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The Young Ones

por Rei Bacalhau, em 30.10.16

Obviamente que já tinha ouvido falar do Cliff Richard, mas nunca pensei que ele fosse popular ao ponto de ser um dos artistas mais bem sucedidos do mundo. Aparentemente, ele é tipo o Toni Carreira do planeta Terra, ultrapassando artistas mundiais gigantescos como, por exemplo, o Toni Carreira.

Por estúpido que possa parecer, este facto só me foi dado a conhecer quando estava a pesquisar sobre os Shadows, a banda que fez fama tocando para o Cliff.

Pesquisar coisas no Wikipédia dá reviravoltas mesmo estranhas, enfim.

 

Cliff Richard e os Shadows, com The Young Ones:

 

 

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publicado às 19:45


Rock and Roll

por Rei Bacalhau, em 23.10.16

Excepto em cenários tecnologicamente apocalípticos, a minha rádio de eleição é a Nostalgia. Hoje, por acaso, afastei-me de civilização e tive de recorrer à M80 para não adormecer ao volante. Num dos infinitos anúncios que ciclam na emissão, há uma referência que não percebi aos Led Zeppelin, algo sobre um álbum ou sei lá. Não interessa, o importante é que tinha o "apoio" da M80.

Como assim?

Não é um bocado hipócrita que uma rádio diga que apoia uma banda cujas músicas NUNCA são escolhidas para tocar?

"Ah, é só publicidade, vai-te lixar que isso não interessa a ninguém."

Está bem, concordo, mas não deixa de me parecer estranho. Quer dizer, a única música dos Led Zeppelin que alguma vez ouvi a M80 a tocar foi a Stairway to Heaven, por razões desconhecidas (aliás, sempre me fez confusão, porque esse tema em específico não é nada simpático ao formato de duração curta que as rádios preferem).

"Ah, mas se tu não ouves a M80 regularmente, como é que sabes que eles não tocam os Léd Zé Plin?"

É uma excelente pergunta, para a qual não tenho resposta a dar. Poderei estar a ser injusto, deveras.

 

Caso não esteja, partilho uma sugestão de um tema amigável para rádio dos Led Zeppelin: Rock and Roll:

 

 

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publicado às 23:24


O Horrível

por Rei Bacalhau, em 17.10.16

Aviso: Este é o pior texto que já escrevi. Leiam o primeiro parágrafo e saibam que só irá piorar a partir daí. Se for demasiado para vocês, simplesmente não leiam, peço-vos.

 

