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Empty Chairs

por Rei Bacalhau, em 29.01.17

A Música é algo muito poderoso.

Esta expressão, mesmo que demasiadamente utilizada em imensas variantes, irradia a sua verdade na vida de tantas pessoas que escolhem a música consoante vivem, ou vivem consoante a música que escolhem.

Há quem a use para alegria.

Há quem a use para tristeza.

Há quem a use para fúria e raiva.

Há quem a use para protesto contra os problemas relativos do mundo.

 

Todos querem passar uma mensagem. Todos têm algo a dizer. Alguns esquecem-se que a música também é para ser apreciada, na sua forma pura.

E então alguns, pelo contrário, valorizam a Música pelo que ela simboliza para eles, e integram todo o seu ser e todo o seu amor por ela no seu trabalho.

Aquele que chorou no dia em que a música morreu tornou-se o que homem algum se deveria jamais tornar.

 

Tornou-se gentil.

 

E é gentilmente que ele ama a Música. Com as suas palavras, com as suas notas e com a sua voz.

 

Don McLean, com Empty Chairs:

 

 

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Gorden Kaye (1941-2017)

por Rei Bacalhau, em 23.01.17

O Réne, do Allo Allo.

 

 

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publicado às 22:40


A Guerra - Epílogo: Veteran Of The Psychic Wars

por Rei Bacalhau, em 22.01.17

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- Bom dia, eu telefonei há bocado...
- Ah, sim, é para vir buscá-lo?.. Sim sim, já sei... O senhor é amigo ou é família?
- Sou um bocado de ambas as coisas, para ser sincero.

A assistente escoltou o homem pelos corredores tristes do hospital.

"Não, não morras, não tu também. Ajudem-no... por favor. Parem de disparar, ele está a morrer..."

- Como é que ele está?
- Sempre na mesma. Come pouco, mas come. Nunca fala, excepto às vezes quando está sozinho. Quase todos os veteranos aqui são mais ou menos assim, mas ele isola-se muito mais do que os outros.

"Matei mais um... tiro certeiro... vinha a subir a rua, armado em esperto... não... não está certo... ele não morreu... está no chão, agoniado... os colegas tentam arrastá-lo... Tu também... morto, já não ajudas ninguém..."

- Diga-me com franqueza: ele costuma chorar?
- Achamos que sim, pois a almofada dele costuma estar húmida.

"Oh não, não! Olhem, eles estão a bombardear Alvim! Chegámos tarde demais! Não pode ser, temos de fazer algo... Larga-me! Não!... Não!... Como é possível...?"

"Estão todos mortos."

- Mas ele nunca foi violento?
- Não, de todo, quem me dera que nesse aspecto todos fossem assim... Em dias bons ele até sorri à cozinheira no refeitório, diz-se.

"Morrerão todos. Prometi nunca mais matar alguém, mas morrerão todos. Arranjarei maneira"

- É já ali. Quer que o deixe sozinho?
- Sim, se fizer o favor, agradeço-lhe imenso.

"Ah, mas eu é que sou o calado. Eu é que sou o mariquinhas. Eles não sabem as coisas que fiz. Aqueles que matei. Aqueles que vi morrer. Porque é que não consigo deixar de os ver!? Como é que dizem que a Guerra acabou? Eu vivo-a todos os dias, uma e outra vez. O massacre de Carfes, o bombardeamento de Abrunhos, a derrota de Profal. Eu só quero retirar. Mandem-me para a retaguarda. Não quero viver naquele inferno. NESTE inferno. Ainda ontem ouvi dizer que a Guerra acabou há quatro anos. Como é possível!? A Guerra continua. Nunca acabou..."

A porta do quarto abriu-se. Os dois amigos trocaram um olhar longo. Não se viam há anos.

 

 

- Olá, Lucas.

 

 

"A Guerra continua. Nunca acabou."

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A Guerra - Parte 7: Wind of Change

por Rei Bacalhau, em 21.01.17

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A multidão olhava para a parada militar que marchava pela avenida principal da capital. Alguns efectivamente celebravam, não o facto de terem sido conquistados, mas o facto de a Guerra ter terminado.
Depois do desaparecimento da Milícia dos Oito, todos os esforços do Inimigo focaram-se nos pequenos focos de resistência na capital. A capitulação incondicional veio pouco depois.
Todos esperavam agora tempos melhores, como sempre se sucede num pós-guerra, e como nunca acontece. No entanto, naquele dia, a esperança era tudo aquilo a que as pessoas poderiam realisticamente agarrar-se.

- Pelo menos, - comentava-se. - a Guerra já acabou...

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A Guerra - Parte 6: For Whom The Bell Tolls

por Rei Bacalhau, em 20.01.17

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O soldado Hugo Garcia disparou uma rajada. Estava sob o flanco da barricada inimiga. Os milicianos caíram, contorcendo-se de dor. Tomou posição enquanto esperava que os seus camaradas subissem. Aproximavam-se do objectivo final. Daí a duas ruas estariam no quartel-general da Milícia dos Oito.
O exército já sitiava aquela colina íngreme há meses, e os milicianos repeliram sempre os ataques. Dizia-se que havia um traidor nos milicianos, e finalmente conseguiram trazer a artilharia pesada necessária para destruir de vez as defesas milicianas.
Era uma zona urbana de edifícios feios de vários andares, construída sobre a colina mais alta da cidade de Profal. Não foi coincidência que a Milícia dos Oito tenha escolhido aquele local para uma última defesa do seu país.
Na prática, aquele era o último grande reduto que o Exército teria de tomar para declarar vitória total.

