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Música: Sitting on the Dock of the Bay

por Rei Bacalhau, em 25.09.16

De Otis Redding:

 

 

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publicado às 13:21


A Caverna - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 23.09.16

Ventura Lobo percorreu o triste planalto junto à cordilheira Ruq. Seguia um conjunto de marcos que, segundo o que os Ruqi lhe disseram, formava a estrada principal que unia as cidades-montanha. Todos os marcos tinham uma saliência que apontava qual a direcção a tomar para quem queria ir para a cidade capital do Reino Ígneo de Ruqum, o principal dos antigos reinos. Esta cidade furava a cordilheira de um lado a outro, permitindo acesso imediato às terras do Norte, para a demanda do Livro continuar.

Passaram dois dias desde a batalha de Ruquru e o Despertar dos Ruqi. O nosso herói, apesar da sua perícia e bravura, foi atingido no ombro esquerdo. Não se atreveria assim ferido lidar com os exércitos de Otto'Gháfiq, que certamente já teriam sido alertados para o sucedido em Ruquru. Ir para as goelas da montanha tornou-se a sua única alternativa para escapar à estrada principal do Norte, provavelmente ocupada pelos cultistas.

O seu ombro ferido inchara visivelmente, e Ventura não tinha meios para o tratar adequadamente. Não existiam nenhumas das ervas medicinais que ele conhecia naquele planalto inóspito e árido. Não havia qualquer tipo de aldeia humana num raio de muito quilómetros. Ventura, como qualquer homem decente, decidiu aguentar a dor escalante que sentia.

- Isto já passa.

 

Felizmente, a sua locomoção estava sob a responsabilidade de Sara, a resistente égua Maglu que Ventura obtivera e possivelmente salvara dos cultistas de Otto'Gháfiq.

O Sol quente e constante numa terra plana sem árvores e sombra contribuía para o desgaste físico do cavaleiro, mesmo que este teimosamente não o quisesse admitir.

Depois do pico de calor, Ventura reparou que a estrada começava finalmente a dirigir-se para as montanhas. Até agora tinha estado perfeitamente paralela à cordilheira, o que de vez em quando fez Ventura perguntar-se se se teria enganado.

- Se se se? Fica um bocado estranho. Acho que deve estar bem, mas se calhar a frase poderia ser construída de outra forma. É quase um trava-línguas.

Ventura Lobo proferiu a frase críptica em voz alta, apesar de ninguém lá estar para o ouvir, para além de Sara e talvez Venceslau. Seja como for, não se pode assumir que ele esperasse uma resposta.

A cabeça dele palpitava com o bater do seu coração. Sentia o fluxo de sangue nas suas veias ao ritmo acelerado e constante com que este trabalhava. Por um momento pareceu-lhe ter visto um elemental de fogo a dançar na terra seca, mas provavelmente era apenas uma metáfora do autor.

Sara prosseguia automaticamente pelos marcos, sendo de uma inteligência suficiente para perceber a direcção das saliências nos mesmos.

- Pois é, está a provar ser uma amiga inteligente e leal! Sim senhor! - exclamou Ventura, por coincidência imediatamente a seguir à inteligência de Sara ter sido referida na narrativa. - Mas qual coincidência!? Essa agora! - gritou para o ar, como se falasse para alguém, apesar de, como já se disse, mais ninguém estar presente. - Essa agora... - concluiu.

Finalmente, avistou uma rampa larga no sopé da montanha mais alta da cordilheira. Os marcos apontavam nessa direcção. À medida que se aproximou, Ventura distinguiu uma enorme entrada escura na encosta da montanha, como se esta estivesse no auge de um imenso bocejo.

- As montanhas não bocejam! Deixa-te lá de tentares tanto com as metáforas descabidas!

Ventura Lobo delirava, e nesse delírio conseguia, de alguma forma, parecer responder por mero acaso às afirmações do narrador.

- Quem 'tá a delirar és tu!

Dito isto, Venceslau, ofendida pela abreviação coloquial, treme e tenta disciplinar o seu mestre, saltando na bainha. Infelizmente, a espada estava presa a Sara, e não a Ventura. A égua leva uma vergastada inesperada e parte a todo o galope como reacção.

O corpo semi gelatinoso de Ventura teve dificuldade em manter-se firme na sua montada, balançando-se descontroladamente na sela, ameaçando desequilibrar os dois. O nosso herói, por muito que tentasse, não se conseguiu manter acordado e desmaiou repentinamente, aterrando de cara na crina áspera e poeirenta de Sara.

 

 

O bravo corcel entrou pela montanha dentro, sendo engolido pela colossal caverna como se fosse um mero grão de pó.

 

 

Ventura Lobo acorda com uma imensa pancada no...

- Sim! Claro, eu sei!, não precisas de me dizer, já percebi que caí do cavalo!

O ferimento do ombro não lhe afectara apenas fisicamente, pois a mente do nosso herói era assolada por uma febre dilacerante. Era provável que a seta que atingira Ventura tivesse algum tipo de veneno.

- Pois claro, todas as histórias são assim. O herói arma-se em herói, de todos os ferimentos que podia sofrer apenas uma seta lhe afecta, ainda por cima no ombro para poder continuar a lutar todo estóico, depois percebe-se que a seta 'tava envenenada, como sempre, depois o gajo fica maluco, começa a falar sozinho ou fica doente e tal ou não-sei-quê, não diz coisa com coisa, e depois há-de acordar num sítio qualquer maravilhoso rodeado de plantinhas e florzinhas e passarinhos piu-piu e há-de ter uma amazona muita boa com enormes seios a tratar-lhe das feridas, tipo Princesa Xena e, claro, depois disso ele e ela ....

Sara relincha subitamente, como se fosse um estratagema por parte do narrador para evitar que a insanidade febril de Ventura reduzisse ainda mais drasticamente o nível de qualidade do texto.

Ventura levantou-se e not...

- Oh diabo! Não vejo nada! Só está aqui a Sara e pouco mais. Nem o chão parece existir! Essa agora!

O aventureiro precipitou-se na sua interrupção, pois não permitiu que a cena em que se inseria fosse descrita e como tal, não podia ver o que não tinha ainda sido criado para os seus sentidos.

- Mas eu não posso estar sempre dependente de ti, narrador! Se um dia decides matar-me, como é que é? Ou, pior ainda, se não me arranjas uma amazona? Seios grandes, não te esqueças. Não pode ser. Não preciso de ti! Sou Ventura Lobo, grande aventureiro e caminhante de todas as estradas.

Nas suas deambulações, Ventura não compreendeu que o próprio narrador é também ele um vassalo dependente de outra entidade.

 

 

Já chega, é a vez de eu entrar e resolver isto, que a narrativa já está a ficar descontrolada.

- Essa agora? Quem disse isso?

 

 

Uma forte luz verde-marinho é projectada à frente de Ventura que decidiu pegar na sua espada com as poucas forças que lhe restavam. Para sua surpresa, Venceslau desaparecera da bainha. Desesperado, agarrou o seu sabre Ahmet. Enfrentou a luz de frente, preparando-se para uma luta com um ser sobrenatural.

A luz parecia divertida com o espectáculo. Decidiu tomar forma física, condensando-se num molde humanóide. À medida que as cores perdiam o brilho e a criatura era revelada, Ventura Lobo distinguia novas características do estranho interlocutor: o corpo era claramente humano, coberto de roupas modestas, mas a cabeça era a de um peixe.

Um bacalhau, na verdade, acho que devo dizer isso, para ser claro.

Não era a primeira vez que Ventura via um homem sereia, mas normalmente a parte que era peixe era a inferior, e não a superior. No entanto, a particularidade mais bizarra era uma coroa real pobre, provavelmente feita de latão, que encimava a cabeça ictióide.

O aventureiro demente notou que não se conseguia mexer de todo à medida que o homem-peixe avançava descontraidamente na sua direcção. Parou à sua frente e devolveu-lhe a sua espada. Ventura pegou na espada mesmo sem o querer, ou seja, sem ter dado ordem consciente aos seus músculos e afins para o fazer.

