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No Trilho do Sol

por Rei Bacalhau, em 19.02.17

Ugh, cara-pálida.

 

Quinta do Bill, com o tema No Trilho do Sol:

 

 

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publicado às 17:34


Seaside Rendezvous

por Rei Bacalhau, em 12.02.17

No outro dia fui ver as estatísticas deste blog. Tinha uma impressionante média de 6 visitas diárias nos últimos 30 dias. Quando fui ver o top de páginas visitadas, estava lá aquela que eu tenho visto quase constantemente aparecer em verificações semelhantes.
Por alguma razão, absolutamente misteriosa para mim, o texto que escrevi sobre a música Don't Fear the Reaper está consistentemente no top de visualizações. Notem que estamos a falar de uma página que me deu 50 visitas só neste último ano, o que é imenso se tivermos em conta que a maior parte tem tipo umas 5 desde sempre. Mais estranho ainda é que o post já é de 2014.
Ora, o texto não tem tags, por isso tive que ver se haveria alguma palavra em especial que o fizesse assim tão relevante para os motores de pesquisa. Faço lá referência aos Pink Floyd e imagino que esse termo seja um possível ponto de entrada para o meu blog.

No entanto, o que me apanhou a atenção foi o texto em si. É evidente que há três anos que não o lia e foi com alguma confusão que o fiz. Não me lembrava de o ter escrito, ou pelo menos não assim. O final do texto é totalmente representativo de alguém a explodir de frustação e é mais que óbvio que publiquei o texto sem realmente pensar no que tinha escrito. Foi mais ou menos naquela altura que comecei a pensar que precisava de uma namorada (que é uma maneira excelente de objectificar mulheres, já agora). Lembro-me que dava por mim a pensar que tinha 24 anos sem nunca ter tido namorada e sendo virgem em todos os sentidos possíves (excepto em aspectos zoodíacos). Não podia ser! Acordei para a vida e tanto que tentei e tentei que não consegui coisa alguma. Na prática, nada mudou desde essa altura, ou pelo menos nenhum dos objectivos foi concretizado. Apenas amadureci o suficiente para perceber que o tal texto é um candidato ao top 10 dos meus posts que menos prefiro. Só não o elimino porque é importante poder fazer este tipo de reflexões de vez em quando; perceber o quanto aprendi num período de tempo relativamente pequeno.

Dantes seria com rancor que eu olharia para casais de namorados a celebrar o dia de S.Valentim (que o texto relembrou-me igualmente que se aproxima).

"Ah, eles podem ser felizes e eu não... Gabirus, não pode ser..."

Com o passar do tempo vim a aprender que a felicidade de uns não afecta negativamente a minha própria. Deveras, eu diria o contrário. Se alguém está ou parece feliz, não posso vê-lo com olhos de inveja. Ou fico indiferente, ou posso ficar mesmo contente. Alguém está feliz! O quão bom não é isso?

Sobre este assunto, lembro-me sempre de um segmento do Louis C.K..

"Dating is a real drag for a lot of people, but I always think it's a nice thing, you know? When I see a date, I'm always happy, when I see a couple on a date, 'cause it means people are still trying."

 


Pensando bem, se calhar a razão pela qual este assunto me frustrava tanto dantes é porque eu via TODA a gente (em maiúsculas para perceberem que estou a exagerar) com imensa facilidade em namorar e em ser namorado (verbo, não substantivo). Pensava que houve algum dia que eu faltei na escola em que ensinaram a toda a gente como atrair mulheres do sexo oposto (RIP Gorden Kaye). Assustava-me ver toda a gente da minha idade e até mais novos a ganhar-me numa corrida na qual eu ainda nem sequer começara a correr.