Estou numa sala de espera apertada, com a televisão a dar música pimba num daqueles programas horríveis da tarde, felizmente com o volume baixinho. Já sei como é que a puta da médica é, chega sempre atrasadíssima e demora-se imensamente a despachar os pacientes. O último gajo já lá entrou há mais de meia hora e ou a está a foder ou então ela está-lhe a contar sobre a sua colecção infinita de gatos, tanto vivos como embalsamados. Ambas as situações são igualmente dolorosas de imaginar. Tendo isto em conta, trouxe um livro bem gordo e um pacote de bolachas, do qual metade já foi mamado. As bolachas, quero dizer.
As janelas pequenas dão uma vista fantástica para os aparelhos sujos de ar condicionado do edifício imediatamente ao lado. Se olhar para cima talvez consiga com dificuldade bisbilhotar um pequeno rectângulo de céu azul. A sala onde estou em si até nem é exactamente desconfortável. Parece pintada de fresco, assim cor de areia, com rodapés de madeira polida e cadeiras azuis parecidas às que há no metro, mas com aspecto menos pútrido.
As enfermeiras ou auxiliares ou lá como se chamam, sempre mulheres, passam de um lado para o outro atarefadamente, ou pelo menos dando essa aparência, como qualquer funcionário decente. Apesar desta azáfama toda, o monitor com as senhas parece reticente em mostrar o meu número. Sempre que apita, lá se levanta mais uma velhota para a consulta do não sei quê. Eu, nada, nadinha. Merda para isto. Não é que eu tenha algo de muito importante para fazer, mas sempre preferiria fazer nada noutro sítio qualquer.
"Bing bong"
Caralho do apito, deixa lá ver se sou eu.
Não, claro que não, nunca mais se vem a gaja, ou o gajo.
Levanta-se mais uma velhota, arrastando o marido atrás. O pacote de bolachas já foi todo, agora é alimentar-me do livro até ao almoço, que também não falta muito. Talvez por isso mesmo, noto que a sala está relativamente menos populada do que a última vez que reparei. Ena, li umas trinta páginas de seguida desde que olhei em volta atentamente.
Atrás de onde estava a velhota recentemente sumida, estava (e continua a estar) uma mulher, que aparentemente é a minha única companhia silenciosa. Até as auxiliares deixaram de passear pelos corredores que dão acesso à sala de espera. A tal mulher parece ser mais nova do que eu, e talvez por isso não me admire que esteja colada ao cabrão do telemóvel, passando o dedinho daqui para ali, numa espécie de combate kung fu dedal entre a gaja e o visor do telelé. Pá, eu também tenho um telemóvel de dedinho, mas andar quase sempre agarrado a essas merdas frita o cérebro, certamente. Para mim, é chamadas, SMS's e internet nas raras alturas em que preciso dela, nem que seja para bater uma.
"Bing bong"
Caralho para o bing bong, foda-se. Ela levanta a cabeça e dá por mim a olhar para ela feito predador sexual. Tudo bem que 'tava a pensar em punhetas, mas foi pura coincidência. Para além disso, só agora é que lhe vi a fronha e só a partir de agora é que me poderia apetecer masturbar a pensar nela. Não que eu faça isso muitas vezes, obviamente. Estou a falar mais hipoteticamente do que outra coisa.
Tento disfarçar, dando um olhar de desinteresse para o monitor. Nem vi qual foi o número que mudou. Só sei que ainda não é o meu. Apetece-me mijar, mas não vou arriscar sair daqui para a minha vez passar e depois um outro filho da puta qualquer ir foder a médica mais uma hora.
Levanto-me e vou à procura de alguém que me clarifique o que raio se está a passar para a cabra se estar a demorar tanto. Aproximo-me de uma secretária gorda de óculos, podre de feia e sebosa.
- Desculpe-me, minha senhora, mas pode dar-me uma informação?
- Sim?
- A senhora sabe se a Dra. Natália de endocrono.... perdão... endocrinologia (engano-me sempre na palavra) está em consulta?
A gorda revirou um bocado os olhos, já estando habituada à pergunta quando relacionada com aquela médica em específico.
- Desculpe, mas a Dra. está um bocado atrasada nas consultas, peço que aguarde mais um bocadinho.
- Com certeza, muito obrigado. - respondi, sorrindo delicadamente.
Caralho da puta da médica, se o paneleiro lá dentro fosse mas é lamber a cona da mãe faria melhor figura. Que se foda, vou mijar, se ouvir um bing bong saio cá para fora de piroca na mão, se tiver de ser.
Felizmente não houve apito algum, mas não deixei de mijar stressadamente. Nem pude fazer o abecedário no urinol como gosto. Lavar as mãos já foi mais tranquilo, pois ao menos aí não estaria numa situação tão embaraçosa. Volto à sala de espera, quase que sinto o monitor a troçar-me.
"Não, meu paneleiro, não é a tua vez ainda."
Pois bem vejo que não, vai p'ó caralho.
Sento-me e pego no meu livro e recomeço a folheá-lo, pois tenho a mania de nunca guardar a página onde ia. Ainda está lá a mulher de há pouco, continua grudada ao telemóvel, mas pelo menos agora está a usá-lo convenientemente para uma chamada, apesar de não estar a falar. Ela está a olhar distraidamente para a janela. É essencialmente a mulher portuguesa mais mediana que já tinha visto. Não é uma beldade, mas também não é uma corcunda digna de Notre Dame. Cabelo castanho escuro liso pelos ombros, olhos castanhos escuros e sem qualquer outra característica particularmente chamativa. É roliça, mas não exactamente gorda. Não sei dizer se está bem vestida ou não, porque nos dias de hoje alguém pode pôr umas calças de gangas dentro do cú como se fossem sugadas por um aspirador e chamar-lhe moda. Tem umas banhas estranhas no pescoço, se calhar já foi um rinoceronte e aquilo é a pele que ficou para trás.