- Essa agora... mas que diabo?

Nada de diabos, ò Ventura. Não te preocupes que eu não sou o mau da fita. Aliás, não posso realmente dizer que esteja associado ao Bem ou ao Mal. Posso, contudo, dizer que é graças a mim que existes ainda.

Ventura não respondeu, confuso.

Permite-me apresentar-me. Sou o Autor, aquele que criou este mundo, com uma ou outra ajuda (leia-se, cópia) de outras obras de fantasia já existentes.

- Se isso é verdade, porque é que apareces como um peixe com uma coroa na cabeça?

Ah, essa é apenas uma das várias formas com que normalmente me caracterizo. Hoje calhou-te que eu escolhesse aparecer como o Rei Bacalhau, nem que seja só para me aproveitar da tua febre para depois pensares que foi tudo um sonho maluco. Aliás, aviso-te já, no próximo episódio, ou aventura, é isso mesmo que vai acontecer. Acordas e tal e pensas que tiveste um sonho muita estranho.

- E a Xena?

Lamento, mas tenho outros planos.

- É pena, eu realmente gosto de...

Vá, vá, acaba lá com esse tipo de comentários, essas piadas não funcionam sempre.

- Espera lá, ò bacalhau ou rei ou autor ou lá o que és... Porque carga de água é que o teu diálogo não tem tracinhos no início?

Como bem disseste, eu sou o Autor. Posso fazer o que bem me apetecer. Não uso travessões porque eu não sou realmente parte do teu mundo. Sou mais parte do mundo do narrador do que do teu. Como tal, não me parece adequado usar diálogo normal para mim. Seja como for, acho que se entende bem. Eu falo na primeira pessoa, o narrador não.

- Parece-me desnecessariamente rebuscada tal teoria. Por outro lado, um dos requisitos para se ganhar um prémio Nobel aparenta ser confundir o leitor o máximo possível com paupérrima pontuação e construção textual.

Seja como for, venho aqui para pôr alguma ordem no texto, pois a tua febre está a fazer-te demasiadamente consciente de elementos exteriores ao teu mundo, nomeadamente o narrador.

- Ele também não é grande coisa. Nem conseguiu colocar-me num sítio com as mínimas condições. É só escuridão à minha volta.

Bom, para a próxima não o interrompas antes de ele acabar a sua descrição ambiental. Vá, agora cala-te lá um bocadinho, senão nunca mais saímos daqui.

Ventura assentiu. Finalmente conseguiu olhar à sua volta depois de ter acordado tão bruscamente, ao ter caído de Sara. Estava agora na cidade capital de Ruqum, que partilhava o mesmo nome que o reino em que se inseria. A cidade estendia-se horizontalmente pelas profundezas como se fosse um imenso túnel e não uma cidade. Era uma maravilha geométrica, com as paredes e imensas colunas a delinear perfeitamente cada um dos edifícios que tinham sido perfurados directamente nas pedras.

- Então mas como é que eles viam fosse o que fosse? Não devia estar completamente escuro? Estamos dentro da montanha, não?

Cala-te Ventura, já lá vamos...

A cidade parecia tão deserta como qualquer outra cidade Ruqi. Não beneficiava de qualquer manutenção provavelmente há muitos séculos. A única iluminação disponível apresentava-se sobre a forma de fendas quadradas no tecto que provavelmente subiam até à superfície. Algumas estariam certamente tapadas por entulho, mas as que não estavam eram em número aparentemente suficiente para se poder ver adequadamente.

- Ou seja, até agora, uma descrição perfeitamente genérica de uma cidade típica de uma civilização que vive debaixo de terra, tipo os anões do Senhor dos Anéis.

Bom... sim, era por aí que eu estava a pensar...

- Pois, e deixa-me adivinhar, os edifícios estão todos incrustados de ouro e jóias e tal?

Enfim... mais ou menos.

- Já foi tão utilizado e reutilizado esse conceito...

Mas não são anões... são Ruqi, humanóides feitos de pedra, e portanto tem de ser coerente com a cultura deles, não?

- Pensava que eras o Autor. Não és tu que decides o que é que é coerente ou não? Só sei que nada disto é original.

Vá, ainda admito que sim... ò narrador, vamos tentar de novo.

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

A luminescência de estranhos cristais começou a preencher o ar frio e húmido. Toda a gruta estava coberta de cristais que apontavam em todas as direcções, brotando naturalmente das paredes. Entre os cristais adivinhavam-se alguns edifícios de pedra, semelhantes aos que Ventura já vira nas cidades-montanha exteriores. Os marcos de pedra do exterior pareciam ter sido substituídos por marcos de cristal brilhante, com indicações indecifráveis para quem não as soubesse ler.

- Alto! Espera lá. Isto é tipo a fortaleza do Super Homem?

Bom... suponho que sim, sei lá, isto são apenas coisas que me vêm à cabeça.

- Está bem, mas certamente consegues fazer melhor. Espero que não faças isto como profissão, senão estás bem tramado.

Epá, pronto... está bem, deixa lá ver. Ò narrador, tem lá paciência...

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

Ouviu-se um zumbido crescente, que escalou apressadamente para uma cacofonia de barulhos mecânicos. Alguma coisa parecia ter acordado. Subitamente, imensos pontos de luz tornam-se visíveis e a cidade ganha vida. Máquinas imensas giram centenas de rodas dentadas. Cada ponto de luz originava de pequenos frascos de vidro que se espalhavam quase aleatoriamente pelos edifícios que se erguiam orgulhosamente pela caverna adentro. Os próprios edifícios eram movidos pelas imensas máquinas num feito impossível de engenharia.

- Espera lá.

Mau.

- Então mas agora de repente os Ruqi eram engenheiros fantásticos? Pensava que querias ser coerente...

Não me estás a dar muitas alternativas, tão picuinhas que és.

- Mas isto parece totalmente copiado de algum sítio... não sei bem de onde... é de algum videojogo?

Sim, é, pronto, já estou a ver que também não te agrada.

- Não é original.... É assim tão difícil pensares em algo novo?

Tens de compreender, Ventura, que felizmente ou infelizmente, já quase tudo foi escrito anteriormente. Já tivemos grandes génios a fazer obras de arte na área da fantasia medieval. É muito difícil superá-los se eles já apanharam os melhores temas. Quase que chegamos a um ponto em que não se pode mesmo inventar mais. Mesmos os génios de outrora basearam-se sempre em algo anterior a eles para escreverem. Diz-se que o Tolkien, por exemplo, se baseou na carga dos hussardos polacos na batalha de Viena para aquela carga mítica análoga no Senhor dos Anéis. Até que ponto é que é realmente copiar descaradamente ideias de outros autores? Até que ponto não será na verdade um elogio às suas obras?

- Isso não é uma resposta muito convincente.

Talvez não, mas é a resposta que te dou. Tentemos de novo?

- Tentemos de novo.

Narrador, se fizeres o favor.

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

Ao habituarem-se à escuridão, os olhos de Ventura começaram a distinguir uma caverna coberta de musgo fosforescente, que se prolongava sinuosa e inconsistentemente até ao horizonte escuro e limitado por paredes rochosas íngremes. Pequenas cascatas corriam alegremente a toda a volta. As casas dos Ruqi escondiam-se debaixo do musgo luminoso, que se apoderara completamente dos antigos sinais de civilização dos seres de pedra. Uma espécie de trilho de gravilha ainda era visível e indicava o caminho que percorria a cidade de lés a lés, sendo provável que segui-lo seria o suficiente para atravessar as profundezas da cordilheira para atingir as terras do Norte.

Então?

- Então o quê?

Ainda não interrompeste.

- Ah, olha, nem reparei, estava a observar a caverna toda bonitinha.

Ah, então aprovas? Óptimo. Nesse caso, vou pôr-me a andar que os leitores devem estar completamente às aranhas sobre o que está a acontecer aqui. Não se preocupem meus caros, a narrativa vai retomar o seu fluxo normal. Não voltará a acontecer. Agora até me sinto como o Hulk Hogan naquele filme dos Gremlins, acho que era o segundo.