Felizmente, agora, mais velho, as pessoas com quem falo já não têm namorados/as. Agora têm maridos e mulheres. Agora começam a ter filhos. Agora começam a ter razões para não celebrar o dia dos namorados e por isso é menos... "vergonhoso", à falta de melhor palavra, conversar abertamente com o pessoal nestas alturas. A partir do momento em que nos aproximamos dos 30 um certo número de coisas é tomado como certo, e estar numa relação (ou já ter estado) é uma delas. Como tal, o assunto torna-se banal e nem é discutido em conversas do dia-a-dia. Por outras palavras, já não importa que eu nunca tenha tido e que nunca venha a ter companhia romântica, porque também é algo que nunca me vão fazer notar nem julgar por, e posso viver o resto da minha vida tranquilamente sabendo isso.

Se perguntassem a alguém com 35 anos se era casado e ele respondesse não, assumiriam o quê? Que é divorciado, não é verdade? Pois.

Dito isso, continuo apesar de tudo a considerar o amor como uma coisa bonita em todas as suas vertentes. Por isso mesmo, para compensar o meu erro de há três anos, desejo sinceramente a todos os namorados e namoradas um feliz dia dos namorados, mesmo que seja totalmente possível que daqui a uns meses já tenham ido para outra fase romântica da vossa vida. Não pensem nisso. Aproveitem. Sejam felizes.

Para aqueles que estiverem melancólicos ou frustrados por estarem sozinhos, saibam que a culpa não é totalmente vossa. No entanto, saibam também que o amor, aquele que vocês procuram ou que gostariam de ter, existe, mas têm de fazer por encontrá-lo, independentemente das vossas deformações físicas ou mentais. A procura será exasperante, e só os mais fortes (e teimosos) sobrevivem.

Se simplesmente desistirem, como eu decidi conscientemente fazer, condenam-se ao conforto da solidão, o que pode não ser necessariamente mau.

 

 

Esta é para aqueles que já encontraram a sua cara-metade (ou que pelo menos julgam que sim), e vão passear com ela no dia 14.

Seaside Rendezvous, dos Queen:

 

 

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publicado às 00:00


A Emboscada - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 05.02.17

- Pois bem, Guarda Real, a vossa missão é capturar o traidor a todo o custo. A nossa rede de espiões elfinhos na floresta das Fadas Vogais reportou que Ventura Lobo conseguiu evitar algo chamado "o Tributo", e dirige-se agora na direcção deste desfiladeiro. Colocai-vos nos dois lados e escondam-se, para assim o podermos rodear e impedir a sua nefasta missão.
- Mas meu Capitão, precisamente o que é que ele vai fazer? - disse um.
- Ele foi contratado por inimigos do Reino para destruir um grimório poderosíssimo que seria imensamente útil para o nosso Divino Rei.
- Mas eu ouvi dizer que ele foi contratado pelo Rei pa' ir buscar esse livro. - disse outro.
- Mentiras! Hás-de me dizer onde ouviste isso para eu poder fazer as minhas investigações.
- Eu ouvi dizer que ele humilhou o Capitão à frente do Rei! - gozou um terceiro.
- Olha lá, eu estou mesmo aqui à tua frente! Queres que te envie para as terras esquecidas de Moranis, onde insectos gigantes lutam constantemente uns com os outros? Ouvi dizer que a fronteira lá precisa de patrulhadores!
- Desculpe, meu Capitão, continências e tal.
- Idiota! Não existem continências em contextos medievais! Normalmente é uma coisa mais máscula tipo bater com o punho no peito.
O soldado dá um valente murro no peito do Capitão da Guarda Real, em sinal de obediência.
- No TEU, débil mental!

- Meu Capitão! Vem aí um cavaleiro!
- Ah! Vejamos se é ele. Dá-me o monóculo mágico que permite ver mais perto.
- Só tenho aqui uns binóculos mágicos, meu Capitão!
- Parte-o ao meio então! Desenrasca-te!

- Ah, não é ele, este tem uma cara estranha... Deixem-no passar, mas estejam atentos!