Nãã... aquilo é outra cena qualquer... Ah, 'pera lá... aquilo deve ser um caso de bócio ou algo do género, é parecido com o que vi na net, mas ainda não exageradamente óbvio, tipo aquelas pessoas que ficam deformadas ao ponto de parecerem uma pipoca gigante.
Até faria sentido, afinal de contas isto é a sala de espera para a endocrono... foda-se... para a endocrinologia. Aquilo deve ser a tiróide a ficar maluca. Tipo a minha, suponho, se bem que ainda não cheguei àquele ponto. Será que ela também está à esper...
"BING BONG"
Foda-se! Pronto, lá me apanhou ela a olhar outra vez, mil caralhos me fodam. Daqui a nada chama a polícia. Deixa lá disfarçar outra vez, ó caralho, pá... E ainda não sou eu! 'Tou mesmo pronto para ir ao gabinete daquela vaca e espetar-lhe com aquele monitor em cima. Já 'tou a imaginar: "toma lá ó puta, bing bong, toma outra vez, bing bong", ad infinitum.
Bom, que se foda, mais um bocado e bazo mas é. Vou ler o livrinho que faz bem, relaxa e tal.
O meu yoga mental resulta tão bem que me assusto quando vem o próximo bing bong. Ouço uma voz velha a dizer no corredor.
- Anda lá filha, que é a nossa vez, vá que o Sr. Dr. já está à espera.
Eu já mais ou menos queria desistir de olhar para o monitor a cada notificação, mas o hábito nervoso falava mais alto. Levanto a cabeça, nada de especial no monitor, mas ao levar a cabeça em direcção ao livro noto de relance que a gaja está por sua vez a olhar para mim. Não te preocupes querida, que decerto já não olho para aí outra vez, ainda te dá um ataque de feminismo devido à minha clara opressão machista. Não tens de me controlar.
Esta gente é maluca. E eu a pensar que sou fodido da cabeça. Ao pé destas alminhas sou um santo. Se calhar o pote de banhas do Xico é que tem razão: nem vale a pena sair de casa se temos de lidar com pessoas. Mas ele também não é grande exemplo, já que não imagino....
- Desculpe...
Uma voz feminina materializou-se no ar. Olho para cima e a gaja está mesmo ao pé de mim. Como é que num raio é que ela se levantou sem eu a ver, não sei. Deve ser ninja.
- Sim? Diga, minha senhora.
Ela atrapalha-se e hesita. Provavelmente pensava que eu teria vocabulário e maneiras de um taxista septuagenário cheché. Olho para ela com um sorriso convidativo e parvo, quase infantil, que é uma técnica de desarme que aprendi há muito. Usei o truque futilmente, porque afinal ela não vinha descarregar gás-pimenta na minha cara.
- Você está para a Dra. Natália também, não está?
- É verdade, de facto. Devo preveni-la que me disseram que a Dra. está atrasada, sem realmente me terem dito a razão do atraso. Eu poderia, no entanto, se me permitir, deduzir que este facto não é uma surpresa para a senhora.
Ela riu-se afavelmente.
- Pois não, não é, sei que é até bastante normal que ela se atrase, mas como vi que você foi falar com a secretária já agora confirmava se estava mesmo atrasada ou não.
- Com certeza, é uma atitude compreensível.
Que raio, então mas ela deve ser depois de mim, de certeza. Então ela marca consulta para o meio-dia sabendo que a médica é como é? A tiróide deve estar-lhe a afectar o cérebro, se é que ela o tem.
- Perdoe-me por me intrometer, mas a senhora tem consulta marcada para as 12 horas?
- Sim.
- Ah, infelizmente também cometi esse erro uma vez (não cometi não, mas não quero deixar a gaja a sentir-se mal, ainda tenho o gás-pimenta em mente) e percebi que a essa hora é absolutamente impossível que a Sra. Dra. esteja despachada do resto da sua clientela. Aliás, tentei ao máximo ser o primeiro a ser atendido, mas todos os horários compatíveis com esse requisito já estavam marcados.
- Pois, eu também sei isso, mas não consegui marcar mais cedo, ficou você com o meu lugar. - disse, rindo.
Fiquei sem perceber se era algum tipo de indirecta ou se era apenas uma piada. Decidi pela primeira opção, pois nunca conheci uma gaja com sentido de humor suficiente para ter a lata de dizer isso a um estranho completo. Espera aí que já te fodo.
- Ah, perdoe-me, deveras, compreenda que não o fiz com intenção. Se o desejar, pois é-me algo indiferente, podemos falar com a médica para trocarmos de senhas e consequentemente ir a senhora em primeiro.
- Ah não, estava a brincar, não queria que interpretasse dessa maneira!
Então sê mais clara da próxima vez, burra do caralho.
- Mas insisto, eu tenho aqui companhia para a tarde inteira, - aponto para o meu livro. - portanto por mim seria perfeitamente aceitável.
- Não, deixe estar, ora essa!
- A senhora é que sabe, eu tirei o dia de férias para estar aqui à vontade.
Essa agora, porque carga d'água é que eu disse isto?...
- Ah, então o senhor não estava à espera de ser atendido tão facilmente.
Então, pois não, pensava que já tinha dito isso, acho que a gaja deve ser surda, ou então o bócio alastrou-se para os ouvidos.
