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Especial: Irmãos Marx

por Rei Bacalhau, em 05.01.14

Sim, até na comédia sou um retrógrado. Mas perdoem os meus defeitos. Se mostram a uma criança desde pequenina certo determinado tipo de coisas podem esperar que isso as vá influenciar. Quando eu era miúdo mostravam-me, ainda em cassete, os filmes mais ou menos bem gravados dos Irmãos Marx, que tiveram o pico da carreira na indústria cinematográfica, nos anos 30. Antes disso eram famosos apenas pelos espectáculos de estilo vaudeville (que imagino que deveriam ser imperdíveis também). Eles eram 5 irmãos, mas 4 é que eram famosos e só três é que entraram em filmes. Infelizmente só conheço estes últimos, exactamente pelo facto que já disse.

 

Seria injusto se não dissesse que devo grande parte da construção do humor que usava dantes a estes três senhores: Groucho, Chico e Harpo Marx. Aliás, inicialmente o humor que mais me marcou foi o de Harpo, pois era muito mais físico e imitável por uma criança. Obviamente isto levava a que as pessoas me achassem maluco quando tentava replicar as caretas que ele fazia. Só comecei realmente a entrar no espírito dos outros dois quando comecei a aprender inglês (a sério) na adolescência, pois finalmente percebia o que eles diziam. As traduções nem sempre são fiéis aos trocadilhos geniais, aparentemente espontâneos, que eles faziam.

 

Não consigo dizer que hoje ainda é esse o caso, excepto na maneira como às vezes "insulto" as pessoas à maneira de Groucho, mas nunca com um millésimo do impacto cortante que ele aplicava.

 

E depois há a música, também apenas progressivamente compreendida à medida que fui crescendo. Os irmãos tinham todos um jeito para a música, mas mais famosos pelos instrumentos eram o Chico e o Harpo, que faziam questão de incluir um pequeno segmento deles a tocar nos seus filmes. Vou fazer uma pequena apresentação breve para dar uma amostra do génio subjectivo destes gigantes da comédia.

 

Comecemos com Groucho. Expressão sempre exagerada baseada num bigode e sombracelhas pintadas com graxa e um charuto. Um prelúdio, talvez, para preparar os seus interlocutores para o seu sarcasmo agudo.

Nunca o vi a ter um segmento dele a tocar um instrumento, mas uma das músicas e cenas mais famosas dos Irmãos é no filme "A Day at the Circus", com Lydia, The Tattoed Lady. Até os Marretas fizeram uma versão desta música. Gosto tanto da música que em sua honra propus chamar a uma pickup velhinha que tivemos de Lídia (se bem que no caso dessa carrinha, ela estava apenas tatuada de riscos e amolgadelas). Existem vídeos de Groucho a cantar esta música já muito velho, algures no anos 80, se calhar, não tenho a certeza agora. No entanto, gostaria de mostrar-vos a versão original:

 

 

Mas o Groucho era muito mais que isto. Como já referi, o verdadeiro talento dele era a espontaneidade com que insultava toda a gente directa ou indirectamente através de frases que nunca podem ser consideradas cliché, pois eram sempre únicas e específicas à situação. Reparem nesta próxima cena como Groucho fica mais ou menos como som de fundo a comentar o caos ocorrente. É extremamente difícil apanhar todas as piadas à primeira porque está tanto a acontecer e o vídeo não tem legendas, mas isso também só vos dá uma razão para ver uma segunda vez esta pérola da Comédia, do mítico filme "A Night at the Opera".

 

A seguir temos Chico, um insaciável caçador de miúdas e vigarista no geral, mas com a moral para fazer a acção certa quando é necessário. É o amigo eterno de Harpo, com o qual tem cenas fantásticas e serve de ligação principal entre Groucho e Harpo nos vários filmes. O seu instrumento de preferência: o piano, que durante uns minutinhos de filme nos impressionava com a destreza musical e física com que tocava (um dos seus movimentos que mais gosto é de certeza a maneira como ele punha a mão em forma de pistola e "disparava" contra a tecla). Ora vejam este interlúdio musical de "A Day at the Races":

 

 

 Mas ele brilhava a sério quando tinha os seus momentos com Groucho, especialmente quando um estava a tentar enrolar o outro num estratagema qualquer. Para mim, um dos melhores exemplos será no mesmo filme que o vídeo anterior, complementado com o humor de Groucho. Felizmente este filme tem legendas, porque poderá ser difícil compreender o que o Chico diz devido ao seu sotaque exagerado.

 

Resta Harpo. A sua melhor característica é que ele é mudo. Aliás, faz-se de mudo. Reza a lenda que quando faziam vaudeville um crítico qualquer disse algo sobre a voz de Harpo e ele decidiu nunca mais falar em actuações. Isto implicou que a voz de Harpo ficasse como um dos segredos mais bem guardados da História da Humanidade. Mas ainda bem, porque ele foi assim obrigado a fazer quase exclusivamente comédia física, como mostro neste vídeo que alguém do Youtube fez (ignorem as palermices escritas pelo autor, concentrem-se no vídeo).

 

 

Repararam? É provável que já tenham percebido como é que Harpo arranjou o seu nome. O seu instrumento de escolha era a harpa, que ele aprendeu a tocar sozinho. Era nestes momentos que ele se tornava um mágico absoluto, uma criatura como não se vê na Terra há muito tempo. Notem como no segmento da harpa ele transita do seu estado divertido e infantil para o mais sereno sério. É uma transformação brutal que pode dar arrepios, especialmente para quem está habituado a vê-lo actuar duma maneira completamente oposta durante o resto do filme.

 

Acho que este artista, no verdadeiro e profundo sentido da palavra, merece especial relevo hoje, e por isso deixo-vos mais uma vez com Harpo Marx:

 

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publicado às 00:00


1 comentário

De José da Xã a 06.01.2014 às 00:51

Adorei este post. Como sabes sou um absoluto adepto destes actores. Seja Grouxo, Chico ou Harpo todos eles tecem o humor de forma tão bem conseguida que trona-se obviamente impossível alguém fazer melhor que eles.
Disse uma vez o Raul Solnado, de boa memória, que o humor também é uma questão de cultura. Creio mesmo que fazer rir será a arte mais sublime de um actor.
Muito bom!

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