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Two Out Of Three Ain't Bad

por Rei Bacalhau, em 28.05.17

Agora que já passou algum tempo já posso pensar em incluir o termo Salvador Sobral no meu texto sem arriscar que me apareça aqui uma data de gente a mandar vir com o que eu escrevo, para melhor ou pior.

Para mim ainda é inexplicável que uma música como a dele tenha ganho lá nas Europas nos dias de hoje. Não, não estou a dizer que a música dele não é uma música de festival e tal; esse argumento parece-me um bocadinho gasto, pelo menos se usado de forma absoluta. Certamente que há 50 anos um tema como o Amar Pelos Dois teria sido banalmente aceite como música digna de um festival, devido à cultura de entretenimento diferente que existia na altura (se bem que estou a falar sem saber, porque é evidente que nunca vi um festival da Eurovisão completo, e muito menos o Festival da Canção português).

Antes que me comecem a interpretar mal, gostaria de clarificar que eu não acho que a música seja má ou pouco merecedora de ganhar seja o que for. 

Agora, que considero que a canção não tem nada de muito escandalosamente especial, lá isso não tem. Não para o leigo musical que sou em termos de composição e outras tretas técnicas. Repito, clarificando, que como OUVINTE a música não tem nada de extraordinário. Não em comparação com outras músicas que ouço.

O que é verdadeiramente extraordinário é ter ganho o festival por... razões sociais? Não sei se será a melhor expressão, mas muitas vezes há coisas que se tornam famosas/boas (no nosso mundo os dois conceitos às vezes confudem-se) apenas devido ao seu sucesso social (o que se chama hoje de "viral"; assumo que antigamente tinha outro nome, tipo "moda").

"Ah, mas a música é especial, é muito bonita! A letra, o arranjo, a excentricidade do Salvador."

Efectivamente, aceito esse argumento, mas isso não a torna necessariamente excepcional. Facilmente arranjo uma data de músicas simples que têm a mesma beleza. É claro que no meu caso essa músicas têm mais ou menos 40 anos, mas certamente que algum conhecedor de música mais recente conseguiria dar um exemplo de um tema feito algures nos últimos 20 dias por um artista qualquer desconhecido que tem o mesmo valor e mérito que Amar Pelos Dois. A única diferença é que "nunca" será conhecido senão por aqueles que se dão ao trabalho de pesquisar mais profundamente.

E todos nós sabemos que não é assim que as massas funcionam, eu incluído.

 

"Ah, mas está escrita e cantada em português! Mesmo assim toda a gente gosta! Explica lá isso agora, hmm?"

Cheque-mate. Não tenho resposta, efectivamente. É-me completamente absurdo que um inglês ou finlandês ou raio que o parta consiga gostar de uma música cantada em português. É que aí nem a letra safa. Por exemplo, está estereotipado que o franceses têm músicas de amor lindíssimas, mas tenho tendência a não ouvi-las porque compreenderia muito pouco. Só posso mesmo culpar os media e os vídeo virais como já referi, mas mesmo isso parece-me insuficiente. Não sei.

 

Vamos à música então. É um exemplo de uma música "simples" que facilmente rivaliza com Amar Pelos Dois.

Two Out Of Three Ain't Bad, de Meatloaf, com composição de Jim Steinman (já que de repente, por breves momentos, as pessoas em geral parecem estar mais cientes de que os compositores também são importantes, e não apenas só quando são parte da família):

 

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publicado às 00:00


Gates of Babylon

por Rei Bacalhau, em 21.05.17

Não, não; não se confundam.

Não é a música dos Boney M.

No entanto, recomendo que se coloquem sentados em cima do tapete mais próximo, mesmo que seja daqueles de ioga ou de Arraiolos. Suspeito que poderá levantar vôo ao tocarem a seguinte melodia.

 

Rainbow, com Gates of Babylon:

 

 

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publicado às 00:41


history of the entire world, i guess

por Rei Bacalhau, em 14.05.17

 

É evidente que o vídeo acima é algo conciso, mas não deixa de ser válido. No entanto, a excelente conclusão a que o autor chega não é a razão pela qual eu o mostrei.

