, coa breca!
- Vou continuar o trabalho da minha vida. Aquilo pelo qual fui preso.
- Que é o quê, especificamente?
- Encontrar o Livro!
- O Livro? Com maiúscula?
- Oh sim, o Livro. O Livro que acabará com toda a infelicidade do nosso modo de ser, que trará um novo olhar e um novo falar e um novo escrever!
- Parece interessante, ou quase.
- Quase!? Como te atreves a duvidar do Livro!? Ah, és jovem, claro, não compreendes... Um dia virá em que precisarás do Livro, profetizo-te isso! Aí saberás vir ter comigo! Aí saberás respeitar o Livro!
- O único livro que preciso para viver é o livro de reclamações para fazer bluff com os empregados de uma loja com mau atendimento. Fora disso, acho que não preciso de mais.
- Então é aqui que separamos caminhos, Ventura Lobo. Agradeço-te teres-me libertado, por isso estar-te-ei sempre grato. Quando a altura vier, saberás vir ter comigo, e ajudar-te-ei.
- Está bem, de acordo, meu caro, suponho eu.
Apertaram a mão e seguiram caminhos diferentes.

Espera lá, acho que gastei demasiado texto neste segmento contextualizador não totalmente necessário. Bom, as aventuras de Ventura Lobo continuarão para a próxima.

Sem urtigas, couves, bnns ou nnses à mistura.

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publicado às 15:39


Música: The Clansman, II

por Rei Bacalhau, em 26.06.16

Acho que é a primeira vez que vou repetir uma música neste espaço semanal habitual. Tendo em conta o contexto político recente, achei que faria sentido.

 

Aprendi a evitar conversas políticas, porque no fundo tudo o que acontece nesses meios é-me absolutamente indiferente enquanto não me afectar directamente, mas vocalizar ou escrever este tipo de opinião é perigoso numa sociedade onde se não se tem uma opinião sobre algo somos imediatamente imbecis, a escória da humanidade, reles lixo, literalmente o Adolf Hitler. 

 

O facto de a Inglaterra (ou Reino Unido ou raio que o parta) sair da União Europeia é-me absolutamente indiferente. Porque carga de água é que me haveria de preocupar com isso? A única coisa que me afectará é que se alguma vez quiser ir lá tenho de tratar do passaporte. Fora isso, tranquilo.

Portanto, estando-me nas tintas para os bifes, foco a minha atenção na Escócia, que está numa situação muito mais engraçada, só por ser caricato o facto de eles há poucos anos terem votado reticentemente para ficar no Reino Unido, só por causa da União Europeia e tal (falho em ver porque é que na altura eles não se poderiam juntar à UE depois de se separarem, mas lá está, não percebo muito de política). Agora é admissível pensar que poderá ser desta que a Escócia terá a sua tão ansiada liberdade.

Curiosamente, quem vai cantar sobre isso são uns rapazes ingleses.

 

Iron Maiden, com The Clansman:

 

 