O Autor transformou-se de novo na luz verde e desapareceu sem dizer mais nada. Ventura Lobo embainhou Venceslau e montou Sara. Agora estava pronto para atravessar esta cidade mágica, linda e esquecida. Estava pronto para se maravilhar com as excelentes descrições que seriam feitas ao pormenor sobre cada uma das características misteriosas que a terra escondeu durante tanto tempo. Se calhar até poderia encontrar alguns dos famosos tesouros Ruqi!

 

Ordenou a Sara que avançasse pelo trilho.

 

E adormeceu imediatamente, exausto.

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publicado às 11:06


Música: Fool's Overture

por Rei Bacalhau, em 18.09.16

Suponho que sou um utópico, o que para qualquer pessoal inteligente será o mesmo que dizer que sou um idiota de primeira. No entanto, reservo-me pelo menos o direito de existir. Seja como for, as minhas ideias absurdas raramente são tornadas públicas, portanto acho que não mereço a pena de morte. Ainda.

 

Com a recente história dos recrutas comandos a morrer nos treinos, veio também a ideia de se acabar com os comandos de vez. Isto reincendiou umas velhas teorias minhas de que há certos estados que não precisam de forças militares para coisa alguma, especialmente se o orçamento do país não o permitir. O meu argumento era algo do género:

"se verdadeiramente uma nação não está à espera nem de atacar nem de ser atacada, para quê manter um elevado número de efectivos nas forças armadas? Poder-se-iam fazer muito cortes a muitos batalhões/regimentos/seja-o-que-for. As missões de salvamento da Força Aérea e da Marinha podem ser passadas para outras instituições cujo objectivo não seja andar à porrada com alguém. De qualquer forma estamos mais ou menos protegidos pelo resto dos países grandalhões e poderosos. E quero lá saber do prestígio de uma nação..."

 

Tretas do género. No entanto, depois comecei a informar-me, pois sabia que algo não podia bater certo. Todos os países, de uma forma ou doutra, têm forças militares, independentemente da sua neutralidade absoluta.

A verdade, sucintamente, pode ser explicada com um toque de semântica. Um país não tem um ministro da Guerra, mas sim um ministro da Defesa. Essa é essencialmente a função das forças armadas: defender. E fazem-no em tantos sectores e actividades diferentes. E sem reconhecimento algum. São dados como garantidos.

Bem vistas as coisas, são tipo o Batman.

 

Retiro o que disse e purguei todas as ideias de desmobilização total da minha cabeça. Aliás, até peço desculpa por sequer o ter pensado.

Posso ser um utópico, mas pelo menos sei que esse tipo de pensamentos não tem qualquer base num mundo real (enfim, é essa a definição de uma utopia, não é verdade?).

 

É tudo louco. Somos loucos por pensar que ter exércitos traz estabilidade ao mundo e que tudo se resolve à pancada.

Mas somos muito mais realisticamente loucos se pensarmos o contrário.

 

Fool's Overture, de Roger Hodgson.

 

 

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publicado às 18:30


Música: Battalions of Strangers

por Rei Bacalhau, em 11.09.16

De vez em quando saio da minha rotina constante musical para explorar novos temas, mesmo que sejam de bandas que já conheça. Actualmente sou utilizador do MEO Music, que me permite ter acesso a basicamente quase tudo o que seja música ficando ao mesmo tempo de consciência tranquila.

 

Gatunos, vós todos que pirateais. Gabirus. 

Quer dizer, bem vistas as coisas, a pirataria já quase não é problema. Já há algum tempo que não estamos nos anos 2000. Acho que a maior parte das indústrias produtoras de conteúdos multimédia já mais ou menos se adaptou ao terror dos corsários que navegam nos mares virtuais. Ou então sou eu que não tenho padrões elevados e contento-me com não ter tudo o que é do mais recente imediatamente assim que fica disponível.

Dantes se calhar não haviam opções, mas hoje parece-me absolutamente absurdo que pessoas com rendimentos minimamente decentes não desejem pagar um tostão por conteúdos. Vejamos o mais objectivamente possível, tentado ser sucintos ao mesmo tempo.

Serviços como o MEO Music e o Spotify oferecem música ilimitada. O Spotify custa uns 7€ mensais. O MEO Music tem a vantagem de vir incluído em grande parte dos tarifários de telemóvel e tem a GIGANTESCA vantagem de não gastar dados móveis.

Para filmes e séries, o maior que conheço é o Netflix. Nunca o usei, mas fui verificar e custa tipo uns 10€ ou por aí. Acho que há umas queixas de uns mariquinhas que diziam que a selecção disponível de conteúdos ainda era muito reduzida. Se calhar é aí que os meus padrões baixos entram, pois não vejo isso como grande preocupação, mas mantenhamos o objectivismo e digamos que seria compreensível se não quisessem optar por subscrever a esse serviço específico. Mas existem certamente outros, que devido à concorrência serão igualmente baratos. Digo eu.

Por último, para os videojogos existem N plataformas disponíveis para se obterem imensas promoções colossais para jogos que nos interessem. A que uso é o Steam, mas com uma pesquisa rapidamente chegam a outras. Já lá tenho comprado jogos de 40€ com 90% de desconto ou algo do género. Essas promoções estão sempre disponíveis? Não. Mas aí entram os meus padrões pacientes de novo. Não me importo de todo esperar para comprar um jogo recente (aliás, nos dias de hoje, comprá-los imediatamente é perigoso, já que muitos jogos ou são uma decepção ou têm imensos erros que afectam negativamente os primeiros utilizadores, posterioremente corrigidos num update).

 

Vamos assumir que alguém que consome todos estes produtos teria de gastar uns 50€ por mês para manter os seus vícios de entretenimento. Isso é assim tanto?

Talvez para alguém com o salário mínimo ou algo à volta do salário médio nacional (que será o quê? 800 ou 900€?) seja necessário controlar as despesas. Aí mais ou menos compreenderia a avareza (ou necessidade?) de poupar todos os trocos (quanto mais 50€).

O problema é que observo pessoas com um bom rendimento (falo acima dos mil e tal euros) a recusar-se integralmente a dar dinheiro por conteúdos que, independentemente das cambalhotas que dêem à semântica, estão a roubar.

 

O cúmulo é o Youtube.

A maior discussão que alguma vez tive publicamente foi sobre torrar pão fresco, que na minha opinião não se deve fazer, especialmente se houver pão duro ainda. Nem estou a brincar, isto foi completamente verdade, lutei sozinho contra uns 5 gajos sobre o assunto.

Logo a seguir na lista está a utilização de bloqueadores de anúncios nos nossos navegadores de internet. Eu não os utilizo, pois sei que grande parte dos sítios da internet baseiam-se, pelo menos parcialmente, em anúncios para se manterem operacionais. No entanto, apesar de este conceito parecer perfeitamente natural, a grande maioria das pessoas usa esse bloquadores. Portanto, mais uma vez, era eu sozinho contra uma data de marmanjos que me zombavam por eu não me importar de ver os anúncios, apesar das minhas explicações algo razoáveis sobre o modelo de negócio usado pela internet e pelos seus criadores de conteúdos multimédia. As pessoas vêem serviços como o Youtube como intrisecamente gratuitos e não compreedem que bloqueando os anúncios, bloqueiam igualmente os rendimentos do Youtube e dos "youtubers".

 

Desde essa discussão (a dos anúncios, não a das torradas), comecei a perceber que a pirataria e outras práticas pouco éticas não eram necessariamente uma questão de avareza, mas sim uma questão quase... cultural? Social?