A internet é um sítio horrível que tem a pior combinação de mentes insanas com tempo livre a produzir conteúdos só porque sim. Imagino então que alguns produtores, por maluquice ou por desejo explícito, tentem ser um bocadinho diferente dos outros.

Eis que nas minhas explorações atrevidas pelos cantos cinzentos da internet encontro uma referência a bill wurtz, um tipo que decidiu criar vídeos pequeníssimos com musicazinhas e jingles acompanhadas de temas e imagens surreais e às vezes quase epilépticas. O vídeo acima é apenas um pequeno exemplo, apesar de o canal dele no Youtube estar repleto de... bom... nem sei explicar bem... repleto de parvoíce aleatória.

Este homem é tão humoristicamente parvo e aleatório que de repente ele decide criar um vídeo completamente diferente dos seus restantes.

É assim que a internet é abençoada com o vídeo history of japan:

 

 

Este foi o primeiro vídeo dele que eu vi, e fiquei imediatamente agarrado pelo seu modo seco de falar e a colocação as suas piadas bem pensadas, contrastando com os jingles apelativos que fariam qualquer outro não levar o conteúdo do vídeo a sério. No entanto, qualquer um com uma mínima noção de História irá compreender que qualquer desvio relatado do que realmente aconteceu tem um propósito humorístico.

Por exemplo, aquando da invasão mongol:

"So the mongols came over, ready for war, and died in a tornado."

É evidente que isto é uma referência ao que nós chamamos de kamikaze, mas não deixa de ser engraçado pensar que um único tornado deu cabo das invasões mongóis.

 

Quando acabei de ver o vídeo pela primeira vez, foi em êxtase que foi ao canal do jovem procurar mais, pois naquela altura era tudo o que eu mais almejava. Contudo, o canal dele estava muito pouco activo e todos as suas publicações era vídeos pequeníssimos como o que mostrei no início deste texto.

 

Fiquei em choque, pensando que ele teria desistido da sua "carreira" de Youtube (não é bem carreira porque ele não monetiza o seu canal). No entanto, apanhei um ou outro rumor de que ele estava a trabalhar num projecto ainda maior e mais ambicioso. 

A história do mundo!...

 

Esta semana, assim que vi o vídeo dele na página principal do Youtube, preparei-me para ver 20 minutos de pura parvoíce gratificante. Era exactamente o que eu esperava que fosse, talvez até melhor.

 

the history of the entire world, i guess, de bill wurtz:

 

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publicado às 12:25


O Vil

por Rei Bacalhau, em 08.05.17

Aviso: o seguinte texto tem algumas asneiras.

 

