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A Guerra - Parte 3: Afraid To Shoot Strangers

por Rei Bacalhau, em 17.01.17

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O dia está quase a raiar. Diz-se que o ataque vai começar assim que houver luz. Já fomos bombardeados. As poucas defesas que tínhamos foram praticamente destruídas. Estamos agora escondidos no meio dos escombros, camuflados com o pó que a destruição levantou. Fizemos o máximo para manter as armas limpas. Queremos ir embora, mas o sargento, que é a única coisa semelhante a um oficial que nos resta, diz que estamos a defender a retirada dos feridos.
Acredito nele. A verdade é que houve imensos. Felizmente não atingiram a clínica onde improvisaram um hospital de campanha. Nem sei se os médicos ainda lá estão. Porque é que haveriam de estar?
Nenhum de nós deveria estar aqui nestas circunstâncias. Eu deveria estar a estudar para os exames que começariam daqui a nada. Mais umas semanas e dezenas de colegas meus seriam lançados para as mesas das salas de teste e pensariam que não poderiam ser mais miseráveis ao ver que iriam chumbar. "Ele nunca deu aquilo na aula!", diriam eles.
Tenho quase a certeza que um terço deles fugiu do país, outro terço já morreu e os restantes estão na mesma situação que eu.
Não tenho medo. Sempre fui muito racional e prático. Por essa mesma razão não fujo, pois sei que muitas mais vidas que só a minha estão em jogo. Eu morro para que outros possam viver. Consigo imaginar poucas maneiras mais honradas de partir, apesar de o conceito de honra ser fundamentalmente estúpido.
He he... Já me estou a contrariar e tudo.
Repito, não tenho medo. Não medo de morrer, pelo menos. Já estou habituado à ideia. Ou julgo que sim. Nunca alguém realmente está.
O problema é que nunca disparei esta espingarda. Disparei uns tiros no único dia de treino que tive, e até disseram que eu tenho boa pontaria. Mas disparei contra pedras.
Se daqui a uns minutos aparecer ali à frente uma cabeça menos amigável, terei coragem de disparar?
Matar ou ferir uma pessoa? Em que raio é que me meti? Em que raio é que me meteram?
Já racionalizei que vou apontar para as pernas. De uma forma ou doutra, a probabilidade do homem sobreviver é maior. Eles devem ter melhores condições médicas do que nós. Se calhar até vai passar o Natal a casa.

O Sol raiou.

Já ouço os morteiros. Estão a aproximar-se. As explosões sucedem-se a toda a minha volta. Não olho, mas sei que estão todos a fugir. Eu estou parado. Protejo a minha espingarda do caos de partículas viajantes que me rodeiam.

Silêncio, finalmente.

Olho em volta. Não vejo nenhum dos meus companheiros. Estou sozinho, coberto de entulho solto. Preparo a espingarda e espero.

Ao longe noto o reflexo de uns binóculos. Vejo-os finalmente a surgir cautelosamente pelas árvores. Aponto a minha arma muito devagar. Tenho aquele homem na mira. Tem a perda direita à mostra. Vou disparar.

 

 

Mas não consigo. Vi-lhe a cara. Tem tanto medo quanto eu. Tem o mesmo olhar que eu imagino que eu tenho.

 

 

Viro a minha espingarda para trás. Escondendo-a debaixo do entulho para esconder o fumo. Primo o gatilho. O barulho ensurdecedor teve o efeito desejado. O inimigo atirou-se ao chão e estacou. O reflexo dos binóculos voltou a fulminar-me. Estão à minha procura.
Passaram uns bons cinco minutos antes de qualquer movimento. Um soldado arrisca sair do seu esconderijo atrás de um muro. Disparo para o nada outra vez. Ele tropeça e volta desastradamente para o seu abrigo. Abrem fogo em vários pontos, tentado incitar uma resposta e avançam um bocado. Disparo outra vez. Ouve-se um outro tiro isolado. Terei ainda um colega vivo aqui?
A artilharia pesada volta a entrar em acção, parecendo focar-se num local longínquo à minha direita. O meu colega deve-se ter revelado com o seu tiro.
Nisto tudo já gastámos uma bela hora da ofensiva deles. Ainda não passaram pela linha defensiva que construímos, não que reste muito dela num estado visível.
Já há muito notei que me borrei nas calças, mas não me posso mexer. Tendo tudo em conta, é apenas um ligeiro inconveniente em comparação.
Eles avançam de novo. Desta vez deixo-os avançar um bom bocado, para lhes dar confiança.
Já estão muito próximos. Já os ouço a falar.
Disparo outra vez para o meio do entulho. Não sei se se aperceberam finalmente da direcção sonora do meu tiro, mas algumas balas foram disparadas contra a minha posição. Nenhuma me acertou.
Decidi que já tinha feito a minha parte. Vou agora deixá-los passar tranquilamente. Certamente os feridos mais graves ou já morreram ou já estão em condições de ser transportados.
Pouco a pouco, fui-me enterrando vivo com o entulho à minha volta.
Passaram alguns soldados ao pé de mim, mas ou não me conseguiram ver ou decidiram ignorar o que seria certamente um cadáver.
Durante várias horas via camiões e soldados a passar. Até vi alguns repórteres de guerra a tirar fotografias a tudo. Ouvi algumas curtas escaramuças, mas a cidade caiu sem grande resistência.

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