 

O intrépido Ventura Lobo, montado orgulhosamente em Sara, a égua Maglu, percorria tranquilamente um trilho que ia na direcção geral do Norte. Era mais que evidente que Ventura estava perdido há vários dias, e ele não fazia ideia alguma se aquele trilho o levaria a uma qualquer cidade fantástica e esquecida ou se o levaria a algum canto decrépito, podre, sujo e corrupto do mundo, com a pior escória da Humanidade e afins, onde segredos se trocam em casas de venda de pinheiros.
A paisagem era triste num relance, pois as florestas das Fadas Vogais rapidamente deram lugar a desfiladeiros cortantes e picos áridos. No entanto, com atenção, era possível observar-se vida colorida mesmo naquela terra inóspita. Louva-a-deus enormes e vermelhos lutavam uns com os outros em duelos mortais enquanto outros insectos observavam expectantemente, esperançosos talvez em comer algum membro que fosse decepado para longe, ou então porventura teriam uma aposta num dos lutadores. Cabras de barba loura escalavam os montes escuros sem qualquer tipo de equipamento artificial, com excepção da GoPro montada num dos longuíssimos cornos, com uma saliência já natural onde se colocava o aparelho.
- Será que se eles lançam uma GoPro diferente, estas cabras têm de passar umas quantas gerações sem poder escalar até a saliência se mutar adequadamente?
A pergunta Darwinista ecoou no pensamento de Ventura Lobo enquanto observava umas águias azuis a perscrutar o terreno acidentado, procurando a próxima presa, provavelmente um dos chiuauas que corriam nervosamente de um lado para o outro, aparentando cavar túneis.
O trilho que Ventura percorria descia agora para um desfiladeiro relativamente apertado e sombrio. Parecia afundar-se de modo a que apenas raramente a luz pudesse lá penetrar.
- Não sei Sara, algo me diz que algo de mau poderá acontecer. Nunca gostei de sítios apertados. Não que eu perceba muito sobre isso... Bom, é como eu disse no episódio inicial: farei tudo pelo enredo. 'Bora.
A espada Venceslau tremeu.
- Sim, está bem, vamos embora, pronto.

Ventura instruiu Sara para descer, mesmo perante a sua relutância em fazê-lo. Com o passar do tempo, o hábito das íngremes paredes escuras trouxe alguma tranquilidade à montada de Ventura Lobo, mas não a ele próprio.
- Sinto que algo não está bem. Não sei porquê. É estranho. Eu quero dobrar o pescoço para cima para me certificar que está tudo efectivamente bem, mas alguma coisa me impede de o fazer.
Era evidente que se se permitisse que Ventura Lobo olhasse para cima seria bastante provável que ele descobriria o título deste episódio, ou pelo menos o diálogo sobre as preparações da Guarda Real sob as ordens do Capitão respectivo. Se assim fosse, Ventura perderia todo o suspense que lhe alimenta a paranóia, sentimento este necessário para os encontros vindouros terem o efeito desejado. Como tal, é através do poder da narração que se mantém o herói desta saga na ignorância expectante.
Uma ligeira neblina húmida instalou-se no desfiladeiro, para maior consternação do aventureiro. Imediatamente a seguir, pareceu-lhe ouvir o barulho de passos. Muitos deles, de facto.
- Parece um exército a marchar!
O rumor aumentava de volume e clareza.
- É certamente um exército. O barulho é inconfundível. Será o Concorde de Otto'Gháfiq?
Pensou em voltar para trás, ou então em arranjar um sítio para se esconder, mas era tarde demais. As silhuetas de homens começavam a distinguir-se na névoa. Para surpresa de Ventura, pareciam ser soldados do Reino.
- O que é que estão soldados do Reino aqui a fazer? Essa agora!
Um detalhe mais peculiar era que o líder destes soldados vinha montado num burrinho minúsculo, tanto que este comandante tinha de levantar as pernas para não irem a roçar no chão.
- Mas é absurdo...
O exército parou de marchar. O comandante e um ajudante a pé aproximaram-se de Ventura.