Acho que nunca falei com um homem que não concordasse comigo que uma das melhores sensações que se pode ter é ser pago para cagar. Minto, uma vez houve um que não concordou, mas era paneleiro, por isso não conta. Ou era bissexual? É a mesma merda, enfim. E de merda percebem eles, imagino eu. Clisteres e tal.
Como eu gosto de começar bem o dia, hoje cheguei ao trabalho e como sou sempre o primeiro a chegar ninguém sabe que os meus primeiros dez minutos são passados a entupir a sanita comunitária do edifício. Já me tem acontecido chegar lá antes da empregada de limpeza e ouvir a exclamação horrificada dela quando se apercebe do trabalho que tem pela frente, já para não falar do cheiro. É evidente que não percebo o que ela diz, porque ela fala em ugga bugga, mas pelo tom de voz dá para adivinhar.
Já tenho pensado que se calhar deveria ir a um médico por causa dos meus ultra cagalhões, mas às tantas ele ainda pensaria que eu gosto que me passem coisas grossas pelo rego, e para isso já me bastavam os meus pais, coitadinhos, que pensavam que eu era boiola. Para além disso, farto de médicos estou eu, foda-se!
Quando volto ao escritório, já lá está o Paulo. É um puto fixe. É estagiário e eu gosto deles mesmo assim verdinhos porque diverte-me pensar que posso basicamente tratá-los abaixo de cão, verbalmente, e não fisicamente, sem ele realmente poder fazer coisa alguma sobre isso. O gajo é magro, mas tem um aspecto assim semi ucraniano e portanto é um armário do caraças, mas não é por aí que e vou deixar intimidar.
- Como é que é, Paulo? Ficas já a saber que acabei de dar à luz, mas o bebé saiu preto.
Creio que a única razão pela qual ainda me mantenho vivo é para poder ver a expressão de confusão total nas pessoas quando eu disparo uma destas. O Paulo, verdinho e ingénuo, coitado, caiu ainda mais desastrosamente na tanga do que eu imaginaria ser possível.
- Bom dia Carlos! (ele trata-me por tu, lá está, é um gajo fixe) Mas... mas... epá, nem sei que responder a uma coisa dessas... Então, mas não é... não é t... mas não esperavas que fosse p... enfim, dessa cor?
- Pá, os meus cagalhões só têm uma cor diferente quando vêm com um bocadinho de sangue. Então, que queres, não estou exactamente habituado a alastrar o cú tanto, n’é?
Pausa introspectiva por parte do miúdo. Finalmente compreendeu.
- Eish, pensava que estavas a falar de outra coisa... - disse, entre risos.
Dou-lhe um forte aperto de mão, para mostrar virilidade, e só não lhe mijo em cima porque acabei de lavar as mãos.
Sento-me na minha cadeira e preparo-me para pôr mãos à obra. Gosto de aproveitar aquelas primeiras horinhas da manhã antes de o pessoal começar a chegar em peso para avançar trabalho, para depois poder apagar fogos mais descansadamente. Posso ser um filho da puta de primeira, mas ao menos ética de trabalho ainda vou tendo.
Excepto na cena de cagar propositadamente em horário de trabalho.
Felizmente, nesta empresa o pessoal só chega a sério a partir das onze. A minha consultora mandou-me para esta empresa de videojogos há uns dois meses e picos e acho que apenas houve um dia em que estava cá toda a gente às dez da manhã, e porque havia reunião marcada (para as nove, obviamente). Como tal, tenho sempre muito tempo para avançar nas minhas tarefas antes dos cabrões dos artistas começarem a chegar e começarem a falar de chás e dietas herbívoras e essas tretas xamanísticas. Esta gente é parva se pensa que comendo e cagando verde vai viver muito mais do que os outros.