É assim, é óbvio que do ponto de vista do indíviduo a pirataria e a xico-espertice fazem sentido absoluto. "Claro que quero ter tudo de graça! 'Tou-me a borrifar para quem fez isto, quero é ver filmes de graça, quero é ouvir música à vontade, quero é jogar os jogos que gosto sem ter que os pagar, quero é conveniências, quero é almoços grátis!" Claro que sim, faz sentido que sim. Objectivamente falando, só nos deveríamos preocupar connosco, especialmente numa sociedade em que temos tudo garantido, quer sigamos um código moral qualquer ou não. Mas não será que um indivíduo deveria ficar em dívida para com um criador que o entreteu durante várias horas ou dias? Não será que o deveria compensar de alguma forma?

Eu gosto de achar que sim, mas sei que é uma luta moral impossível de ganhar.

Principalmente porque até eu já fiz tudo o que me estou a queixar.

 

Enfim.

 

Eu queria chegar a algum ponto com isto...

 

Ah! Sim, claro, estava a passear por uma série de artistas e álbuns e deparei-me com uma música viciante dos Fischer-Z, idolatrados como um culto nuns três países, no máximo (a Alemanha sendo um deles, mas toda a gente sabe que os alemães podem ter uns gostos esquisitos de vez em quando). 

A música chama-se Battalions of Strangers, destaca-se pela excelente linha de baixo que acompanha o tema relativamente pesado que a letra trata.

 

Fischer-Z, com Battalions of Strangers:

 

 

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O Despertar - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 03.09.16

Ai, se não leram o que está para trás vão estar às aranhas neste....

 

Ei-lo, rodeado de clichés, de espada desembainhada e apoiada majestosamente no chão, cabelo a esvoaçar levemente, empurrado pela brisa árida que anunciava a noite, de armadura branca a reluzir os últimos lampejos de um dia cuja fase solar estava prestes a terminar. Era sem temor que Ventura Lobo, o herói, esperava enquanto uma companhia inteira de soldados subia pela cidade-montanha de Ruquru, ignorando os seus habitantes de pedra adormecidos. Segundo Riq, o último dos Ruqi, estes soldados eram seguidores do misterioso culto de Otto'Gháfiq, do qual Ventura Lobo nunca ouvira falar de senão muito recentemente. Riq colocara-se em posição de estátua no fundo das escadas que davam acesso ao cume, imitando perfeitamente os seus compatriotas, mascarando-se de guarda com um escudo e martelo massivos.
Os soldados aparentemente perseguiam Sa Rah, ou Sara, como Ventura lhe passara a chamar, uma égua dos pilhantes Maglu que eles haviam abandonado na orla das Matas Míticas de Tamor, e da qual Ventura se havia apropriado. Se havia uma razão para que esta égua fosse tão importante para este culto, Ventura não a sabia. Sara havia subido até ao cume da cidade, através do último lance de escadas que Ventura Lobo estava a postos para defender, caso fosse necessário.
Esperou com uma mistura de impaciência e divertimento a chegada das várias dezenas de soldados que invadiam os grandes lances de escadas de Ruquru.
Quando os primeiros surgiram dos degraus, Ventura notou de novo o que já observara anteriormente. Os soldados eram de culturas diferentes uns dos outros, vendo-se humanos de várias espécies, mas mais surpreendentemente alguns antropomorfos mais exóticos, alguns dos quais Ventura apenas ouvira falar: os tropicais homens-papagaio de Zbiral, os ferozes homens-pantera de Muçbinq, os homens amarelados das longíquas ilhas de Tumir.
- Essa agora...
Perante tal espectáculo, Ventura esperava que o líder deste bando fosse alguma espécie de lagosta. Literalmente. Era só o que faltava.
Para seu desapontamento, um humano que parecia ser demasiadamente nobre para se esperar encontrar nestas andanças destaca-se do grupo que continuava a chegar. Aproximou-se de porte erguido de Ventura Lobo e tirou o capacete.
Ventura sorria ligeiramente, o que seria um indício convidativo, não estivesse ele a segurar uma espada branca que perfurava gentilmente o chão de pedra. Começou ele:
- Boa tarde, cavalheiro. Expresso-lhe as mais amistosas boas-vindas a esta cidade arruinada, cujos únicos anfitriões são estas estátuas, como pode ver.
O nobre foi rápido a responder.
- Saudações, guerreiro, pois vejo pela sua expressão corporal que espera a guerra. No entanto, não vi guerra nenhuma na área circundante e portanto devo-lhe perguntar qual a razão da sua pose defensiva?
- Caro cavalheiro, pois bem sinto que falo com um, imploro-lhe que se coloque na minha situação ao ver uma companhia de cavaleiros armados a desmontar no sopé da montanha onde estou. Asseguro-lhe que apenas estou a agir preventivamente.
- Compreendo, é claro. Permita-me que lhe pergunte o nome.
- Dou-lhe a minha permissão para perguntar.
O nobre não se incomodou com a zombaria de que parecia ser alvo.
- Pois bem, qual o seu nome, por favor?
- Sou Ventura Lobo, aventureiro em missão, a repousar esta noite nestas montanhas pouco convidativas, mas seguras.
- Um aventureiro? Aqui? Não há aventuras para se ter nas terras de Ruq. Os tesouros esquecidos dos Ruqi estão mais a norte, escondidos onde ninguém consegue chegar. Aqui, neste local, não há nada.
A espada Venceslau tremeu.
- Esta é apenas uma paragem, e não o meu destino.
- Mas é uma paragem estranha, compreenda. Certamente terá seguido a estrada que se encaminha para as montanhas. Porque é que decidiu desviar-se para uma zona tão inóspita?
- Bom, para lhe ser sincero, desviei-me porque me deparei com um exército que marchava na direcção do Reino. Não sabendo as intenções de tal exército, preferi não arriscar.
As feições no nobre, até agora algo graves, pareceram iluminar-se ligeiramente.
- Ah! Bom, amigo, não precisava de ter medo. Apenas viu parte do grandioso exército de Otto'Gháfiq, o purgador, que se prepara para espalhar o concorde Otto'Gháfiq por todas as terras.
- Bom, com um cognome desses seria de esperar que estaria em letra maiúscula. Tipo, o Purgador! Para dar dramatismo à coisa.
O nobre olhou para trás, investigando com o olhar os seus soldados. Sorriu.
- Isso seria incorreto segundo o concorde.
Venceslau tremeu de novo. As gemas transparentes incrustadas nela começaram a emitir uma subtil luz suave alaranjada.
O nobre continuou.
- Seja como for, como eu dizia, não tinha razão para fugir dos exércitos de Otto'Gháfiq. Isto é, a não que tivesse algo a esconder...
"Ai ai ai ai ai..." - pensou Ventura.
- Não compreendo.
- Caro aventureiro, se aqui chegámos foi porque seguimos o rasto de um cavalo Maglu que temos andado a perseguir. Certamente não viria aqui por si só, o que me permite inferir que quem o trouxe aqui estará nas redondezas, já que vimos o cavalo subir esta montanha. Ah, aliás, lá está ele. - disse, apontando para o topo da terraço que era o cume de Ruquru.
De facto, Sara observava a situação com algum interesse preocupado.
- É apenas um cavalo, não vejo qual a razão de tamanho alarido para justificar trazer uma companhia inteira.
O nobre já perdera qualquer resto de indulgência forçada com que tinha falado até essa altura.
- Este cavalo foi-nos roubado e queremos reavê-lo, ponto final. Recusas-te a admitir que o roubaste, canalha?
Ventura Lobo não gostou do tom.
- Caríssimo, não nos azedemos. É verdade que encontrei este cavalo atado a uma árvore nas matas de Tamor. Ora, um cavaleiro Maglu raramente abandona o seu corcel assim sem mais nem menos. Se verdadeiramente o cavalo estava convosco, então devo perguntar onde está o dono dele, pois um cavalo Maglu apenas responde a quem o domou.
O nobre não respondeu imediatamente.
- Precisamente, caro amigo. Veja como hesita em responder-me a uma pergunta simples. Serei realmente eu o criminoso principal por ter roubado o cavalo cujo mestre foi assassinado por vós?
O nobre fartou-se finalmente. A diplomacia não resultara.
- Afasta-te, ou os meus homens matam-te! - rosnou.
- Mas que raio tem aquele cavalo de especial?
- Ele tem um documento que tem de ser purgado!
- O quê? Um documento? É só por causa de um papel? Ah, espere lá então!
Ventura virou-se e subiu energicamente as escadas que conduziam a Sara. O nobre virou-se para os seus soldados, que partilhavam o mesmo ar de perplexidade que o seu líder sobre a excentricidade de Ventura Lobo. Este procurou longamente na sela de Sara.
- Ah! Deve ser isto.... Mas... Essa agora... Não, não pode...
Ventura desceu as escadas de novo.
- Olhe, só encontrei um papel, mas não deve ser isto, seria ridículo... absurdo... mesmo no contexto deste universo incoerente e parvo.
- O que é? O que diz lá? - perguntou o nobre, impacientemente.
- Bom... é uma receita de "Gelado Praliné de Chocolate". Não faço ideia que raio é que isso quer dizer.
- É isso mesmo! Dê-me cá isso!
- Alto lá, mas por que carga d'água é que isto é importante?
- É tudo parte da purga! O concorde tem de triunfar!
- Bom, com o Concorde 4590 a coisa não resultou lá muito bem. Ah, espere lá, o Otto'Gháfiq é um avião?
O nobre nem respondeu, mas franziu imenso os olhos, duvidando a sanidade de Ventura. Já começa a ser hábito escrever isto.
- Estou a ver que não deve ser... pois... voltando à receita, isto não diz nada de especial... - e leu por alto alguns trechos. - ...150g chocolate para derreter... rónhónhó, rónhónhó .... óleo q.b. para a Torre de Moldar ... nem sei onde isso fica ... não sei quê ... instruções e tal .... microondas... certo...
- Blasfémia! Uma das palavras proibidas! Apoderem-se daquele documento, homens!
- Han? O quê? Microondas? Essa agora... Alto lá, jovens, não sei qual é a vossa, mas eu não vou dar nada só porque vocês querem! Expliquem-se!
- Essa palavra está mal escrita! Segundo o concorde, escreve-se micro-ondas! Esse documento tem de ser destruído!
- Oh diabo... eu não sei que raio de Concorde é esse, mas vão-se informar melhor que microondas não leva hífen...
- Herege! - berrou o nobre. - Usaremos força se necessário! Dá-me isso!
- Não tenho medo de força. Tenho de exercitar os músculos de qualquer maneira.
- Maldito sejas, idiota! Que pensas fazer contra uma companhia inteira de soldados armados até aos dentes, alguns literalmente? Pensas em fazer uma defesa heroica contra todos nós?
Tanto Venceslau como Ventura já se haviam fartado.