- Pois bem Rabanete, como vês, eu disse que encontraríamos o inimigo! Cá o temos. Atacar! Em frente! MARCHE!
- Noto que é apenas um único cavaleiro, meu General. Noto igualmente que ele não tem o aspecto do inimigo que estamos à procura.
- Ah? Ah, bom, não sei, Nabo, nunca se pode ter precauções a mais. Inquira-o!
O ajudante aproxima-se de Ventura Lobo, incrédulo com a situação.
- Saudações homem de bem. Poderá saber, ou não, que este é um exército pertencente ao Reino. Estamos em missão e agradeceríamos se nos pudesse disponibilizar algumas informações.
- É verdade que já vos havia identificado como o senhor vos descreveu, mas não deixa de ser algo inesperado ver tal força militar num local tão inóspito como o Norte. No entanto, estou disponível para vos responder às questões que tenham, apesar de não poder garantir uma resposta satisfatória.
- Evidentemente. Queira seguir-me.
Ventura desmontou e acompanhou o ajudante, cujo nome parecia não estar claramente definido.

- Pois bem, identifique-se! - gritou o General. - Aviso que sei bem distinguir os meus inimigos de quem é leal ao Rei!
O ajudante tocou-lhe levemente nas costas.
- Informo o meu General que se encontra a interrogar uma pedra.
- Sei bem que é uma pedra, Curgete! Há que ter a certeza que não estamos a ser espiados.
- Devo afirmar que as pedras não são seres sencientes.
- Com ou sem cientes, não se pode confiar nestes monstros, Pepino! Quem é esse aí que trazes atrás de ti!?
- Respondo que é o cavaleiro responsável pela nossa paragem. Está disponível e pronto para o seu questionário.
O General aproxima-se de Sara, ignorando completamente Ventura Lobo.
- Quem és? Donde vens? Para onde vais!?
- General, se me permitir a ousadia, creio que o seu ajudante de nome ambíguo se referia a mim. De qualquer forma, Sara, a égua com que está a tentar estabelecer contacto, não lhe consegue reciprocar a comunicação no mesmo nível que o General usa.
- Ah, então és tu! Atacar! MARCHE!
- Declaro, meu General, que esse indivíduo não é o nosso inimigo, ou pelo menos ainda não se revelou como tal.
- És muito ingénuo, Brócolo. Em primeiro defendes a pedra, e agora este cavalo. Mas muito bem, vou deixá-lo explicar-se. Certamente terá uma razão para nos ter atacado tão cobardemente!
Ventura Lobo olhou para o ajudante à procura de algum tipo de elucidação, mas este manteve uma postura neutra imutável, esperando igualmente a resposta de Ventura.
- Bom... enfim... apresentar-me-ei, então. Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante, em missão importante em nome do Rei. Venho das terras das Fadas Vogais e...
- As Fadas Vogais! Atacar! MARCHE! Em Frente!
O General, montado no seu burrinho, troteou energicamente na direção contrária àquela que tinha vindo. O exército abriu alas organizadamente, como se estivesse habituado a tais operações.
- Mas onde é que ele vai?
- O General voltará dentro de momentos, assim que se esquecer do que estava a fazer. Peço que aguarde.
- Entretanto será que poderia pedir que me explicasse o que raio é que vocês estão aqui a fazer?
- Não sei se o meu senhor aventureiro estará a par, mas estamos em guerra com as Fadas Vogais, e marchamos ao encontro delas, para a Glória do Reino.
- Mas... mas essa guerra já acabou... As Fadas Vogais já foram derrotadas há muito tempo. Exactamente há quanto tempo é que andam a marchar?
- Há alguns meses. Infelizmente, como o General nunca viu uma fada, ele acha que tudo o que vê é uma. Até já me confundiu de vez em quando com uma. Uma outra vez perseguimos uma matilha de cães selvagens durante duas semanas. Consequentemente, os nossos movimentos são extremamente imprevisíveis, o que nos daria talvez uma vantagem táctica sobre as fadas, se alguma vez as alcançássemos.
O General voltou e carregou furiosamente sobre um arbusto seco.
- Homens, atacar!
Cinco soldados atiraram-se diligentemente ao arbusto, destruindo-o com golpes exagerados de espada.
- Sois todos doidos! Isto é absurdo!
- Nego tais acusações. O único louco aqui do qual tenho confirmadamente conhecimento é o General. Todos os outros apenas seguem ordens, eu inclusive.
- O senhor está então consciente da insanidade das ordens do seu superior?
- Não me compete questionar.
- Pois, é evidente que não. Se o fizesse daria em doido também, pelo que vejo.
- Precisamente.