Hugo estava sob fogo pesado de uma metralhadora ligeira, montada numa varanda. Dois camaradas morreram ao tentar atingir abrigo.

- Precisamos de fogo naquele edifício! A artilharia!?

Nesse mesmo instante, a varanda explodiu quase como uma resposta, lançando entulho em todas as direcções.
Um esquadrão do outro lado da rua aproveitou e lançou-se ao ataque, com o objectivo de penetrar um edifício.
Um deles foi imediatamente morto por um tiro de origem desconhecida.

- Atirador! Não! Fiquem!

Não ouviram, e mais dois morreram antes que se apercebessem do perigo.
Reforços chegaram da retaguarda. Parecia que uma divisão inteira chegara para aniquilar a Milícia. Um blindado de transporte rugiu rua acima, almejando avançar a frente mais uns metros, perante os festejos de alguns soldados.
Passou mesmo ao lado de Hugo e chegou a um cruzamento uns trinta metros à frente. Explodiu e foi projectado para a esquerda, tombando-o.

- Um tanque!? Tanque! Eles têm um tanque!

O colosso surgiu de uma rua à direita. Disparou novamente e atingiu alguns reforços recém chegados. Hugo e os seus camaradas retiraram, adivinhando que a barricada onde estavam abrigados seria a próxima.
No entanto, o tanque rolou para cima e ignorou os combatentes restantes.

- Como é que eles têm um tanque!? Nem nós temos! Manda vir armas anti-tanque, senão não avançamos.

Novas explosões abalaram o chão. A artilharia continuou a bombardear a zona de guerra.
Os intrépidos soldados avançaram de novo, subindo penosamente e escalando novas camadas de tijolo e cimento partido.
Os milicianos aparentavam ter retirado dali completamente. Era estranho tendo em conta a resistência feroz que tinha apresentado até agora.

Imensas explosões incineraram vários soldados. Hugo foi projectado para a frente contra uma árvore chamuscada.
Quando acordou, viu muitos camaradas ainda a arder. Não tinha sido fogo de artilaria. Os milicianos tinham armadilhado os próprios prédios para explodir quando quisessem.
A nuvem de poeira permitia ver pouco, mas Hugo, agora sozinho, sentiu uma presença ao pé dele.
Um homem observava o espectáculo obsceno. Tinha cabelo preto e era pálido. Estava armado. Era certamente um miliciano, mas parecia ignorar a presença de Hugo mesmo ali ao lado dele. De repente, ele murmura para o ar algo na sua língua, que Hugo não compreendeu bem. Ele olhou inesperadamente com os seus olhos profundamente azuis para Hugo e sorriu-lhe. Voltou lentamente para cima e desapareceu.

- Hugo, estás bem?... - perguntou um camarada surpreendido por o ver, pouco depois. - Ele está vivo!.. Sim! Estás ferido?
- Não, estou só um bocado atordoado.
- Eu chamo o paramédico.
- Não, estou em condições de continuar. Vamos.

Levantou-se, auxiliado pelo colega, e continuaram a subida, onde os milicianos já haviam começado a resistir de novo.
Ao longo da manhã inteira centenas de homens perderam a vida a tentar tomar uma colina rodeada de todos os lados. Os milicianos não eram muitos, mas estavam sublimemente fortificados, apesar de todo o bombardeamento de que tinham sido alvo. As pressões das chefias militares para conquistar o reduto a todo o custo implicava menor cautela por parte dos atacantes.

Chegaram agora à última rua do bairro. Era um conjunto de vivendas charmosas, algumas das quais não tinham sido atingidas por milagre. No topo desta rua estava o quartel-general.

- Olha, disseram que capturaram um dos Oito!
- Caralho! Finalmente! E os outros? Será que ainda andam por aí?
- Se estiverem nalgum sítio, tem de ser lá em cima.

Os corajosos soldados subiram rua acima, lidando com atiradores em todas as varandas e janelas.
Um imenso tiroteio veio de uma vivenda com uma garagem.

- É o paiol deles! Está lá um dos Oito!
- Está lá apenas um? Avancemos então, que a vitória está próxima.

Hugo olhou de soslaio. Viu de relance a cabeça calva de um miliciano no fundo da garagem feita paiol. Viu-o escapar-se por uma porta traseira.

Os soldados penetravam com dificuldade as defesas dos milicianos. Hugo já vira vários inimigos mais do que uma vez, progressivamente mais ensanguetados e feridos, mas ainda a lutar, correndo em desespero por manter a linha defensiva.
Hugo viu pela primeira vez a vivenda que servia de quartel-general. O tanque estava estacionado à frente. Observou dois homens a abraçar-se. Um deles entrou no tanque, e o outro foi para dentro da vivenda.
O tanque rugiu de novo. Começou a sua marcha e lançou-se em direcção aos atacantes, sem disparar. Hugo afastou-se, mas alguns camaradas foram esmagados pelo colosso relativamente veloz.

Hugo disparou alguns tiros na direcção de um miliciano que corria, matando-o. Um outro foi acorrê-lo, mas começou a chorar quando viu que estava morto. Foi morto à queima roupa pouco depois por um soldado que se aproximara.
O tiroteio naquela rua parou. Os soldados puderam aproximar-se do seu objectivo. No topo da colina estavam aglomerados os feridos e mortos dos milicianos, muitos deles no chão em cima de roupas a servirem de camas. Não conseguiam resistir mais.
Os soldados vasculharam os feridos por todo o tipo de armas e objectos pessoais. Um dos feridos resistiu quando um soldado lhe puxou um fio de ouro.

