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A Espada - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 31.07.16

Anteriormente...

 

Ventura Lobo sabia que precisaria do seu amigo Abade Fazia se quisesse encontrar o Livro. Devido às suas aventuras, há já muito que concordara com as palavras do Abade. Assumindo que o Livro continha a salvação esperada das pessoas, cada vez mais lhe dava uma maior importância; importância esta que o povo ignorava quase completamente. No entanto, nunca fez por procurar o Abade. Nunca achou que precisasse, em parte porque não queria ter que admitir que o velho insano tinha razão.
Agora precisava, pois estava incumbido com uma missão real. Não poderia falhar, senão esta seria uma história bastante menos interessante, a não ser que Ventura Lobo fosse um anti-herói ou um personagem cómico secundário.
A demanda, mesmo antes de começar, apresentava-se complicada, pois Ventura Lobo sabia que teria de se aventurar nas perigosas terras do Norte, onde as piores escumalhas monstruosas se aterrorizavam umas às outras num estado de guerra civil inter-clã fantástico e constante. Bem vistas as coisas, ainda bem que tal acontecia, pois as boas pessoas do mundo podiam respirar de alívio.
Ventura Lobo começou a preparar-se para a sua aventura. Levantou-se da cama de palha, mordiscou umas fatias de pão barradas com manteiga de iaque da Cratera de Buzul, bastante nutritiva, apesar de Ventura Lobo preferir não se lembrar do processo de ordenha dos iaques. Para contextualizar, os executores da ordenha são o povo nobre dos Pigmeus de Buzul, de cabeças ainda mais minúsculas que o resto do corpo. Por contraste, os iaques da região são animais milenares gigantescos. É impossível imaginar que ideia terá passado pelos pigmeus para tentar ordenhar um animal centenas de vezes maior que eles próprios (e milhares de vezes maiores que as suas cabecinhas), mas a verdade é que fizeram do feito uma arte. Como as suas cabecinhas são mesmo muito pequeninas, têm ampla envergadura de ombros disponível, o que lhes permite colocarem-se em cima uns dos outros, não sem habilidade, formando uma espécie de escada vertical humana, não totalmente incomparável a um número de circo. Assim, escalando-se comicamente uns aos outros, conseguem chegar à única teta que uma iaque buzuliana fêmea tem. Tragicamente, os pigmeus buzulianos não têm a fama de ser inteligentes nem de terem a vista apurada, e já têm confundido uma iaque com um iaque, o que origina um erro que apenas demasiadamente tarde descobrem. Existem rumores que nada é desaproveitado, mesmo assim.
Com este pensamento, Ventura Lobo pousou a fatia de pão lentamente, senão com um toque de nojo. Foi ao estalajadeiro e pediu-lhe para preparar um bom banho. Voltou ao seu quarto e começou a fazer os seus exercícios matinais, não para se preparar para a missão vindoura, mas com o objectivo de manter o físico sensual, não totalmente prático, para impressionar as miúdas, humanas ou não. Outrossim, sabendo que ia para o Norte, pensou em fazer um atalho pelas terras das fadas Aa'a-a-A'a, as mais belas das Fadas Vogais, já que tinha uma particular atracção por elas. Note-se que esta atracção existe em termos puramente sexuais, claro, pois de forma alguma um aventureiro de renome como Ventura Lobo poderia envolver-se em sentimentalismos. Obviamente que não, não seria digno de um herói a sério. Nem seria digno de um homem de todo, essa agora.
Ventura Lobo interrompeu as suas flexões (ainda só ia na milésima tricentésima trigésima sétima) para arrotar e praguejar grosseiramente, só para demonstrar ao mundo a sua masculinidade aparente, não fosse algum leitor de mentes estar à escuta. Bateram à porta e Ventura Lobo colocou-se numa pose ridícula dominante, pensando que poderia ser a filha do estalajadeiro.
- Entre! - ordenou Ventura Lobo, completamente suado e arfante.
Não era a filha. Era o próprio estalajadeiro, cujo bigode enorme, grisalho e sujo foi a primeira coisa que Ventura viu. Na verdade, não era muito diferente do da filha, se bem que o dela era louro claro, perfeitamente exemplar dos humanos de Aguard dos quais fazia parte.
- O seu banho 'tá pronto, chefinho.
Ventura Lobo escorregou para a banheira de madeira, que em tempos havia sido um enorme barril de vinho azedo de Pútúíl. A fragrância desagradável ainda tinha uma presença forte no barril, como se estivesse embebido ainda da substância nefasta (que, inexplicavelmente, é amplamente apreciada e consumida ou pelos muito pobres, ou pelos incrivelmente ricos). Como não queria sair do banho a cheirar como uma estrela de rock do final dos anos 60 (dos nossos anos 60, claro; ainda não é clara a cronologia neste mundo imaginário), Ventura Lobo aplicou uma pitada de sais de banho dos ufanos habitantes das Cidades Voadoras, os Kamil. A água agitou-se, borbulhou, fervilhou e subitamente acalmou-se, convergindo para uma superfície ligeiramente espumosa e convidativa. Rodeado de aromas mágicos e sempre desconhecidos, Ventura Lobo pegou num espelho flutuante, outra prenda por parte dos Kamil depois de ele ter afugentado das Cidades Voadoras uma excursão de turistas H'hultianos vulgaríssimos, começou cuidadosamente a fazer a barba, arrancou os pêlos que teimavam a reaparecer na glabela, evitando assim uma monocelha, cortou as unhas com uma pequena navalha, limpou os poros do seu nariz acentuado, puxou dolorosamente os pêlos que espreitavam pelas narinas, passou champô pelo longo e ondulado cabelo castanho-dourado, como o cabelo típico de um mosqueteiro dos filmes, tipo o Jeremy Irons.
Espera lá. O champô se calhar não existia neste contexto. Felizmente, aqui pode-se inventar seja o que for para colmatar falhas de coerência:
Ventura Lobo aplicou então a substância semelhante a seiva que adquiriu de um mercador Xesparatuq, proveniente das selvas cor de fogo das Montanhas Xsantinuq. A substância, a que o mercador chamava Sxam'Poh, como já se referiu, fazia maravilhas a tudo o que fosse pêlo ou cabelo (e os Xesparatuq devia precisar de quantidades massivas do produto, tendo em conta que eles são essencialmente bolas de pêlo andantes). O mercador insistiu veementemente que Ventura levasse o frasco de Sxam'Poh gratuitamente. Quando inquirido sobre o porquê da oferta, o Xesparatuq simplesmente disse:
- Porque você merece.
A resposta enigmática ainda assola a mente do nosso herói de vez em quando.

Ventura Lobo presenteava-se com todos estes luxos e vaidades pois sabia que só daí a muito tempo é que voltaria a civilização. Levantou-se finalmente da banheira. A água tornou-se magica e imediatamente fria. Ventura sentia-se completamente revigorado. Passeou pelo quarto até se conseguir cobrir decentemente. Para não ofender sensibilidades, deve-se referir que os seus pudendos estavam visualmente censurados, mesmo que isso seja impossível e ridículo de demonstrar numa narrativa.
Vestiu-se com uma roupa leve e voltou para o seu próprio quarto. Tinha pedido ao estalajadeiro para mandar limpar a sua armadura e esta já o esperava em cima de uma velha mesa de madeira. Começou pelas pernas, onde enfiou umas calças de cabedal reforçado de iéti. Ou eram calças de cabedal de iéti reforçado? Já se esquecera, mas não interessava. Calçou as botas muito confortáveis e resistentes que roubou a um pilhante Maglu nos Planaltos Analfabetos. Reflectiu durante uns segundos o porquê de se usar o verbo calçar para botas mas não para calças. Equipou a armadura de malha que se ajustou ao seu corpo, apertando-o apenas ligeiramente, não lhe retirando qualquer agilidade aos movimentos. Arranjou-a no Decathlon, porque queria uma versão desportiva, daquelas que respiram bem, como se costuma dizer. Aplicou as joelheiras, as ombreiras e as manoplas, todas ricamente decoradas com padrões nas suas componentes metálicas quase brancas com bordas douradas, já se notando, no entanto, algum desgaste óbvio nas porções de cabedal das mesmas. Finalmente, vestiu um colete leve e prendeu-o na cintura com um cinto, cuja fivela tinha relevado o símbolo de um lobo. Na verdade, para se ser correcto, o símbolo representava um cão pastor belga, mas da mesma maneira que um leitor desta história não sabe onde é que é a Cratera de Buzul, os habitantes deste mundo também não sabem o que raio é a Bélgica, portanto diz-se que é um lobo e isso satisfaz todos os intervenientes, reais ou imaginários.