 

Ventura Lobo empunhou a espada e trespassou o nobre na barriga, surpreendendo-o. A armadura fina de nada lhe valeu.
- Não, planeio em fazer uma defesa heróica. Com acento. - disse-lhe, enquanto o nobre deslizava da espada para o chão.
Os soldados entreolharam-se, duvidosos sobre o que fazer.
- Ouçam meus caros, não temos aqui câmaras, mas nada nos impede de fazer uma daquelas cenas de luta dos filmes de fantasia dos anos 80. A única diferença é que sou um bocado mais eloquente do que o Arnaldo. Vá, vamos lá a uma boa coreografia.
Dito isso, Ventura Lobo atirou-se de rompante ao soldado mais próximo, atirando-se loucamente para uma situação de desvantagem numérica supostamente impossível de superar. Deram todos um passo atrás, mais uma vez surpreendidos pelo ataque tacticamente insano. Ventura desferiu um golpe no ombro, não separando o braço completamente, mas efectivamente pondo o inimigo fora de acção. Rodopiou para a direita, atingindo um outro na barriga com o pomo da espada, finalizando-o com um golpe rápido de punhal. Finalmente os soldados pareceram acordar e decidiram atacar. O primeiro furou o ar com a lança, mas Ventura desviou-se agilmente e Venceslau teve a abertura que precisava para cortar o lanceiro lateralmente abaixo das costelas. Ventura não teve tempo de dar o último golpe, pois um homem-pantera lançou-se felinamente a ele, atordoando-o. Ventura ripostou com uma cabeçada e um golpe rápido com o punhal onde imaginava ser o coração da criatura. Aproveitando-se de um pequeno espaço que os inimigos erradamente lhe deram, preparou e disparou um dardo da sua besta, furando a garganta de um homem com armadura kamiliana. Dois canibais das tribos de Goné aproximavam-se cuidadosamente, erguendo o escudo quando Ventura disparou mais um dardo. Não conseguindo recarregar a besta em tempo útil, lançou uma pedra à perna do canibal da direita, que consequentemente tropeçou para cima do colega. Ventura feriu o da esquerda na coxa, obrigando-o a ajoelhar-se, e imediatamente socou-o violentamente com a manopla direita. Rodopiou rapidamente, segurando Venceslau apenas com a mão esquerda e abrindo um golpe profundo no pescoço do outro canibal.
Mais soldados chegavam à batalha, cansados pelos vários lances de degraus que tiveram de subir à pressa, alarmados pelos sons de batalha. Ventura Lobo dançava pela praça, cortando o ar veloz, incisiva e precisamente, desferindo um outro golpe fatal a mais um soldado de Otto'Gháfiq. Impressionou-se ao ver o que parecia inicialmente ser um bigode andante, sendo na verdade um humano de Aguard. Era, inesperadamente, uma mulher, o que imediatamente o relembrou da filha do estalajadeiro ainda na Capital. Por curiosidade, pontapeou a inimiga e, imobilizando-a, tentou cortar-lhe o bigode para ver como é que uma mulher de Aguard ficaria sem o seu orgulhoso pêlo facial. Pois bem, debaixo daquele bigode havia apenas outro bigode, o que fez Ventura pensar que se calhar já devia estar à espera disso...
E agora o tempo pára durante uns momentos. Eis que Ventura Lobo (ou por outras palavras, o seu criador) se depara com um dilema. Tem uma inimiga para despachar, mas não se pode matar uma mulher, a não ser que se queira incentivar propositadamente uma cruzada feminista. É que os homens vieram ao mundo essencialmente para se matarem uns aos outros. Tudo bem. É de homem. Matar uma mulher, por outro lado, só é aceitável num contexto doméstico e normalmente só com violência suficiente para aparecer no Correio da Manhã. Para Ventura Lobo, matar uma mulher, mesmo que seja soldada, pareceu-lhe eticamente inexequível. Precisaria pelo menos de uma justificação...
Venceslau estava pronta a trespassar verticalmente o abdómen da soldada (não poderia ser o peito, pois Ventura tinha uma vaga noção de que eram sensíveis), apesar de compreender a hesitação do seu mestre.
- Não! Para! Não faças isso! - gritou ela, subitamente, restaurando a narrativa.
- Como? Para o quê?
- Não! Para! Quero que pares! Por favor!
- Mas "pára" leva acento.
- Não leva não, o concor.....
Erro crasso por parte da ingénua soldada que não estava com atenção ao texto. Era toda a justificação que Ventura necessitava para premir a espada rapida e decisivamente contra o corpo dela.
Ventura levantou-se a tempo de se desviar de um ataque de sabre por parte de um kataliano. Levantando a espada de cima para baixo, perfurou o peito do homem moreno de um lado ao outro, tendo dificuldade em retirar a espada de seguida. Um novo inimigo notou esta dificuldade e correu para atacar. Ventura desembainhou o seu velho e leal sabre Ahtem. Bloqueou a primeira investida, largou Venceslau para soquear o soldado com a mão esquerda, neutralizando-o temporariamente, o suficiente para Ventura arrancar Venceslau do inimigo caído. Agora, com as duas espadas na mão, cruzou-as num golpe de habilidade, cortando a cabeça do inimigo atordoado como uma tesoura.
- Estamos todos entretidos, claramente. - murmurou, não deixando de pensar na óbvia referência cinematográfica para quem vê o canal Hollywood de vez em quando.
Embainhou o sabre e resumiu a luta apenas com Venceslau.
O fluxo de soldados não parava, apesar dos melhores esforços de Ventura para os manter longe das escadas, a verdade é que tinha progressivamente perdido cada vez mais terreno. Retirava inconscientemente agora para o meio da multidão de Ruqi adormecidos. Uma seta voou e atingiu um dos Ruqi, lascando-o. Ventura estava agora preso no meio da multidão. Por um lado estava protegido do arqueiro que disparara a seta, mas por outro tinha menor espaço de manobra para lutar contra os soldados que se aproximavam para mais um ataque. Embainhou Venceslau, e voltou a retirar o sabre mais curto e ágil. Tentou recarregar a besta, mas foi interrompido por mais um guerreiro. Também ele tinha dificuldade em manejar o machado dele, mas o seu escudo inicialmente impediu Ventura de lhe aplicar uma morte rápida. Antes de ser auxiliado por um aliado, Ventura pregou-lhe uma rasteira e penetrou-lhe o coração. Usou o pequeno escudo do inimigo para deflectir uma nova série de ataques por parte de um soldado mais experiente, que atacava com uma fúria controlada e consistente. Era um homem muito grande e muito forte, tanto que Ventura viu-o derrubar um dos pesadíssimos Ruqi para reduzir a vantagem táctica que ele tinha sobre o titã. O Ruqi caiu com um estrondo enorme derrubando outro Ruqi à sua frente. Este segundo era aparentemente mais frágil, pois ficou completamente quebrado ao atingir o chão maciço.
Uma seta finalmente atingiu Ventura. Não perfurou totalmente o seu colete de malha, mas não augurava nada de bom. Existia uma distância significativa entre ele e o arqueiro (que finalmente localizara visualmente), sendo que também teria de lutar vários dos seus companheiros no caminho e sendo também que faltava lidar com o gigante que derrubara os Ruqi. Ventura poderia ter comprado mais tempo, voltando a meter-se no meio da multidão, mas isso implicaria provavelmente sacrificar mais uma quantidade significativa de Ruqi, e não estava disposto a fazê-lo.
Surgiu um novo arqueiro, mas este tinha pontaria pior, pois na primeira seta que disparou acabou por acertar na cabeça de um homem-papagaio seu aliado. Felizmente para ele, apenas Ventura notou isso, com excepção da própria vítima que, objectivamente falando, teria dificuldades em queixar-se no estado bastante perpetuamente imóvel em que ficou.