Um tiro inesperado matou certeiramente o soldado. Viera do quartel-general.

- Ainda lá está alguém! Vamos, lá para dentro.

Arrombaram a porta e foram cumprimentados por fogo de metralhadora. Tiveram de lutar pela vivenda apertada tão ou mais ferozmente do que os combates anteriores. Era verdadeiramente o tudo por tudo fanático dos milicianos.
Apesar de tudo, o interior em nada se assemelhava a um edifício militar, pois estava decorado como se ainda fosse uma casa normal e habitável.
Hugo liderou a incursão ao segundo andar da vivenda. Ouviu vozes na língua inimiga. Depois, silêncio.

Um corredor percorria o segundo andar. Hugo mandou cada camarada seu investigar um quarto. Ele ficaria com o último ao fundo.
Era um escritório, estava bem iluminado. À janela um homem observava calmamente a cena lá fora. Tinha um machado de lenha na sua mão esquerda. À direita uma carabina encostada à parede.

- Suponho que haveis ganhado, não é verdade? - começou ele na língua de Hugo, não obstante um ligeiro sotaque. - Muito sangue correu por esta colina, e por todas as colinas do meu país. Aguentámos o máximo possível. Só espero que tenha valido a pena. Virou-se e sentou-se numa cadeira. Ele próprio estava cheio de feridas e a roupa estava imunda e esfarrapada. Olhou para um mapa em cima da mesa e esticou-se para mexer uma das peças de Monopólio que estava em cima.
Olhou para o soldado à sua frente, ao qual já se tinham juntado mais colegas.
- Olha para ti, soldado. Quantos mais de vocês e de nós morrerão porque alguma mente convencida de que é superior vos mandou vir aqui matar e morrer? Em verdade me dirias, eu não sou muito diferente, mas eu luto também. Todos os dias arrisquei a minha pele para comandar as minhas tropas. Agora não tenho tropas. Não tenho os Oito. Resta apenas o Chefe. Aviso desde já que gastei o meu último tiro no teu companheiro lá fora que tentava roubar o fio do João Sousa. No entanto, este machado não é estranho a matar.
Fez uma paragem breve.
- Mas se calhar já chega. Deveis saber que as casas estão cheias de explosivos prontos a rebentar. Vou fazê-lo daqui a meia hora. Deve-vos dar tempo suficiente para escapar. Se fordes misericordiosos, levai também os meus feridos. Ah! Quase me esquecia.
Pegou num molho de chaves e mandou-as para Hugo.
- Naquela casa em frente estão os prisioneiros, vossos camaradas. Alguns já lá estão há vários meses. Se eu vir que tendes dificuldade em retirá-los todos, eu adiarei as explosões o tempo que for minimamente necessário.
Hugo deu as chaves a outro soldado, que foi imediatamente a correr para libertar os prisioneiros.
Começaram-se a ouvir sinos a tocar. Eram da igreja matriz de Profal.
- Ah, excelente, o Orlando já lá chegou. Os meus milicianos sabem que este é o toque de rendição. Não tereis mais problemas.

- Pessoal, vão-se embora. - ordenou Hugo. - Eu fico aqui com ele. Vão ajudar os outros. Levem os feridos deles que puderem.

Os soldados entreolharam-se e tentaram convencê-lo a não ficar sozinho, mas Hugo insistiu. Aquiesceram e foram-se embora.

- Os teus camaradas respeitam-te. Como te chamas, soldado?
- Hugo Garcia.

O Chefe arqueou os olhos em surpresa.
- O Hugo Garcia? O lendário soldado? Ah, sinto-me honrado, verdadeiramente é raro poder conhecer um inimigo tão famoso. Posso-lhe apertar a mão?
- Não.
- Pois bem, compreendo, compreendo. Mesmo assim, quem diria que esta Guerra terminaria com dois dos personagens mais famosos a encontrar-se por acaso? Ou talvez não tenha sido acaso?
- Foi uma coincidência total. Eu devia ter ido atacar a capital mas mandaram-me para aqui à última da hora.
- Pois claro, deveras.

Os prisioneiros e os feridos não tinham sido todos evacuados quando quase todos os edifícios ruiram com as implosões com que estavam armadilhados. O quartel-general não explodiu, mas ardeu completamente, ficando apenas o esqueleto sólido da vivenda. Hugo Garcia nunca chegou a sair do edifício.

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A Guerra - Parte 5: Set The World Afire

por Rei Bacalhau, em 19.01.17

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- Chefe, está tudo pronto.
O homem pegou num martelo que estava em cima da mesa. A casa onde estava tinha uma excelente vista para a cidade.

Chamavam a este homem o Prego. Era o miliciano mais temido pelo Inimigo, especialmente porque ele tinha o hábito de atravessar a fronteira e causar destruição cega no território deles. Tinha um grupo enorme de milicianos fanáticos que o seguiam para as missões mais arriscadas.

Nunca alguma tinha sido tão insana como esta. Levou-lhes vários meses de preparação, mas agora estava tudo pronto.

O Sol nasceu.

O Prego nada disse. Entrou num carro e circulou calmamente para o centro da cidade, cidade essa que era a capital do Inimigo. Ouviu uma música alegre na rádio e começou a cantar, exortando os seus companheiros a acompanhá-lo.