Só lhe faltava um conjunto de coisas. As suas armas. Tinha vários punhais, cada um mais exótico que o outro, uma soqueira no colete, uma besta guardada de lado com os respectivos dardos numa aljava pequena presa na perna e um sabre Ahtem. Contudo, a sua arma preferida chamava por ele. Uma arma com que Ventura Lobo tinha derrotado incontáveis inimigos e que no fundo era a única companheira constante dele. Uma espada de lâmina de metal branco e reluzente. O cabo, por contraste, era negro como ébano e findava no pomo que era na verdade uma espécie de pedra preciosa translúcida surpreendentemente pesada. O mesmo género de pedra encontrava-se nas duas pontas da guarda da mão. A lâmina não parecia estar desgastada de todo e estava gravada com vários símbolos que reluziam um azul muito leve. Estes símbolos pertenciam ao alfabeto dos Tçuchulshuxuz, uma civilização antiquíssima que se perdeu para sempre, depois de sucessivas guerras civis brutais e devastadoras, todas relacionadas com a discussão sobre a correcta pronúncia do seu próprio nome. Felizmente, o pouco conhecimento que sobreviveu dessa civilização permitiu a tradução das inscrições da espada, que revelaram o seu nome:

Venceslau.

Esta espada já tinha tido inúmeros donos, mortais e imortais, humanos e monstros, sendo que a lenda dizia que ela tinha vontade própria e continha um poder imenso, não se sabendo com que fim. Se tal fosse verdade, a sua permanência com Ventura Lobo não seria coincidente e ela auxiliava-o porque assim o queria.
Ventura Lobo pegou na espada, que pareceu tremer de expectativa. Enfiou-a na bainha e lembrou-se do dia em que tomou posse de Venceslau.

O sol estava a pôr-se. A noite aproximava-se depressa nas planícies áridas de Kukula, o Deserto Limitado. Ventura Lobo seguia rapidamente pela estrada mercantil, esperando chegar ao oásis deslumbrante de Virik Katal, o centro exacto de Kukula e do Império Comercial Kataliano. A estrada eximiamente construída contrastava com a pobreza das terras secas e fendidas pelas quais serpenteava. Eis que Ventura observa uma montada no horizonte, com alguém a seu lado. Estavam parados. À medida que se aproximou, discerniu claramente um cavalo dourado, como os que os katalianos usam na sua Guarda Imperial e Comercial. No entanto, a criatura ao lado do cavalo estava longe de ser um dos homens morenos de Katal. Subitamente, o cavalo larga a fugir, obviamente aterrorizado com algo, e galopa na direcção de Ventura Lobo, passando como um relâmpago por ele sem parar. A criatura ainda o tentou apanhar, mas voltou atrás depois de uma curta perseguição, não notando que era observada pelo recém-chegado.
Ventura Lobo, agora ainda mais próximo, reconheceu a criatura como sendo um Vyx, um monstro humanóide raro que normalmente só causa problemas. Era verde e a sua pele nunca tinha um estado a que se pudesse chamar sólido, mas era sim uma espécie de líquido viscoso em constante movimento. Na sua cabeça, em vez de ter cabelo, dançavam uns tentaculinhos pequenos, como os de um mau penteado de jogador de futebol. O seu olhar, também verde, era uniforme e vazio de expressão. Normalmente encontravam-se em ambientes mais húmidos, onde pudessem sugar líquidos para manter o seu corpo saudavelmente medonho e pegajoso.
Não obstante serem incomuns, não era a primeira vez que Ventura Lobo lutaria com um Vyx. Imaginou que estivesse a absorver todos os líquidos do anterior dono do cavalo, e supôs que estaria mais disposto que tudo a defender a sua presa.
Desembainhou a sua espada, que na altura era o seu excelente sabre de origem Ahtem, e fez por apanhar a criatura de surpresa. Como não podia deixar de ser nestas situações, tropeçou numa pedra e chamou imediatamente a atenção do Vyx. Este virou-se repentinamente, exprimindo surpresa com a linguagem corporal. Ventura observou o espectáculo triste à sua frente. Um soldado kataliano estava quase completamente ressequido no chão, de armadura destruída e roupas esfarrapadas.
Ventura Lobo aproximou-se, agora sem subtileza. O Vyx pegou na bela espada do soldado e preparou-se para o combate.
- Boa tarde, ou quase boa noite, amigo Vyx. Devo dizer que as autoridades katalianas não deverão olhar com bons olhos o assassinato de um dos seus soldados, mesmo que seja para o sustento directo de outrem.
- Não me interessa, tinha sede, muita sede, precisava de beber. - respondeu maliciosamente o Vyx.
- Bom, permita-me que me apresente: Ventura Lobo, aventureiro a caminho de Virik Katal. Peço-lhe que me obsequie com o seu nome.
O Vyx riu-se sardonicamente.
- Eu tenho o nome de "Demolidor Implacável" na minha língua, que com a pronúncia correcta se diz... - fez uma pausa dramática. - Fernando...
- Pois claro, agradeço-lhe. Precisava do seu nome para o reportar às autoridades competentes, quando estivesse a relatar a sua derrota vindoura.
- Podes tentar, Ventura Lobo, o Aventureiro... - e Fernando elevou a sua espada branca numa pose estranha de combate, não desconhecida do seu adversário, felizmente. - Anda cá, se 'tiveres pronto!
Dito isto, a espada branca caiu sobre o seu próprio manuseador, atingindo-o de chapa na cara, atordoando-o. Ventura Lobo, pensando que era um truque para o distrair, apenas redobrou a sua guarda.
- Que raio? Mas esta treta escapasse-me da mão sem mais nem menos?
Subitamente, o Vyz desfere um golpe com o pomo da espada na própria barriga.
- Mas à alguma maldição nesta espada?
Fernando desferiu um novo golpe em si próprio, desta vez cortando um pedaço da nhanha verde e purulenta que era a sua pele. Acreditando que a espada estaria amaldiçoada, o Vyx arremessou-a contra o adversário, esperando feri-lo para logo a seguir o atacar com as suas pútridas garras. A espada voou e cortou sibilantemente o ar, mas caiu pacificamente na terra seca à frente de Ventura Lobo. Este, curioso, não conseguiu deixar de pegar e admirar uma tão bela peça. Fernando, vendo que a maldição estava nas mãos inimigas, lançou-se ao ataque, surpreendendo Ventura.
- Agora vais morrer, humano!
Ventura Lobo conseguiu bloquear o ataque, levantando a espada agilmente, e tentou de seguida separar-se para se recompor.
- Esta é uma boa espada, Fernando. Não se devia ter separado dela. Agora, preparese, pois é a minha vez de atacar.
Não era não, pois o nosso herói levou igualmente com a espada de chapão na bochecha, para imenso gozo trocista do Vyx.
- Ah, vês? Uma espada que ataca quem a usa não pode servir para muito. Deve ter um feitiço sobre ela.
- Bom, na verdade, - respondeu Ventura Lobo, enquanto analisava os estragos inexistentes à sua cara. - bem vistas as coisas, até mereci, porque me esqueci do hífen na frase ameaçadora que disse. Enfim, acontece. Ah... mas será que? Deixe-me experimentar uma coisa.
Ventura Lobo falou para a espada.
- "O Fernando é bonito!"
Todos os presentes estranharam a afirmação, mas mais nada aconteceu. Ventura Lobo continuou:
- "O Fernando é bunitu!"
Imediatamente a espada caiu em cima do pé do seu portador, resultando num ror de pragas. Quando Ventura Lobo se acalmou, explicou finalmente a Fernando:
- Pois, é meu caro, creio que esta espada leva demasiadamente à letra a expressão de "corrector ortográfico", pois parece atacar quem comete calinadas no que diz.
- Então ela consegue ver textualmente o que nós dizemos?
- Fantástico, não é? Bom, podemos retomar o nosso combate, se calhar? Desta vez, mais silenciosamente, não queremos ofender aqui esta espada.
- 'Bora.
Ventura Lobo atacou, desviando-se das garras de Fernando movendo-se para a direita, o que lhe deu a abertura para desferir um golpe certeiro na sua lateral. Fernando, aparentemente imune à dor, arranhava futilmente o ar, pois Ventura conseguia sempre ou evadir o golpe ou deflecti-lo. Em cada ataque falhado, Ventura cortava mais uma camada da pele peganhenta e chutava-a para longe, para que não pudesse ser reabsorvida. Relembra-se que esta não era a primeira vez que lutava contra um Vyx, portanto a estratégia já estava definida mesmo antes do combate ser iniciado.
Depois de alguns minutos desta dança mortal, o Vyx estava magríssimo, e em desespero tentava absorver humidade do próprio ar, mas de nada lhe valeu.
- Misericórdia, Ventura Lobo! Imploro-te! Fugirei para uma caverna qualquer, não causarei mais problemas!
Ventura Lobo, com um esgar malicioso na cara, apenas disse:
- Sabe, os olhos de Vyx são muito procurados e valiosos nos dias de hoje.
- Não! Por favor! Peço te!
Foi a gota de água para a espada. Sem Ventura querer, ela lançou-se sobre o pescoço de Fernando e este desfez-se completamente, ficando apenas duas grandes esmeraldas que haviam sido os olhos de Fernando.
Ventura Lobo encontrou o cavalo do soldado e usou-o para compensar o tempo perdido para chegar a Virik Katal, não sem antes enterrar o irreconhecível guarda kataliano. Decidiu levar a espada dele como prova do que ocorrera ali. Pôs-se a galope pelas planícies, continuando a seguir a estrada.
Quando chegou à cidade imperial de Virik Katal, requereu uma audiência com as imperatrizes e apresentou-lhes a arma do soldado caído, contando-lhes o que se sucedera. Foi com desgosto que reagiram.