Bom, primeira ordem de trabalhos: resolver os problemas que o filho da puta do Pires decidiu colocar na tarefa relativamente simples que tinha em adicionar um botão à interface para mostrar as opções de áudio. Eu ajudei a estabelecer a estrutura do sistema de interface gráfica quando comecei a trabalhar aqui, e eu pensava que tinha documentado o processo de utilização e escalabilidade relativamente bem. Mas o Pires, um geniozinho de faculdade, com um mestrado ainda por cima, conseguiu adicionar uma classe que destruiu completamente a funcionalidade anterior. Ora, se um sistema estiver bem modularizado, este tipo de inserções estruturais no código não deveria foder completamente todo o restante sistema. Das duas uma: ou quando nós definimos o sistema esquecemo-nos de algum pormenor (o que é improvável porque não é a primeira vez que o sistema é usado para expandir a interface) ou então o Pires fez alguma outra coisa ao próprio sistema que causou a destabilização (o que é muito provável, já que o Pires é um dos gajos mais incompetentes que já conheci, especialmente tendo em conta o seu suposto grau académico; para além disso, não é um gajo fixe).
Ainda nem vi o problema que está a acontecer, já que só me contaram ontem quando eu estava a bazar para casa.
Corro a versão de desenvolvimento do jogo. Até agora tudo bem, aparece o logo da empresa. Oh diabo! Agora no menu principal os outros botões estão todos fodidos! E o logo ainda lá está, deveria ter desaparecido! Foda-se.... Deixa ver o que é que funciona. Assim que cometo a imprudência de carregar num botão os meus altifalantes explodem com a músicazinha extremamente irritante do videojogo, num volume tão alto que parecia estar distorcido.
- EH FODA-SE! - berro vocalmente, logo a seguir a atirar os meus fones contra o monitor.
O coitado do Paulo, que está atrás de mim, até se assustou.
- Epá, desculpa lá, ò Paulo, mas isto estava mais alto do que estava à espera... Mas o meu volume está normal, é mesmo do jogo. Essa agora... Com mil diabos.
O som começou quando carreguei num botão que não tinha coisa alguma a ver com som. Que raio? Carrego no mesmo botão e a música pára. Carrego num outro botão, o dos créditos, que neste momento não era suposto fazer nada, e a música recomeçou ruidosamente e pareceu-me ainda mais distorcida que anteriormente, e nem tinha os fones a foder-me os ouvidos (eu tenho daqueles penetradores, que se metem todos lá dentro).
Quando um botão que devia fazer nada faz de facto algo, começamos a duvidar da nossa sanidade. A pior teoria possível veio-me imediatamente à cabeça. Decidi testá-la carregando no botão de sair. Nada. A música parou, mas não saiu do jogo. Carreguei outra vez e lá vem a música outra vez.
- Foda-se...
Levanto as mãos à cabeça e afago a minha barba gentilmente. Estou mesmo a precisar de um carinho, e neste momento não posso bater uma punheta. A pachorra que tenho de ter para lidar com esta gente.
- Ò Paulo, chega aqui.
O puto lá vem, algo suspeitosamente.
- Conta. Já descobriste o que 'tá a fazer o bug?
- Ainda não confirmei, mas preciso de uma testemunha para confirmar que alguém realmente fez isto, e que não estou simplesmente em casa a sonhar.
Abro o programa de controlo de versões e vou ver as alterações mais recentes, especificamente aquelas feitas pelo Pires.
- Ok, cá está, este commit aqui tem a adição de uma classe, muito originalmente chamada "Sound", o que é um começo fantástico. Consegue-se perfeitamente adivinhar o que é que a classe faz, não é verdade?