- Hurra! Vitória! As fadas foram derrotadas!
- Ouso informar o meu General que aparentemente as fadas já foram derrotadas há muito tempo.
- Tolices, Couve-Flor! Nem há cinco minutos as derrotámos!
- Arrisco declarar que as fadas não têm o aspecto de arbustos secos. Este aventureiro relatou que a guerra com as fadas já acabou há muito, e que não chegámos a tempo para intervir.
O General dirigiu-se mais uma vez a Sara.
- Mas tu vieste de lá!? Que caminho tomaste? Talvez ainda cheguemos a tempo!
- Não, não está a perceber... - tentou responder lateralmente Ventura.
- O teu cavalo está a falar! Espantoso! Diz-me, nobre corcel, consegues responder-me à pergunta que o teu mestre se recusa?
- Ah, mas agora eu é que sou o cavalo? Essa agora! Mas...
- Sugiro que simplesmente responda. É mais fácil para todos.
- Ah... e devo fazer ... um sotaque equino?
- É impossível dizer com certeza. Experimente.
- Bom, na verdade têm apenas de seguir este trilho até chegarem à floresta das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a.
- Santinho! Pois bem, como vê, até o seu cavalo é mais fiel ao seu país que o mestre. Hei-de propor que seja executado como traidor! Gabiru!
Sara, apesar de ter percebido pouco, não deixou de se sentir algo triste devido ao insulto.
- Homens, em fila! MARCHE, para a vitória.
E seguiu na direcção contrária à que devia ir.
- Obrigado pela disponibilidade, aventureiro. Boa sorte.
- Pois bem, obrigado e igualmente, suponho eu. Essa agora! Ora essa...