- Esta espada branca chama-se Venceslau. - disseram as duas em uníssono. - Era a espada de um dos nossos melhores guerreiros, Fil Lin Ot Lau.
- É horrível pensar que a espada partilhava parte do nome com ele, e que agora não terá o mesmo significado.
- Na nossa cultura, um verdadeiro guerreiro adopta parte do nome da sua espada, e não o contrário. Esta espada já tinha uma história milenar antes de pertencer a Fil Lin Ot. É deveras impressionante que tenha conseguido trazê-la de todo, pois Fil Lin Ot dizia que ela escolhia os seus mestres e não se deixaria usar por ninguém desmerecedor.
As imperatrizes, subitamente, começaram a murmurar uma para a outra numa linguagem que apenas elas compreendiam.
- Aventureiro, propomos-te um negócio, se estiveres interessado.
- Estarei interessado em ouvir, pelo menos.
- Sabemos que tens os valiosos olhos do Vyx. Propomos uma troca desses olhos pela espada, já que, apesar de tudo, a espada não é tua.
- Perdoai-me a impertinência, Majestades, mas tal acordo não seria uma desonra à memória de Fil Lin Ot Lau?
Riram-se levemente.
- Não, aventureiro, seria, muito pelo contrário, uma honra enorme. Ele era um kataliano que representava perfeitamente o espírito da nação, e saber que a sua morte resultou num negócio de valor tão grande seria tudo o quanto ele poderia almejar. Se quiser, para melhorar o negócio, oferecemos também o Fil, o cavalo dourado de Fil Lin Ot.
Assim persuadido, Ventura Lobo aquiesceu e nunca mais se separou de Venceslau.

Fil, o cavalo, perdeu-se tragicamente na fortaleza negra de Ung Bodun, muito tempo depois. Mas isso é outra história.


Relembrada a história de Venceslau, a espada, Ventura Lobo fez-se à estrada.
- Vamos, Venceslau, em direcção ao norte!
E levou uma traulitada na perna por se esquecer da maiúscula.

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publicado às 17:05


O Rapto - Parte VII

por Rei Bacalhau, em 20.07.16

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Quando Adrien, cumpridor da sua tarefa, abriu a porta do quarto na sua inspecção periódica, estranhou que estivesse tudo escuro. Pelo feixe de luz que invadiu o quarto, discerniu uma massa humana debaixo dos lençóis da cama. Mariana já estaria a dormir. O processo repetia-se mais ou menos a cada meia hora.