Pararam à frente de um edifício com um gradeamento a toda à volta. Era uma escola. O contínuo que cumprimentava os jovens que iam entrando estranhou a paragem do carro. Saíram de lá cinco homens. Estavam fortemente armados. Antes que pudesse dar o alarme já estava encostado contra a grade, pintada agora de vermelho.

O Prego fez uma chamada no telemóvel.

Explosões imensas ouviram-se pela cidade fora. A Milícia do Prego estava à solta no que sabiam ser essencialmente uma missão suicida. Bombas incendiárias detonaram-se nas estações de metro e comboio, hospitais, estações de polícias e de bombeiros, escolas, centros comerciais e qualquer outro sítio que tivesse grande afluência de civis.

Os milicianos tinham passado a noite inteira a matar polícias nas suas casas. Muitos concentravam-se em demolir as esquadras deles para minimizar a resistência imediata.

O pânico era geral. Os cidadãos inocentes tentavam escapulir-se daqueles homens insanos e terríveis que estavam a incendiar tudo à sua passagem.

A capital nunca tinha sido alvo directo na Guerra. Talvez compreendessem agora o que o próprio exército deles estava a fazer ao país que tinham invadido.

- Matem tudo. Queimem tudo. Sem discriminação.

Os milicianos disparavam contra tudo o que se mexesse, inclusive animais. Demoliam edifícios inteiros, quase todos irrelevantes em termos de importância estratégica. Quebraram todas as convenções quando invadiram hospitais cheios de feridos e lançavam granadas para os quartos e corredores apinhados de feridos e doentes indefesos.

Ao longo do dia, a resistência inimiga foi-se organizando. Tentavam proteger a evacuação de civis e aglomeraram-se em pontos estratégicos para este efeito.

- Estou? - berrou o Prego quando o telemóvel tocou. - Fala mais alto!... Sim!... Está bem, dêem-lhes, força! - desligou a chamada e virou-se para os que o acompanhavam, agora apenas dois. - Ponham as máscaras.

Pegaram em granadas de fumo e lançaram-nas para todo o lado, especialmente, se possível, para os aglomerados do Inimigo. O fumo, aparentemente inofensivo, tinha na realidade agentes químicos poderossíssimos e letais para quem os respirasse.

- Estes são os gases que vocês usaram contra nós! Isto é pelo massacre de Carfes, Almujoz e de Vila Xicho! Respirem e morram! Sintam-se a arder por dentro!

A população e os soldados atacados não tinham protecção contra os gases. Alguns milicianos também foram apanhados, pois nem eles sabiam que o Prego iria lançar aquela nuvem mortal.

Centenas e milhares morreram, pois as nuvens propagavam-se rapidamente pela cidade ventosa.

A força militar do Prego era impressionante para uma milícia. Dizia-se que tinha mais de mil homens, sem contar com outros grupos separados que se juntaram à luta nas imediações da capital.

Mesmo assim, a meio da tarde chegaram os reforços Inimigos em peso, e retomaram à força as partes controladas pela milícia. Um a um, os milicianos caiam, alguns deles a explodir consigo próprios.

Pouquíssimos milicianos sobreviveram ao ataque e ainda menos conseguiram escapar.

O final da Guerra aproximava-se. As milícias haviam feito o seu trabalho o melhor que podiam. Apenas restava o sentimento de vingança cega, louca e indiscriminada. Não seria sem cicatrizes que eles ganhariam a Guerra.

E verdadeiramente não foi. A capital Inimiga ardia e fedia a morte.

Nunca encontraram o corpo do Prego.

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A Guerra - Parte 4: Brothers In Arms

por Rei Bacalhau, em 18.01.17

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- Vem aí alguém, baixem-se!
Os três combatentes, por falta de melhor termo para os descrever, colaram-se à terra lamacenta entre uns arbustos e apontaram as carabinas, esperando pelos vultos que percorriam o bosque.
A batalha, se assim se pudesse chamar, tinha sido um fracasso autêntico. A superioridade militar do Inimigo era demasiadamente avassaladora para tropas sem treino algum poderem suportar. Tinham visto o inimigo penetrar nas linhas defensivas em ambos os flancos. Apesar de esta espécie de esquadrão improvisado ter repelido vários ataques, mesmo com uma brutal inferioridade táctica, a nova chuva de artilharia convenceu-os completamente a fugir.
- Acham que pode ser o Hélder? Às tantas eles não ficou para trás.
- Não, é mais que um gajo. Só se o Hélder tiver encontrado mais dos nossos.
- Pá, esperemos...

Quatro homens aproximavam-se depressa, ziguezagueando pelos pinheiros, alguns destes a fumegar depois de serem atingidos por obuses.

- São dos nossos.
- Olha lá, eu conheço aquele gajo.
- Ya, é o sargento de Abrunhos! Pensei que tivesse batido a bota também. 'Bora chamar a atenção, ele saberá o que fazer.
- Cuidado, ouçam lá, eles devem estar prontos a disparar. Vamos ordenar que eles parem sob ameaça de fogo, senão somos nós que levamos um balázio.

- ALTO!
- PARADOS! QUIETOS, CARALHO!
- ARMAS NO CHÃO!