 

- Se o que querem é vingança, então executem-na em mim, e deixem os habitantes da cidade em paz! - berrou Ventura, arfante, rodeado de inimigos.
O pouco amigável colosso humano riu-se a bom volume, e os seus companheiros acompanharam-no na zombaria.
- Não é que eles se apercebam. São apenas estátuas! - e derrubou desprezivelmente mais um Ruqi, que tombou ruidosamente. - Olha, mais um que caiu! Tens um aspeto desgraçado! - virou-se para Ventura. - E tu... Exibiste um belo espetáculo, mas acabou por ser um bocado dececionante no final. Irritaste a fação errada, Ventura Lobo. Não sei que objetivo tinhas para tomar uma ação tão defensiva por uma folha de papel, mas ag... - hesitou por um instante. - Olha lá, porque é que as joias da tua espada estão a mudar de cor?
De facto, as jóias embebidas em Venceslau estavam profundamente escarlates, e alumiavam a noite com um vermelho malicioso e irritado.
- Pois. Há certas coisas que a minha espada Venceslau não gosta de ouvir. Fizeste vários erros ortográficos recentemente, e isso irritou-a profundamente. E não me venhas com a treta desse tal Concorde. Se Venceslau pensa que é um erro, é porque deve sê-lo. Agora aviso-vos eu, afastem-se dessas estátuas! - e preparou-se para uma nova carga, parecendo infundido com algum novo tipo de força sobre-humana. Ventura parecia pulsar com uma leve aura vermelha não muito diferente das gemas de Venceslau.
- Vamos à cena em câmara lenta!

 

Ventura arremessou a sua espada contra um inimigo, impalando-o. Enquanto ele caia lentamente, Ventura correu na sua direcção, carregando um dardo na besta. Saltou e apoiou-se no inimigo que impalara para subir mais alto. Num gesto acrobático de meter inveja a um Olímpico, disparou na direcção dos arqueiros que tão inconvenientes tinham sido até agora, mas acabou por acertar no que tinha má pontaria. Ao descer graviticamente, desembainhou o sabre de novo e perfurou as defesas fúteis de um soldado, rasgando-o de cima a baixo. Largou o sabre para recuperar Venceslau do inimigo que tombara atrás de si e rodopiou duas vezes sobre si mesmo, repelindo alguns ataques e desferindo outros fortuitamente. Tinha a mente concentrada em chegar ao arqueiro. Desviou-se de uma seta. Deslizou a espada na barriga de um inimigo sem armadura eficaz para travar o ferimento fatal. Evitou uma estocada de um lanceiro, agarrando de seguida a lança, socando o soldado com o cotovelo e espetando a espada várias vezes. Largou Venceslau, agarrou na lança e lançou-a contra o último infante que defendia o chato arqueiro. Correu como um louco, sem arma alguma na direcção do pelejador de distância. Este ainda conseguiu disparar uma última seta antes de desembainhar uma pequena espada semelhante a um gládio. A seta atingiu Ventura no ombro esquerdo e àquela distância conseguiu perfurar a armadura dele. Não interessava. Ventura tinha o arqueiro à sua mercê. Retirou o seu punhal Qanif, agarrou no braço do arqueiro antes que este lhe pudesse desferir um golpe e enterrou a arma no pescoço do seu irritante inimigo.
Sem hesitar, voltou-se para a coluna de homens que se precipitava na sua direcção, fazendo o possível para apanhar Venceslau a tempo. Deu uma cambalhota para a frente, alcançou a sua espada, e lançou-se para o lado, colocando-se nos degraus que davam acesso ao cume. Ali teria uma pequena vantagem táctica.
- Não podes manter este ritmo para sempre, canalha!
Tinham razão, não poderia de modo algum fazê-lo. Ventura estava completamente envolto em suor, arfava descontroladamente e o ferimento no ombro retirava-lhe uma considerável porção de agilidade ofensiva, pois Venceslau era mais facilmente manuseada com as duas mãos.
O humano enorme avançou, preparando-se para desferir o golpe final a Ventura.
- Eu trato dele, já estou farto disto, quero ver se ainda aguentas comigo!
A falácia dos termos que comparam tamanhos entre dois indivíduos é que estes são sempre relativos. Deveras, este inimigo era maior do que Ventura e talvez mais forte (mesmo que Ventura não o admitisse, essa agora), portanto o termo gigante poder-se-ia aplicar ao tamanho relativo entre os dois. Evidentemente, não se pode dizer que aquele soldado enorme fosse a maior criatura viva ali.
O guerreiro prepara o seu machado para iniciar o combate com Ventura, passando ao lado de um Ruqi adormecido.

 

Aparentemente, isto é.

