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O Rapto - Parte V

por Rei Bacalhau, em 06.07.16

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O Chefe voltou para dentro e, surpreendentemente, apanhou Mariana a conversar com Adérito no escritório, onde uma humilde biblioteca de livros velhos lhes fornecia tema de conversa.
Adérito tinha a palavra e apontava para uma série de livros similarmente coloridos.
- Estes aqui devem ser bons, são policiais. Eu gosto de policiais, especialmente aqueles com detectives sem papas na língua. Se calhar, se a D. Dina não se importar, vamos levar uns quantos connosco, E aproveito e “roubo” uns para ler. Olhe estes aqui, ainda estão dentro do plástico, nunca foram lidos. Espero que ela deixe levá-los.
- Já conhecem a senhora há muito tempo? - perguntou Mariana, hipnotizada pela amabilidade de Adérito.
- Ah, já, há já uns anos. Quando Macelada foi ocupada, ela começou a ajudar as milícias da melhor maneira que podia, preparando refeições e dando um tecto a quem precisasse. Ela também é dona do andar de cima, que era o apartamento do filho dela, aquele que foi embora. Dormimos lá muitas vezes. É também a senhoria do edifício ao lado.
- Não percebo. Ela não vos ajuda sem mais nem menos. Ninguém faz isso. Mesmo no tempo em que as milícias existiam, normalmente os civis eram recompensados.
O Chefe, que ainda não tinha sido notado, meteu-se na conversa:
- Eu diria que as milícias ainda existem, mas admissivelmente com menos força que antigamente. De resto, a D. Dina é bastante bem "recompensada", como dizes, pelos serviços fantásticos que nos está a prestar e que já nos prestou. Há certas utilidades materiais às quais ela não tem acesso, devido ao racionamento cruel a que o nosso povo é submetido. Por isso, trazemos-lhe sempre alguma coisa agradável, seja comida, medicamentos, sabonetes ou até roupa quente para o Inverno. Seja como for, acredito que o maior presente que lhe damos é a companhia, pois ela adora conversar.
Um miliciano abriu a porta de entrada e sussurou algo ao ouvido do Chefe.
- Agora?
O miliciano acenou que sim.
- Tenho de me ausentar. Adérito, vê lá se propões um bom livro à Mariana. E dá um ao Adrien também, ele anda preguiçoso nas leituras.
E saiu.
- O Chefe ilude-se. O Adrien quase nunca acaba um livro, está sempre a resmungar que não tem paciência.
- Não parece ter paciência para muita coisa. - disse mordazmente, mas baixinho, não querendo espicaçar desnecessariamente a fera que estava no quarto contíguo.
Adérito riu-se, iluminando a divisão com o seu sorriso largo.
- Pois é, somos todos um bocado rudes e malucos, mas também, nesta vida que levamos, como poderíamos não o ser? - baixou subitamente o tom de voz. - E tens de perceber, Mariana, que alguns de nós já fizemos coisas muito más e começamos às vezes a esquecer-nos do que é conviver normalmente.
- Bom, você não parece ser como os outros, porque é que os outros não podem ser como você?
Adérito lançou-lhe um olhar inteligente, e sorriu.
- Nem tudo o que parece é. Consegues imaginar o teu pai a matar alguém?
Mariana engoliu em seco. Não respondeu.
- Pois, exactamente. No entanto, sabes que ele já o fez.
Mariana ficou pensativa durante um longo momento. Adérito, percebendo que tinha sido inapropriado ao falar no pai dela, pediu desculpa.
- Ah, não, não faz mal, eu percebo o que quer dizer... É só que...
- Mudemos de assunto, - interrompeu Adérito. - que temos coisas mais interessantes à nossa frente. Escolhe um livro. O que é que gostas?
- Eu não leio muito. Na capital não existem quase livros nenhuns na nossa língua. Aliás, admira-me que ainda exista uma colecção de livros tão grande como esta na nossa língua.
- Ainda existem algumas, mas são pequenas e poucas. É apenas por sorte que nenhum inspector cultural se tenha lembrado ainda de fazer uma rusga neste bairro.
- Inspectores culturais?
- Não sabes o que são?
- Nunca ouvi falar.
- Mas então não deves 'tar na capital há muito tempo, porque principalmente depois do fim oficial da Guerra, haviam imensos inspectores a virar a cidade do avesso. Eles não têm o título oficial de "inspectores culturais", e se calhar por isso é que não os conheces por esse nome. Basicamente, eles são oficiais Inimigos que fazem rusgas a certas casas e bairros sob um pretexto qualquer. As rusgas são feitas para identificar casas que tenham livros. Pouco tempo depois, aparece uma notícia a dizer que certa casa ardeu ou outra tragédia qualquer aconteceu.
- De facto, esse tipo de notícias acontecia muito. Dizia-se que era por causa das instalações de gás, que tinham ficado danificadas.
- Olha, eu não sabia que o pessoal na capital não sabia a verdade. Não me admira, a máquina de controlo mediático deles é bastante forte.
- Então, não há nenhum sítio com livros no nosso país? Bibliotecas? Livrarias? Pensava que isso só acontecia na capital.
- Não, ardeu tudo. Aliás, por exemplo, na batalha de Alvim eles lançaram bombas incendiárias à biblioteca principal, apesar de não estar nem defendida nem fortificada. Desde então, depois de se aperceber qual o objectivo deles, o Chefe tem andado a reunir todos os livros possíveis, apesar de ser cada vez mais raro encontrar um que não tenhamos ainda.
- Onde é que os guardam? Não andam com eles de um lado para o outro, certamente?
Adérito sorriu matreiramente, indicando com o silêncio que não poderia responder à pergunta.
- Está bem, posso perguntar então qual é o objectivo deles?
- É a nossa morte cultural, como tantos outros invasores tentaram fazer com os povos que conquistam. A nossa cultura é a única coisa que nos resta e portanto é a única coisa que lhes falta destruir para passarmos a ser "deles".
- E salvar os livros vai ajudar?
Uma voz vinda de trás respondeu de repente.
- O dia virá em que eles serão necessários, para reeducar o nosso nobre povo. - afirmou o Chefe, em tom dramaticamente heróico. - Estamos a fazer tudo para o Momento venha.
- O momento? - perguntou Mariana, confusa. - Que momento será esse?
- Saberás quando ocorrer, se ainda cá estiveres para o ver. Se quiseres ajudar, tens essa possibilidade, sabes?
Mariana não respondeu. Já sabia onde é que a conversa iria dar.

Depois de um curto silêncio, o Chefe falou com Adérito.
- Olha, Adérito, A D.Dina continua a não querer dar livro algum. Se queres ler algum desses aproveita agora.
- Então!? - inquiriu Adérito, indignado.
- São os livros do filho. Não se podem mexer, apesar de estarem mais seguros connosco. Enfim, não a podemos obrigar, não é?
- Não podemos falar com o filho?
- Nem ela consegue! Eu bem pensei nisso também, mas a D.Dina não faz ideia onde é que ele está. Havemos de tentar procurá-lo quando as coisas acalmarem um bocado.

O resto do dia, não deixando de ser no mínimo bizarro para Mariana, passou-se sem algum acontecimento relevante. Mariana almoçou na companhia do Chefe, de D.Dina, Adérito e Adrien. Este último não disse palavra à refeição, enquanto que a D.Dina, pelo contrário, relatou com imenso pormenor a história de como uma vez apanhou um peixe-gato com as próprias mãos quando foi ao estrangeiro.
Lucas não quis almoçar.

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publicado às 11:30



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