Obviamente que Mariana não estava realmente a dormir. Sendo de sono leve, cada vez que Adrien abria a porta acabava sempre por acordar. Isto teve o benefício de permitir que Mariana controlasse que horas eram. Quando se aproximasse da meia noite, manter-se-ia acordada para esperar pelo suposto extinguir das luzes exteriores. Certamente Adrien, ou outrem, faria uma outra verificação nessa altura. Mariana só se aventuraria depois.
Adrien entrou outra vez. Mariana acordou e olhou para o relógio. Faltavam 10 minutos para a meia noite no despertador velho. Quando Adrien saiu, Mariana começou a despir a camisa de noite que a D.Dina lhe emprestara e vestiu as suas roupas. Deitou-se outra vez e ficou ansiosamente à espera, alternando a visão entre os números lentos do relógio e a iluminação lá fora. Ouviu vozes fora do seu quarto. Reconheceu a rudeza grave da voz de Adrien a falar com outro homem. Estranhamente, a voz de Adrien afastara-se. Poderia estar a ser rendido? Mariana não se podia dar ao luxo de ter estas dúvidas agora. O relógio marcava 23:56.
Subitamente, as luzes públicas exteriores apagaram-se. Na verdade, não se poderia esperar que o relógio fosse coerente com o desligar das luzes, e Mariana sentiu-se um bocado estúpida ao não ter pensado nisso. Não teve tempo para pensar na sua autocomiseração, pois alguém abriu a porta, mas Mariana conseguiu perceber através de uma brecha nos lenções estrategicamente colocada que o miliciano não era Adrien. A porta foi cuidadosamente fechada.
Ouviram-se passos que se afastavam.
Mariana levantou-se num ápice, catapultando os lençóis para longe. Pegou na sua mala, colocou-a ao ombro, aproximou-se da janela e notou que o apagão era total. Nenhuma luz estava acesa nas ruas da vila inteira. Dois guardas estavam a vigiar a rua no outro lado da estrada. O apagão não parecia incomodá-los.
Mariana abriu a janela o mais gentilmente que lhe era possível, não obstante as mãos lhe tremerem vigorosamente. Uma nuvem no céu bloqueou a muito ténue luz lunar. Mariana não notou isto, por isso foi apenas coincidência que ela tenha começado a transposição nervosa da janela nesse preciso momento. Colocou o pé no parapeito, testando a sua integridade. Foi progressivamente tentando colocar mais peso até finalmente trazer o outro pé. Agora estava em pé em cima do parapeito. Existiam saliências decorativas ao longo das paredes velhas que Mariana teve facilidade em usar para escalar lateralmente para o edifício vizinho. Olhou para trás corajosamente para determinar se havia sido vista. Os dois guardas continuavam impávidos e serenos. Um deles verificava algo no telemóvel. Mariana continuou, respirando de alívio. Estava quase a chegar à primeira janela, que de facto já conseguia observar que estava parcialmente aberta. A sua transferência pouco ortodoxa foi imensamente mais fácil do que teria suposto. Nem a decisão de questionável razoabilidade de levar a sua mala consigo tinha dificultado significativamente a tarefa. A única dificuldade que ainda lhe afligia a mente era exactamente quem é que esperava por ela naquele quarto.
Chegou à janela, abriu-a devagar, colocou delicadamente o joelho na janela para começar a trepar.
Qual não é o seu terror quando é repentinamente agarrada no pulso. Paradoxalmente, foi a surpresa que a impediu de gritar, sendo que quase desmaiou com o surto de adrenalina.
- Ai, Jesus, agarre-se, moça - disse uma voz baixinho. - Vá, entre lá.
Mariana galga a janela e entra. Uma velhinha baixinha fazia-lhe festas na mão.
- Vá, agora está tudo bem, mas temos de ir, moça.
- D.Dina? Mas, foi a senhora que...?
- Sim, já temos tempo para explicar tudo, mas por amor de Deus vamos andando. Temos de nos pôr em segurança.
A D.Dina falava aos soluços, e o seu nervosismo parecia ser desproporcionalmente maior do que o de Mariana. A sua respiração era ofegante e fazia um certo ruído sibilante ao expirar.
- Vá, vamos. - repetiu a D.Dina.
- Eu sigo-a, obrigada.
O que poderia ter sido uma fuga impecável foi prematuramente impedida. Quando a D.Dina abriu a porta do apartamento, tinha vários homens à espera dela, entre eles o Chefe e Adrien.
A D.Dina caiu para trás e lançou uma exalação indescritível de susto. Mariana tentou apanhá-la como pôde, mas acabaram por tombar as duas.
- Pessoal, façam favor de ajudar as senhoras. - pediu o Chefe.
Cinco milicianos entraram no apartamento de rompante, mas apenas dois ficaram a ajudar. Os restantes foram investigar as divisões. A D.Dina foi sentada numa cadeira. Mariana fora afastada para um canto. Nenhuma das mulheres foi magoada.
O Chefe puxou um banco pequeno que encontrara por ali. Sentou-se à frente de D.Dina, esfregando a cara com as palmas da mão, num tom de desilusão. Suspirou, enquanto a D.Dina chorava.
- Júlio, vai ver se temos calmantes.
Adrien adiantou-se.
- A Mariana tem na mala dela.
Era verdade, mas Mariana, aterrada com o que poderia acontecer agora que fora apanhada, nem pensou como é que ele sabia isso. Adrien arrancou-lhe algo bruscamente a mala da mão. Acendeu a luz para encontrar o calmante. Júlio já diligentemente trouxera entretanto um copo de água. Ambos foram dados à D.Dina.
O Chefe falou-lhe num tom indulgente.
- Vá D.Dina, a última pessoa que eu esperava que fizesse uma coisa destas era a senhora. Posso assumir que teve boa razão para ajudar a Mariana a fugir? Posso pedir-lhe que me conte, nem que seja por descargo de consciência?
Entre baba, soluços, ranho e demais hesitações, a explicação de D.Dina traduz-se de seguida:
- Ai, valha-me Deus. Desculpe Sr. Chefe, desculpe, mas não tive escolha. Eles sabiam da minha família. Sabiam onde eles estavam. Se eu não colaborasse eles disseram que os matariam. Eles sabiam que isto era um refúgio para vocês. Ameaçaram-me para lhes informar sempre que viessem cá.
- Há quanto tempo é que fez esse pacto com eles? - perguntou o Chefe gravemente.
- Há um ano, quando veio cá um inspector.
- Está bem, diga-me o que é que lhes contou.
- Ai, meu Deus, eu telefonei-lhes hoje de manhã depois de vocês chegarem. Assim que falei na Mariana, eles disseram que viriam imediatamente.
- Imediatamente? Passou um dia todo e nada aconteceu...
A D.Dina continuou a falar, mas o Chefe não a ouvia, estando em reflexão. Subitamente, levantou-se e falou para o ar.
- Adi, Adi, vamos ter companhia. Pede relatórios à orla exterior. Lança o drone. Prepara o pessoal. Equipamento completo. - virou-se para os milicianos presentes. Pessoal, vão preparar-se, eu fico aqui com o Adrien. Manos, um de vocês que traga o nosso equipamento. Tragam um tamanho pequeno a mais, não completo.
Os milicianos saíram.
- Adrien, vai pôr este copo à cozinha.
O Chefe lançou um olhar estranho a Adrien. Este questionou-o com uma careta, parecendo duvidar do que lhe era pedido. O Chefe confirmou com um aceno. Adrien saiu.
- D.Dina, eles vão aproveitar o facto das luzes municipais se desligarem à noite para atacar, não é?
- Não sei, não sei, ai meu Deus.
- Eles sabem quantos somos?
- Eu disse-lhes que eram pelo menos dez.
- Está bem. Não lhes soube dizer mais nada? Sobre equipamento e coisas do género?
- Não sei, Sr. Chefe, não perguntaram.
- A D.Dina tem provas que eles têm a sua família?
A D.Dina olhou desesperada para o Chefe.
- Eles disseram que sim, que remédio tinha eu senão acreditar?
- Poderia ter falado connosco, ora essa. Poderíamos ter ajudado. Não se preocupe, eu vou fazer os possíveis para garantir que a sua família esteja são e salva.
- Ai, obrigado, Sr. Chefe, o senhor é tão bom! A pensar que ia fazer um erro tão grande ao ajudar a moça a fugir. Ainda bem que descobriu, no fim de contas.
- Não sei se estou de acordo que é "ainda bem". Descobrir foi sorte, já que o Adrien teve a boa ideia de colocar um transmissor na mala de Mariana. Quando notámos que estava em movimento achámos estranho. Mandei uma mensagem ao guarda no exterior, que ficou surpreendido por de facto estar uma mulher a tentar alcançar o edifício ao lado. Disse-lhe para deixar estar, que tomaríamos conta do recado. Agora, a verdade é que a senhora fez um erro, e já não pode voltar atrás. A senhora, melhor que muitos, sabe o que fazemos aos colaboradores.
- Ai, valha-me Deus, ai Jesus, ai nossa Senhora, não, tenha piedade, Sr. Chefe. Piedade.
Adrien voltara. Trazia uma faca da cozinha, um papel e uma caneta. Deu a faca ao Chefe.
- Ai valha-me nossa Senhora, piedade Chefe, piedade, não me faça mal, por amor de Deus.
- Eu não vou ter prazer em fazer isto D.Dina, mas tem de ser pelo bem nacional.
- Vocês estão doidos? Seus monstros, vão matá-la sem mais nem menos!? - reagiu instintivamente Mariana. - Nem pensem!
- Mariana lançou-se corajosamente contra o Chefe, mas Adrien apanhou-a e levou-a para fora do apartamento, aos gritos.
- Dina Flores, é acusada pela Milícia Nacional Geral dos crimes contra a Pátria de traição e colaboracionismo. A sua confissão prova-o. A Pátria, por mim representada, considera-a culpada, e a sentença é execução imediata. Contudo, pelo serviço prestado às milícias e pelas circunstâncias que levaram à traição, a Milícia Nacional Geral compromete-se a salvaguardar a sua família dentro das suas possibilidades e a absolvê-las de qualquer tipo de cumplicidade implícita de que pudessem ser alvo. Adicionalmente, todos os objectos de relevância cultural serão confiscados e guardados. Numa nota pessoal, devo dizer que me deprime imenso ter de aplicar a sentença.
Dito isso, perante um grito de terror de D.Dina, o Chefe perfurou-lhe o peito com a faca. Pouco depois, Dina Flores expirava.
O Chefe limpou o sangue das mãos e começou a escrever uma nota. Colocou-a ao pé do corpo de Dina.
Lá fora, Mariana chorava profusamente, agarrada por Adrien.
O Chefe aproximou-se, e ela soltou-se e começou a bater-lhe, cega de fúria. Adrien ia intervir, mas o Chefe fez um gesto a impedi-lo. Ele preferia que Mariana soltasse toda a sua raiva, não fazendo grandes esforços para se defender. Depois de alguns momentos, Mariana, cansada e ofegante, parou e encostou-se à parede.
- Está tudo a acontecer outra vez... Porque é que vocês tinham de voltar. Porque é que toda a gente tem de morrer?
O Chefe não respondeu.
- Porque é que vocês têm de arrastar tanta gente nessa vossa sede de destruição? Até as velhinhas mais doces são afectadas e brutalmente mortas, assassinadas. Assassino! Monstro!
O Chefe manteve-se a ouvir, cabisbaixo, admitindo, pelo menos em parte, a razão de Mariana.
- Tudo bem que ela seja uma colaboradora, mas só o fez para salvar a família, para salvar aquilo que é realmente importante!
O Chefe fez uma careta ironicamente compreensiva. Teve de responder:
- Sabes, houve uma vez em que um colaborador me disse uma história parecida à da D.Dina. Eu deixei-o ir. Tendo em conta o que ele fez depois, nunca mais tive misericórdia para com qualquer colaborador, independentemente do contexto. – fez uma pausa dramática. - Queres saber o que é que esse colaborador fez? Queres saber o que ele fez depois de o libertar?
Mariana não respondeu, mas o Chefe contou-lhe à mesma.
- Ele matou o teu irmão Quim duas semanas depois.
Mariana abriu a boca, atónita.
- Pensa bem se realmente o que eu faço não é pelo bem das famílias de tantas outras pessoas.

