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Despressurização

por Rei Bacalhau, em 30.11.13

Tenho andado a pensar... na situação do país...

 

Há tantas coisas erradas que é impossível uma qualquer pessoa descrevê-las extensivamente. No entanto, eu não gosto de falar dos 1001 problemas existentes por aí. Já foram identificados duma maneira ou doutra por vários comentadores e analistas e tal.

 

"Ah, temos desemprego...", "Ah, as pessoas estão a ficar pobres...", "Ah, o país não tem economia porque isto e isto e isto".

 

Para mim nada disso interessa. Não se podem combater sintomas quando se tem uma doença horrível. Tem de se ir à raíz do problema.

 

O GRANDE problema de Portugal são os próprios portugueses. Sofrem todos de algum tipo de deficiência mental. Eventualmente não uma que lhes impossibilite a vida normal, mas uma deficiência que lhes remove o senso comum. Maior parte de nós já nascemos e somos moldados por essa doença. No fundo, o que quero dizer é que estamos perpetuamente tramados até não termos uma revolução cultural.

 

ACALMEM-SE! Eu não estou aqui a dizer um 25 de Abril. Se alguma coisa esse evento só estragou o que podia ser um bom sonho.

 

ACALMEM-SE! Eu não sou defensor de ditaduras. As ditaduras só são eficazes quando o povo é fraco, e durante mais de 50 anos foi o que aconteceu. Ainda bem que houve um 25 de Abril, mas o objectivo não era sermos a causa da nossa destruição ainda mais rápido do que com uma ditadura.

 

Eu não vivi a ditadura. Não vivi os anos posteriores. Eu nasci numa altura em que Dragon Ball era a minha maior preocupação. Mas a História, com os factos distorcidos ou não, devia ser estudada e compreedida. Há certas decisões que não se podem fazer sem se pensar nas consequências.

 

Façamos uma analogia:

 

Trazem para casa um cachorro bebé. Atam-no imediatamente numa sala sem nunca poder interagir com o exterior. Toda a sua vida ele será miserável. Chamemos-lhe Azarado.

 

Trazem para casa um cachorro bebé. Deixam-no andar livre pela casa, a fazer o que ele bem entender, porque ele deve ser livre. Nunca o disciplinam, antes pelo contrárrio, mimam-no. Chamemos-lhe Sortudo.

 

Passados 10 anos soltam os dois. O que é que acham que vai acontecer? A quem é que me estou a referir em cada um dos casos? O que é que realmente devia ter sido feito?

 

O Azarado representa os Portuguese pré revolução. Nunca conheceram outra vida que aquela de dificuldades e agora um mundo inteiro espera-os. O mundo não está preparado para ter compaixão para com os ingénuos e aproveita-se imediatamente. Eu não sou economista, mas não acredito que algumas das escolhas que os nossos "líderes" ao longo do tempo fizeram foram as mais bem pensadas (eventualmente foram bem pensadas pelos economistas dos outros países). É certo que termos entrado para a UE ajudou a desenvolver o país, mas a que custo?

 

O Azarado rodeou-se do melhor que o mundo novo tinha, para não ficar para trás, mesmo ficando aquém das suas possibilidades. As consequências a longo prazo não são uma preocupação.

 

O Sortudo são as novas gerações, começando pelas que não viveram em ditadura. Como nunca são disciplinadas é fomentado um sentimento de irresponsabilidade e delegação e soluções sub-óptimas. O nojento "desenrascanço". Estes também não sabem ver consequências a longo prazo e mesmo que soubessem, não saberiam o que fazer.

 

E é assim... o nosso país é feito de Azarados e Sortudos, e todos são deficientes mentais. Eu não sou excepção, eu sou Sortudo. Consigo contar pelos dedos de uma mão o número de portugueses que conheci que não são imbecis totais. Não é com meia dúzia de pessoas que o país de torna melhor, nem que elas tivessem no poder. Os portugueses têm a teimosia horrível de se manterem na sua zona de conforto e não gostam de mudança, mesmo que estejam sentados numa cadeira de pregos como os faquires.

 

Não estarão claramente convencidos, por isso só posso recorrer à derradeira arma que os portugueses tanto temem: a lógica. Tentemos ser objectivos então. Eu não sou economista, não sou gestor, não sou nenhuma das profissões que alguém que está no poder deveria ser. Eu trabalho com computadores e por isso há certas coisas da maneira como se governa este país que acho bastante estranhas. Eu diria que vou dizer bastantes barbaridades (lá está, por não ter uma perspectiva ampla do que é o mundo), mas tentem acompanhar e corrigir-me, se for preciso/possível:

 

O papel real do governo:


Qual é o papel do Governo? Segundo as políticas dos dias de hoje parece-me que as pessoas pensam que o papel do Governo é a de resolver todos os problemas do país e envolver-se em todos os assuntos. Pensemos nisto um momento... As pessoas esperam que o Governo providencie: saúde, educação, serviços públicos, segurança, cultura, lazer, transportes públicos, segurança social, etc. etc. etc.... Parece-me pouco razoável. Aliás, parece-me absolutamente irrealizável que um país se consiga construir baseando-se apenas no Governo. Quem ouve as

pessoas falar fica com a impressão de que o Governo tem de ser o maior responsável pela geração de emprego. E igualmente tem de ser o Governo a tratar de todos os resíduos sociais gerados nos dias de hoje (sejam de que forma forem).