- Er.. acho que sim, pelo nome eu dizia que trata de cenas de som.
- Eu estava a ser irónico, Paulo. Ficas já a saber que este tipo de nomes são para evitar, porque são demasiadamente genéricos e não descrevem nada do que é que a classe trata. Repara, na verdade, esta classe trata apenas da interface gráfica para as opções de som, mas não consegues tirar essa conclusão só do nome.
- Então porque é que o Pires fez isso assim?
Lancei-lhe um olhar expressivo, indicando que a minha resposta não seria delicada. Simplesmente abanei os ombros. Considero o Paulo um gajo inteligente o suficiente para inferir que considero o Pires um monte de lixo humano.
A nossa atenção volta para o monitor e noto que existem outros ficheiros alterados para além deste.
- Pronto, cá está.
Aponto com o rato para o sítio no monitor onde estavam explicitados todos os ficheiros que tinham sido modificados naquela versão. O Paulo, compreensivelmente, por não estar dentro do projecto, não tem a noção da importância daqueles ficheiros, e portanto retorna-me um olhar confuso.
- Então? O que é que tem?
- Jovem, estes ficheiros são o esqueleto do sistema de interface deste jogo sobre o qual batemos muito a cabeça. Qualquer modificação neles deve ser feita com imensa cautela. Por isso é que em muitos ambientes de trabalho as alterações de um indivíduo não são automaticamente fundidas com o projecto principal. Normalmente têm de ser revistas e aceites por alguém mais responsável. No nosso caso seria na forma de um "pull request", hás-de pesquisar sobre isso, hás-de certamente precisar.
- Então e agora?
- Bom, agora vai haver merda. Nem me vou dar ao trabalho de gastar mais tempo a pesquisar o erro. É verdade que o sistema de interface foi das minhas responsabilidades, mas não fui eu que o estraguei, por isso também não vou resolvê-lo. O Pires que se desemerde. Não vou agora andar a rebolar no esparguete que ele deve ter metido para dentro do código.
- Esparguete?
- Sim, tem a ver com spaghetti code, um... ai, não sei como é que se diz em português... acho que se deve dizer anti-padrão. Pá, em inglês é anti-pattern. Um anti-padrão de software é tipo uma situação que ocorre recorrentemente em desenvolvimento que revela más práticas de programação e tal, mas eu não sei falar muito disso, sugiro que vás pesquisar também. Enfim, só sei que não me vou meter no esparguete doutra pessoa.
- Então o jogo vai ficar com o bug por enquanto?
- Pá, a não ser que me obriguem a resolvê-lo, ya, acho que sim. Foda-se, estão mas é malucos se vou apagar fogos destes, prefiro gastar o meu tempo noutras coisas. Eu já avisei o Viktor mais do que uma vez que isto iria acontecer, mas pronto, o gajo também tem imenso em que pensar, enfim.
O Viktor é o chefão da programação e também é mais ou menos produtor, portanto não tem muito tempo para estar com a equipa de macacos informáticos da qual faço parte. O gajo é estrangeiro, lá das Polónias ou um caralho mais longe assim, mas é razoavelmente porreiro. Acho que até é mais novo do que eu.
- Pois, tens de falar com ele.
- Estou a ver que hoje vai ser um dia de emoções fortes por cá. "Ca ganda merda", como eu costumava dizer quando era mais novo.
- Podia ser pior, ò Carlos.
Oi? O que é que ele quer dizer com isso?
- Oi? o que é que queres dizer com isso?
- Podias não ter ido cagar há bocado. Aí ainda seria mais merda.
Eu já disse que o Paulo é um gajo muita bacano?