 

- Sui bandi de bárbaris! - roncou fortemente uma voz grossa e pesada. - Vândalis! Assassinis! Já vi i suficiente para tomar umi partidi!
Mal o gigante olha para o lado para perceber quem falara, levou com um escudo de ferro maciço com uma força brutal, esmagando-o e projectando-o para longe.
Um novo colosso acordara. Riq finalmente juntara-se à luta.
- Nã me quis meter numi luti que nã era mui, mas vós agredistes is muis irmis. Sofrereis!
Riq esmagou verticalmente um soldado com o seu martelo, liquefazendo-o.
- Eu sou Riq! I últimi dis Ruqi! Defenderei i mui cidadi!
Se ainda mais soldados não tivessem acorrido, certamente os que presenciaram o despertar de um colosso de pedra teriam fugido em terror. Não obstante todos os argumentos contra a continuação da luta, os cultistas do Concorde Otto'Gháfiq eram teimosamente persistentes. Tudo isto por causa de um hífen numa receita de sobremesa.
Os soldados sabiam que Riq não podia ser invulnerável, pois observaram que as outras estátuas, ou seres, partiam-se e lascavam-se. Num acesso de organização, formaram-se numa coluna, colocando lanceiros à frente para manter a criatura afastada. As lanças de facto arranhavam e partiam alguns pedaços do corpo de Riq, mas pouco efeito prático tinham nele. No máximo, conseguiam mantê-lo afastado para evitarem ser esborrachados pelo gigantesco martelo que empunhava.
Ventura celebrava internamente a intervenção atempada de Riq, que não só lhe salvou potencialmente a vida mas como também lhe deu algum tempo para respirar. Observando a falange improvisada que os soldados formaram, teve uma ideia. Subiu ao cume e dirigiu-se a Sara. Procurou algo na sua sacola que estava pendurada na sela. Tirou um saquinho fechado. Continha os seus preciosos sais de banho kamilianos que têm mais utilizações possíveis do que apenas limpeza para quem for conhecedor das propriedades deles. Nomeadamente, estes sais reagiam violentamente ao contacto com água muito concentrada. Ventura agarrou no seu cantil. Abriu o saquinho. Voltou para as escadas. O impasse entre os soldados e Riq mantinha-se. Ventura despejou o conteúdo do saco para o cantil. Calculou o movimento parabólico mentalmente e lançou o cantil, que já começara a ficar quente.
- Riq, proteja-se! - berrou Ventura por instinto, esquecendo-se que Riq é feito de pedra e que portanto a reacção química vindoura não teria tanto efeito nele.
Riq obviamente não sabia isto, por isso levantou o escudo no momento em que o cantil caiu no meio da formação humana.
Uma imensa explosão de aromas e perfumes perfeitos e indescritíveis para os limitados olfactos humanos limpou literal e metaforicamente todos os sujos soldados, catapultando-os em todas as direcções num espectáculo fatalmente colorido, mortalmente folclórico e horrivelmente alegre que faria inveja a qualquer anúncio de detergente de roupa.
Até Ventura Lobo ficou impressionado e ficou a pensar no que aconteceria se alguma vez metesse demasiados sais no banho.
A explosão desbaratou completamente os soldados, e consequentemente Riq pôde manobrar o seu corpo imenso pela praça, caçando facilmente os inimigos isolados e confusos.
Apesar de tudo, a determinação fanática destes cultistas em atingir o seu objectivo era deveras impressionante. Continuavam a atacar, apesar do campo de batalha repleto de camaradas caídos, mortos, feridos, ou queixosos no geral.
Um conjunto de soldados veio ao encalce de Ventura. Este colocou-se numa pose defensiva nos degraus, fazendo por se aproveitar da vantagem. Infelizmente, desta vez vieram três de uma só vez, e apenas nos filmes é que se pode esperar derrotar três inimigos concorrentemente, normalmente com ajuda de alguma fortuita armadilha ambiental. Não era o caso. Deflectiu o melhor que pôde os ataques dos guerreiros e teve a sorte de ferir um no ombro. Contudo, foi obrigado a retirar, subindo um degrau de cada vez até atingir o cume.
Gesticulou a Sara para se afastar. Ventura estava prestes a ser rodeado de inimigos, mas subitamente estes olharam para a estátua no centro do cume, sentada num banco.
- E se acorda?
- Este está arrumado, nós tratamos dele, vão destruir a estátua antes que acorde também!
"Oh diabo!"
Ventura não o permitiria. Não tão facilmente. Usou o último dardo na sua aljava para impedir que o soldado inimigo chegasse ao companheiro (ou companheira?) de Riq. Acertou-lhe desastradamente na perna, mas o objectivo foi cumprido.
Ventura lançou-se para o lado, fazendo uma cambalhota dolorosa devido ao seu ferimento. Queria colocar-se entre o Ruqi e os atacantes.
- Riq!! RIQ! - berrou exasperadamente. - Vem cá! A tua.. não.. o teu... ui... sei lá o que aquilo é, nem carne nem peixe, essa agora... olha, que se lixe.... I TUI ESPOSI!
Um demorado rugido alastrou-se pela cidade-montanha e pelas cordilheiras fora, ecoando como um doloroso lamento furioso.
Ventura já bloqueava os ataques ao Ruqi. Um soldado com uma maça desferiu um golpe na perna de pedra, rachando-a. Foi imediatamente a seguir pontapeado e derrubado por Ventura, que não teve oportunidade de dar o golpe final, pois um lanceiro já arranhava violentamente o peito nu do Ruqi. Ventura arremessou Venceslau de novo, que perfurou o ar e penetrou por entre as costelas do soldado.
Se Venceslau não fosse uma espada, já certamente estaria enjoada de tanta tripa.
O sabre de Ventura ficara esquecido no patamar inferior, por isso pegou simplesmente na lança inimiga e começou a agitá-la selvaticamente, ganhando tempo.
O chão tremeu. Riq chegara ao topo das escadas. Dois homens vinham às cavalitas e outro ainda vinha viscosamente agarrado debaixo do seu massivo pé depois de ter sido esmagado.
- Raqarnal! Nã! Miseráveis! Covardis! Afastem-se di mui queridi!
Riq correu pesadamente pelo cume até se juntar a Ventura.
- Riq, chega a boa altura! Eles estão a atacar os Ruqi com medo que acordem.
- Elis nã acordam nem assim, acredita que já tentei, amigui.
- Pois, mas tente explicar isso a estes jovens! - respondeu Ventura, tentando uma estocada num soldado.
- Estás feridi, Lobi?
- Não me viu levar com a seta no ombro!? Não me consigo mexer muito neste braço!
- Ah, esqueço-me dis vossis fragéis glândulis moles.
- Sinceramente, estou mais preocupado com a racha "di tui esposi".
O Ruqi virou-se com violência para Ventura, como que ultrajantemente insultado, permitindo inclusive o seu inimigo acertar-lhe nas costas montanhosas.
- I QUE É QUE DISSESTE!?
- Não não, ouça, literalmente, uma racha aqui na perna, nada dessas badalhoquices! - explicou-se Ventura, hesitando enquanto decidia se se devia preparar para se defender do inimigo ou de Riq.
Riq inspeccionou Raqarnal (devia ser o nome deste Ruqi), e notou com dor uma fenda na perna direita. Para um Ruqi, este ferimento não era grave, mas a visão da ferida perturbou imensamente Riq, pois, de uma maneira ou doutra, este era o ser com quem jurara passar os vários séculos de existência, adormecido ou não. Vê-lo afectado por uma fenda, por mínima que seja, é razão suficiente para poder declarar que falhara no seu dever de protecção, especialmente num tal estado de impotência de dormência aparentemente eterna.
Ventura gritava e berrava para reganhar a atenção de Riq para a luta feroz que se desenrolava à sua volta, mas este estava apático e taciturno. Os olhos grandes como pérolas negras (e bem vistas as coisas, provavelmente eram literalmente pérolas negras) pareceram humedecer-se. Gotas trémulas escorreram pela face de Riq abaixo, mas secaram e enrijeceram pouco depois, pois eram na verdade metal fundido, transformando a cara de Riq numa peça de arte moderna.
Seria estranho se um ser gigante mineralógico chorasse água em vez de algo mais apropriado.
- Riq! Preciso de ajuda! Deixe lá isso!
Mas Riq não ligou. Para si a batalha já terminara.
- Como deixei isto acontecer? Tantis Ruqi destruídis, só para salvar um estranhi. E agora até ele foi atingido! - afagou asperamente a cara de Raqarnal. - Oh querido, como chegámos a este ponto?
Ventura ouviu as palavras suaves murmuradas enquanto soqueava um homem-pantera que o mordia no braço. Notou que um dedo do Ruqi adormecido pareceu mexer-se.
- Desculpe? Riq? O que é que lhe chamou? Chamou-lhe "querido"?
Riq assentiu, não dando importância.
- Ele é um "ele"?
Riq olhou para Ventura, notando agora também o facto inconsciente que dissera.
- Sim... acho que sim... era o meu querido. É o meu querido!... Raqarnal! O meu esposo!
A mão de Raqarnal espasmou.
- Então "i sui esposi" era "o seu esposo"? Estava completamente convencido que era... enfim... uma Ruqi!
- Uma Ruqi? Não.. não é assim... Ruqo e Ruqa. Eu sou uma Ruqa. Ele é um Ruqo. O meu Ruqo. - e Riq pegou-lhe na mão há tanto tempo imóvel. Apertou-a, ouvindo-se o ranger da fricção das rochas.
A mão retribuiu subitamente o aperto.