 

Eu digo o contrário. PARA MIM, o papel real do Governo é manter uma infraestructura social e administrativa que SUPORTE serviços, mas que não os PROVIDENCIE necessariamente. Há alguns serviços públicos que o Governo DEVERIA ter de ser responsável por, por exemplo a recolha de lixo, bombeiros, polícia, serviços administrativos e tal. No geral, serviços que TODOS beneficiem por existir.

 

Na minha visão não deveria ser responsável por coisas do estilo saúde, educação, cultura e afins. Esses implicam ou escolha ou necessidade esporádica e não me parece justo estar a pedir que as pessoas paguem despesas que não são na verdade delas. 

 

Vejamos a saúde: imagine-se que não existem hospitais públicos. Caos, não é verdade? As pessoas não conseguiriam ter cuidados médicos se precisassem. Não necessariamente. Se todos os hospitais fossem privados existiria concorrência entre eles, o que em princípio aumentaria a qualidade ou diminuiria o preço dos serviços prestados. Compreendo que este é um assunto mais complexo do que a maneira que o estou a pôr, mas há que concordar também que as pessoas abusam do sistema de saúde como está nos dias de hoje.

 

Vejamos a educação: um dos problemas do nosso país é que, paradoxalmente, as pessoas estão demasiado educadas. Há muitos que com certeza diriam que não lhes interessa a escola para nada, e nem interessa aos pais eventualmente pagar por escolaridade obrigatória. Óptimo! Não eduquem os filhos! Portugal precisa de mão de obra barata para realizar trabalhos no sector primário, já tão esquecido ao longo dos anos. Claro, chamam-me deficiente mental por sequer pensar em tal coisa, mas esta ideia parece-me mais lógica do que obrigar alunos que NÃO QUEREM estudar a fazê-lo e gastar dinheiro no processo. Portanto, por mim, escolas eram todas privadas também. Estou perfeitamente ciente que isto gera elitismo na sociedade e parece que voltamos ao século XIX, mas se virem bem isso acaba por acontecer à mesma, pois o ensino público não pode ser grande coisa se estivermos a educar macacos.

 

Nem me ponham a falar de cultura... Porque carga de água é que se subsidia arte, seja ela pintura, teatro ou pífaro? Aliás, a pergunta é porque é que o Governo faz isso? Qual é o fundamento lógico para isso? Ser artista é uma profissão como qualquer outra e se ele não tiver sucesso então temos pena. Os artistas devem conseguir ganhar dinheiro sozinhos e NUNCA NUNCA se deve envolver o Governo nisso.

 

Enfim, entre outras situações... Quero chegar à conclusão que o Governo deve ser como uma prateleira, conseguindo suportar todos os serviços que se quiserem mas nunca se preocupando com o estado deles, querendo apenas conservar a sua integridade estrutural.

 

 

Crime:

 

É bárbaro ainda vivermos numa sociedade assolada por crime, seja de que forma for. Pior que isso é beneficiar os criminosos pelos seus erros, prendendo-os e alimentando-os à custa dos impostos. Não me falem em segundas oportunidades... O quão difícil será pensar nas consequências de cometer um assalto, ou cometer fraude ou esses N crimes que as pessoas fazem CONSCIENTEMENTE. Não. As segundas oportunidades são para os que fazem um erro sem querer e não para os que fazem de propósito. Pessoalmente acho que Portugal não devia ter que se preocupar com prender criminosos. É agarrar neles e colocá-los noutro sítio onde não chateiem ninguém (não estou a dizer para matá-los, com mil diabos!). Chamem-me extremista, mas a verdade é que vocês vão deitar o lixo fora todos os dias por uma razão. E já nem falo da fraqueza que são as forças de segurança pública.

 

 

 

Tinha mais que escrever, mas sinto que já desabafei o suficiente.

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publicado às 15:13


2 comentários

De José da Xã a 02.12.2013 às 15:12

Bom... nem sei por onde começar:
Todavia de tudo o que escreveste achei piada à comparação de um governo com uma prateleira. Depois... é um chorrilho de ideias absurdas e irrealizáveis.
Posso até concordar que há muito dinheiro "atirado à rua" com gentinha que não merece um chavo, Mas quantos há que gostariam de estudar e não podem porque os pais caíram no desemprego? O problema do nosso páis é de mentalidade. Já os romanos diziam dos lusos habitantes "Nem governam nem se deixam governar".
A saúde deve ser um bem a ser preservado, não uma forma de fazer riqueza! Há muitos anos um antigo director de um hospital público ao apresentar as contas ao Ministério da tutela, disse: Tivemos um lucro de x.
Logo de seguida o ministro recomendou-lhe que ele solicitasse a própria exoneração. Se teve lucro é porque algures não cumpriu com a sua função. Hoje seria visto como um exemplo a seguir.
Épocas...!