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publicado às 00:46


O Rapto - Parte III

por Rei Bacalhau, em 22.06.16

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Mariana reflectiu no que ouvira. Maior parte das informações que o suposto "Chefe" tinha dito eram coerentes. No entanto, não poderia confiar em alguém que usava métodos tão agressivos. Se tudo aquilo era para a segurança dela, escusado será dizer que Mariana não se sentia particularmente aliviada. Pela sua experiência, o mais provável seria que toda a situação fosse um estratagema do Inimigo. Para corroborar seja o que for, precisaria de contactar o seu pai, o que era impossível naquela situação.
A única alternativa era escapar.
Lembrou-se que o Chefe tinha dito que ela não estava presa. Bastaria simplesmente abrir a porta e sair?
Era uma jogada arriscada, mas admitiu que valeria a pena tentar. Pelo menos tinha esperança de conseguir ver o que estava no resto do apartamento.
Aproximou-se da porta. Baixou-se. Não havia sombra alguma imediatamente à frente da porta. Ouvia algumas vozes baixas. Colocou ligeiramente a mão no manípulo. Apertou-o firmemente, esperando não fazer barulho ao rodá-lo. Hesitou durante uns instantes, não sabendo a reacção possível de quem quer que fosse que apanhasse pela frente. Respirou fundo.
Abriu a porta devagarinho.
Só quando abriu a porta completamente é que conseguiu ter visão para o corredor e imediatamente à frente para a sala, onde estavam dois homens sentados ocupados com algo à frente deles. Estavam de costas para Mariana.
À direita de Mariana continuava o corredor. Colocou a cabeça cautelosamente para fora do quarto para espreitar e avaliar este corredor. Estava deserto. Apenas continha alguma mobília velha com uma aparência ainda mais gasta do que a que estava no quarto. Ouviam-se alguns barulhos provenientes da divisão ao fundo do corredor. Mariana distinguiu o ruído de uma televisão. Subitamente ouviu uma voz doce, mas preocupada.
- Ai, Cruzes Credo!...
Era a voz de uma mulher e Mariana podia apenas tentar adivinhar o que causara tal interjeição.
Mariana olhou para a esquerda.
Dois olhos observavam-na de uma divisão imediatamente contígua ao quarto. Uma barba espessa aliada ao olhar assustador deram ao observador uma aparência de fera. Mariana deu um pequeno salto e quase gritou. No entanto, a exalação de ar foi suficientemente ruidosa para alertar os restantes ocupantes da casa que, surpreendentemente ou não, apenas olharam de relance para trás antes de retomarem a sua actividade.
Mariana estacou. Não soube o que fazer ou o que dizer. Olhou para o corredor, agora atrás de si, e notou a porta de saída. Impulsivamente, como qualquer ser que anseia a liberdade, lançou-se para a porta e tentou forçosamente abri-la.
Estava trancada.
- Desculpe, mas não pode sair. - disse a fera, bruscamente.
Mariana olhou-o e afastou-se.
A fera repetiu.
- Pode andar por aqui, mas não pode ir lá para fora.
Mariana recompôs-se.
- Disseram-me que não estava presa... - disse baixinho.
- E não está. Mas para a sua segurança, tenho ordens para a manter dentro de casa, na medida do possível.
- Então é a mesma coisa. Estou presa.
- Não, isto é para a sua segurança.
- Isso diz você. Não me sinto segura convosco. Quero sair. Se não me deixar, é porque estou presa, ou pior, raptada.
A fera não soube responder.
- Ouça, eu tenho ordens. Se tiver problemas fale com o Chefe.
- Quero sair. Se não puder começarei a gritar por socorro.
Mariana sentia-se a esticar a corda. Irritar os seus captores passivos poderia não ser a melhor ideia. Por outro lado, ainda não havia sido magoada significativamente, e talvez isso lhe tenha dado uma maior confiança para enfrentar os raptores.
A fera mudou de postura. Ouviram-se risos abafados na sala.
- Ouça, acalme-se, vamos ser razoáveis, pode ser? Eu não tenho o jeito do Chefe para pessoas, por isso, se não se importa, espere um bocado até ele voltar e poderá falar com ele.
Mariana apanhou a fera na defensiva. Decidiu atacar.
- Eu já falei com ele, e ele disse que eu não estava presa! - exclamou, levantando já o tom de voz.
- A senhor... a menin... você desculpe-me, - respondeu a fera, atropelando-se nas palavras. - mas não a maltratámos. Tenha paciência, por favor.
- Não! Quero sair já! - gritou finalmente Mariana, arriscando tudo.
Poucos segundos depois tinha uma pistola encostada à cabeça. A fera tinha sido puxada ao limite.
- Eu tentei, sabes? Bem que tentei. Não te calas a bem, calas-te a mal. Nem mais um pio, ouviste!?
Agarrou-a bruscamente pelo braço e arrastou-a para o quarto. Ela caiu.
- Foda-se, um gajo tem de cumprir ordens, e neste momento estás-me a fazer falhar! Pediram-me que te tratasse bem, mas não me deste escolha. - levou a mão ao bolso e tirou um lenço. - Se pensas sequer em berrar levas logo com o lenço sujo dentro da boca! Estamos entendidos!?
Em momento algum deixou Mariana de estar na mira certeira da pistola. Ela tremia descontroladamente. Começou a chorar. Não respondeu à pergunta.
Um outro homem entrou também no quarto.
- Adrien! Estás doido!?
- Não te metas, não vou deixá-la estragar tudo. A última coisa que queremos é atenção.
- 'Tá bem, mas o Chefe...
- O Chefe pode ir para o caralho! Porque carga d'água é que tive de ser eu a guardá-la? Maçada do caralho, é o que é.
Ouviu-se o barulho dos trincos da porta. Alguém entrara. Uma terceira voz familiar entrou em cena, não demasiado contente.
- Deixa estar, Adérito, eu trato disto, obrigado.
Adérito saiu e voltou para a sala, donde tinha vindo.
- Adrien, - começou o Chefe. - importas-te de não apontar uma arma à Mariana? Ou compreendeste mal as ordens que te dei?
- Não está carregada. Ela não me deu outra alternativa, ela 'tava a dizer que ia começar aos berros. Que caralho havia eu de fazer?
O Chefe enrugou as sobrancelhas em sinal de desaprovação.
- Adrien, não praguejes na presença de uma mulher civil. Guarda a arma e senta-te, por favor. - virou-se para Mariana. - Aparentemente não devo ter sido claro, menina, e por isso peço desculpa. Neste momento não podes sair desta casa, pois estamos a assegurar que as condições estejam propícias para seguirmos viagem. A rusga que foi feita ao teu bar ontem causou algum burburinho na colmeia do Inimigo, e por isso estamos um bocado mais nervosos. Compreendo perfeitamente que queiras sair, mas não é mesmo possível. Os serviços secretos Inimigos andam à tua procura e eles conseguirão localizar-te se sequer espreitares lá fora. Devo pedir-te duplamente desculpa pelo comportamento do meu colaborador Adrien, mas não se pode dizer que seja boa ideia enervá-lo. - virou-se de novo para Adrien. - Adrien, queres dizer alguma coisa?
Adrien nem olhou.
- Adrien? Então? É apenas razoável, vá...
Adrien murmurou alguma coisa, provavelmente profanidades abafadas.
- Por favor, Adrien... - insistiu o Chefe.
- Peço desculpa... - disse, finalmente, com um toque de amargura.
Mariana não acreditava em tal circo em que parecia estar metida.
- Vocês são todos doidos... estou tão fodida...
- Desculpa Mariana, - continuou o Chefe - compreendo o teu desconforto, mas posso-te assegurar que toda esta maluquice acabará mais depressa se nos disseres onde é que está o teu pai. Depois pôr-nos-emos a caminho o quanto antes.
Mariana desviou o olhar para a janela ao ouvir a menção do seu pai. Não respondeu, mas levantou-se. O Chefe notou uma ferida no joelho dela que não vira antes.
- Adrien! Como é que a Mariana se magoou!?
- Não sei.
- Anda cá fora, se fizeres favor.
Adrien levantou-se. Os olhos lançavam faíscas. Estava furioso por ter sido dado aquela missão, de guardar a rapariga. Na verdade, estava mais furioso consigo mesmo, pois falhou a sua missão por sua própria culpa. Descontrolou-se, cedendo à sua personalidade fogosa, e acabou por magoar a pessoa que deveria ter protegido de todos os males. Saiu do quarto, acompanhado pelo Chefe, que fechou a porta. Ouviram-se gritos abafados, dos quais Mariana não percebeu grande coisa. A discussão durou cerca de um minuto. Depois, silêncio. Mariana investigava a gravidade da sua ferida, quando a porta se abre de novo. Entra Adrien, só. Trazia um pacote de algodão, álcool e uma caixa de pensos.
Mariana afastou-se.
Adrien olhou-a determinantemente, mas sem ferocidade pela primeira vez. Sem dizer nada, aproximou-se, ajoelhou-se, embebeu um pedaço de algodão em álcool e colocou directamente na ferida. Mariana inspira de dor, incomodada pelo ardor necessário da limpeza. Adrien aplicou um penso suficientemente grande para cobrir o arranhão relativamente inofensivo no joelho.
Adrien, ao acabar a tarefa, afastou-se e saiu do quarto com os mesmos objectos com que entrou. Pouco depois, reentrou e sentou-se silenciosamente a olhar pela janela, ainda carrancudo das situações anteriores.
Mariana estava agora sentada numa cadeira com estofos desgastados pelo tempo que se situava imediatamente ao lado da cama. Adrien estava de costas para ela, e por isso ela pôde reflectir calmamente no que tinha acontecido nos minutos anteriores.