Um miliciano chegou carregadíssimo.
- Ah, obrigado Leonardo. Trouxeste o pequeno também?
- T'á aqui, Chefe.
Enquanto se equipava, o Chefe ia falando.
- Mariana, tens muito em que pensar, mas agora não é a altura. A qualquer momento poderá chegar o Inimigo. Coloca este colete e este capacete. O Adrien vai ficar contigo e proteger-te. Adrien, explica-lhe como usar o rádio do capacete, nunca se sabe. O colete é pesado, mas é necessário.
Adrien ajudou Mariana, que estava inerte, a colocar o colete e o capacete.
- Vamos para fora, o Adérito já lá deve estar.

Passaram pela porta do apartamento, e Mariana recomeçou a chorar, imaginando a cena macabra que estaria lá dentro. Adrien quase que a arrastava, tão apático era o estado dela. Desceram as escadas lentamente. Lá fora ouvia-se um pequeno rebuliço de homens a falar. A rua estava completamente escura. O luar ainda não voltara. Finalmente, discerniu-se um grupo de homens no cruzamento ao pé do prédio de D.Dina. Esperavam ansiosamente a chegada do Chefe para receberem as suas ordens.
- Adrien, fica aí com a Mariana, já venho falar contigo.
Aproximou-se de Adérito e de Lucas, que presidiam o grupo reunido. Todos estavam armados e equipados até aos dentes. Os capacetes cobriam-lhes grande parte da cabeça, incluindo as orelhas e boca, assemelhando-se a capacetes de motociclismo. Tendo rádio integrado, com comunicação poderosamente cifrada, os milicianos não precisavam de os tirar para comunicar uns com os outros, podendo alternar entre falar apenas com companheiros próximos ou enviar uma mensagem global. Na zona dos olhos um pequeno visor retráctil permitia dar informação adicional ao utilizador, seja na forma de mensagens textuais, apresentação geográfica de informação sobre aliados e inimigos identificados e outras utilidades largamente desaproveitadas no decurso de uma batalha, já que quando se está sobre fogo intenso, a última coisa que se quer é mais informação visual para processar. O capacete também tinha uma câmara e uma ligação directa com o telemóvel, apesar de este não ser necessário para o funcionamento normal do capacete. Em caso de ataque químico, também tinha um filtro suficientemente eficaz para a maioria das ameaças intermédias. O traje adicional consistia num colete pesado à prova de bala para o tronco. Para além das joelheiras, os restantes membros também tinham protecções mais leves entranhadas no tecido, oferecendo mais um bocado de protecção sem reduzir drasticamente a agilidade de um utilizador em boa forma física. O colete e o cinto estavam repletos de apetrechos, colocados de forma a estarem eficazmente acessíveis. Variando de miliciano para o outro, estes apetrechos podiam ser qualquer combinação de: uma faca, munições para a carabina e para a pistola, lanternas, binóculos, granadas letais e não letais, foguetes de sinalização, cantis de água e até barras nutritivas. A maior parte dos milicianos tinha apenas uma carabina automática e uma pistola como armas de fogo. Outros tinham direito a armas mais especializadas a certos contextos. Um tinha um lança granadas, alguns tinham uma caçadeira de curto alcance. Quase todas as armas tinham integração de informação com os capacetes e com os sistemas geográficos, dando a possibilidade de um utilizador marcar locais de presença inimiga ou de relevância táctica simplesmente apontando a arma e utilizando um pequeno botão modular na lateral da arma, acessível ao polegar da mão de suporte. Obviamente que todas as engenhocas necessitavam de uma imensa prática para serem efectivamente usadas. Infelizmente, os milicianos receberam estes equipamentos recentemente, cortesia de algum dos vários contactos externos do Chefe e consequentemente não tinham tido ampla oportunidade para se familiarizarem com a sua complexidade.
Nas janelas alguns habitantes observavam boquiabertos a comoção toda que ia naquela rua. No entanto, a maioria já se apercebera que não se aproximavam boas notícias e fizeram os possíveis para sair de casa e fugir, levando as famílias e pouco mais.
O Chefe, não preocupado com este facto, começou a falar.
- Pessoal, sei que é difícil, mas tentemos pelo menos ter os capacetes a funcionar. Teste. Teste. Quem me ouviu levante o braço. Júlio, o Artur não ouviu, ajuda-o.... Já ouves? Óptimo. Façamos a contagem. Um.
Os números foram sendo ditos sequencialmente. Vinte e dois. Conferia.
- Pessoal, arranjem objectos para barricadas, mas não os coloquem ainda, ponham-nos só cá fora.
Os milicianos dispersaram, entrando nos edifícios circundantes. O Chefe falou para o rádio.
- Drone, drone, que contas?
- Nada de significativo, Chefe.
- Olhos, olhos, reportem.
- Olho 1, nada a reportar.
- Olho 2, vejo luzinhas azuis, mas estão paradas, não sei se será um acidente, mas o trânsito parece cortado.
- Olho 3, nada a reportar.
- Olho 4, nada a reportar.
- Drone, auxilia o Olho 2.
O Chefe virou-se para Adérito.
- Acidente uma ova, vai buscar a Berta. Eles vêm de Norte, da avenida. Lucas, ajuda-o.
Partiram os dois.
- Pessoal, barricada a norte, depressa, mas montem nas esquinas. Não quero que eles vejam nada de anormal antes de chegarem aqui. Quero duas metralhadoras ligeiras nos flancos, dentro dos edifícios. Grupos de três.
- Chefe, Chefe, Drone a reportar.
- Conta.
- A polícia está a bloquear o trânsito. Ao fundo vejo um comboio a descer a avenida.
- Consegues detalhar?
- A aproximar-me.... Conto seis veículos... jipes... correcção, quatro jipes, dois camiões.
- São dos novos? Ou são os de biodiesel?
- Creio que são dos velhos, de facto.
- Obrigado, mantém-te atento.
- Pessoal, mudança de plano. Eles vão atacar em força. Eles pensam que somos menos do que realmente somos. Ponham a barricada a cobrir a rua, é o que eles esperam. Cinco minutos. Despachem-se.
O Chefe correu na direcção de Adrien. Passou pelos Manos, que transportavam a veterana arca frigorífica da falecida D.Dina.
Mariana parecia estar mais viva e alerta que anteriormente, pois prestava atenção aos movimentos atarefados da rua.
- Adrien, tenho uma missão para ti. Preciso que te movas para o ponto de fuga Um com a Mariana. Vou dizer ao observador que está lá perto para te ir esperar.
- Quem é?
- É o Pedro Mendonça.
- Está bem.
- Se encontrares o Inimigo, esconde-te - concluiu, frisando a última parte. - Não te esqueças da carga preciosa que levas. - disse, apontando para Mariana. - Parte já, que isto vai ficar feio.
Adrien partiu, segurando Mariana que parecia algo ridícula com o capacete e o colete vestidos.
Um camião rolou silenciosamente pelo Chefe. Era Adérito no camião eléctrico.
- Onze a Dezasseis, Onze a Dezasseis, venham ajudar com a Berta.
Seis milicianos rapidamente se apresentaram. Descarregaram a Berta para a rua e posicionaram-na diligentemente.
A Berta era uma metralhadora pesada com disparo assistido por computador, com um alcance inimaginável. Ainda não tinha sido usada numa situação a sério.
- Simão, sincroniza-te com o drone.
Simão era o operador do aparelho e do drone, e estava num apartamento numa vila vizinha, a vários quilómetros de distância.
O Drone transferiu as coordenadas exactas dos veículos para a Berta.
- Irmãos patriotas, ouvi-me. Estes com quem lutaremos hoje não são filhos da nossa pátria. São mesmo o Inimigo. Não tenhais dó. Tenho dito.
O Chefe aproximou-se do arsenal montado no meio da rua. Pegou na sua carabina. Pegou no seu machado.
- Simão, fogo.