 

Raqarnal abriu os olhos, que eram dois rubis perfeitamente polidos e brilhantes.

 

Os soldados de Otto'Gháfiq recuaram, assustados, entreolhando-se nervosamente.

 

- Riq? - perguntou Raqarnal num tom muito grave e lento, depois de séculos de inactividade. - Quem... sã estis? Que... aconteceu? Tenho.... noçã.... di ter.... ador..mecido.... Que... confusã... Porque é que.... estás armadi? - olhou em volta e raciocinou. - Umi ataqui? Atacam-nos? - olhou para as cidades-montanha no horizonte. - Destruídis! Ruqgard! Ruqmur! Ruqlum! E agora Ruquru? Que fizeram ais nossis cidadis? Quem sois, bárbaris, para saber i nomi di mui inimigui!? - Dito isso levantou-se imponentemente. Era apenas ligeiramente maior que Riq, o que de modo algum eram boas notícias para os cultistas.
Ventura Lobo falou em primeiro.
- Bom dia, meu caro mestre dorminhoco, devo informá-lo que nem todos aqui são inimigos, e os inimigos que causaram a destruição das vossas cidades foram vós próprios, os Ruqi. Sou Ventura Lobo, aliado de Riq na luta contra estes cultistas que, resumidamente falando, se por um lado não podem ser culpados pela destruição da vossa civilização, têm associados o crime de quererem destruir os Ruqi adormecidos espalhados pela cidade.
Raqarnal olhou para Riq, como se pedindo confirmação. Esta assentiu.
- Ah POIS! Porque a Riq é uma ela, afinal! Essa agora, com mil diabos!
Alguns soldados já tinham começado a retirar. Agora sim já não havia pachorra para continuar a lutar. Um gigante de pedra é aceitável, dois não!
Raqarnal aproximou-se dos degraus e observou a destruição e o caos do campo de batalha que era a sua cidade. Viu os Ruqi quebrados no chão. Viu as dezenas de corpos decepados e feridos. Viu os soldados a fugir aterrorizados pelo despertar de Raqarnal.

 

- Eu sou Raqarnal! I chefi di Ruquru! Defenderei i mui cidadi!
- Vocês gostam mesmo destes dramatismos, não é? Já a Riq disse o mesmo. - notou Ventura Lobo enquanto desprendia Venceslau do corpo de um soldado.
Montou Sara, preparando-se para perseguir o inimigo em fuga. Raqarnal, Riq e Ventura Lobo desceram os degraus, a correr, passando pela destruição causada pela batalha de Ruquru.

 

Durante a noite Ventura teve oportunidade de tratar do seu ferimento no ombro o melhor que podia enquanto Riq informava Raqarnal de tudo o que ocorrera nos últimos séculos.
- Mas entã.. perguntou repentinamente Raqarnal, quando Riq explicava os acontecimentos das últimas horas. - porque é que i ajudaste? Esti glandular na causou nada senã problemis...
- Se não o tivesse ajudado, a profecia não se teria cumprido. E pára de falar assim, ruqo!
- Sim, claro. Qual profeci... profecia?
- A do tal Mago. "A solução está no Bem".
- Ainda não compreendo...
Riq, que se revelara de um momento para o outro uma ruqa incivelmente doce, apenas lhe afagou a face, suavemente mesmo para uma criatura de pedra.
Raqarnal pareceu sorrir.
- O Bem. Compreendo, sim.

 

Os Ruqi ficaram de vigia durante o resto da noite. Ventura e Sara repousaram juntos traquilamente até ao primeiro raiar do Sol.
Quando Ventura acordou, completamente dorido no corpo inteiro e particularmente no ombro, assustou-se ao verificar que estava sozinho. Levantou-se apressadamente e desembainhou Venceslau. Aproximou-se dos degraus e ficou tranquilizado ao ver Riq e Raqarnal a arrumar os corpos dos cultistas. Desceu as escadas embainhando a espada de novo.
- Bom dia! - gritou Riq alegremente ao ver Ventura. - Já te estavas a preparar para dormir uns séculis? Aliás, uns séculos? Creio que isto é teu.
- O meu sabre, ah, obrigado, de facto deixei-o aqui ontem.. ah diacho, já terei de o levar a um ferreiro outra vez.
O chão tremeu atrás de Ventura, mas não percebeu porquê. Virou-se.
Um terceiro Ruqi ajudava na limpeza. Atrás desse mais dois também trabalhavam. Ventura olhou para Riq inquisitivamente.
- É verdade, Lobo, conseguimos acordar a minha irmã, Reqla, e ali estão os chefes das cidades de Ruqjiko e de Ruqfor.
- Como é que os acordaram?
- Aparentemente, com afecto.
- Perdão, mas essa é uma resposta muito lamechas.
- Mas é verdade, só me aproximei dela, tratei-a pelo nome e murmurei "adoraria que também acordasses, minha querida irmã Reqla".
- Nunca tinha tentado isso antes?
- Dito assim não... dizia "adoraria que acordasses, mui queridi irmi Reqla".
Ventura acenou com a cabeça.
- E os chefes?
- Acho que Raqarnal lhes prometeu um copo de ouro fundido na famosa taberna de Raqdruk.
- Para isso seria preciso estar lá alguém, não?
- Estará lá, eventualmente. Vamos agora acordar e remendar os nossos erros, consertar as nossas cidades e preparar o nosso futuro. Vamos agora despertar. – silenciou-se por uns momentos. - Serão precisos muitos ruqinhos.
Por difícil que fosse identificar qualquer emoção nas caras de um Ruqo, Ventura notava uma aura maternal a emanar de Riq, especialmente quando falou nos "ruqinhos".
- Se queres que te confidencie, Ventura Lobo, notei de ontem para hoje que a minha... "zona" está a crescer de novo. E a de Raqarnal também.
Ventura abriu os olhos esbugalhadamente, e só se impediu de fazer uma careta arrepiante por se lembrar que poderia ser vista como mal educação.
- Ah..? Deveras..? Excelente..? Fico contente pela sua.. zona. E a do Raqarnal também. Há-de ser uma grande zona... n'é? Ah pois, para depois zonearem. É.. pois... ruqinhos e tal...

 

Ventura Lobo despediu-se dos Ruqi, dizendo-lhes que não se podia demorar mais, estava em missão, no final de contas. Os Ruqi indicaram-lhe um caminho que passava pelos antigos Reinos Ígneos dos Ruqi. Uma cidade dentro da cordilheira que dava passagem para o outro lado, colocando-o directamente nas temíveis terras do Norte.
Ventura ainda se voluntariou para pedir auxílio ao Rei em caso de novo ataque do Concorde. Os Ruqi garantiram que mesmo com imensos números, seres glandulares teriam terrível dificuldade em derrubar um só Ruqi, quanto mais dezenas deles.
Ventura arrumou as suas coisas nos alforges de Sara. Montou-a. Ao afastar-se da cidade-montanha renascida de Ruquru, olhou para trás, desembainhou Venceslau e elevou-a triunfantemente como gesto final de despedida.

 

- Quase que me apeteceu fazer uma pose mais à Zorro, mas se calhar já seria abusar. Eia Sara! Avante! E esperemos não apanhar a atenção de comunistas!

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