Era ainda inteiramente possível que tudo isto fosse um esquema por parte do Inimigo de modo a fazê-la sentir-se suficientemente confortável para revelar a posição do pai. Era aterrador para ela voltar a ter de pensar com terminologia miliciana, pois todas as memórias associadas à Guerra trespassavam-lhe as feridas mentais, reabrindo-as e relembrando-lhe a despedida do seu pai, a destruição da sua terra, a fome que a assolou quando andava fugida no campo... as progressivas mortes dos seus irmãos. As lágrimas escorriam-lhe lenta e silenciosamente pela face abaixo. Estava farta da Guerra, que estes idiotas aparentavam querer continuar. Estava farta de ver a sua família destruída pelas acções de outros.
Os soluços tímidos de Mariana não escaparam a Adrien, obviamente, mas este não fez qualquer comentário ou gesto consolador. Pelo contrário, pegou num livro e começou a lê-lo para se distrair.
Mariana notou isto. Observava agora o seu carcereiro, que parecia querer irritá-la com cada folhear de página, fazendo-o languida e dramaticamente. Ela aguentou apenas umas páginas. Quando se fartou, levantou-se e dirigiu-se para a porta do quarto. Adrien nada disse.
Mariana olhou para a sala à frente do quarto ao sair. Apenas um miliciano lá estava, aquele a quem o Chefe chamara de Adérito. De facto, tanto o nome como a cara eram-lhe familiares, mas supôs que poderia apenas ser o poder da sugestão em acção. Independentemente do que Mariana pensava, o homem sorriu-lhe com um aceno quando ela saiu do quarto, cumprimento este que Mariana não soube retribuir. Escapou para a direita em direcção ao final do corredor donde ainda provinha o barulho de um televisor. À medida que se aproximou da porta ao final do corredor, começou a ouvir um leve trautear de uma cantiga popular abafado pelo barulho infernal do televisor.
Mariana encostou-se ao portal donde vinha o barulho e espreitou.
A divisão pequena tinha o aspecto imediatamente óbvio de uma cozinha, não obstante o gasto da mobília, coerente com o resto da casa. Encostado à direita da porta estava o frigorífico gigantesco, aparentando ser um dos pilares que suportava o tecto baixo. À frente da porta estava uma arca frigorífica velhíssima, mas o seu ruído constante permitia inferir que ainda estava em funcionamento, sendo provavelmente um electrodoméstico dos tempos esquecidos em que estes eram feitos para sobreviver o Apocalipse. Fazendo jus à afirmação anterior era notável uma marca de bala ao pé da tampa, podendo-se imaginar o cenário ridículo em que uma arca frigorífica terá sido usada numa batalha. Entre esta arca e o frigorífico colossal havia apenas um delgado corredor que permitia o acesso ao resto da cozinha. Na parede contrária, uma janela preenchia a divisão com uma luz amarela forte, diluída nos cortinados brancos ressequidos que a decoravam. O chão, de uma espécie de imitação de mármore sujo, estava coberto por uma passadeira desgastada e rasgada que se estendia de uma ponta à outra da cozinha, afastada ligeiramente de uma fila de bancadas encostadas à parede. Estas bancadas eram relativamente típicas, com vários utensílios arrumados e desarrumados populando a sua superfície. Distinguiam-se cenouras e batatas descascadas e cortadas em cima de uma tábua de madeira. O fogão, que deveria ser o objecto de aspecto mais moderno naquela casa inteira, estava ligado e as suas chamas azuis turquesa aqueciam uma panela, presumivelmente um prelúdio para o almoço. Em nenhuma altura a barulheira irritante dos anúncios da televisão deixaram de ser ouvidos, complementados com o zunir da arca e do frigorífico, com o borbulhar da panela e com a melodia doce de um trautear feminino.
A senhora surgiu por detrás do frigorífico e continuou a sua nobre tarefa de preparar uma refeição. Era uma idosa de braços flácidos, indicativos de uma agora inexistente prosperidade alimentar, que ziguezagueava graciosamente de um balcão para outro. O cabelo curto e grisalho estava espalhado em pequenas ondas onde se notavam ainda algumas antigas madeixas castanhas, provavelmente pintadas. A sua bata combinava adequadamente com o seu avental, pois tinham ambos padrões de florzinhas como decoração. A sua face preocupada era um contraste à habilidade calma com que continuava a cortar os vegetais. Com os óculos na ponta do nariz pequeno, lia em voz alta algumas das notícias que agora começavam a ser reportadas.
- Ai, Cruzes Credo...
Mariana não tinha prestado atenção à notícia, por isso não percebeu a admiração da senhora que observava. Deu um passo em frente e penetrou na cozinha, apeando-se na arca velha.
- Com licença, desculpe...
A idosa sobressaltou-se, apanhada desprevenida. Um pedaço de batata voou para o lava-loiças. Franziu os olhos, procurando reconhecer quem lhe falava. Um sorriso rasgado abriu-lhe as feições, mostrando uma dentadura em mau estado.
- Ah, finalmente a posso ver com bons olhos, moça. Bom dia, entre, entre aqui, esteja à vontade. Ai, tão bonita que vossemecê é. - e riu-se amigavelmente.
Mariana sorriu pela primeira vez desde há muito tempo, não sabendo o que responder, balbuciando um "obrigado" tímido.
- Ai, moça, desculpe, mas é tão raro ver uma jovem como vossemecê por aqui. É um verdadeiro tesouro, é. Não admira que estes homens a queiram proteger como um. Ai, meu Deus, nem me apresentei. Chamo-me Dina, e vossemecê chama-se Mariana, não é?
- É sim, minha senhora. - respondeu Mariana sorrindo.
- Ah, é um nome tão bonito. A minha nora queria pôr esse nome à filha. Era esse ou então Leonor. Mas o meu filho acabou por preferir Maria e ele é assim, - e entalou o polegar entre os restantes dedos. - casmurro, e então a minha neta ficou Maria. Ai, era uma bebé tão linda, e saudável, graças a Deus. Era. - pausa ligeira para avaliar a reacção de Mariana.
- Pois...
- Pois é, mas depois a porcaria da Guerra veio e o meu António teve de fugir, para lhe dar uma vida. Isto não era sítio para se criar uma criança, percebe?
- Pois claro que não, bem sei...
- Pois é, e então não vejo o meu filho e a minha neta e a minha nora há quase sete anos, que eles foram-se embora pouco depois da Guerra começar.
- Mas a senhora...
- Fiquei, pois fiquei, por mim eu teria ido, mas o meu marido, Deus o tenha em paz, não podia fazer a viagem e fiquei com ele. Olhe, ele morreu uns meses depois de um câncaro que ele tinha nos intestinos, que ele também era homem que fumava muito, mas nisso o filho saia ao pai, que também era muito teimoso, muito teimoso, ai, nem acreditava se visse.
Houve uma ligeira pausa, Mariana aproveitou para tentar falar.
- Olhe, Dona Dina, se a puder tratar assim, agradeço-lhe o pequeno almoço que me fez, mas não o comi todo.
- Ah, por quem é, moça, pode-me tratar assim com certeza, toda a gente me trata por Dona Dina, e eu até gosto. Quando lhe fui levar o pequeno almoço não a quis acordar, mas aqueles estores fazem sempre muito barulho, se calhar acordei-a, ai desculpe-me.
- Ah não, não faz mal, já estava acordada!
- Mas não gostou do pequeno almoço...? Posso sempre...
- Ah, não!... - tentou corrigir-se Mariana, futilmente.
- ...fazer outra coisa. Os tempos estão difíceis, mas para comida ainda dá sempre. Ai, mas é estranho, fiz exactamente como o senhor Chefe me pediu. Olhe, até usei da minha reserva especial de doce de pêssego que tinha guardada. E fui eu que fiz com os pêssegos do quintal, portanto pode ter a certeza que não arranjava melhor.
- Ah, Dona Dina, não era isso que eu queria di...
- Eu bem achei estranho quando o senhor Chefe me pediu uma refeição tão... ai, como se diz... diz-se... específica!, uma refeição tão específica, mas eu não disse mais nada para não arranjar problemas. Do que é que não gostou?
- Não é isso, Dona Dina, estava tudo muito bom. Na verdade, é o meu pequeno almoço preferido.
- Pois, foi o que o senhor Chefe me disse.
- Desculpe? Ele disse isso?
- Sim, ele conhece tão bem o seu pai que não me admira que saiba isso. É verdade como é que ele está? Pensei que ele viesse com o senhor Chefe. Ai, cruzes. Ele não morreu pois não?
Mariana não respondeu.
- Ai, vossemecê desculpe-me, já estou a falar demasiado. A menina se calhar não quer falar disso, ainda por cima depois daquela discussão de há pouco. Eu ouvi a berraria, mas não me meti quando ouvi a voz daquele bruto. Só sabe dizer asneiras. É muito malformado.
- O Adrien?
- Ai, sim. - começou a murmurar a Dona Dina. - É um bruto, bruto, bruto. Não sei como é que um cavalheiro como o senhor Chefe se consegue juntar com estes rufias. O senhor Adérito, por exemplo, é também exemplar, tão tão educado, e ainda por cima é preto.
Mariana torceu o nariz ao comentário, mas acenou com a cabeça educadamente. Mariana reparava agora que do outro lado da arca frigorífica estava uma mesa pequena rodeada de cadeiras que se encavalitavam para caber debaixo dela. Aproximou-se da janela enquanto a Dona Dina automaticamente rebobinava a história sobre a marca de bala na arca.
- ... e então os soldados entraram-me pela casa dentro outra vez e queriam a arca também para pôr na rua e eu disse....
Mariana inspeccionou melhor a janela e concluiu que era na verdade uma porta que dava para uma varanda com vista para o quintal traseiro. Apesar de querer essencialmente escapar de Adrien, a exploração da casa tinha o objectivo secundário de identificar potenciais métodos de fuga.
- ... e não é que o soldado voltou no dia a seguir a dizer que se tinha esquecido de uma coisa dentro da arca? Ai, fiquei tão admirada quando...
- Desculpe, Dona Dina, mas posso ir lá fora apanhar um bocado de ar fresco?
- Ai, Deus me livre de lhe dizer que não, faça favor. - respondeu a prestável idosa, visivelmente desiludida por perder a excelente interlocutora.