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publicado às 23:56


O Rapto - Parte VI

por Rei Bacalhau, em 13.07.16

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No início da noite, Mariana estava no seu quarto a reflectir na sua situação quando foi informada de que não teria companhia para o jantar, pelo que a D.Dina trouxe o jantar numa bandeja estranhamente silenciosamente.
Durante a tarde, Mariana fingira ler um livro para não dar a entender que a sua mente estava exclusivamente concentrada na sua potencial fuga. Adrien entrava periodicamente no quarto, mas encontrava-a sempre no mesmo cadeirão, aparentemente a ler.
Mesmo agora a jantar, sozinha, não podia deixar de assimilar tudo o que aprendera sobre a estranha organização que a raptara.
Parte dela estava disposta a acreditar neles. A maior parte do que lhe haviam dito fazia sentido segundo o que já sabia dos tempos de Milícia do pai dela. A cara simpática de Adérito pareceu-lhe cada vez mais familiar, o que corroboraria que ela já conhecera alguns destes milicianos no tal dia em que a Milícia dos Oito passou pela casa dela, como o Chefe referira no princípio do dia. No entanto, Adérito não era o único que reconhecera. Os olhos frios e arrepiantes de Lucas também lhe causaram uma sensação desagradável que já sentira antes. Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.
Outrossim, todo o discurso sobre a preservação cultural parece demasiadamente absurdo para ser preocupação de uma milícia, o que paradoxalmente é um argumento a favor da veracidade da sua causa, porque ninguém que queira enganar outrem inventa uma história tão disparatada.
Contudo, nada assegurava a Mariana a sua segurança no meio daquele manicómio. A única pessoa que a poderia ajudar era exactamente a pessoa cuja localização não poderia revelar: o seu pai. Só escapando e comunicando com ele é poderia estar verdadeiramente segura. Explicar isto aos milicianos não seria inteligente, pois seria a prova que eles precisariam para afirmar que de facto Mariana sabia como contactar o pai, algo que até agora ela ainda não admitira. Se o fizesse, nunca se livraria do seu estado de sequestrada.
Mas como fugir? O pátio com as hortas estava claramente constantemente sob vigia. As duas possibilidades de fuga que tinha por lá seriam impossíveis, mesmo que conseguisse chegar à cozinha para aceder ao pátio indetectada. Era possível usar as janelas do seu quarto para chegar a um estreitíssimo parapeito a partir do qual talvez conseguisse atingir o prédio vizinho. Infelizmente, a quantidade de riscos era demasiado grande para sequer se considerar essa ideia: em primeiro, Mariana poderia simplesmente escorregar do parapeito; em segundo, um dos sentinelas exteriores poderia muito provavelmente vê-la a sair da janela e a efectuar a sua translação; por último, nada lhe garantia que o edifício vizinho não estaria ocupado também, tendo em conta que as milícias tinham estes edifícios à disposição delas. Pensou, em desespero, de alguma forma adquirir uma arma de um dos milicianos e ser mais agressiva na sua fuga. Apesar de saber usar uma boa quantidade de armas, nunca tinha efectivamente usado uma numa situação bélica ou semelhante. Estaria em desvantagem numérica contra milicianos experientes, mesmo que em princípio eles não lhe pudessem fazer mal.
Decidiu que poderia tentar uma combinação de várias opções. Ela notara que os milicianos deixaram as suas carabinas no escritório, encostadas a um pequeno sofá. O escritório tinha uma pequena janela para a varanda que ela poderia trepar para escapar, em vez de percorrer a casa inteira em direcção à cozinha. Se conseguisse pegar numa arma e escapulir-se pela janela, teria de atravessar o pátio em direcção ao edifício abandonado do outro lado. A partir daí tentaria chegar à rua, onde poderia mais facilmente desaparecer, numa perspectiva optimista. Se os milicianos se aproximassem muito, dispararia uns tiros de aviso para os obrigar a esconder-se.
Curiosamente, todo este pensamento foi em vão. Mariana, ao acabar de jantar, notou uma folha de papel debaixo do pires da fruta. Estranhou, mas não hesitou em abrir a folha, esquecendo-se até de verificar se alguém a observava.
Algumas frases, escritas sem habilidade caligráfica, diziam:

 


Há meia noite as luzes desligão se. Saia pela janela para a esquerda. A primeira janela esta aberta. Ajuda vem a caminho.

 

Mariana escondeu imediatamente a folha. Apesar dos erros deploráveis de ortografia, a mensagem era clara. Alguém aparentava querer ajudar Mariana.
Quem? Porquê? Que ajuda vinha a caminho? Como teriam conseguido fazer a folha passar na bandeja? Os milicianos teriam um traidor? Que luzes se desligariam à meia noite?
Reflectiu longamente na proposta inesperada e misteriosa. Percebeu que, como a sua própria ideia anterior, nada tinha a perder. Decidiu que se à hora marcada as luzes efectivamente se desligassem, ela arriscar-se-ia no parapeito.
Mas e se a janela fizesse barulho ao abrir?
Mariana levantou-se, aproximou-se da janela e abriu-a o mais cuidadosamente possível. O mecanismo rangeu mas a janela em si rodou suavemente para dentro. Fingiu estar a apanhar ar descontraidamente quando Adrien entrou, alertado pelo ruído.
- Não tens um cigarro, só por acaso? - troçou Mariana.
Adrien resmungou alguma coisa e saiu, deixando a porta aberta. Voltou depois de poucos instantes e para surpresa de Mariana, ele trazia a mala dela, que pensava estar esquecida ainda no bar. Atirou-a de qualquer maneira para cima da cadeira ao pé de Mariana. Ela agradeceu, quase envergonhada.
Tirou um cigarro, acendeu-o e fumou-o com prazer, relaxando por um momento num dia que ainda estava longe de terminar. Adrien estava encostado à soleira da porta, vigiando.
- Desculpe, Adrien, só lhe tenho dado maçadas. Não precisa de ficar aí a ver-me, eu vou só acabar e fecho já a janela.
- Deixa-te de merdas e acaba lá isso. - rosnou Adrien.
Uma voz abafada e desaprovadora ouviu-se da sala.
- Adrien! Então? Respeitinho, vá.
- P'ó caralho para isso. - murmurou.
Mariana estava prestes a acabar o cigarro e precisaria de fechar a janela sem a trancar sem que Adrien se apercebesse.
- ADRIEN, és tu a jogar! - berrou alguém da sala.
Adrien virou-se momentaneamente para praguejar na direcção do grito. Foi a oportunidade que Mariana precisava. Fechou a janela e tossiu enquanto fingia que a trancava e afastou-se imediatamente em direcção à porta. Mariana pensava que já tinha visto de tudo, mas agora era o cúmulo.
Um grupo de milicianos, incluindo o Chefe, estava entretido com um jogo de tabuleiro na sala. Parecia ser o Monopólio. Mariana levou as mãos à cara, aterrada.
- Vocês são mesmo doidos...
Adrien correu para a sala.
- FODA-SE! Passaste pelas minhas casas! Toca a pagar!
- Não 'tavas cá, não tenho culpa. Ardeu, béu béu!
- Vai p'ó caralho, Júlio, foda-se, sempre os mesmos filhos da puta vocês! Dêem-me a merda dos dados, puta que pariu.
Risada geral. Até Mariana esboçou um sorriso. Adérito notou que tinham uma observadora.
- Então Mariana? Queres jogar? Podes jogar pelo Adrien que ele já está prestes a desistir, como de costume.
Mariana sorriu e recusou a oferta, abanando o dedo energicamente.
- Vá lá, que ele ainda por cima é a bota de mulher.
- Preto de merda!, mil caralhos ta fodam! - vociferou Adrien.
Mariana recusou de novo e voltou para trás, fechando a porta, duvidando ou a sanidade deles ou a sua própria.
Ou ambas.