- Pois não, tem razão, mas pensava que até à hora do almoço já teria sido atendido, expectativa essa que há muito se me desvaneceu.
- Bom, estou a ver que se o senhor...
Ah, agora já é "senhor", há bocado era "você".
- ... está à minha frente, também não posso esperar ser atendida antes da hora de comer.
Quanto à hora de comer não sei, porque lá no gabinete a médica deve estar a comer no cú do gajo, ou então o contrário.
- Discordo, pois eu normalmente despacho-me em dez minutos com a Dra.. Se ela me chamasse mais ou menos agora, ainda teríamos ambos tempo para as nossas consultas.
- Acha que isso pode acontecer?
- Não duvido a possibilidade, mas duvido seriamente a probabilidade.
Ela sentou-se no banco à minha frente. Nem pediu licença nem nada.
- Ai, desculpe, posso-me sentar aqui?
- Não vejo nenhum obstáculo que possa impedir a senhora de o fazer, se esse for o seu desejo.
- Não, claro, mas não está aqui ninguém sentado, pois não?
Está, o meu amigo Heliberto, o homem-invisível. Até me admira que não tenhas reparado. Vê lá não fiques muito tempo em cima dele que ele ainda fica com tusa. Ele gosta delas magrinhas, mas em tempo de guerra todo o buraco é trincheira.
- O lugar não está reservado, não se preocupe, ou se estiver, desconheço-o.
Ela lá fechou a matraca um bocadinho e pensei que poderia continuar a ler o meu livro descansadamente.
"Bing bong"
Que se foda, desta vez nem olho para o monitor. Se for a minha senha, a gaja dir-me-á.
Ela nada me disse, portanto caguei para a cena. Só passados uns momentos é que ela comentou baixinho:
- Ainda não foi a nossa...
Pensei em não responder, mas algo me fez mudar de ideias. Talvez não quisesse tornar a situação ainda mais constrangedora, já que só estávamos lá os dois.
- Sabe, eu já desisti de olhar com medo de me tornar um caso clínico para psicólogos futuros, tipo o famoso cão de Pavlov.
- Com menos saliva, imagino? - rematou ela, com um toque suave de impertinência.
- Claro, não quero dar trabalho às empregadas de limpeza, acredito que já terão de lidar com uma quantidade suficiente de fluidos humanos horríveis.
Seria de supor que a ideia de sangue, merda, vómito, mijo e esporra espalhados pelo edifício todo seria o necessário para ela se calar ou pelo menos mudar de assunto. Não tive essa sorte.
- Mais parece que está a descrever um serviço de urgências! Acho isso difícil de acontecer aqui. Nunca vi nenhuma... "substância", como disse, no chão daqui.
Não é lá muito inteligente, coitada. Qualquer outra já teria percebido que esta é daquelas conversas que não se mantém com um homem, muito menos um informático que está habituado desde a faculdade a falar literalmente de merda ao almoço enquanto come banalmente um iogurte, como se o assunto fosse tão normal como falar do tempo, da bola, do filho da puta do primeiro ministro (seja ele quem for na altura) ou de gajas/pornografia.
- Quem falou do chão? - disparo eu, apontando um tiro certeiro aos alarmes de moralidade humana que eu suponha que ela teria. Olho dramaticamente para cima, como se a quisesse fazer pensar que estava um octogenário pendurado no tecto a borrar-se em cima dela.
Deu-me um imenso prazer vê-la olhar para cima, confusa e horrorizada. Se ela não for completamente fodida dos cornos, vai perceber que a tenho andado a trollar e vai provavelmente calar-se, pegar na trouxa e bazar para outro banco, balbuciando uma desculpa qualquer.
Pelo contrário, ela ri-se como se eu tivesse dito uma piada e não interpretou o meu teatro como uma afronta a todas as noções básicas de normas sociais.
- Ai, já estava com medo do que é que estaria no tecto! Enganou-me bem!
Oh diabo! Estou a ver que quem precisa de gás-pimenta sou eu. Estou a falar com ela há tipo dez minutos e já fiz uma piada porca e ela não chamou os GOE. Ou é uma daquelas gajas muito à frentex ou então é doida varrida. Aliás, a diferença não é muita. Se calhar é do Bloco de Esquerda.
Acabo eu com o assunto, simplesmente sorrindo como resposta, voltando rapidamente para o livro.
Passa um vulto por nós, mas nem sequer olho, neste momento quero isolar-me no meu cantinho e esperar que a gaja vá embora desesperada de ócio.
- Olhe, - diz ela, e quase que me assusto. - acabou de passar a Dra. Natália!
Foda-se! Não me digas!
- Não me diga! Tem a certeza?
- Parecia-me ela.
Levanto-me por instinto e vou para o corredor, na direcção da secretária gorda, que de facto estava a falar com a Dra. Natália, de cognome "a Rameira". Apanho a conversa a meio.
- ... olhe, aliás, está aí ao seu lado... - vomitou a gorda, referindo-se a mim.
- Ah, pois, bem me parecia que tinha visto o seu nome na lista...
Tanto que o deves ter visto que nem te lembras qual é.
- ... mas as coisas atrasaram-se nesta consulta, pois é um caso muito complicado.
- Claro Dra., eu compreendo, sabe bem que sim, os gatos também não ajudam.
- Como? Desculpe?
- Estou a dizer que esses casos não ajudam, os mais complicados, quero dizer.
- Pois, pois não, e sabe que...
Enquanto ela me metralhava com desculpas, investiguei-a minuciosamente à procura de indícios de actividade física médico-paciente, mas não vi nada de óbvio. Claro que para mim óbvio seria se ainda estivessem fluidos vaginais a escorrerem-lhe pelas pernas abaixo. Outro pormenores talvez me escapassem facilmente. Eu provavelmente tenho tanto de Sherlock Holmes como a Natália tem de John Watson.