Apanhados de surpresa, apenas o Sargento não acuidiu imediatamente, mas perante as circunstâncias, decidiu pousar a arma também.
- Desculpem pessoal, não podíamos arriscar que nos dessem um tiro por instinto.
- Foda-se, mas vocês são deficientes mentais ou quê, caralho!?
- Desculpe sargento, mas achámos que era o melhor, porque nós sabíamos que vocês eram dos nossos, mas o conhecimento não era necessariamente recíproco.
- Vai p'ó caralho com esse palavreado. Donde vieram?
- Tínhamos um buraco nosso naquela direcção, mas os cabrões foderam-nos de todos os lados e tivemos de bazar. Ficou lá um camarada nosso, não sei se se safou.
- 'Pera lá, então eles já passaram completamente pela linha de defesa toda?
- Já devem estar do outro lado do bosque.
- Ah, caralho, então daqui a nada enchem este bosque de gente à procura de prisioneiros... Ok, ouçam, reúnam-se aqui... Deixem-me pensar... É assim, se calhar há ainda alguns companheiros nossos espalhados pelo campo na mesma situação que nós. Apanhados assim isolados vão-se todos com os porcos. Vamos tentar procurar mais sobreviventes.
- Então, podemos começar pelo Hélder.
- Quem?
- O nosso colega que ficou para trás.
- Presença inimiga? Era muito elevada?
- Não sei, bazámos quando nos começaram a bombardear, porque vimos outros buracos a serem acertados em cheio.
- 'Tá bem. Estamos aqui sete. Vocês os três são leitinhos, né? Já viram alguma acção antes de hoje?
- Nós estivemos consigo em Abrunhos, por isso é que o reconhecemos.
O sargento hesitou durante uns momentos.
- Mas... mas quase ninguém sobreviveu, e os que sobreviveram vieram comigo.
- Eu e aqui o Lucas ficámos na linha defensiva, andámos a empatar os gajos durante uma data de tempo.
- Mas isso... eram vocês? Só vocês os dois? Foda-se! Bom, falamos depois, mas bem vistas as coisas já são quase veteranos vocês. Nomes? Ah, tu és Lucas, e tu, ó preto?
- Adérito, Sargento.
- Duarte.
- Eh, c'um caralho, acabámos de perder um Duarte há bocado, levou com um morteiro.
- Perderemos mais um se nos mantivermos aqui.
- É, 'bora.

Seguiram os sete de volta para o campo de batalha, num movimento táctico que tinha tanto de inesperado como tinha de louco.
O Sargento seguiu junto a Duarte.
- Ainda por cima voltámos para trás para ir buscar o outro Duarte...
- Ah, então não é o primeiro salvamento do dia? A ver se este corre melhor.
- Precisamos de todos os irmãos que conseguirmos.
- Como?...
- Nada, olha em frente, vá.

O esquadrão aproximou-se cautelosamente das trincheiras devastadas e abandonadas. Pequenas plantas fumegavam e ardiam depois da chuva infernal de que tinham sido alvo.
O sargento investigou as redondezas com os binóculos. Encontrou dois soldados inimigos a vasculhar as trincheiras à esquerda. À direita outros três soldados pareciam estar a conversar.
- Vamos silenciosamente para a esquerda donde vocês vieram. Estão ali dois gajos, mas acho que eles virão nesta direcção.
Efectivamente assim foi. Os dois soldados procuravam sobreviventes. O sargento ordenou que todos se mantivessem quietos.
O sargento reparou que, apesar da sua ordem, Duarte e Lucas estavam a apontar para o Inimigo. Não teve tempo para lhes perguntar a razão, pois viu-a imediatamente.
- Olha, está aqui um! - disse um deles na sua língua.
Arrastaram um magala do meio da lama. Os soldados riam-se alegremente e começaram a despi-lo.
- Foda-se, mas que raio?
Perceberam que se tratava de uma soldada. Estava ferida num braço e não se conseguia soltar.
Um dos soldados lançou-a ao chão e colocou-se em cima dela. O outro observava, ansiando pela sua vez.
- Duarte, Lucas, conseguem?
- Sim.
- Pessoal, quando eles dipararem, vejam os flancos, certamente vai atrair a atenção de reforços. Matem o que está em pé em primeiro. Fogo!

Dois estalos secos rugiram pelo bosque. Um dos soldados caiu imediatamente. O outro levantou-se, ainda erecto. Pôde apenas levantar as mãos ao ver o grupo de combatentes a dirigir-se a ele de armas apontadas. Foi imediatamente morto pela soldada que tentara violar com um tiro de pistola.
- Vocês os três, direita. Os restantes, esquerda! Vá!
Ajudou a soldada a levantar-se.
- Tens mais tomates que estes conas. Deixa-me ver esse braço.... Foda-se... Consegues andar? Como é que te chamas?
- Sim, consigo andar, sargento. Teresa Sizifredo.
- Foda-se, vou-te chamar Teresa e pronto.
- Sargento, eles vêm aí, da esquerda!
- Caralho. Pá, o vosso amigo já deve ter ido com os porcos.
- Que fazemos Sargento? - perguntou Duarte. - Estamos rodeados de dois lados, e voltar para o bosque é arriscado pois podemos ficar completamente cercados.
O sargento pensou durante uns momentos.
- Acho que precisamos de mudar um bocado a nossa estratégia. Aquela artilharia deu completamente cabo de nós. Podemos ir em direcção delas. É a última coisa que eles esperam.
- E deixamos o Exército para trás?
- Foda-se, o Exército está-se a cagar para nós. 'Tou a ver que se queremos ganhar alguma coisa temos de se nós a decidir e a agir de forma autónoma.
- Uma milícia, então?
- Ya, porque não? Quem quiser seguir-me, fixe. A verdade é que se conseguirmos danificar a aritlharia deles, estaremos a salvar muitos irmãos nossos na linha da frente.