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Música: A Bela Adormecida

por Rei Bacalhau, em 19.06.16

Composto por Tchaikovsky:

 

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O Rapto - Parte II

por Rei Bacalhau, em 15.06.16

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Mariana acorda num quarto desconhecido. Lembrava-se apenas vagamente de alguns momentos do seu percurso. Não estava ferida. Sentia apenas um inchaço no seu braço, no local onde lhe haviam administrado a espécie de droga a que fora submetida. Surpreendeu-se ao descobrir que estava confortavelmente deitada numa cama. O quarto estava iluminado por brechas de luz que trespassavam os estores velhos e tortos e interceptavam as partículas de pó que esvoaçavam livremente como que à deriva. O quarto tinha um aspecto velho. As mobílias estavam gastas e danificadas, apesar de aparentarem estar funcionais. Um ligeiro cheiro a mofo era agradavelmente contrastado com o aroma airoso dos lençóis em que Mariana estava envolvida. Estavam lavados de fresco.
Na mesa de cabeceira repousava um velho relógio digital. Eram dez da manhã. Mariana empurrou os lençóis para longe. Notou, com alívio, que ainda estava vestida com a sua roupa. Apenas os seus sapatos haviam sido tirados. Estavam cuidadosamente à sua espera no chão ao fundo da cama. Mariana calçou-se e aproximou-se delicadamente das janelas, tentando olhar pelas brechas dos estores para identificar onde se encontrava. Observou longamente uma rua que não conhecia, e não localizou nenhum ponto de referência familiar no horizonte. Deslocou-se nervosamente em direcção à única porta do quarto. Tentou o mais silenciosamente possível avaliar o que a esperava do outro lado. Espreitou pelo buraco da fechadura, algo que nunca fizera, pois nunca havia visto uma porta com uma fechadura semelhante, ou pelo menos nunca teve necessidade de a usar para esse fim.
Nada viu. Apenas percebeu que havia muito mais luz do outro lado.
Baixou-se, encostando a cara ao chão de madeira. Distinguiu claramente duas sombras separadas mesmo em frente à porta. Pela distância entre as sombras inferiu que seriam pés.
Um guarda.
Começou a pensar no que fazer, mas foi interrompida pelo barulho crescente de passos.
Vinha aí alguém.
Descalçou-se à pressa, saltou para a cama e tapou-se. Fingiu dormir.
A porta abriu-se silenciosamente, mas Mariana sentiu uma mudança inerente no ar.
Alguém entrara.