- O senhor tem tempo imediatamente a seguir ao almoço? Acho que não seria decente remarcar-lhe a consulta para outro dia.
Ah pois não seria não, ó puta.
- Sim, - disse calmamente, resistindo ao máximo o desejo que tinha em mostrar-me um bocadinho menos indulgente. - mas devo preveni-la que tem outra paciente depois de mim, que está igualmente à espera.
- Ah.. pois... a...
Obviamente também não se lembrava do nome.
- Eu agora já estou atrasada para um compromisso importantíssimo, pode avisar essa senhora que se quiser vir cá à tarde ainda a poderei atender? Pronto, obrigada, até já.
Meteu-se no elevador com uma velocidade que não imaginava possível, ou então foi um daqueles casos dos filmes em que o personagem fica em câmara lenta enquanto todos os outros andam à velocidade normal.
Vaca do caralho! Que grande lata! Ora foda-se! Então mas agora sou o secretário pessoal dela?
A secretária gorda observara a cena receando que eu fosse fazer algum alarido, especialmente porque fiquei vários segundos a olhar para as portas do elevador depois de se fecharem. Conhecendo-me como conheço, tinha provavelmente aqueles meus míticos olhos psicóticos e assassinos. Imagino que teria dado uma boa foto de perfil para um site de encontros, só pela piada.
Respiro fundo, relaxo, e dirijo-me calmamente à gorda.
- A senhora não sabe precisamente quando é que a Dra. voltará do almoço, pois não?
Ela acena que não, olhando quase com culpa para mim. Ou então estava a ter um AVC. Não sei bem. A única médica que talvez pudesse saber tinha acabado de sair.
Bazo antes que a gorda comece a ter convulsões e depois eu tivesse de partir as costas a arrastá-la de um lado para o outro. Volto para a sala de espera, não sabendo o que dizer à gaja que basicamente está na mesma situação que eu.
- Então? - diz-me ela.
- Bom, não posso dizer que tenha boas notícias. Receio que a Dra. nos tenha abandonado. Ela pediu-me, por alguma razão, para lhe dizer que se quisesse vir cá à tarde estaria à vontade.
- Ah!? A sério?
Não, estou a mentir porque tenho prazer em gozar com as pessoas. Aliás, mau exemplo de ironia, porque eu gosto de gozar com as pessoas.
- Sim, a sério, por ridículo que pareça.
- Que grande lata!
Pois, isso foi o que eu pensei, se bem que com uns foda-se's lá pelo meio.
- Pronto... agora não há nada a fazer... Ela já se foi embora?
- Sim, deveras apressadamente até. Acredito que ela conheça alguma técnica para fechar as portas do elevador mais depressa.
A gaja riu-se. Não era uma piada, ou pelo menos não era minha intenção que fosse. Começo a pensar que ela está a gozar comigo, mau mau.
Depois de um curto silêncio estranho, comecei a pegar nas minhas coisas e a preparar-me para ir comer alguma coisa até que a gaja, fiel ao estereótipo do seu género, recomeçou a palrar como se tivesse alguma necessidade fundamental disso.
- Você vai voltar cá à tarde?
Voltámos ao "você", irra.
- Sim, claro. Como eu disse, tirei o dia de férias de propósito para isto, não me posso dar ao luxo de perder outro.
- Pois, é como eu.
Não respondi, peguei no meu livro e encaminhei-me para a porta.
- Onde é que vai almoçar?
Essa agora! Que raio tens a ver com isso, bisbilhoteira de merda?
- Hmm... Ainda não sei bem, nunca tive de o fazer nesta zona. Vou à procura de alguma coisa. Certamente haverá um restaurante decente por aqui.
- Há um sim senhor, aqui perto, e se quiser posso levá-lo lá, que conheço-o bem.
Conhece-lo bem? Não és assim tão gorda, como é que podes dizer uma coisa dessas?
- Ah, não é preciso, agradeço-lhe. Pode-me simplesmente indicar o nome que saberei encontrá-lo, se a senhora verdadeiramente garantir a qualidade do espaço.
- Não me custa nada, eu também preciso de almoçar, aproveito e almoço lá também.
Oh caralho, 'tás a gozar comigo? Agora está a querer grudar-se a mim, deve querer que lhe pague o almoço, filha da puta. Como é que me safo desta? Foda-se, foda-se, foda-se! Podia mandá-la para o caralho, mas já lhe disse que não conhecia bem aqui a zona, seria má educação... Foda-se! Juro que é a última vez que venho a esta médica, mesmo que para ir a outro tenha de ir ao Porto ou uma merda assim. Opá... pronto, 'tá bem, vamos lá ó gaja, é bom que o restaurante seja mesmo muita decente.
- Está bem, concordo, parece-me razoável.
Dirigimo-nos para o elevador, deixo-a entrar em primeiro, não por cavalheirismo, mas porque no fundo esperava que os cabos do elevador se partissem no momento que ela entrasse e eu já pudesse almoçar descansado enquanto o pessoal lá em baixo estaria ocupado a encontrar os pedaços dela.
"Olha, encontrei o fígado!"
"Olha, 'tá aqui o estômago, parece que ela comeu um daqueles pães integrais que sabem a merda."
"O que é esta cena, não vi isto em nenhum livro de anatomia... Mas 'tá cheio de sangue!"
"Isso é um tampão, caralho, 'pera aí que vi a cona dela aqui algures... toma lá, põe lá para dentro... Sei lá como é que se mete!"
Bom, é óbvio que o elevador não caiu, e entrámos os dois.
- Como é que se chama? - pergunta ela.
- Carlos Heitor, ao seu dispor, minha senhora. - respondi, fazendo uma leve vénia. Fica sempre bem.
- Susana. E trate-me por tu!

