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VII

por Rei Bacalhau, em 26.12.13

"Vá, acorda, que senão chegamos atrasados."

 

Jansénio estranhou. Não se lembrava de lhe terem dito algo sobre irem sair, especialmente tão cedo. Levantou-se obedientemente mesmo assim. Vestiram-no, deram-lhe o pequeno almoço e saíram, a pé, rua abaixo. A viagem era-lhe inesperada, e apesar de ter sido curta, Jansénio descobriu novas ruas onde só havia dantes passado de carro. Alegremente acompanhou os pais até terem atravessado um portão verde grande, imbutido num prédio que dava imediatamente para um pequeno túnel, ou mais propriamente uma passagem por dentro do edifício. Para grande espanto de Jansénio, essa passagem dava para um átrio interior enorme, rodeado dos vários edifícios que escondiam nada mais nada menos que uma escola primária.

 

A algazarra era enorme, com muitas crianças, umas mais e outras menos bem comportadas. Uns choravam para vergonha dos pais, outros já tinham ali companheiros e brincavam energicamente, catapultando-se uns contra aos outros. Maior parte dos restantes devia estar bastante perplexo com o seu propósito ali. Jansénio não era excepção, mas pelo menos não era um dos que berrava irritantemente como um bebé àquela hora da manhã.

 

Jansénio sabia da existência de um local chamado "escola". Era, para ele, uma terra mítica, longíqua e desconhecida. De facto, sendo Jansénio o mais novo da família, ouvia constantemente esta palavra dos outros infantes da casa mas nunca lhe conseguiu dar real significado. Para ele, essa tal escola era apenas o sítio para onde os seus familiares contemporâneos desapareciam durante umas horas por dia.

 

Agora era a vez dele. Demoraria muito tempo a compreender o verdadeiro objectivo da escola (e mesmo aí já tarde demais). Entra numa sala de aula, absolutamente normal para quem já tem os padrões definidos, mas magnífica e mágica para quem nunca viu uma. Os desenhos e trabalhos de outros em exibição nas paredes, afixados por fita-cola ou pioneses no que poderia muito bem ter sido uma exposição de arte moderna, considerando o nível básico de capacidades de pintura e desenho mostradas. Sentou-se, acompanhado ainda, numa carteira e olhou em volta com o mesmo ar expectante com que estavam todos os outros pequenos.

 

A professora apresentou-se e falou mais para os pais que acompanhavam os filhos naquele dia tão importante. De seguida pediu a esta nova remessa de alunos que se apresentasse, um a um. Jansénio teve imediatamente um surto de adrenalina. Estaria à altura de conseguir responder a tal desafio? Perante tantas pessoas? Não estava habituado a falar neste tipo de contexto. A apresentação começou pelas primeiras carteiras e não alfabeticamente. Tinha mesmo assim tempo para se preparar, pois estava ainda na segunda fila de carteiras. Ensaiou mentalmente o que diria, que na verdade era tão simples como dizer o nome.

 

Tão simples quanto isso.

 

João. Só isso. Dizer João. Nada de mais. Outra vez: João. Será melhor dizer Jo-ão? Separado para perceberem. Se calhar...

 

Deparou-se com a turma a olhar para ele. Não tinha reparado que tinha chegado a sua vez! Engasgou-se e tropeçou nas sílabas para seu enorme desespero. Finalmente lá conseguiu murmurar o seu nome.

 

João.

 

Inevitavelmente a mãe dele teve de repetir o nome, mais alto, pois João estava absolutamente corado de vergonha, e Jansénio devastado por tal derrota.

 

O resto do dia ocorreu sem problemas, tendo sido apenas apresentação da professora e da turma. Começaria a sério no dia a seguir.

 

Voltaram para casa e Jansénio foi brincar. Distraído, pôs-se a reflectir. Surge Jeremias.

 

És mesmo parvo.

Pois... peço desculpa.

 

E os dois ficaram-se a lamentar.

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