Todos concordaram, ou por desejo ou por não terem outra opção.

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A Guerra - Parte 3: Afraid To Shoot Strangers

por Rei Bacalhau, em 17.01.17

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O dia está quase a raiar. Diz-se que o ataque vai começar assim que houver luz. Já fomos bombardeados. As poucas defesas que tínhamos foram praticamente destruídas. Estamos agora escondidos no meio dos escombros, camuflados com o pó que a destruição levantou. Fizemos o máximo para manter as armas limpas. Queremos ir embora, mas o sargento, que é a única coisa semelhante a um oficial que nos resta, diz que estamos a defender a retirada dos feridos.
Acredito nele. A verdade é que houve imensos. Felizmente não atingiram a clínica onde improvisaram um hospital de campanha. Nem sei se os médicos ainda lá estão. Porque é que haveriam de estar?
Nenhum de nós deveria estar aqui nestas circunstâncias. Eu deveria estar a estudar para os exames que começariam daqui a nada. Mais umas semanas e dezenas de colegas meus seriam lançados para as mesas das salas de teste e pensariam que não poderiam ser mais miseráveis ao ver que iriam chumbar. "Ele nunca deu aquilo na aula!", diriam eles.
Tenho quase a certeza que um terço deles fugiu do país, outro terço já morreu e os restantes estão na mesma situação que eu.
Não tenho medo. Sempre fui muito racional e prático. Por essa mesma razão não fujo, pois sei que muitas mais vidas que só a minha estão em jogo. Eu morro para que outros possam viver. Consigo imaginar poucas maneiras mais honradas de partir, apesar de o conceito de honra ser fundamentalmente estúpido.
He he... Já me estou a contrariar e tudo.
Repito, não tenho medo. Não medo de morrer, pelo menos. Já estou habituado à ideia. Ou julgo que sim. Nunca alguém realmente está.
O problema é que nunca disparei esta espingarda. Disparei uns tiros no único dia de treino que tive, e até disseram que eu tenho boa pontaria. Mas disparei contra pedras.
Se daqui a uns minutos aparecer ali à frente uma cabeça menos amigável, terei coragem de disparar?
Matar ou ferir uma pessoa? Em que raio é que me meti? Em que raio é que me meteram?
Já racionalizei que vou apontar para as pernas. De uma forma ou doutra, a probabilidade do homem sobreviver é maior. Eles devem ter melhores condições médicas do que nós. Se calhar até vai passar o Natal a casa.

O Sol raiou.

Já ouço os morteiros. Estão a aproximar-se. As explosões sucedem-se a toda a minha volta. Não olho, mas sei que estão todos a fugir. Eu estou parado. Protejo a minha espingarda do caos de partículas viajantes que me rodeiam.

Silêncio, finalmente.

Olho em volta. Não vejo nenhum dos meus companheiros. Estou sozinho, coberto de entulho solto. Preparo a espingarda e espero.

Ao longe noto o reflexo de uns binóculos. Vejo-os finalmente a surgir cautelosamente pelas árvores. Aponto a minha arma muito devagar. Tenho aquele homem na mira. Tem a perda direita à mostra. Vou disparar.

 

 

Mas não consigo. Vi-lhe a cara. Tem tanto medo quanto eu. Tem o mesmo olhar que eu imagino que eu tenho.

 

 

Viro a minha espingarda para trás. Escondendo-a debaixo do entulho para esconder o fumo. Primo o gatilho. O barulho ensurdecedor teve o efeito desejado. O inimigo atirou-se ao chão e estacou. O reflexo dos binóculos voltou a fulminar-me. Estão à minha procura.
Passaram uns bons cinco minutos antes de qualquer movimento. Um soldado arrisca sair do seu esconderijo atrás de um muro. Disparo para o nada outra vez. Ele tropeça e volta desastradamente para o seu abrigo. Abrem fogo em vários pontos, tentado incitar uma resposta e avançam um bocado. Disparo outra vez. Ouve-se um outro tiro isolado. Terei ainda um colega vivo aqui?
A artilharia pesada volta a entrar em acção, parecendo focar-se num local longínquo à minha direita. O meu colega deve-se ter revelado com o seu tiro.
Nisto tudo já gastámos uma bela hora da ofensiva deles. Ainda não passaram pela linha defensiva que construímos, não que reste muito dela num estado visível.
Já há muito notei que me borrei nas calças, mas não me posso mexer. Tendo tudo em conta, é apenas um ligeiro inconveniente em comparação.
Eles avançam de novo. Desta vez deixo-os avançar um bom bocado, para lhes dar confiança.
Já estão muito próximos. Já os ouço a falar.
Disparo outra vez para o meio do entulho. Não sei se se aperceberam finalmente da direcção sonora do meu tiro, mas algumas balas foram disparadas contra a minha posição. Nenhuma me acertou.
Decidi que já tinha feito a minha parte. Vou agora deixá-los passar tranquilamente. Certamente os feridos mais graves ou já morreram ou já estão em condições de ser transportados.
Pouco a pouco, fui-me enterrando vivo com o entulho à minha volta.
Passaram alguns soldados ao pé de mim, mas ou não me conseguiram ver ou decidiram ignorar o que seria certamente um cadáver.
Durante várias horas via camiões e soldados a passar. Até vi alguns repórteres de guerra a tirar fotografias a tudo. Ouvi algumas curtas escaramuças, mas a cidade caiu sem grande resistência.