Ouviu passos macios a deslizarem pelo tapete no meio do quarto. Os passos continuaram na direcção da janela. Ouviam-se uns tinires peculiares, semelhantes a loiça a bater em talheres. Alguma coisa foi pousada, provavelmente na mesa encostada à janela. Subitamente, um barulho horripilante e alto encheu o quarto, ao mesmo tempo que luz começou a invadir a divisão.
Alguém abrira os estores.
Mariana deixou-se estar, quieta como uma rocha sepultada numa montanha de lençóis e cobertores.
Os passos leves e relativamente lentos foram-se embora. Enquanto a porta era fechada, Mariana teve a impressão de ouvir um ligeiro suspiro feminino.
Maior surpresa teve quando lhe começou a cheirar a torradas. Intrigada, Mariana finalmente teve a coragem de levantar ligeiramente o olho para determinar subrepticiamente se efectivamente estava sozinha. Não viu ninguém. Aliviada, ergueu-se e observou o quarto de novo, desta vez com uma melhor iluminação. A única diferença que lhe chamou a atenção foi obviamente um tabuleiro com um pequeno-almoço humilde, mas de aparência apetitosa. Um copo de leite fumegante, um açucareiro pequeno de plástico enfeitado com florzinhas coloridas, duas fatias de pão torradas, com uma ligeira cor alaranjada nas bordas, um pequeno pacote de manteiga e um frasquinho de alguma espécie de doce.
Mariana estava confusa. Não compreendia o que se passava. Em primeiro raptavam-na bruscamente e depois apaparicavam-na com uma cama confortável e um pequeno-almoço estranhamente aconchegador? Duvidou, hesitou, mas acabou por raciocinar que se lhe quisessem fazer mal, não seria agora com o pequeno-almoço que o fariam. Aproximou-se relutantemente da mesa onde estava o tabuleiro. Era impressionante que estivesse o seu pequeno-almoço favorito à sua frente. Seria coincidência? Por um momento conjecturou que poderia não ser. Arrepiou-se. Não interessava. Sentou-se numa cadeirinha velha. Enquanto vigiava a porta pelo canto do olho, colocou duas colheres de açúcar no leite ainda quente. Barrou manteiga numa torrada e espalhou doce na outra. O doce era de pêssego. O seu favorito. Todos os cuidados que tinha tido foram em vão quando deu a primeira dentada na torrada.
Era um sinal suficientemente audível para indicar a quem estivesse atento que a refeição tinha começado.
Com efeito, a porta abriu-se imediatamente. Um surto de adrenalina despoletou-se em Mariana. Os seus olhos nervosos interceptaram uns olhos sorridentes e calmos. Era o Homem que lhe entregara o papel a noite passada. Ele entrou cautelosamente, indicando a Mariana com um gesto que continuasse a comer. Parou em frente da janela completamente aberta agora. O Sol iluminava-lhe claramente a cara ainda algo infantil, apesar de o Homem aparentar ir a caminho dos quarenta anos. A barba estava aparada, e Mariana notou que o estranho sorria ligeiramente ao observar a rua pouco movimentada à frente do edifício. Subitamente, começou a falar.
- Estás à vontade para comer, Mariana. Podes pensar que não, mas estás completamente livre de perigo. Posso assumir com confiança que o pequeno-almoço é do teu agrado?
Mariana olhou-o. Ela sabia que em tais situações o melhor era dizer absolutamente nada, independentemente das perguntas que tinha que lhe assolassem a mente. Mariana decidiu confrontá-lo. Como já reflectira anteriormente, se lhe quisessem mal a situação não seria certamente aquela em que estava. Pegou na torrada e deu mais uma dentada. Nada disse.
O homem riu-se levemente, e voltou a cabeça para ela.
- Óptimo, estás bem ensinada. Suponho que mereces uma explicação. Posso-me sentar?
Puxou uma cadeira frágil e sentou-se à frente dela, já que ela não respondeu.
- Quem cala consente, sempre ouvi dizer. Nem sei bem por onde começar. Bem vistas as coisas, suponho que nem sabes quem eu sou. A última vez que me viste deve ter sido há uns 6 anos, e na altura o meu aspecto era significativamente mais... - hesitou uns instantes. - ... rude... Não me admiro que não me reconheças. Aliás, até o esperava. Devo-te informar que servi com o teu pai nas milícias, e tu viste-nos todos quando fomos um dia à vossa terra passar uma noite.
Mariana empalideceu ao ouvir a menção do pai dela. Outrossim, lembrava-se de facto do dia descrito pelo homem, apesar da cara deste não lhe parecer subitamente mais familiar que outrora.
- Estávamos sob o comando do famoso Sargento Oliveira, que também conheceste. Quando ele morreu, não muito tempo depois, acabei por assumir o comando da milícia, que viria a ser conhecida como Milícia dos Oito. O teu pai era um deles, como bem sabes.
Mariana cessara de comer. O doce de pêssego escorria da torrada para o pires, abandonado.
- Talvez saibas o meu nome verdadeiro, mas no geral o pessoal costuma chamar-me de Chefe. É um hábito antigo, enfim.
Fez uma ligeira pausa, olhando para o céu limpo no exterior, reflectindo no que iria dizer a seguir.
- Já me apresentei. Passemos a ti e o porquê de estares aqui comigo agora. Quando a milícia foi derrotada, - começou a explicar sem pausas, como se fosse um discurso previamente ensaiado - os sobreviventes fugiram e esconderam-se o melhor que podiam. O teu pai, felizmente, conseguiu esconder-se. E bem. Nem eu sei onde é que num raio é que ele anda. Não consigo comunicar com ele através dos nossos canais convencionais e por isso restavam-me poucas alternativas. Aliás, corrijo: não me restava alternativa alguma. Eu preciso de falar com cada um dos Oito, mas apenas sei onde alguns estão. Então não é que há pouco tempo atrás recebi uma informação anónima de que eu não era o único à procura dos Oito? Normalmente suspeitaria de tais informações (e ainda mais o modo com as recebi, mas isso é outra história), mas uma das frases afirmava o seguinte: "O Velho tem sangue na Aneta".
Mariana engoliu em seco.
- Demorei imenso tempo a perceber que "Aneta" era o nome de um bar, apesar de "sangue" referir-se certamente à filha dele. Infelizmente, existem muitos bares com esse nome, mas finalmente localizámos-te depois de os percorrermos um a um. Se calhar não te lembras de ter servido um gajo muito alto com barba espessa. Foi ele, um dos meus colaboradores, que te localizou. Nunca pensámos que fugisses para a capital, de todos os sítios, mesmo na toca do lobo. Não sei porque é que não estás com o teu pai, mas também não interessa muito agora. Lá terás as tuas razões. Seja como for, continuando, antes de ontem recebi uma nova dica anónima, presumivelmente da mesma fonte. Aparentemente o Inimigo também soube da mesma informação que nós e estaria a fazer o mesmo processo de eliminação de hipóteses como nós. Decidimos que a única maneira segura de garantir a tua segurança seria o teu desaparecimento súbito. E então raptámos-te. Desde já peço desculpa pelo inconveniente, mas deves compreender que foi para a tua segurança que precisámos de tal extremismo. Não me parece que se eu tivesse simplesmente falado contigo no bar tu tivesses querido vir connosco sem mais nem menos. Pode ser difícil de acreditar, mas fui informado por um dos meus homens que inspectores da polícia secreta fizeram uma rusga ao bar duas horas depois de desapareceres. Como vês, não poderíamos ter aparecido em melhor altura. Receio ter que te dizer que a tua colega de trabalho, a Guida, se bem percebi, deve estar neste momento a ser minuciosamente interrogada. Não te preocupes, ela há-de ser libertada.
Mariana não pareceu tranquilizada.
- Uma das imensas perguntas que te deves estar a fazer é porque é que tu és relevante tanto para mim como para o Inimigo. Essa é uma pergunta retórica, pois tu sabes a resposta. Não penses que podes desmentir, pois eu sei que o teu pai apenas manteve comunicação com uma pessoa.
Mariana assumiu uma linguagem corporal defensiva. Tinha conseguido manter as feições neutras, mas esse muro que tinha levantado começava a tremer. O Chefe atacava no ponto fraco dela.
- Sabemos que ele comunicou contigo. É mais do que lógico que deves saber onde o teu pai está. Por isso é que és tao importante. É por isso que preciso de ti. Se não fosse por isso ter-te-ia deixado em paz, pois sei que a Guerra foi particularmente dura para a tua família. - fez uma ligeira pausa hesitante. - Podes crer que sei.
Os olhos de Mariana humedeceram-se. O lábio inferior tremia ligeiramente.
- Tenho sido honesto contigo. Se calhar demasiadamente. Eu não gosto nada de ter que te envolver nestes assuntos, mas como te disse, não tinha alternativa. - olhou para ela durante breves momentos e de seguida levantou-se. - Imagino que não queiras falar. Eu compreendo. Não te consideres presa. Podes sair se quiseres, mas ficas a saber que terás sempre um miliciano por perto. Se quiseres ficar aí e pensar um bocado, estás à vontade. Se quiseres comer alguma coisa pede à Dona Dina. Senão ela virá cá trazer-te o almoço por volta da uma da tarde, ou podes mesmo comer connosco, como preferires. Abençoada senhora, tem cá um jeito para cozinhar.
Sem mais nada dizer, dirigiu-se à porta. Quando estava prestes a sair, Mariana disse-lhe baixinho:
- Seu monstro...
O Chefe virou-se. Olhou-a. Ela voltou-se para a janela, ignorando-o. Ele saiu.

- Adrien, não a deixes sair. Ela é mais destemida do que supus. Quem é que está lá em baixo?
- Os irmãos.
- Ok, eu vou lá, obrigado.
Desceu as escadas e saltou para a rua inundada de sol. De facto, do outro lado da rua estavam os três irmãos a conversar, dois deles sentados num banco. O Chefe dirigiu-se a eles.
- Júlio, estejam atentos, não quero que a Mariana escape pela janela. Cuidado com as vossas palhaçadas.
O Chefe olhou para a janela. Mariana observava-o. Ela imediatamente compreendeu que não poderia escapar por ali. Pelo menos não de dia.