Ventura decidiu fazer uma breve pausa e descansar, até porque imaginava que daí a pouco tempo veria de novo o exército a passar, mas desta vez na direcção correcta. Seria fútil tentar continuar o seu caminho enquanto o desfiladeiro estivesse repleto de soldados a atacar arbustos.
De facto, enquanto apreciava uns bolorentos biscoitos de Yih, esquecidos no fundo do seu alforge, começou a notar um novo rumor vindo do desfiladeiro, mas mais grave e constante. Já não parecia um exército.
Ventura levantou-se e no meio da neblina viu duas luzes afastadas uma da outra. Um objecto penetrava no nevoeiro denso na sua direção.
Qual não é a surpresa de Ventura quando vê uma carroça fechada de metal brilhante, com uma configuração estranhíssima, a irromper pela névoa. Fazia um barulho nefasto que a mente de Ventura apenas pôde comparar com o barulho das máquinas dos engenheiros de autómatos das Minas de Lesi.
A carroça parou ao ver Ventura. Viam-se claramente três humanos a gesticular lá dentro. Uma das janelas de vidro da carroça desce como que por magia. Um homem calvo de bigode farto chama pelo aventureiro.
- Olhe, desculpe lá, bom dia!
Ventura, ainda cauteloso, arrisca aproximar-se ligeiramente.
- Bom dia, caro viajante, devo dizer que...
- Olhe, nós andamos perdidos por aqui há uns vinte minutos, você por acaso não sabe como é que se volta para a A25?
- A A25? Nem sei o que isso é. Explique-se.
- Ai, eu bem te disse que ele não tinha o aspecto de saber...
- 'Tá calada mulher, deixa-me falar com o homem! Então mas onde é que é a auto-estrada?
- Auto-estrada? Como quem diz uma estrada automática?
- Ó pai, acho que ele 'tá a mangar contigo. Mando-lhe com a moca a ver se ele aprende?
- Tu 'tá calado, imbecil, andas a querer usar eça merda desde q'o teu tio ta deu. Oussa lá, não têm por aqui estrada nenhuma? Ou uma cidade onde a gente conciga pedir direcções?
Venceslau tremeu e começou a oscilar uma cor agressiva.
- Desde já peço, meu caro viandante, que tente fazer menos erros na linguagem, que a minha espada não gosta disso. Quanto à sua pergunta, receio ter que dizer que a única estrada que conheço aqui é o trilho que pode apanhar no final deste desfiladeiro. Fora disso, não conheço mais nada porque eu próprio sou forasteiro aqui.
- Estás a ver, eu disse-te, não quiseste ouvir, via-se logo que ele não era daqui.
- 'Tá calada mulher! Quanto à sua faca 'tou-me nas tintas, eu quero é ver se chego ao casamento a tempo, senão a gorda da noiva ainda come as entradas todas...
- Não fales assim da tua sobrinha, homem! Não tens vergonha!
- Há-de ser uma mulher respeitável, certamente, independentemente do seu apetite.
- Pai, ele 'tá a mangar contigo. 'Pera aí que já te mostro.
- Onde é que vais? Anda cá para dentro, ó idiota!
Uma porta abre-se na parte lateral da carroça e de lá sai um jovem magríssimo e enfezado com uma espécie de moca de madeira na mão.
- Então, ainda queres gozar é?
Ventura inclinou a cabeça, tentando perceber se deveria levar a ameaça a sério ou não. Desembainhou Venceslau, que tinha vindo a acumular a sua fúria desde o primeiro "'tá".
O jovem vacilou.
- Olha lá, ò pai, o campónio tem uma espada a sério!
- Anda cá pa' dentro, pá!
- Ai, Luís Miguel, deixa-te disso, filhinho, anda para dentro.
O Luís Miguel entrou e arrancaram usando toda a velocidade impressionante que aquela carroça de locomoção própria conseguia produzir.
Ou, por outras palavras, fugiram a sete pés. Não literalmente.
- Esta gente é doida. Vamos andando Sara, não quero apanhar mais malucos.

Era impossível determinar onde estaria o Sol, mas Ventura sabia que ainda seria de dia, pois ainda conseguia ver alguma coisa, por pouco que fosse. Depois de uma hora, aproximadamente, a serpentear pelo desfiladeiro, notou umas figuras sombrias agachadas ao pé das rochas.
- Ah espera lá, eu era suposto estar receoso de alguma coisa, mas nem sei bem o quê. Suponho que toda a maluquice anterior anulou qualquer sentimento de suspense e incerteza que eu poderia ter. também não é difícil reacender essa emoção. Em verdade digo que não gosto nada daquelas figuras escuras que se relevam na neblina misteriosamente.
Ventura desembainhou a sua espada de novo e desmontou Sara. Aproximou-se do vulto negro. Haviam vários espalhados pelas rochas, inclusive nas paredes.
"Será uma armadilha?" - pensou Ventura.
Estava muito perto de uma das figuras.


Tocou-lhe no ombro com a espada.

 

 

- Oi? Qué isto? Ouça lá, qué que o senhor quer?
Era um camponês simples e estava debruçado sobre as rochas à procura de algo.
- Ah, desculpe, pensei que... Porque carga de água é que estão vestidos de preto num sítio destes!?
- Olhe não sei, quando hoje viemos para aqui um gajo com cabeça de peixe pediu que viéssemos vestidos assim. E pagou bem. Então nem perguntámos.
- E o que é que fazem aqui?
- Estamos completamente às aranhas.
- O quê? Como assim? Não sabem?
- Não não, estamos literalmente a apanhar aranhas, que depois liquefazemo-las e fazemos xarope para...
- ALTO! Não quero saber, já é parvoíce a mais, vou montar e vou-me embora, boa sorte e tal. Irra!