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A Guerra - Parte 2: In The Army Now

por Rei Bacalhau, em 16.01.17

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O camião parou mesmo à sua frente.
- Há espaço para mais um!
- Eu vou, 'perem lá!
João subiu para o camião, onde encontrou vários olhares cansados e apáticos. Teve de ficar de pé. O camião seguiu viagem para a frente de combate. O Inimigo finalmente contornara Forte Verde depois de duas semanas de combates ferozes nas redondezas que impuseram um impasse. Iriam agora atacar Abrunhos e Alvim, numa tentativa de cercar Forte Verde para uma conquista posterior.
- Para onde vamos? - perguntou a um magala também em pé.
- Abrunhos, mas vamos pela nacional, que a auto-estrada foi já com o caralho.
- Forte Verde ainda aguenta?
- Dizem que sim.

Depois de uns instantes, João perguntou algo hesitantemente:
- Quem é o oficial?
- Olha, outro... Não há cá nenhum.
- Mas mandaram-me perguntar assim que arranjasse transporte.
- Não há oficiais. Estão todos ocupados, mesmo os que estavam na reserva. Dizem que só quando chegarmos é que teremos ordens.

O camião parou depois de muitos quilómetros numa aldeia transformada em base militar. O caos era total. Os soldados arrumavam coisas para dentro de transportes. João conseguiu ouvir parte da conversa entre o motorista e o soldado.
- ... para Abrunhos? Aquilo 'tá complicado lá para cima...
...
- Não, não temos, estão todos a evacuar para um local na retaguarda. Se eles passarem na boa por Abrunhos estarão cá depois de amanhã, no mínimo.

Arrancaram outra vez. Ao saírem da aldeia foram ovacionados por um conjunto de soldados, que se desataram a rir logo de seguida.
- Gandas heróis! Sim senhor! Agora estão no Exército!
João não compreendeu.
- Não percebes, n'é? Temos ouvido isto desde que o camião começou a andar. Como nós só temos praí uma semana de treino eles chamam-nos heróis.
- Porquê?
- Porque vamos morrer em vez deles, foda-se. - respondeu outro.
- Eu já lhes digo então, ameaçou João.

Uns quilómetros à frente passam por um esquadrão a pé que ia na direcção contrária.
- Ah, gandas heróis!
João destravou a carabina e disparou um tiro para o chão, assustando todos. Os soldados atiraram-se imediatamente para o chão. Os magalas no camião explodiram de riso.
- Vão p'ó caralho!

Pouco depois começou-se a ouvir um barulho grave ao longe.
- Eles bem davam trovoada no boletim.
Ninguém respondeu, pois todos sabiam que não era trovoada. O que falou empalideceu quando se apercebeu do seu erro.

Colunas de fumo começavam a ser distinguíveis no horizonte.
- Será Abrunhos?
- Não, não é, Abrunhos é mais perto, devemos conseguir ver depois daquela curva. Depois daquele monte deve-se ver.
- És daqui da zona?
- Mais ou menos, a terra da minha mãe é aqui ao pé.
Deveras, Abrunhos revelou-se, mas pequenos sinais de conflito estavam muito mais próximos do que os magalas pensavam.

Mesmo antes de o motor terminar o seu roncar variável mas incessante já se ouviam os sons de batalha. Explosões vibravam no ar, rachando os poucos vidros que ainda iam sobrevivendo à cacofonia mortal. Estalos secos ouviam-se em rajadas ou individualmente.
- Vá, é descer, caralho!
Os soldados saltaram das traseiras do camião reticentemente, não sabendo o que fazer. Não tinham ordens. Não havia comitiva de boas-vindas alguma. Quando o último infeliz desceu e descarregaram os caixotes de munições e provisões, o camião arrancou imediatamente, não esperando por instruções.

- E agora?
- Não há cá nenhum oficial?
- Não há cá ninguém?
- Vai ali àquele café, a ver se 'tá lá alguém.
- Foda-se, olha aquela explosão.
- Já 'tão quase a chegar à cidade.
- Não 'tava lá ninguém. Não há cá ninguém.
- Chama-lhes burros...

João abre o caixote de munições e equipa-se com uma parte delas, não sabendo ao certo quantas deveria levar.
- Olhem, eu vejo porrada ali e é para lá que eu vou. Alguém quer vir?
A pergunta foi interrompida por um conjunto de berros. Um soldado vinha em direcção deles acompanhado de outros dois mais atrás.
- Que caralho estão a fazer aqui!?
- Não sabemos, largaram-nos aqui.
- Chegaram quando?
- Há coisa de vinte minutos.
- Não está aqui ninguém para vos receber!? Foda-se, mas onde é que está o Major? Ele e a malta dele estavam aqui todos!
Os recém-chegados não souberam responder.
- Caralho! Foda-se! Malta, peguem em munições e sigam-me... Alguém aqui tem treino?
Nenhum respondeu que sim.
- Oh caralho, mais novatos... Olhem, isto aqui no ombro quer dizer que sou um sargento, estão a ver? Já dispararam alguma vez?
Fez a pergunta como se já fosse banal, tão habituado estava a receber soldados de leite.
Efectivamente já tinham disparado a arma e supostamente aprenderam a limpá-la. Na prática só o fizeram uma vez, sem a disciplina que tais actividades normalmente implica.
O sargento voltou-se para os soldados que o seguiam.
- Leva estes aqui para o prédio amarelo. Tenta distribuí-los pelo pessoal mais experiente. Tu, mesma coisa, mas leva aqueles ali, senão daqui a nada escapam-se. Vais para a clínica. Ei! Vocês. 'Bora! Comigo! Vamos para a ponte. Vá, toca a pegar me munições.

