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V

por Rei Bacalhau, em 12.12.13

Não quero! Não gosto!

 

"Ah, mas vais comer sim senhor. Há muitos que gostariam de ter esta comida à frente! Vá, abre a boca! Vá, vamos!"

 

Não quero ir! Não quero ir! NÃO!

 

"Vá, anda lá, põe-te dentro do carro! Olha que chegamos atrasados! Não queres toda a gente à nossa espera pois não? A festa começa sem nós mas era melhor chegarmos lá a tempo! Queres que eu diga que fizeste birra, é?"

 

Banho? Não! Quero brincar!

 

"Então mas queres andar todo porco por aí? Aqui em casa as pessoas são limpas e não te quero a cheirar mal! Vá, pa' dentro da banheira, já!"

 

Já? Opá, não quero!

 

"Não interessa, tens de te deitar, precisas de dormir. Arruma os brinquedos vá! Olha que eu deito-os para o lixo!"

 

 

 

 

Entre tantas outras situações, estas são algumas exemplares que ocorreram a Jeremias. Os seus desejos profundos negados. As suas acções controladas. A liberdade com que tanto tinha vivido tornava-se uma ilusão distante. Começou a aprender as regras normais da sua cultura e sociedade. Foi progressivamente ensinado a ser bem educado com as pessoas, pois não se poderia ter um menino malcriado num espaço público. Foi ensinado igualmente que o tempo era muito importante para os adultos e não se podia fazer alguém esperar, sendo preferível chegar mais cedo a um encontro. Foi ensinado que era importante manter a higiene pessoal, tomando banho, cortando o cabelo, cortando as unhas (e especialmente nunca roê-las!), sendo obrigado inclusivamente, para grande desagrado dele, colocar perfume quando ia a algum sítio mais importante. Foi ensinado a valorizar o que tem e estar agradecido por tê-lo. Foi ensinado a respeitar a autoridade, fosse paternal ou de outra figura significante.

 

Tudo isto o restringiu. Em princípio, tudo isto o limitou ao ponto em que é normal na sociedade. Mal sabia ele que tudo isto o havia limitado em mais maneiras do que ele poderia imaginar, com consequências, não necessariamente terríveis, mas com certeza inconvenientes. Em suma, poder-se-ia dizer que foi demasiado bem educado.

 

Jeremias tentou lutar esta assimilação comportamental. De facto, ocasionalmente, Jeremias surgia de novo, rugindo na sua torpeza total e horrível. Contudo, estes acontecimentos tornavam-se incrementalmente mais raros, sendo que Jeremias era arrastado e isolado para um canto da consciência. Mesmo assim, apesar das consequências futuras, tal facto pode-se considerar benéfico para João, pois Jeremias não pode estar sempre no controlo da marioneta humana. Seria certamente um caminho para a sua auto-destruição. Talvez os motivos para esta afirmação não sejam aparentes agora, mas com o tempo irá ver-se que qualquer um pode chegar à mesma conclusão.

 

Já se falou previamente num embrião duma nova sub-consciência de João. Esse que seria dominante durante a maioria da sua infância e parte da adolescência. Esse embrião foi crescendo por cada regra que João aprendia e a que Jeremias era forçado. Esse embrião que se sabe relacionar com o mundo, seguindo as normas sociais do que se considera boa conduta pessoal. Esse embrião que nasceu e aprendeu a valorizar a interacção humana.

 

Ei-lo Jansénio. O social, o simpático, o bem educado, o amigo!... O Bom.

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publicado às 09:23




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