De Rei Bacalhau a 03.12.2013 às 09:48

Eu nunca disse que o problema dos portugueses não era de mentalidade. Até pensei que estava a implicar o contrário. E é exactamente nessa mentalidade de, como dizes, "não governamos nem nos deixamos governar", que se baseia o texto inteiro.

Um país que não consegue pagar as suas enormes dívidas tem mesmo assim de dar todas as regalias ao povo? Obviamente que é injusto que o povo de hoje pague pelos erros de outros, mas é assim: ALGUÉM terá de o fazer.

Voltemos à analogia da prateleira, já que gostaste tanto dela. Pode-se achar razoável colocar uma estatueta de ouro maciço numa prateleira. O problema que ponho é quando a prateleira é demasiado fraca para aguentar com o peso. Claro, poderá aguentar uns tempos, mas começarão a aparecer rachas na estrutura, e aí imediatamente "pedimos emprestado" um rolo de fita-cola. É óbvio que não vai ser suficiente! O problema mantém-se no peso da estatueta que arrasta a prateleira para a destruição.

Clarifiquemos a analogia: a prateleira, como disse, é o Governo, ou o País, como quiseres. A estatueta de ouro são aqueles serviços, preciosíssimos, mas com um enorme peso associado (digamos educação, saúde, etc.). O aparecimento das rachas provém insustentabilidade desses sistemas. A fita cola... bom, há-de ser toda esta história de reforços monetários e tal que temos vindo a ter ao longo dos anos, e é fita-cola porque é apenas uma acção remediadora, e não resoluta.

Tu próprio já disseste que gastamos mais do que devíamos. No entanto, falo em cortes que até podem nem ser socialmente razoáveis (aliás, não são de certeza) e sou imediatamente absurdo. Essa sim é a mentalidade portuguesa: querer fazer cortes em tudo e esperar que fique na mesma!


Mas sejamos razoáveis então. Vamos imaginar que em vez de se retirar a estatueta de ouro da prateleira, vamos-lhe tirando lascas até ser suportável. O que será o resultado final? Não será que apenas restará uma fracção disfuncional do que é hoje? Imagine-se o sistema de saúde: vamos fazendo cortes, como se têm vindo a fazer. No interior do país os centros de saúde vão fechando. Os velhotes, coitados, ficam sem possibilidade nenhuma de cuidados médicos. Os médicos e pessoal médico ou vão para privados ou migram para outros países ou algo do género. O que quero dizer é que os cortes que se estão a fazer (na minha visão) vão acabar por dar ao mesmo do que aquilo que eu propus no texto original.

Quanto à educação: SIM, é verdade que muitos gostariam de ter oportunidade de estudar, mas a lógica não pode ser sacrificar o resto do país por uma mão cheia de pessoas que REALMENTE querem e iriam estudar. Clarifico: quero com isto dizer que a grande maioria dos estudantes estudam mais porque sim (ou porque os pais ou a sociedade lhes dizem) do que para ter futuro profissional. Se tal não fosse o caso não haveria ainda pessoal a ir para cursos profissionalmente mortos tipo... História ou Arte Chinesa ou tretas dessas (um aparte: não quero dizer que esses cursos não devam existir; estou só a dizer que as pessoas que os fazem não devem esperar ser profissionais na área; ou não facilmente pelo menos; deveriam ir para lá por curiosidade, por exemplo). Eu acho que não se devia promover esses "cursos mortos", mas pronto.

Portugal está neste momento a sofrer a aplicação do Darwinismo. Ao longo das eras, os seres vivos tiveram de evoluir consoante as condições do seu ambiente. Quem não se adaptava, morria. É exactamente a mesma coisa para a economia. Exemplo: as lojas de pequeno comércio estão cada vez mais a fechar, em boa parte por culpa das superfícies comerciais titânicas que têm vindo a descaracterizar a paisagem nas zonas urbanas. Os comércios pequenos não conseguem concorrer com tal capitalismo e por isso mesmo, morrem. É absolutamente natural que isso aconteça. Um desses comércios que tenha uma maneira eficaz de se promover fica com a vantagem e por isso.... adapta-se. Quero com este exemplo demonstrar o que se passa numa escala macro económica com Portugal. É um mundo competitivo e Portugal irá ainda mais abaixo enquanto não se souber adaptar.

Por outro lado, isto pode ser simplesmente um grande monte de baboseiras dum gajo que não percebe os pormenores finos de como a Sociedade e a Economia funcionam.

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