- Vá Sara, vamos lá embora daqui, a galope! Estou farto desta gente!

O aventureiro percorreu o desfiladeiro velozmente, arremessando pedras e pó por onde passava. Depois de uma longa distância percorrida, achou que não seria má ideia deixar Sara descansar. Suspeitava que o desfiladeiro já estaria quase a terminar.
Precisamente quando reduz o passo, surge uma nova silhueta na neblina. Esta não tarda a revelar-se completamente. Era um cavaleiro, um guerreiro de aspecto horrendo. Parecia humano, excepto as suas feições, que se assemelhavam ligeiramente a um réptil. A sua pele era branca como osso, e a sua estatura magra e gasta. Era um albino, e apesar do seu aspecto, tinha ainda o que parecia ser um porte real e orgulhoso.
A sua arma mais visível era uma espada negra desconcertante.
- Espera lá... eu conheço-o. - murmurou Ventura Lobo.
A espada Venceslau também agitava de excitação.
Aproximou-se e cruzou o olhar com os olhos vermelhos do guerreiro albino.
- Saudações, senhor!
- Muito me impressiona com essa saudação, senhor. É raro encontrar tal cordialidade.
- Ah deveras. Permita-me que me apresente, sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante. Julgo, se não se ofender que o diga, que sei quem o senhor é.
- Não me admiraria, é frequente isso acontecer nos sítios menos prováveis.
- Falo então efectivamente com o Príncipe Elric de Melniboné?
- Assim o é, senhor Lobo.
- Ah, não me trate assim, ora essa! Sou o seu maior fã! É uma honra poder estar na sua presença! Então? Em que aventura perigosa é que o Michael Moorcock o colocou desta vez? Sua Majestade anda perdida pelo multiverso outra vez, não?
- Estranhas palavras as que me diz. Não sabia que eu poderia ter fãs, tendo em conta que a minha raça é odiada por todos no mundo que conhecem a tirania decadente de Melniboné. Igualmente não sei que é esse Michael Moorcock, nem posso dizer que alguma vez tenha ouvido nome tão exótico. Agora, quanto ao multiverso, é verdade que conheço teorias sobre esse conceito, mas não sei dizer se neste momento estou afectado por ele ou não.
- Ah, meu caro Príncipe, eu diria que está, tal como eu próprio estarei, pois isso explicaria muitos dos eventos peculiares que já observei no que julgo ser hoje.
- De facto, também eu poderia relatar situações semelhantes.
- A Tormentífera, está boa?
- Conheceis a Espada Negra?
- Conheço a sua espada, e sei do que é capaz. Tenho quase a certeza que eu próprio tenho uma espada semelhante.
Ventura Lobo desembainhou Venceslau e mostrou-a a Elric. Este, não percebendo porquê, começou igualmente a retirar Tormentífera da bainha, mas depois de algum esforço visível, conseguiu impedir-se.
- Interessante. As nossas espadas parecem ter alguma atração recíproca... Príncipe Elric, não lhe desejo mal, e creio que posso confiar que o senhor também não mo deseja. Por muito que me seja aliciante conversar consigo ou até partilhar uma aventura, temo que as nossas espadas nos coloquem como inimigos. Temo igualmente que venha a ter chatices devido a direitos de autor. Retomemos os nossos caminhos respectivos antes que as coisas se azedem.
- Não compreendi tudo o que disse, mas creio que concordo.
- Boa sorte na sua busca por Tanelorn.
- Tanelorn! Sabeis o caminho?
Ventura Lobo sorriu.
- No seu caso, acho que é sempre em frente. Adeus, Príncipe Elric de Melniboné!
- Adeus, Ventura Lobo!

Ambos desapareceram da vista do outro, mergulhando na neblina.