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publicado às 17:57


Dancing in the Dark

por Rei Bacalhau, em 16.10.16

É estranho como às vezes acontece eu ouvir uma música incontáveis vezes sem me aperceber que, simbolicamente falando, ela está a falar comigo.

Infelizmente, eu dou imenso valor à letra de um tema, sendo que às vezes é a razão principal para o ouvir. Digo infelizmente porque fico a pensar que em certos casos, alguém mais famoso/importante do que eu já teve os mesmos problemas que essas letras sentidas reflectem, e sinto que pelo menos não sou o único humano irremediavelmente imperfeito do mundo.

Não me venham dizer que objectivamente isso não faz sentido. Acham que alguém que escreve isto está a pensar objectivamente? Se deveras eu pensasse com juízo nesta matéria, ser-me-ia imediatamente óbvio que as letras das músicas são maioritariamente feitas para agradar a audiências e a editoras musicais.

No entanto, hoje não estou para aí virado. Hoje prefiro ser melancólico.

Não posso dizer que conheça muito o trabalho de Bruce Springsteen, simplesmente nunca me atraiu, apesar das atenções que a simples menção do seu nome gera. Dito isso, só o costumo ouvir na rádio, e aí não será necessariamente por escolha minha. A música dele que mais vezes passa é certamente a Dancing in the Dark, que durante tanto tempo pensei que era uma música de dança.

No outro dia estava a conduzir sozinho e a música lá tocou. Desta vez, no entanto, prestei um bocado mais de atenção à letra. O Bruce tem aquela voz mítica de roqueiro e às vezes é dificílimo perceber o que ele diz, mas mesmo assim consegui perceber uma ou outra palavra, que foi o suficiente para me intrigar e pesquisar.

Depois de ler a letra, comecei a perceber que o ritmo alegre da música esconde sentimentos um bocado mais profundos, resumidos no refrão:

"You can't start a fire, you can't start a fire without a spark..."

 

Esta é a história de um personagem que está completamente farto da sua vida e que não tem razão para se esforçar para nada. Não tem faísca alguma, como ele afirma. É óbvio que existe a implicação óbvia de que a faísca pode estar na forma de um mulher, mas prefiro acreditar que o significado real, se existir, é mais geral. Qualquer coisa podeser a faísca de viver. Algo que o motive a levantar-se e a sair de casa e fazer alguma coisa. Mesmo que seja apenas para dançar no escuro.