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publicado às 19:30


Celebração!

por Rei Bacalhau, em 11.07.16

Devo confessar, não percebo quase nada de futebol. Sei as regras básicas, mas o fora de jogo ainda me mete confusão na maior parte das vezes, por exemplo. Não obstante isso, gosto de ver um jogo ou outro. Não sou adepto de clubes de cidade, por isso foco-me mais em futebol nacional, ou pelo menos em equipas que representem Portugal como um todo.

Já se está mesmo a ver o que vou falar sobre.

Um amigo convidou-me para irmos ver o jogo no Terreiro do Paço. Aquiesci. Fomos quatro. Comemos espiritualmente uma francesinha, como um talismã para sorte (é treta, eu comi porque gosto de francesinhas, mas fui na conversa supersticiosa para não ficar mal).

Andámos em direcção do Terreiro do Paço, apitando a corneta de ar e berrando aleatoriamente exclamações patriotas. Comprámos uma bandeira nos indianos depois de regatear um bocado.

Lá está, não sou adepto fervoroso. Não levei camisola da selecção, nem cachecol, nem tintas na cara, nem bandeiras, nem nenhum daqueles chapéus ridículos com penas ou lá o que é. 

De modo algum isso implica que o meu ser não estivesse devidamente colorido, mesmo que superficialmente não parecesse.

Expectativas antes do jogo? Tremidas. Não sabia o que pensar. Sabia que o mundo estava contra nós, de certo modo, "ah e tal, porque não ganhámos nada e não jogámos nada e tivemos sorte e tal". Certo, tudo bem. Como já disse, não percebo nada de futebol, e não vou tentar adicionar nada a essa discussão. Pragmaticamente, apenas observava que de facto Portugal estava na final. Isso chegava-me. Agora, se eu pensava que iríamos ganhar? Não. Obviamente tinha a esperança que sim, mas sendo do Sporting, há muito que aprendi a lidar com desilusões em momentos críticos e a nunca esperar o melhor. Se perdêssemos, não importaria, ou pelo menos não a mim.

Iria ver o jogo rodeado por compatriotas. Não é esse fundamentalmente o objectivo do futebol para os adeptos? Talvez até mesmo para os jogadores? Que milhares de milhões de pessoas se reúnam para vociferar insultos ao árbitro?

Filosofias à parte, chegando ao Terreiro do Paço, no mar de gente flutuavam bandeiras e copos de cerveja. Enfiámo-nos lá para dentro e esprememo-nos por entre todos os adeptos de Portugal, do preto com o penteado à Renato Sanchez, ao branco totó magrinho de óculos, às raparigas baixíssimas que apenas podiam apreciar as marcas de suor do gordo à frente, às polacas e outras estrangeiras que queriam torcer por este calhau rectangular nos limites da Europa continental. Todos se reuniram de vermelho e verde, por dentro ou por fora.

 

Canta-se o hino.

 

Tenho apenas vagas ideias do que aconteceu no jogo. Foi a primeira vez que fui ver um jogo numa situação semelhante, mas já imaginava que não iria conseguir ver coisa alguma. Espreitava por cima da orelha do jovem à minha frente, outras vezes agachava-me ligeiramente para ver debaixo do sovaco da girafa lá à frente quando ele levantava os braços. Conseguia ver os lances melhores nas repetições. 

Eu quando vejo futebol em casa não mostro fervor nenhum e repeti o comportamento publicamente. No entanto, quase todos à minha volta se mostrava entusiasmados e irritados. Na perspectiva deles o árbitro fez erros horríveis e faziam reparos provavelmente injustos sobre a sua familía, os seus genitais e a sua vida sexual aparentemente homossexual. Obviamente não contestei, pois estava claramente em desvantagem numérica.

Passam todos aqueles minutos entre as defesas do S.Patrício, as traças a invadir a câmara, as trolitadas entre os jogadores, o golpe de wrestling do Quaresma, o Fernando Santos com as mãos na cara, pessoas a desmaiar e a ter convulsões no meio do público, um adepto a invadir o campo (esta só soube depois, vejam lá)...

Enfim, caos.

Depois o tal Éder, que ninguém gosta(va), marcou O golo.

Os segundos seguintes não são indescritíveis, mas acho que apenas o Eça de Queiroz faria um trabalho decente. O golo, algo inesperado, pelo menos a meu ver, causou a explosão compreensível nos sensíveis e hipertensos corações portugueses. Também eu explodi, metaforicamente, pois finalmente ocorreu algo no jogo que valesse a pena exprimir um sentimento, neste caso o de loucura total. Toda a gente se abraçava e saltava arritmicamente, batendo uns contra os outros. A barulheira ensurdecedora destruiu a maior parte das cordas vocais dos presentes e provavelmente de muitos tímpanos também. Eu próprio abracei toda a gente (excepto as polacas, já tinham ido embora) verificando sempre se a minha carteira ainda estava no sítio. Entornaram-me whisky para cima, mas quem é que no seu perfeito juízo se põe a beber whisky num copo rodeado de milhares de pessoas apertadas?

Os minutos seguintes foram de expectativa acrescida. Poderíamos realmente ganhar o europeu! Os cânticos não pararam mais até ao final do jogo.

Só me apercebi que o jogo acabara quando vi a equipa no banco a invadir o campo (e pelos óbvios esforços acrescidos de celebração observáveis no público). Fogo de artifício começou a explodir e a iluminar a noite, tanto em tons de vermelho e verde, como com tons da bandeira tricolor adversária, o que me faz pensar que o espectáculo seria o mesmo independentemente de quem ganhasse. É mais prático, suponho. Tudo isto tendo o mui apropriado tema do José Cid como banda sonora. Deixo ao vosso cirtério decidir se estou a ser irónico ou não.

 

 

Depois de a taça ser erguida, o pessoal começou a ir-se embora, talvez para o Marquês, mas a rambóia prosseguiu no Terreiro. Obviamente que só passaram aquelas músicas estranhas que o pessoal ouve nos dias de hoje, que são todas iguais umas às outras (ou então era uma só, mas muito grande, não sei) e eu ainda andei ao pinotes por lá, inebriado por nacionalismo temporário.

Claro que para mim, a música de celebração típica à qual recorro em momentos propícios é o tema dos Kool & the Gang.

Celebration!

 

 

Os portugueses não estão de parabéns. Quem está é a Selecção, em todos os seus elementos. Cabe-nos apenas agradecer o grande incentivo moral à Pátria que umas poucas dezenas de pessoas proporcionaram.

 

Quer dizer, ouvi dizer que houve atletas portugueses a ganhar competições europeias noutras modalidades. Mas a quem é que isso realmente interessa?