Pouco depois ouço a porta abrir-se, o que aliás não é difícil, já que faz um guincho exageradamente irritante quando é rodada. Tenho quase esperança que seja o Viktor, porque quero chibar-me do cabrão do Pires, que já estou farto dele. O problema é que ele também veio para aqui através da minha consultora, e não é difícil de perceber que já não é a primeira vez que tenho de lidar com as merdas dele.
Ah, foda-se, é só a Margarida, que é tipo a administrativa do sítio, ou seja, lida com todos os assuntos de gestão que deveriam ser os chefões a tratar.
- Bom dia, só estão cá os do costume, não é?
- Bom dia menina. Já sabe como é, ainda é cedo, por esta altura os nossos colegas devem estar a pensar em começar a acordar. Se bem que.... ouçam, estão a ouvir isto?
O Paulo e a Margarida entreolharam-se.
- Não... o quê é?
- Nada, precisamente. Desfrutemos deste silêncio enquanto podemos ainda. Perdoem-me, mas vou voltar para os meus uns e zeros, que creio que conseguirei fazer um excelente avanço num problema que me assola há vários dias.
- Sim, vamos trabalhar que é para isso que aqui estamos.
Assenti e virei-me para o monitor.

Com cada pessoa que entrava o meu coração acelerava, estando desejoso de ver a reacção ou do Pires ou do Viktor ao deparar-se com a situação actual. O conflito inevitável entre os dois criou-me um formigueiro expectante no estômago.
De repente, comecei a ouvir alguém a berrar. Era o Viktor. Percebe-se de longe. Ele vem sempre a falar ao telemóvel e fá-lo sempre aos berros, não sei bem porquê. Uma vez ele ligou-me e tive literalmente de baixar o volume do altifalante e afastar o télele do ouvido. Ouço a porta a abrir-se menos ruidosamente, pois desta vez foi abafada pela voz poderosa do Viktor.
Num acesso de decência, lá se lembra que o resto do pessoal pode ficar incomodado com a gritaria e despacha a chamada.
- Hello everyone... - disse, num tom de voz baixinho e cansado. Falar ao telemóvel deve ser mesmo cansativo para ele.
- Morning Viktor.
Mais uns "hellos" e "good mornings" ouviram-se. O Viktor veio logo ter comigo.
- Carlos, have you seen yesterday's issue?
- Which one? The interface one?
- Yes. Did you do any changes?
- Are you asking if I fixed the issue or if I caused them?
- I'm asking what did you do to the interface? Rui was telling me that something was wrong.
- "Wrong" would be putting it lightly. It's completely FUBAR.
- What?
- It's completely fucked up.
- What did you do, then?
- Nothing at all. You know very well that I'm messing with the level generation.
- Can you load the game while we talk? I want to see.
- Sure.
Ponho-me numa pose semi jocosa para aproveitar o momento ao máximo. Ponho o jogo a carregar e começo a deitar lenha para a fogueira.
- I know you're thinking that I did something to the interface, and indeed everyone else seemed to think the same, but the most recent changes to anything UI related were done by Pires, or at least that's what Git says.
O Viktor observa confusamente os erros esquisitos na interface que eu disse há bocado, e até alguns novos que eu não tinha visto dantes. É preciso ter-se talento para se foder tanto alguma coisa em tão pouco tempo.
- Damn it... have you seen the changes in the commits? Did you see what did he change?
- Well, not exactly, but I did see that he modified a bunch of core classes from the UI system. Considering all he really had to do was add a new class to extend the system, I have no idea why he would change the core files. To be completely honest, I stopped looking at the issue even before I really started.
- Let me see the changes.
- Go ahead.
O Viktor rouba-me o rato e navega pelos ficheiros. Efectivamente, eu estou a ver as alterações feitas pela primeira vez também. Tenho de afastar a cara de vez em quando, em primeiro porque o Viktor usa um desodorizante demasiadamente intenso e em segundo porque não aguento ver o código que ajudei a construir tão estripado como estava. Fez-me lembrar aquela vez em que uma preta se mandou para a linha do comboio com os putos dela à hora de ponta. Cheguei tão atrasado nesse dia...
- Damn it... Alright, revert the changes for now, I'll have to talk to Pires.
Oi? 'Tás mas é maluco! Queres que eu reponha os ficheiros como estavam? Caralho para isso, não fui eu que fodi o projecto!
- I apologize Viktor, but I'd rather not mess with that.
- What? C'mon, it's just a button click to revert.
- I realise that, but I'd still rather not be the one to do it.
- Why!?
- 'Cause I don't think I have to fix something I'm not at fault for.
- What!?
Começo a pensar que o gajo é surdo. Se calhar por isso é que fala tão alto.
- Viktor, I know you're the boss and all, but I warned you more than once that something like this could happen. Now, I could easily fix or simply revert this shit storm, but I feel morally inclined to not do it because it seems that some people only learn the hard way, and yes, I'm somewhat including you. No offense. All I know is that Pires likely fucked up, or at least someone else did. The way I see it, whoever did it should fix it. Is that really unreasonable?
- Damn it, Carlos... It's just a fucking button, you don't have to make this harder than it is.
- I've spoken my mind. The same button press to revert the changes can be done in your computer if it really matters to you. I'm basically a... oh, how does one say it... ah shit, I can't remember...
Eu queria dizer objector de consciência, mas não me lembrava como é que se dizia em inglês. É fantástico estar num ambiente em que ninguém fala inglês adequadamente, porque apesar das nossas faltas de vocabulário e sotaques carregadíssimos ainda nos vamos milagrosamente percebendo uns aos outros.
- Fine, whatever, damn it.
O Viktor sentou-se, praguejando entre dentes cenas em húngaro ou lá o que é. Já o irritei o suficiente. Estou mesmo a imaginá-lo agora a descarregar no Pires.
Vou mijar.
Quando volto, o Paulo, o puto, chama-me para tirar uma dúvida. Ele está a fazer um protótipo de um jogo no contexto do estágio dele, e o boneco dele estava às cambalhotas quando se mexia, por alguma razão.
- Ah, e suponho que o movimento do boneco NÃO é às cambalhotas?
- Pois, não...
Instintivamente puxo de um banco.
- Mostra-me o código.
Quem devia estar a orientar o Paulo é o Viktor, mas ele está-se sempre um bocado a cagar para ele. Coitado do puto, ele está aqui para aprender, é de uma inteligência e capacidade fora do normal e é tratado assim? Não pode ser, essa agora. Já sei que se não sou eu a ajudá-lo ninguém o faz.
Entretanto chega o Pires.
- Bons dias! - diz ele, ingenuamente.
Eu nem respondo, finjo que estou ocupado com o Paulo.
- Esta variável faz o quê?.. 'Pera lá, estás a incrementar isto em todas as frames? Ui, acho que não estás a ter em conta a diferença temporal entre frames.
- A quê?..
- O que eles chamam o "delta".
- Ah... ya.. pois, pode ser disso...