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Música: Telling Stories

por Rei Bacalhau, em 12.06.16

" ...... E então vi-a, de súbito, sem o esperar. Acenei-lhe levemente, fazendo-a entender que iria ter com ela dentro de momentos. Cumprimentei o colega banalmente, troquei umas palavras de sincera cordialidade. No entanto, estava paralelamente a decidir o que fazer numa situação tão inesperada.
Não havia razão para estar ansioso de modo algum. Não a via há vários meses, sim, mas e depois? Não vejo muitas pessoas durante muito tempo e não é por isso que devo ficar especialmente ansioso ao encontrar-me com alguém por acaso.
Beijinho, olá tudo bem?, trocar umas impressões em como a vida vai bem, independentemente de ser verdade ou não e despedir-se. Nada mais simples. Já o fiz imensas vezes com tanta gente diferente. Gente que gosto e gente que não gosto.
Não é por ser ELA que vai ser diferente. Certo?
Decido que não.
Viro-me e aproximo-me dela. As feições redondas e bonitas do seu sorriso trazem-me alguma felicidade nostálgica, mas o que mais me surpreendeu foi o interessante fluxo de sangue que lhe afluíra à face, enrubescendo-a de manchas escarlates. Estava profundamente corada. Essa reacção incontrolável surpreendeu-me. Receei que eu próprio também estivesse sob o efeito de palpitações indesejáveis do coração. Eu achava que a minha circulação estava perfeitamente normal, mas neste tipo de assuntos quem é que realmente sabe de si?
Nâo quis interpretar aquelas faces rosadas. Estaria cansada de alguma coisa. Se calhar tinha feito um exercício imenso recentemente que não se reflectisse numa respiração ofegante. Não interessava. Aproximei-me, sorridente.
Ela, extrovertida, pulsante, mágica, salta da cadeira, e quando aproximo a minha face para lhe dar um beijinho amigável, recebo um doce abraço, que me apanha totalmente desprevenido. Retribuo a sinceridade do abraço com prazer. Com maior prazer do que deveria. Na verdade, nunca a tinha abraçado antes. Contudo, tive de me relembrar que devo manter afastamento emocional.
Repito, manter afastamento emocional.
Ela indicou-me a cadeira ao lado e gesticulou para que me sentasse. Aquiesci. Trocámos trivialidades, já que eu não sabia muito bem o que dizer.
Há uns meses falava e fazia por falar com ela sempre que podia. Hoje nem sabia o que dizer. Estraguei a amizade que tínhamos quando lhe confessei o que sentia. Suponho que me arrependo. Deveria ter sabido. Era óbvio que ela ainda gostava dele. Como é que não haveria de gostar? Ele é melhor do que eu em quase tudo. Só sou um bocadinho mais alto que ele, mais nada. Vá, um bocadão, que ele é mesmo meia leca. Não deveria dizer isto. Não é culpa dele que ele não goste dela. Não se pode obrigar ninguém. Mas ela espera ainda pelo seu príncipe. Há-de partir muitos corações, ela, sem realmente sabê-lo. Se eu tive a coragem de confessar, quantos não haverão que nunca disseram coisa alguma? Espero sinceramente que ela venha a descobrir outro que ela consiga gostar, ou que finalmente consiga convencer a sua grande atracção a dar-lhe uma oportunidade.
Nisto e noutras coisas pensava eu dolorosamente enquanto falava com ela.
Nada estava perdido, pensei eu. Poderia auscultá-la e ver se ...... "

 

- O que é que 'tás a fazer?
O Feio assustou-se, pois não notara que era observado. Escondeu o trabalho e voltou para o seu videojogo.
- Ah, quem pensas que enganas, eu vi-te! 'Tavas a escrever!
- Não.
- Ah, 'tá bem, tretas, mostra lá, ou não posso ver?
- Não.
- Não sejas assim, vá, deixa lá ver.
O Bom tomou posse do teclado, sob protesto do seu utilizador. Com um atalho de teclas, voltou ao editor de texto em que a história estava escrita. Leu-a.
- Isto aconteceu mesmo?
- ...
- Vá lá, podes falar comigo, ora essa!
- Não.
- Viste a miúda que gostas, foi? 'Tá bem, já vi que sim, e depois o que aconteceu? Vais escrever o resto?
- Não quero que Ele veja.
- Ele? Ah, essa agora, então? Deixa-te de tretas, conta lá.

Uma voz ouviu-se. A voz que o Feio receava.
- Não me parece que com o modo de ser lacónico do nosso triste amigo lhe consigas retirar vocalmente mais informação. Permiti-me que eu veja o que parece consumir-vos a atenção. ... Ah, uma história, escrita por ti? Excelente, já não escrevias há algum tempo. Folgo em saber que voltas a ter interesse em alguma coisa, mesmo que isso normalmente não augure nada de positivo. Vou ler.
O Mau saltava de palavra em palavra rapidamente e a sua expressão facial, sarcástica inicialmente, tornou-se progressivamente mais séria. De sùbito, fez uma careta, dando a entender que acabara.

- Merda absoluta, portanto. Suponho que a história não se baseia em acontecimentos verídicos?
- Mais ou menos... - tentou defender-se.
- Mais para o menos do que para o mais, claramente. Dá-te prazer sujares a nossa língua para inventares histórias?
- Não é tudo mentira.
- Sim, mas dramatizas alguns aspectos para lhes dar maior relevância do que realmente têm. Isso é uma corrupção pérfida do nosso português, e deverias ter vergonha. Escreves mal, esse é um facto aceite por todos, mas nada implica que tens de atacar a nossa língua. Escreve em inglês, se quiseres, eles que se preocupem com o facto de escreveres lixo total. O quê, querias que tivessemos pena de ti? Que tu fosses algum herói que teria um final feliz? Tretas. Tu nasceste merda e morrerás merda. Nunca valeste nada e nunca valerás. Quantas vezes tenho de o dizer? Não é por escreveres ficção que isso vai mudar.
O Feio levantou-se e foi-se embora.
- 'Tás a ser um bocadinho brusco, não? Coitado dele.
- Coitado o caralho. Sabes, creio que ele me faz lembrar aqueles seres de mente inferior que usam redes sociais, que as usam para obter validação de alguma maneira. Ele só escreve estas coisas para que exista um mundo em que ele é o herói, da mesma maneira que no Facebook e seus semelhantes, cada utilizador faz as partilhas pensando que naquele mundo eles valem alguma coisa.
- E se calhar valem, não?
- Não, não valem coisa alguma. É uma ilusão. São todos insignificantes. Só existe valor em fazer alguma coisa se for para melhoramento pessoal, no máximo. Qualquer pessoa que se gabe de algo publicamente é tão reles quanto o mais fedorento político, ou outros monstros nojentos. Só em solidão social total é que podemos fazer actividades, numa solidão em que só nós é que nos apercebemos do que fizemos, e mais ninguém. Isso sim, é independência.
- Solidão é independência?
- Na sua mais poderosa, cruel e doce maneira.
O Bom riu-se.
- 'Tá bem, quem é que 'tá a contar histórias agora?