 

A certa altura, por estranho que pareça, ele refere um livro que presumivelmente o personagem está a tentar acabar. Pensei logo no Charles Bukowski e como o seu estilo de vida (ou o estilo de vida dos seus personagens) seguia coincidentemente a letra da música. Obviamente que não acredito que exista ligação consciente e propositada entre estes factos, foi só algo que me veio à cabeça.

O video mais famoso da música mostra um Bruce todo sorridente, mas prefiro acreditar que não era esse o seu estado de espírito aquando da escrita da letra. Como tal, vou partilhar um video do Youtube mais estático.

Seja como for, acho que vou passar a ter mais atenção às músicas do Chefe.

 

Bruce Springsteen, com Dancing in the Dark:

 

 

 

P.S.: Decidi parar de colocar o sufixo "Música:" no título destes textos semanais. É tão raro que eu fale realmente de música que não quero ludibriar algum conhecedor sério do tema  a carregar neste texto.

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publicado às 21:35


Música: Run Runaway

por Rei Bacalhau, em 09.10.16

Musicalmente falando, hoje estava-me a apetecer algo assim mais mexido, só que não tinha bem a certeza o que propôr. 

Percorria de um lado ao outro a minha lista de artistas favoritos à espera e à procura de uma ideia. 

"Ah, não, Iron Maiden acho que falo demasiadas vezes, Metallica não que senão o Lars ainda vem atrás de mim a pensar que estou a roubar a música dele, Black Sabbaths e tal também não que são demasiado dramáticos. Quero algo mais divertido, mas que seja uma rockalhada fixolas."

Sim, a minha mente pensa bastante coloquialmente, peço desculpa.

"Se calhar algum rock progressivo? Os Jethro Tull são folclóricos o suficiente, mas não me apetece, talvez para a semana. Os Queen acho que falei recentemente, e para além disso a música deles é imensamente conhecida. Sei lá... queria algo mais relativamente obscuro."

"Talvez uma banda de paródia. O Weird Al Yankovic (ou lá como se escreve o nome dele) é quase só paródias de temas conhecidos. Podia mandar uma dos Mamonas Assassinas, mas da última vez que os referi acho que fiz uma piada sobre o fim dramático deles e houve alguém que não gostou. Mesmo assim, gostaria de algo extravagante."

"Espera lá. Divertido? Rock? Relativamente obscuros? Extravagantes?"

Fez-se luz.

 

É óbvio que me lembrei dos Slade, pois se há banda extravagante no bom sentido, são eles. Contudo, não deixavam de ser compositores muito decentes, sendo que têm várias pérolas para todos os estados de espírito e épocas do ano.

Confesso que conheci inicialmente os Slade através de um videojogo. No Grand Theft Auto: Vice City, aclamadíssimo, umas das músicas que se pode ouvir é a Cum on Feel the Noize, de uma banda chamada Quiet Riot. Esta música era uma versão do tema dos Slade de nome igual ou muito semelhante. Digo semelhante porque os Slade gostavam de escrever erroneamente os títulos das suas músicas. O problema, assumo eu, é que às vezes poderia ser vergonhoso colocar a palavra "cum" em contextos menos apropriados, por isso não é pouco frequente que o título apareça como Come on Feel the Noize (reparem que "noise" continua mal escrito).

 

 

Seja como for, desde que me deparei com essa relação entre as bandas, ouvi posteriormente muito mais conteúdo dos Slade, e tornei-me fã, nem que seja pelo absurdo dos temas líricos e ainda mais das suas fatiotas, particularmente o guitarrista.

 

Acho que um vídeo que demonstra levemente a extravagância insana dos Slade é o que acompanha o tema Run Runaway, em que vemos um bocado de tudo, desde caretas infantis, manuseamento bárbaro e louco de instrumentos, observação constrangedora da câmara e um escocês a agitar um daqueles troncos que eles atiram por desporto.

Já mencionei que o vocalista se chama Noddy?