Enquanto o Paulo vai digitando correções, ouço o Viktor.
- Pires, can you come here?
- Yes, wait a bit.
- Why did you mess with the UI system?
- What you mean?... I only added button.
- Yes, but the entire interface stopped working good.
- What? Really?
- Did you test it?
- I tested in my own scene.
- Did you test the entire game?
- Ah... well... no... I didn't think about that. It worked in my scene, so I thought it worked fine everywhere.
- Well, it didn't. Meanwhile, I reverted the changes. You have to be more careful when pushing to master. You have to test it!
- But Carlos said yesterday I could push to master.
Oh foda-se, desculpa lá? Como é que é? Viro-me distraidamente para trás na direcção deles.
- Hello? I heard my name. What's up?
- Pires was telling me that you told him to push stuff to master.
- Well, yes, I did tell him that, but that was assuming he would test his shit before pushing, as anyone with common sense would. Sorry Pires, but this is all on you, buddy.
Viro-me dramaticamente para a frente e continuo a auxiliar o Paulo como se nada fosse. Ficou alguma tensão a pairar no ar, mesmo como gosto.
- Empresta-me aí o teclado ò Paulo.
E escrevo o seguinte no código, para dissimular:

//e tao fixe espalhar o caos num ambiente de trabalho
//o pessoal cai com tanta facilidade

Eu mantenho a cara séria, mas ele esboça um sorriso matreiro. Ele responde-me da mesma maneira:

//lol

Eu já disse que o Paulo é um gajo muita bacano?

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publicado às 19:38


Fountain of Sorrow

por Rei Bacalhau, em 07.05.17

Não sei qual é que é o processo químico que faz uma pessoa sentir-se em baixo sem razão aparente num determinado período de tempo. Sei, no entanto, que esses químicos de vez em quando invadem a nossa circulação e tornamo-nos temporariamente... diferentes. Noto isto em muitas pessoas, mesmo naquelas que eu nunca imaginaria isso ser possível (ou se imaginasse ser possível, nunca pensei em vê-las exteriorizar esse tipo de fraquezas).

No fundo, temos todos direitos a momentos de fraqueza e de amargura só porque sim.

Quer dizer, é evidente que não é só porque sim. Há algo cá bem dentro de nós reprimido a querer sair. Há sempre uma razão. Muitas vezes nós é que não queremos admitir e dizemos "ah, não sei porque é que estou assim..."

 

Eu gosto de dirigir esse tipo de pensamentos para a música, pois de certa maneira queremos pensar que há outra pessoa no mundo que já se sentiu como nós (ou então porque a editora pediu um tema assim mais lamechas para aumentar as vendas, não sei).

Uma boa letra triste não pode ser mal acompanhada instrumentalmente. Acho que nisso os músicos de estilos mais ligeiros são os mestres. Eis um exemplo de um tema que tem um ritmo quase alegre mas com muita melancolia melodiosa por trás.

 

Jackson Browne, com Fountain of Sorrow

 

 

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publicado às 01:38



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