 

 

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O Rapto - Parte I

por Rei Bacalhau, em 08.06.16

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A noite estava animada nas ruas apertadas do Bairro Largo. As pessoas formigavam com maior ou menor equilíbrio, dependendo do seu teor de álcool no sangue, de bar em bar, de conversa em conversa, de evento em evento. As raparigas, algumas demasiado novas para aquele ambiente tóxico de bêbedos e drogas, surgiam adonisadas com o intuito subconsciente de chamarem a atenção e para paradoxal e imediatamente ignorarem quaisquer tentativas frustradas de pretendentes que ousassem aproximar-se. Os rapazes, em considerável número, imberbes, maioritariamente magros, fracos, débeis, inundavam as ruas com as suas adolescências e infantilidades, tais como os concursos incompreensíveis de consumo de cerveja aguada.
As ruas estavam mal iluminadas por alguns parcos candeeiros que se esforçavam por viver até ao limite dos seus filamentos obsoletos. As luzes mais coloridas das lâmpadas dos bares adicionavam uma atmosfera mais festiva. Cheirava a uma mistura fétida de urina, cerveja, vómito e as demais substâncias tipicamente encontradas em tais contextos que não merecem menção. Um transeunte pisava aquele chão, sabendo o que se arriscaria a pisar, mas depois do primeiro passo dado naquele lixo invisível, já não importava.
As pessoas juntavam-se nos seus respectivos grupos. Às vezes era apresentado um desconhecido a um grupo, que era por este sugado se fosse aceite no seu seio. Todos se moviam eventualmente, de forma natural, sem saberem necessariamente porquê, porque X disse para irem ter àquele bar, mas no caminho o Y e os seus amigos ficaram para trás e perderam-se e continuaram a noite independentemente até se juntarem com um grupo de estrangeiras, com nomes começados por Z. Os X's, Y's e Z's e tantas outras letras baralhavam-se numa sopa de letras humana regada a álcool e aquecida pelas hormonas sexuais de atracção e perversão.

Um forasteiro àquela animação toda estava prestes a juntar-se à multidão. Um Homem subia uma das ruas íngremes que dão acesso difícil ao Bairro Largo. Este homem vestia um sobretudo, apesar de as condições atmosféricas não o justificarem. O seu passo era calmo, mas decidido. A sua respiração era constante, mas activa. O seu olhar era penetrante, mas suspeito.
Avançou pelas massas como uma cobra de água, procurando atacar a sua presa inocente. Ele sabia onde ela estava. Bastaria aparecer. Ela não sabia que ele aí vinha.
Percorreu os cruzamentos apertados e claustrofóbicos do bairro. Salpicavam-lhe cerveja em cima derivado dos encontrões que todos davam uns nos outros ao circularem. Começava uma briga, empurrão aqui, palavrão ali, voava um soco. As raparigas guinchavam, excitadas, chocadas, extasiadas. Os rapazes gravavam vídeos com os seus aparelhos, para memória futura. Um raro bom samaritano tentava parar a luta, com razoável sucesso.
O Homem observara a luta e notou que provavelmente havia sido gravado nos vídeos amadores. Sacou o seu próprio telemóvel do bolso interno do sobretudo, e efectuou alguma operação nele. Antes que os aspirantes a cineastas tivessem oportunidade de se afastarem do local, já o seu vídeo ficara destruído.
- Mostra lá como ficou! - dizia um.
- Ya, 'pera... Foda-se, man, qu'é'sta merda? O telemóvel tá todo fodido! O ecrã 'tá marado!
As queixas repetiram-se, em várias pessoas diferentes. Alguma espécie de vírus tinha incapacitado os telemóveis de todas as pessoas circundantes. O Homem tranquilizou-se. Provas da sua presença ali poderiam afectar toda a operação a longo prazo.
Um rapto nunca era uma operação fácil, mesmo para quem está habituado a trabalhar nos bastidores das mais maliciosas conspirações, especialmente em ambientes de tão grande afluência pública. Contudo, não havia mais hipótese. Ou a apanhavam hoje ou arriscar-se-iam a perdê-la de vista.
Estava imposto um silêncio nas transmissões, mas o Homem olhou para trás para confirmar. Três indivíduos caminhavam a alguma distância dele, mas indubitavelmente ao seu passo.
Mais à frente, depois de serpentear por mais uma pequena multidão de jovens inebriados, o Homem abrandou. Olhava para o letreiro de madeira que indicava o nome do bar à sua frente.
"AnetA"
O dito bar era minúsculo, era difícil conceber a ideia de que estava pelo menos uma dúzia de pessoas a dançar num espaço tão apertado, especialmente tendo em conta a dilatação sexual dos corpos derivada do frufru inaudível e quase orgásmico dos seus movimentos roçantes. O Homem entrou, apertando-se o mais que pôde. Sentia-se a afogar no suor dos dançarinos. Sentia-se a sufocar na atmosfera pesadíssima e húmida que se sentia. Morria de calor. Passou pelas primeiras pessoas e esbarrou contra uma mulher gordíssima e enorme, tão alta quanto ele, mas muito mais volumosa. Por comparação, os outros clientes do bar pareciam pequenos planetas e luas a gravitar à volta daquele astro colossal e incontornável. A música, terrível para os ouvidos do Homem, era uma cacofonia de ritmo constante e ensurdecedor, com pequenas melodias electrónicas repetitivas e grunhidos incompreensíveis. Era impossível pedir licença ao astro previamente referido por vias auditivas. O Homem, meio enojado, tocou levemente no braço suado e seboso do bovino para dar a entender que queria passar. Ela pareceu resmungar, mas ele comprimiu-se ainda mais, exalando todo o ar no seu corpo e conseguindo finalmente dirigir-se ao balcão.
O bar não estava com serventia. Ainda bem. O Homem precisava de uns segundos para recuperar o fôlego da espécie de viagem espacial que acabara de percorrer. O balcão e as estantes por trás deste estavam iluminadas por luzes roxas tépidas, tornando difícil a obtenção de pormenores. Notavam-se os vultos duplicados no espelho de parede das várias garrafas e garrafinhas de álcool de maior e menor grau. Sem qualquer aparente sentido de ordem, a desorganização das garrafas era total, o que levava a questionar se seriam realmente usadas para consumo, ou se seriam meramente decorativas. O balcão estava pegajoso e sujo, como se dezenas de copos de dezenas de bêbados tivessem sido ali derramados, transformando para sempre a composição daquela superfície de madeira previamente lisa. Todo o bar parecia cansado da sua existência, completamente levado ao limite da sua sanidade estrutural. Manchas enormes de humidade roíam a tinta turva das paredes fendidas e fragilizadas. As parcas decorações não tinham cor, sumindo-se naquele horrível e constante roxo dilacerante. Os soalhos estavam torturados e desesperados pelos milhares de impactos colossais e desajeitados que sofriam. Até os espelhos pareciam reflectir menos que um espelho saudável, reflectindo apenas figuras tortas e embaciadas.
O Homem estava em pé, encostado ao balcão, temendo pelo bem-estar do seu sobretudo, que se arriscava a tocar na superfície imunda.
Uma pequena porta indicava o caminho para outra divisão do edifício. Estava aberta. Lá dentro via-se um aglomerado de coisas, obviamente desarrumadas, das quais apenas se podiam dificilmente distinguir alguns objectos gerais, tais como caixas abertas e canos e vassouras e esfregonas e baldes. Subitamente, uma baforada de fumo é ligeiramente visível esvoaçando lá dentro. O cheiro a tabaco torna-se imediatamente detectável.
Uma mulher trespassa a porta, vinda do que se pode assumir que seria o armazém. Um cabelo louro feio e fraco, com raízes escuras demasiadamente óbvias, caía-lhe frouxamente pela cara abaixo, escondendo parcialmente os olhos esbugalhados e ligeiramente estrábicos. O resto das feições, particularmente a boca e o nariz, davam-lhe um aspecto de rato. O facto de ter uma postura semelhante à de um corcunda bulímico não ajudava muito a sua caracterização já bastante negativa. Ela reparou no homem ao balcão, que também a havia visto, e berrou algo. Deu a entender que estava a perguntar ao homem o que é que ele desejava.
O Homem apontou silenciosamente para o bico de cerveja. Ela acenou afirmativamente, habituada a tal linguagem. Serviu a cerveja num copo alto. O Homem despejou um bom gole para se refrescar. Após este consolo, bebericou casualmente e longamente a sua bebida. Olhou para a rua, para a qual tinha alguma visão, ainda que limitada pela gigante previamente descrita, que agora rodopiava loucamente. Conseguiu estabelecer contacto visual com um dos três homens que o seguiam lá fora. Acenou negativamente a este.
O alvo ainda não tinha aparecido. Mais alguma paciência.
A música já mudara algumas vezes, mas o Homem não dera por isso, pois não conseguia detectar as diferenças admissivelmente subtis entre as faixas consecutivas. Para ele, parecia tudo igual. Estava prestes a acabar a sua cerveja quando detecta uma última baforada do mesmo sítio de há pouco. A sua atenção redobra-se na direcção da porta. Olha de relance para o homem lá fora e acena-lhe afirmativamente e este desaparece. Os seus olhos voltam-se imediatamente de novo para a portinhola.
Outra mulher surge a ajeitar o cabelo escuro e encaracolado. Quando afasta os cabelos da sua face, revela a sua cara redonda que, se não a mais atraente, tinha carácter. Os olhos pequenos e vivos, mas não nervosos. As sobrancelhas num permanente arquear zangado, moldando uma ruga leve na glabela. Os lábios longos cerrados numa expressão séria e impassível. A mulher era nova de idade. Mas o que já experienciara tornava-a mais velha que alguns dos soldados mais veteranos.
O Homem sabia-o. Compreendia-a. Quase sentia remorsos.
Ela, reparando nele, estranhou inicialmente, como se pressentisse algo de errado. A Guerra fizera-a paranóica, justificavelmente. Não obstante, notando que o seu copo estava vazio, perguntou com gestos se queria outra, pois a colega que o atendera originalmente estava ocupada a limpar uma garrafa partida no chão.
O Homem sorriu-lhe, inesperadamente. Ele acenou que não, apontando para o copo vazio. Levantou um dedo energicamente, como se quisesse mostrar algo. Mergulhou a mão no sobretudo, tirou um papel de um bolso interior e estendeu-o à jovem, que o pegou como por instinto, tremendo ligeiramente, não sabendo o que esperar. O papel era muito simples, era uma folha pequena. Continha apenas uma palavra. A jovem leu-a.
Nem mil bombas, nem mil trovões, nem mil cataclismos a teriam fulminado de maneira tão marcante como aquela palavra única, devastadora e tenebrosa.