- Viste, Sara!? Elric de Melniboné! Não fazes ideia a sorte que tivemos em sair dali vivos! De pensar que vi uma das grandes figuras típicas de anti-heroísmo fantástico. E viste como me portei? Todo pipi e tal? Eish... mal posso acreditar.
Ventura Lobo estava tão excitado com o encontro inesperado que teve que nem notou a rampa subtil que o caminho foi fazendo enquanto massacrava Sara com algumas das aventuras horríveis de Elric. Saiu do desfiladeiro de volta para as terras do Norte. Era ainda dia, apesar de ser impossível saber quanto tempo na prática é que Ventura Lobo esteve perdido no multiverso.

- Estranho, parece-me que me estou a esquecer de algo...

 

Ainda nas bordas do desfiladeiro, um soldado apresenta-se ao Capitão da Guarda Real, o mau da fita.
- Meu Capitão, a emboscada falhou.
- Falhou!? Como assim!? Já viram o Ventura Lobo passar!?
- Sabemos que ele já saiu do desfiladeiro.
- E como é que não o viram!?
- Aparentemente, o narrador estava distraído com um outro assunto sobre um Príncipe qualquer e esqueceu-se completamente de incluir a emboscada que dá o título a este episódio.
- Ah, maldição! Escapaste desta vez Ventura, mas eu encontrar-te-ei de novo.

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publicado às 23:15


Amish Paradise

por Rei Bacalhau, em 05.02.17

Quando se pensa em filmes de paródia, imediatamente surgem-nos vários filmes e actores à cabeça. Para mim o primeiro que me vem ao pensamento é o Leslie Nielsen.

 

No entanto, a paródia na música também é uma arte bastante presente, e há imensos artistas, pequenos e grandes, que o fazem com sucesso variado. No entanto, quando se pensa em paródias de músicas, apenas um nome pode surgir, ele que é o pai das músicas de paródia, declarado assim oficialmente por mim.

 

Weird Al Yankovic.

 

Eis um homem que não teve medo de pegar em músicas famosas e transformá-las no completo inverso cómico do que deviam ser, usando as letras e corrompendo-as inteligentemente para um efeito que tanto tem de hilariante como tem de brilhante, especialmente se a música original for bem conhecida do ouvinte.

Não é o caso que apresento hoje.

A verdade é que algumas músicas do Weird Al podem, ao contrário do que devia ser, introduzir-nos ao tema original e puro. Para mim, esse foi o caso de Gangsta's Paradise, de um artista de ... bom, não sei se é rap ou hip hop, que não sei a diferença.... chamado Coolio.

Eis então a versão original. Gangsta's Paradise, de Coolio:

 

 

 

Se tiverem visto o videoclip, compreenderão o contexto urbano e decadente da música. Virem isso ao contrário, e o que é que têm?

 

Amish Paradise, de Weird Al Yankovic.

 

 

 

Gostaria de fazer notar o excelente esforço de produção do video de paródia. Notem especialmente uma das últimas cenas em que tudo anda ao contrário, excepto o Weird Al em si, o que deve ter levado uma quantidade inimaginável de takes para concluir, já que efectivamente a única coisa que estava a andar ao contrário era ele próprio.

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Inominável nº 6

por Rei Bacalhau, em 03.02.17

Vinde, vinde, pois! É verdade quando vos confirmo que saiu mais um número espectacular da Revista Inominável. 

Quer dizer, estou a ser optimista, que ainda não li esta edição toda, mas assumo que deve manter os mesmos padrões de qualidade de sempre.

Sendo que o tema é o Carnaval, porque não falar da folia que contagia uma significativa percentagem da população mundial nestes tempos? E porque não falar das várias formas como isso pode ser visível nos produtos da indústria dos videojogos?

Se isso parecer interessante, segue o link para o blog da revista (já que pela altura em que a revista sair, provavelmente não terei hipótese de colocar aqui o link directo e tal, mas o blog serve à mesma).

 

LINK

 

Para ajudar a estabelecer o espírito, tomem lá uma músicazinha dos tempos áureos do pinball virtual.

 

 

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