 

Run Runaway, dos Slade:

 

 

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publicado às 00:00


Música: Death on Two Legs

por Rei Bacalhau, em 02.10.16

Tive de ir à Segurança Social. Antecipando um fila brutal, sabia que iria gastar uma manhã inteira naquilo. Equipei-me com um livro e lá fui. Cheguei às 8:30. Apenas um outro homem estava lá. Imediatamente me pergunta se eu tinha marcação.
- É preciso?
- Eu acho que sim.
- Já não venho aqui há algum tempo, mas pensava que ainda funcionava pelo sistema de filas.
- Acho que isso agora mudou. Agora é só por marcação.
- Eish.. a sério? O senhor tem a certeza?
- Olha, certeza não, mas fica aí à espera até o segurança chegar e pergunta.
- Pois bem, parece-me que é isso que vou fazer, só para ter a certeza.
- Olha, eu já cá estou há onze dias.
"Mau, não devo ter ouvido bem."
Ele explicou-me que estava ali porque o seu chefe aparentemente devia-lhe dinheiro. Tive tendência imediata para acreditar inteiramente nas palavras do homem, já que a minha situação era parecida à dele.
- Eu tinha amizade com ele, mas só depois é que me apercebi que ele só me queria para lhe encher os bolsos de dinheiro. Eu montava elevadores para ele, e ele ganhava uns trocos com as falcatruas que fazia pelo lado. Ele e os associados roubavam dinheiro à mulher, que era a dona da empresa. E tenho provas! Se depender de mim, eles vão todos abaixo.
Obviamente o discurso não correu assim, não me consigo lembrar de tudo pormenorizadamente, mas quero pelo menos passar a ideia geral.
- Eu sou um gajo que trabalha com as mãos, não preciso cá de cursos e de papéis para trabalhar. - subitamente tira um pacote de tabaco de enrolar e de lá de dentro saca uma folha com uns esquemas de elevadores. - Eu há dois anos não percebia nada disto, e hoje já construí elevadores em sítio x e sítio y (não me lembro dos sítios que ele disse, mas falou em elevadores panorâmicos e tudo).
Fiz umas peguntas sobre os esquemas e ele explicou-me com uma eloquência superior à de qualquer professor que tive todas as dúvidas que eu lhe colocava.
- Mas desculpe lá, o senhor está aqui há onze dias? O que é que quis dizer com isso?
- Estou mesmo cá há esse tempo todo. Registei-me num daqueles sítios para os sem abrigo passarem a noite, mas fiquei lá apenas uma noite, eles davam-nos um cesto de roupa toda negra e suja, sabe-se lá quem é que já tinha vestido aquilo. Não haviam condições nenhumas. Meti-me num táxi, vim para aqui, nem paguei ao taxista, porque a culpa não é minha de estar assim.
- O taxista não deve ter ficado muito contente.
- Pois não, queria dar-me porrada, mas eu disse-lhe para ele falar com a Segurança Social, porque eu não podia pagar.
Era-me absolutamente impossível não acreditar neste personagem que parece inventado. Se algumas coisas poderiam ser exageradas, todas as dúvidas dissiparam-se quando ele me disse que tinha estado treze anos preso.
- Tive azar. - dizia ele.
Ninguém que confesse isso tão banalmente pode estar a mentir.

O homem, de meia idade, tinha uma cara profundamente sincera, marcada pelos seus erros de antigamente. Ele não tinha sido 100% honesto na sua vida anterior, mas lia-se nas suas feições um arrependimento enorme. Ele queria trabalhar, ele queria pôr a sua vida em ordem. Ele até nem se queria meter na vida dos filhos já crescidos dele para não os prejudicar.
Em toda a duração da conversa eu, horrível como sou, estava a pensar que ele me iria pedir dinheiro eventualmente. Nunca aconteceu. Parecia ser-lhe suficiente estar ali a conversar com ele, apesar de eu achar que eu beneficiei mais com a conversa do que ele.

Falou-me da sua carreira a consertar motos, falou-me de ter roubado máquinas de tabaco, comentou as pernas de uma senhora que ia a passar numa vespa, detalhou-me alguns dos projectos em que montou elevadores, denunciou-me as falcatruas dos seus empregadores e sócios, dizendo-me os nomes deles e das empresas, contou-me como um rapaz e uma rapariga o tinham entrevistado para um projecto da escola num daqueles 11 dias que lá esteve.

A conversa é interrompida pelo abrir da porta pelo segurança. Pegunto-lhe se é obrigatória marcação para todos os assuntos.
- Para todos os assuntos.
Agradeço. Volto ao meu excelente interlocutor, ambos sabendo que está na altura da despedida. Foi fraternalmente que apertámos as mãos e desejámos sorte mutualmente.

Fui-me embora, satisfeito, mesmo não tendo podido tratar da burrocracia que queria.

 


Nem me lembrei de lhe perguntar o nome.


O que é que isto tem a ver com música? Bom, absolutamente nada. Mas quando me dirigia a casa houve um ror de músicas que me passaram pela cabeça e nenhuma delas descrevia muito bem o episódio completo. Acabei por escolher a música dos Queen, Death on Two Legs, em homenagem a todos os trabalhadores que são vítimas da desonestidade consciente e inconsciente dos chefes.

 

 

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