 

Mariana.

 

O seu nome. O seu nome verdadeiro e esquecido. O seu nome de um tempo do qual ela tentou escapar. Nem teve a coragem de olhar novamente para o misterioso Homem à sua frente, que esperava sorridentemente uma reacção. Ela fora descoberta. Depois de tantos anos pensava que estaria segura do passado. Agora não sabia o que lhe aconteceria. As memórias dos horrores da Guerra voltaram-lhe momentaneamente à mente.
Não.
Não se deixaria apanhar.
Fugiu. Esgueirou-se pela portinhola, correndo pelo pequeno armazém e derrubando um barril de cerveja, na esperança de atrasar o seu presumível perseguidor. Neste ponto enganara-se, pois o Homem mantivera-se no mesmo sítio. O armazém tinha uma porta para um beco traseiro do edifício, não muito frequentado, mas seria a melhor hipótese para ela escapar. Ou assim presumia. Deveras, mais uma vez enganou-se. Ao abrir a porta, a rua estava deserta, mas assim que colocou um passo nas velhas pedras paralelas foi agarrada por dois homens, e um terceiro tratou de lhe cobrir a boca. Mariana sentiu logo de seguida uma pequena picadela no braço, proveniente de trás. Sentiu-se quase imediatamente a perder forças, mas não o suficiente para desmaiar. Conseguia manter-se em pé, mas em pouco tempo a vontade de lutar foi morrendo, sem dúvida por consequência da picadela. Não conseguia falar, ou pelo menos não de maneira perceptível. Sentiu colocarem-lhe um casaco em cima. A noite estava fresca. Reconheceu o casaco. Era o sobretudo do homem misterioso. Ouviu pedaços da conversa:
- Boa rapazes, correu melhor do que estávamos à espera..... sabem se..... claro...... Júlio, apoia-a bem.... tenta manter-lhe a cabeça...... Leonardo, vai lá à frente e vê se....... Artur, ela deixou cair aquilo, apanha lá se......
Apesar do aparato que tal situação poderia causar, Mariana fora injectada com uma substância que lhe dava a aparência de uma bêbada submissa. Os homens, jovens, passavam perfeitamente como amigos dela que estavam a tentar levá-la para casa, como era tão frequente naquele contexto. Um observador externo faria apenas um comentário como "vê-me só a bezana daquela tipa" e esquecer-se-ia imediatamente da visão. Um excelente álibi para um rapto feito à vista de todos.
Obviamente, Mariana não compreendia isto. Conseguiu apenas murmurar a seguinte pergunta.
- Quem... quem são vocês?
O Homem, que seguia ligeiramente atrás, ouviu a pergunta expectável. Aproximou-se dela, pousou delicadamente a mão no seu ombro e disse-lhe:
- Não te aflijas Mariana. Sou apenas um Cidadão preocupado.
Virou-se depois para os homens.
- Separamo-nos aqui. O Adrien e o Adérito estão no fundo desta rua. Eles escoltar-vos-ão até ao apartamento. Vou lá ter depois. De resto, eles já têm as ordens necessárias até eu lá chegar. Tenham cuidado.

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publicado às 22:01


Inominável nº 4

por Rei Bacalhau, em 06.06.16

E cá está! Mais uma edição da Revista Inominável antes de o pessoal ir de férias!

 

CLICK

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publicado às 10:10


Música: 2112

por Rei Bacalhau, em 05.06.16

Eu gosto de músicas grandes.

Especialmente quando contam uma história. Então hoje ouviremos uma. Nem vou prolongar-me muito.

 

O vídeo que vou colocar tem a letra da música na descrição do Youtube. Passem por lá e leiam, se calhar é mais fácil seguir a história dessa maneira.

Pode parecer preguiça minha, mas esta música tem particularidades que acredito que cada um fará melhor se descobrir e interpretar da sua maneira.

 

Os Rush, com o épico de 20 minutos intitulado de 2112.

 

 

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