O sargento olhou para João com um olhar ameaçador.
- És surdo, caralho!?
- Já tenho tudo, já lá fui buscar há bocado antes de você chegar.
O sargento arrastou-o e pô-lo à parte.
- Vens comigo, ouviste? Ao menos não és como os outros conas. Sabes seguir ordens?
- Sim, senhor.
- Mantém-te comigo, ouviste? Faz exactamente o que eu te disser. Põe todas as munições que restarem naquela mochila.

O grupo que ficou com o sargento correu até à exaustão até percorrerem a cidade de uma ponta à outra.
Chegaram a uma ponte sobre um pequeno rio. Outros soldados estavam ocupados a barricar e fortificar a estrada e as janelas dos edifícios circundantes. Pouco interesse deram à chegada de reforços.

- Eles vão atacar amanhã...

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A Guerra - Parte 1: War Pigs

por Rei Bacalhau, em 15.01.17

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- Estamos então combinados, não é verdade, meus senhores?
- Creio que sim.
- Assim é.
- Deveras.
- Recapitulemos, nestas coisas nunca é demais.

- Pois bem, a 1 de Dezembro de 2015, de hoje a uma semana, à 1:30, os aviões partirão em direcção à capital. Nesse preciso instante cada um de nós liderará o seu exército. Tu entras pelo Norte e tens como objetivos principais estes pontos estratégicos aqui. Para este aqui é melhor usar os regimentos de montanha. Não vais ter suporte operacional, não se espera grande resistência aqui. Tu penetras pelo Sudeste e partes a todo vapor para os poços de petróleo. Tendo em conta a importância da tua missão, vais ter a grande parte das divisões motorizadas e blindadas. Vais ter todo o apoio possível, não em prevenção contra o exército deles, mas contra uma possível acção policial por parte de outra superpotência. Tu, preparas a acção anfíbia pela costa nestas praias mesmo ao pé da capital. É teu objectivo mantê-los ocupados indefinidamente.
- E apoio operacional?
- Só por parte da armada, e mesmo assim não é grande coisa, admito.
- Epá... eu tenho-me mantido calado quanto a isso, mas tenho mesmo de dizer... Como é que num raio é que vou mantê-los ocupados sem apoio nenhum? Parece uma missão suicida.
- Foda-se, o nossos relatórios dizem que a preparação e capacidade deles para resistir é praticamente nula. Eles têm forças posicionadas ao longo da fronteira Este, mas de resto pouco mais têm. Há-de correr bem. Tens de fazer por isso, n'é? Eles não esperam a sério que nós os vamos invadir.
- Vão ter cá uma surpresa.
Riram-se todos descaradamente.
- Voltando ao assunto, tu, vais esperar por instruções até avançares pelo Este e cilindrares a resistência que deverá estar completamente às aranhas sobre o que fazer. O mais provável é irem defender os poços, já que é a única garantia que eles têm. Tendo em conta que a Seca afectou-os muito, não devem ter gasosa nenhuma para camiões nem nada disso, por isso podes esperar apanhar muitos na estrada. Estamos também à espera que assim que as notícias se espalharem que uma boa parte deles acabe por desertar, mas não podemos garantir isto. A cidade de Forte Verde vai servir como base para a invasão, portanto deverá ser um dos principais focos da tua incursão. A artilharia está toda atrasada, dizem que tiveram problemas com o reabastecimento, o que até acredito, por isso nada de suporte para ti também.
- Foda-se, bela merda.
- Pá, Forte Verde é o único problema a sério que vejo, e isso é apenas se eles tentarem resistir.
- Não podem dizer aos aviões para tentar atingit algum paiol no caminho para a capital? Não passam por lá?
- Olha, é bem visto, vou falar com os pardais a ver o que eles dizem. Acho que não é descabido. Como vamos mandar vagas, a primeira vai directamente à capital, mas a segunda pode fazer esse desvio pequeno.
- E resitência popular?
- Como assim?
- O povo poderá formar milícias, ou não?
- Foda-se, estás com medo de um cambada de caçadores velhos e zarolhos?
- Estou só a perguntar o que fazer se encontrar resistência popular, não me parece uma situação descabida.
- Faz o que quiseres, não é por eles que estamos a invadir esta terra de merda. Estamos a cagar-nos para as convenções.
- Tudo o que for necessário então?
- Tudo. Rouba, mata, viola, esfola, estou-me nas tintas.

- Pronto, estamos então combinados, não é verdade, meus senhores?
- Creio que sim.
- Assim é.
- Deveras.
- Agora está claro.
- Pois bem, façamos um brinde. Que daqui a uma semana estejamos sobre as ruínas do nosso futuro inimigo.
- Ah, eu só vou para lá no dia a seguir, não aguento o cheiro a carne queimada.
- Lembra-te os cozinhados da tua mulher?

Brindaram, brincaram e barafustaram durante mais algum tempo, dando banalmente por finalizada a reunião maléfica que iria colocar uma nação de joelhos, tudo porque uns Senhores da Guerra acharam que essa seria a solução mais fácil aos seus problemas.

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