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por Rei Bacalhau, em 26.05.15

Permitam-me alguma melancolia.

Dou comigo a olhar para o monitor do computador, e ordeno mentalmente todas as coisas que devo fazer e aquelas que gostaria de fazer. A lista é dinânimca, alterando consoante as ideias que vou tendo.

"Hoje tenho de trabalhar naquilo. Tenho de o fazer até amanhã porque não sei quê. Por outro lado tenho de fazer aquilo, mas não é obrigatório, apesar de me ser relevante a longo prazo. Ah, mas gostaria de escrever um bocadinho, e já agora descobrir música nova, e já agora jogar um bocadinho, e um jogo novo que nunca tenha jogado se puder, e já agora tocar um bocado de guitarra, a ver se melhoro, e também deveria fazer exercício, talvez umas flexões ou talvez mesmo ir correr, já não corro a sério há algum tempo, ou talvez fazer umas elevações ou uns abdominais, gostaria de ficar em forma, era conveniente, mas não, tenho mesmo de trabalhar, isso sim."

"Mas não me apetece."

A frase fatal que me tormenta a mente. Será preguiça? Ócio? Irresponsabilidade? Algum traço da mediocracidade portuguesa amaldiçoante? Não me apetece trabalhar, e este sentimento aumentou desde que me despedi da empresa onde estava (não me pagava há vários meses). Sem uma motivação certa a longo prazo não consigo a concentração necessária para trabalhar, muito menos sozinho. Quando estudava na faculdade eu exaltava os grupos a dois, pois a sinergia que se estabelecia entre os membros seria suficiente para haver motivação mesmo que certo tema não fosse interessante. Pois acontece que, estando agora por minha conta, gostaria de desenvolver um videojogo de princípio a fim, mas os que já comecei abandonei na fase de protótipo conceptual, ou nem isso. Nada nem ninguém me diz, "não, continuemos, esses problemas resolvemos depois, isto tem potencial, nós temos potencial, mesmo que no final não fique grande coisa, ao menos fizemos alguma coisa". E então desisto à primeira mínima dificuldade que se me apareça à frente ou simplesmente quando me aborreço do assunto. Perdi a perseverança que me caracterizava.
E então eu digo-me, "vou jogar ou entreter-me um bocado".

"Mas não me apetece."

Até os meus passatempos caíram nesse abismo. Olho para a biblioteca de jogos que tenho (obtidos a desconto, o Steam é mesmo bacano para isso) e não quero jogar nenhum. Quer dizer, é mais ambíguo que isso. Eu QUERO jogar alguma coisa, mas nenhum daqueles me satisfaz a gana que dantes tinha para jogar. Então vou à procura de outros jogos na internet e vejo vídeos muito longos de outras pessoas a jogar. Convenço-me que estou apenas a ver se me apeteceria jogar aquilo, mas acabo por ver um vídeo atrás de outro, passivamente. Quando dou por mim, aparenta-me que gastei o meu tempo futilmente. E então não jogo. E olho para a guitarra. E não me apetece. Olho para os textos em rascunho que tenho. E não me apetece escrevê-los.

Olho pela janela, o Sol brilha, pássaros cantam e irrito-me. QUERO IR LÁ FORA! Quero ir correr e despairecer estes pensamentos, quero reactivar o meu corpo, para talvez reactivar a mente. Então levanto-me e vou ao parapeito. Olho longiquamente para o horizonte, como tantas outras vezes. Fico lá a reflectir imenso, sobre tudo e sobre nada. Quero mesmo ir correr.

"Mas não me apetece."

Volto a sentar-me ao computador. Os olhos doem-me. Então às vezes fecho-os, e acabo por adormecer, culpado por estar cansado, cansado por me sentir culpado. A inércia apodera-se de mim.
Ainda vou à faculdade, não estudar, mas prosseguir uma carreira académica destinada a acabar antes de começar. Mas então lá ainda faço coisas. Ajudo os meus colegas, talvez substitua um professor que precise de mim para alguma aula. Convivo um bocado. Ainda é o sítio onde me sinto mais útil. Mas mesmo lá, se não for necessário, normalmente resigno-me ao meu cantinho, para não incomodar aqueles grupos que trabalham juntos para um mesmo objectivo. E invejo-os.

 

Pois sinto-me só.

 

Reflicto sobre o assunto. Dantes não pensava assim. Apercebo-me que a solidão pode atingir mesmo aqueles que estão rodeados de pessoas. Quem precisa de mim é sempre por razões de ordem física ou técnica. Raramente por razões humanas. Isto dantes normalmente não me afligia. Conseguia viver perfeitamente sem precisar de maior relação social que a que tenho com a minha família. Realisticamente, amigos vão e vêm, mas pela minha experiência a Família é o único baluarte onde a minha sanidade mental se protegia. Agora isso não parece ser suficiente, pois anseio por alguma coisa.. perdão... alguém! em quem possa confiar e sobretudo que precise de mim para mais que favores materiais.

Tendo tido o que poderia ter sido uma relação amorosa há meio ano, objectivamente parece-me que essa situação terá sido a principal responsável por agora me sentir assim: fraco, gasto, inerte, impotente, preguiçoso, negativista, melancólico. Permitam-me clarificar: nunca pensaria em voltar a falar com Ela. NUNCA!
Mas quero alguém. Já aprendi. Já sei que há coisas que não se devem fazer nem dizer. E aprendi também que um humano social só se torna tal quando se compromete, mais seriamente ou menos seriamente, com alguém, romanticamente e afectuosamente e exclusivamente e ingenuamente e parvamente.
De que me servem todas as pessoas do mundo, se nem uma posso chamar de minha, como eu seria dela?
A minha solidão dilacerante faz-me invejar os casais que vejo todos os dias. Faz-me repudiar as cenas de amor nos filmes e séries. Faz-me amargo quando alguém fala do fim-de-semana que passou com a namorada. Faz-me evitar o assunto como a peste, receando dizer mais do que deveria. Dou por mim a querer abraçar o ar, imaginando alguma figura feminina sem rosto nem corpo. Dou por mim a imaginar alguns olhos penetrantes, e já os imaginei de todos os tipos e cores. Já discuti comigo algumas conversas que teria com essa ninfa mítica. À noite, suspiro, pois a cama parece-me infinitamente vazia.

Enfim, é o meu lado Feio em todo o seu poder.

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publicado às 17:23




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