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publicado às 11:17


O Rapto - Parte V

por Rei Bacalhau, em 06.07.16

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O Chefe voltou para dentro e, surpreendentemente, apanhou Mariana a conversar com Adérito no escritório, onde uma humilde biblioteca de livros velhos lhes fornecia tema de conversa.
Adérito tinha a palavra e apontava para uma série de livros similarmente coloridos.
- Estes aqui devem ser bons, são policiais. Eu gosto de policiais, especialmente aqueles com detectives sem papas na língua. Se calhar, se a D. Dina não se importar, vamos levar uns quantos connosco, E aproveito e “roubo” uns para ler. Olhe estes aqui, ainda estão dentro do plástico, nunca foram lidos. Espero que ela deixe levá-los.
- Já conhecem a senhora há muito tempo? - perguntou Mariana, hipnotizada pela amabilidade de Adérito.
- Ah, já, há já uns anos. Quando Macelada foi ocupada, ela começou a ajudar as milícias da melhor maneira que podia, preparando refeições e dando um tecto a quem precisasse. Ela também é dona do andar de cima, que era o apartamento do filho dela, aquele que foi embora. Dormimos lá muitas vezes. É também a senhoria do edifício ao lado.
- Não percebo. Ela não vos ajuda sem mais nem menos. Ninguém faz isso. Mesmo no tempo em que as milícias existiam, normalmente os civis eram recompensados.
O Chefe, que ainda não tinha sido notado, meteu-se na conversa:
- Eu diria que as milícias ainda existem, mas admissivelmente com menos força que antigamente. De resto, a D. Dina é bastante bem "recompensada", como dizes, pelos serviços fantásticos que nos está a prestar e que já nos prestou. Há certas utilidades materiais às quais ela não tem acesso, devido ao racionamento cruel a que o nosso povo é submetido. Por isso, trazemos-lhe sempre alguma coisa agradável, seja comida, medicamentos, sabonetes ou até roupa quente para o Inverno. Seja como for, acredito que o maior presente que lhe damos é a companhia, pois ela adora conversar.
Um miliciano abriu a porta de entrada e sussurou algo ao ouvido do Chefe.
- Agora?
O miliciano acenou que sim.
- Tenho de me ausentar. Adérito, vê lá se propões um bom livro à Mariana. E dá um ao Adrien também, ele anda preguiçoso nas leituras.
E saiu.
- O Chefe ilude-se. O Adrien quase nunca acaba um livro, está sempre a resmungar que não tem paciência.
- Não parece ter paciência para muita coisa. - disse mordazmente, mas baixinho, não querendo espicaçar desnecessariamente a fera que estava no quarto contíguo.
Adérito riu-se, iluminando a divisão com o seu sorriso largo.
- Pois é, somos todos um bocado rudes e malucos, mas também, nesta vida que levamos, como poderíamos não o ser? - baixou subitamente o tom de voz. - E tens de perceber, Mariana, que alguns de nós já fizemos coisas muito más e começamos às vezes a esquecer-nos do que é conviver normalmente.
- Bom, você não parece ser como os outros, porque é que os outros não podem ser como você?
Adérito lançou-lhe um olhar inteligente, e sorriu.
- Nem tudo o que parece é. Consegues imaginar o teu pai a matar alguém?
Mariana engoliu em seco. Não respondeu.
- Pois, exactamente. No entanto, sabes que ele já o fez.
Mariana ficou pensativa durante um longo momento. Adérito, percebendo que tinha sido inapropriado ao falar no pai dela, pediu desculpa.
- Ah, não, não faz mal, eu percebo o que quer dizer... É só que...
- Mudemos de assunto, - interrompeu Adérito. - que temos coisas mais interessantes à nossa frente. Escolhe um livro. O que é que gostas?
- Eu não leio muito. Na capital não existem quase livros nenhuns na nossa língua. Aliás, admira-me que ainda exista uma colecção de livros tão grande como esta na nossa língua.
- Ainda existem algumas, mas são pequenas e poucas. É apenas por sorte que nenhum inspector cultural se tenha lembrado ainda de fazer uma rusga neste bairro.
- Inspectores culturais?
- Não sabes o que são?
- Nunca ouvi falar.
- Mas então não deves 'tar na capital há muito tempo, porque principalmente depois do fim oficial da Guerra, haviam imensos inspectores a virar a cidade do avesso. Eles não têm o título oficial de "inspectores culturais", e se calhar por isso é que não os conheces por esse nome. Basicamente, eles são oficiais Inimigos que fazem rusgas a certas casas e bairros sob um pretexto qualquer. As rusgas são feitas para identificar casas que tenham livros. Pouco tempo depois, aparece uma notícia a dizer que certa casa ardeu ou outra tragédia qualquer aconteceu.
- De facto, esse tipo de notícias acontecia muito. Dizia-se que era por causa das instalações de gás, que tinham ficado danificadas.
- Olha, eu não sabia que o pessoal na capital não sabia a verdade. Não me admira, a máquina de controlo mediático deles é bastante forte.
- Então, não há nenhum sítio com livros no nosso país? Bibliotecas? Livrarias? Pensava que isso só acontecia na capital.
- Não, ardeu tudo. Aliás, por exemplo, na batalha de Alvim eles lançaram bombas incendiárias à biblioteca principal, apesar de não estar nem defendida nem fortificada. Desde então, depois de se aperceber qual o objectivo deles, o Chefe tem andado a reunir todos os livros possíveis, apesar de ser cada vez mais raro encontrar um que não tenhamos ainda.
- Onde é que os guardam? Não andam com eles de um lado para o outro, certamente?
Adérito sorriu matreiramente, indicando com o silêncio que não poderia responder à pergunta.
- Está bem, posso perguntar então qual é o objectivo deles?
- É a nossa morte cultural, como tantos outros invasores tentaram fazer com os povos que conquistam. A nossa cultura é a única coisa que nos resta e portanto é a única coisa que lhes falta destruir para passarmos a ser "deles".
- E salvar os livros vai ajudar?
Uma voz vinda de trás respondeu de repente.
- O dia virá em que eles serão necessários, para reeducar o nosso nobre povo. - afirmou o Chefe, em tom dramaticamente heróico. - Estamos a fazer tudo para o Momento venha.
- O momento? - perguntou Mariana, confusa. - Que momento será esse?
- Saberás quando ocorrer, se ainda cá estiveres para o ver. Se quiseres ajudar, tens essa possibilidade, sabes?
Mariana não respondeu. Já sabia onde é que a conversa iria dar.

Depois de um curto silêncio, o Chefe falou com Adérito.
- Olha, Adérito, A D.Dina continua a não querer dar livro algum. Se queres ler algum desses aproveita agora.
- Então!? - inquiriu Adérito, indignado.
- São os livros do filho. Não se podem mexer, apesar de estarem mais seguros connosco. Enfim, não a podemos obrigar, não é?
- Não podemos falar com o filho?
- Nem ela consegue! Eu bem pensei nisso também, mas a D.Dina não faz ideia onde é que ele está. Havemos de tentar procurá-lo quando as coisas acalmarem um bocado.

O resto do dia, não deixando de ser no mínimo bizarro para Mariana, passou-se sem algum acontecimento relevante. Mariana almoçou na companhia do Chefe, de D.Dina, Adérito e Adrien. Este último não disse palavra à refeição, enquanto que a D.Dina, pelo contrário, relatou com imenso pormenor a história de como uma vez apanhou um peixe-gato com as próprias mãos quando foi ao estrangeiro.
Lucas não quis almoçar.

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publicado às 11:30


Thank You For The Music

por Rei Bacalhau, em 03.07.16

Sinceramente, tenho andado desinspirado recentemente em termos musicais. Tenho escrito muito pouco nestes posts semanais e cheira-me que isso se deve a... sei lá, deixa ver um bom nome.... "saturação criativa", ah e tal porque sou muita artístico e escrever parvoíces semanalmente sobre uma música escolhida quase ao acaso é-me extremamente desgastante.

 

Agora a sério, acho que vou de férias, volto lá para Setembro, com a ténue promessa de que investigarei novos temas e novas ideias e novos conteúdos. Talvez apareçam alguns textos, mas serão espontâneos (ou seja, não planeados) ou então já estão agendados (como a continuação da saga do Cidadão). Talvez o Ventura Lobo apareça mais uma vez ou duas.

 

Dito isso, não posso deixar de agradecer aos meus inexistentes leitores pelas suas inexistentes leituras dos meus bastante existentes textos. Um bem haja, mesmo que não os haja.

Creio que devo ter assassinado o português naquela última frase.

 

Seja como for, acabo por agora com uma canção de uma banda que marcou a indústria de música pop, e soube fazer um belo tributo à Música num tema quase autobiográfico. Obrigado a eles e obrigado a todos. E obrigado à Música!

 

Thank You For The Music, dos ABBA:

 

 

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publicado às 01:02



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