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A Batalha de Ano Novo

por Rei Bacalhau, em 01.01.15

Duarte surge do arbusto onde foi defecar. Disciplinou-se com esse hábito para evitar o que era tão habitual acontecer na expectativa antes e durante a batalha. Como tal, antes de qualquer escaramuça, fazia o esforço para evacuar os excessos digestivos. Coxeando ligeiramente, como já não conseguia evitar, aproximou-se do seu bando de companheiros, que lhe apontaram as armas imediatamente, não querendo arriscar. Duarte levantou a mão da maneira especial que todos conheciam, e voltaram às suas posições de vigia e espera.

Mais adiante, afastado do bando, estava um homem mais velho, de farto bigode, e menos barrigudo do que já teria sido, a julgar pelas roupas largas que tinha vestidas. Numa mão, uma espingarda, na outra, um par de binóculos, na cara, um olhar preocupado. Sem olhar, pressente a aproximação de Duarte:

"Deves 'tar cada vez mais orgulhoso dos teus cagalhões... Até aqui vem o cheiro!"
"Vai pó caralho, Sargento." - Era a resposta tradicional dele. Chamava-lhe Sargento porque foi assim que o conheceu, mas há muito que haviam abandonado o Exército, e numa milícia a patente vale pouco mais que o nome. - "Que contas de novo?"
"Pouco movimento...há ali um ou outro Inimigo filha duma puta a rondar e a patrulhar, mas nada de especial."

Mantiveram-se silenciosos, à espera de notícias. Era véspera de Ano Novo, e o frio observava-se na respiração, sentia-se no tiritar, e ouvia-se no praguejar ocasional.

"Foda-se, 'tá mesmo frio!..."

Batiam as onze badaladas, ecoando calmamente pelos vales rurais, um aviso para o chinfrim que viria na Passagem de Ano. Tinha sido acordado um armistício entre os dois exércitos da nações, mas a Milícia não se importava com tais burocracias. Não iriam dar misericórdia pois também não esperavam nenhuma. É a vantagem e ao mesmo tempo desvantagem de se trabalhar de forma independente. E se uma tão boa oportunidade de ataque se apresenta, as convenções de guerra são facilmente ignoradas. Os foguetes de celebração iriam rapidamente ser substituídos por disparos transportadores de dor e morte. Pelo menos era esse o plano: quando derem as doze badaladas e as celebrações começarem... ataca-se.

Duarte e o Sargento observavam estoicamente o alvo da noite, ignorando o medo e o frio. Tinha-lhes sido dito para estarem prontos a receber ordens às 23 em ponto, mas nada se soube, e a expectativa aumentava. Tinham deixado as carrinhas a uns dois quilómetros de distância, para evitarem ser vistos ou ouvidos e fizeram o possível para estarem no sítio suposto à hora marcada.

O telemóvel do Sargento finalmente vibra.

"Foda-se, ò Fonseca, só agora!? Já me estava a preocupar... sim... sim, estamos todos prontos.. han!?.... não!, estamos todos prontos caralho!... 'pera, já me ouves?.. ok.... sim... siiim.... então mas.. ah... ok, sim, sim.... pela frente.. ah, mas eu não tenho gajos aqui para isso!, arranja mais um grupo para essa casa... não, não vi muito, pelo menos não cá fora.... sim, isso confirma-se... não caralho, mas tu... ah... 'pera, deixa ver, só um momento... ò Duarte, vê lá se vês uma luz na terceira casa a contar da esquerda... é? 'tá!... 'tou? 'tá lá? oh foda-se, 'tás-me a ouvir?... ah, sim, 'tá lá uma luz sim... ah é? óptimo então, parece-me bem.. vou fazer um reconhecimento final e já te mando mensagem se tiver tudo bem... até já!"

O Sargento guarda o telemóvel cuidadosamente, para não se notar a luz.

"Olha Duarte, vai chamar o pessoal, para se dar uma ideia do plano."

O bando contava com 14 membros no total, o que era relativamente grande para um grupo independente de milicianos. Quatro deles eram novatos, tinham visto muito pouca acção ainda, e um deles ainda quase não tinha disparado a espingarda. No entanto, os restantes eram muito mais experientes, sendo que o Sargento e Duarte já lutavam juntos quase desde o início da guerra. Os outros 8 foram sendo adicionados aos poucos, e eram uma possível prova de que quanto mais tempo se está numa guerra mais probabilidade se tem de sobreviver. Reuniram-se à volta do líder não oficial, o Sargento, para receber instruções.

"Sei que não é normal fazermos trabalho directamente com outros grupos, mas desta vez a oportunidade é de ouro. Ouçam lá bem, que agora já há confirmação do que é que nos viemos meter: naquela aldeola está a descansar uma companhia inteira de tropas Inimigas experientes, que foram fundamentais na queda recente de Macelada. Sabemos todos o que essa derrota pesada custou ao Exército e por isso cabe a nós fazê-los pagar, já que esses paneleiros levaram na boca. Com a merda do armistício e tal, eles não 'tão exactamente à espera de serem atacados, mas não podemos subestimá-los, os cabrões são espertos. Falei agora com o Fonseca, da Milícia de Azinhos, e ele diz para atacarmos uma vivenda onde estão os oficiais da companhia. Fica mesmo na orla da aldeia, por isso é ataque directo! Matar e bazar!"

Duarte interveio, como era seu costume quando pressentia algo de errado: "Desculpa, mas então estamos a falar daquela vivenda já ali?" - o Sargento assentiu afirmativamente com a cabeça. Duarte ficou silencioso, olhando pensativamente para o alvo.

"Bom, os nossos flancos vão estar protegidos por outro grupos, pelos menos durante um tempo. Deverá ser suficiente para fazermos o nosso trabalho. Vocês os cinco já sabem o que fazer com certeza, rotina do costume, vão pela direita. Vocês os quatro, novatos, cobrem-nos a retirada, não vos vou arriscar ainda onde vai 'tar mais quente. Sabem o que isso significa, certo? Se for preciso, dividam-se em dois e cubram os flancos. Vamos usar aqueles muros para avançar e retirar, por isso devemos estar safos, mas nunca se sabe..."

O Sargento brilhava com a sua aura de líder natural. Com os factores actuais, as decisões pareceriam ser as mais acertadas. Ele indicou meticulosamente a posição das sentinelas e patrulhas que já tinha descoberto. Designou a cada miliciano um conjunto de alvos a abater na aproximação à vivenda, que seria a etapa mais perigosa, se feita sem rigor.
Duarte continuava pensativo. Finalmente, perguntou:

"Sargento, quem é que nos deu as informações com que estamos a basear o ataque?"4
O Sargento suspirou, já sabia que o Duarte era paranóico quanto a ataques organizados por outros. Felizmente, era normal as suas suspeitas confirmarem-se. Como tal, o Sargento alinhou nas perguntas.
"Um contacto do Fonseca, supostamente, porquê? Cheira-te mal? Tu é que foste cagar há bocado."
Duarte sorriu e pediu os binóculos, mas em vez de inspeccionar a aldeia ou a vivenda, olhou noutras direcções opostas, procurando algo. Subitamente, chama o Sargento e pede-lhe para olhar numa direcção.

"Naquela casa isolada, ali, olha pela janela, não vês vultos?"
"Caralho, é outro gajo de binóculos, e não é dos nossos! Vá lá que não está a olhar para aqui senão via-nos de certeza. Baixem-se, caralho! Foda-se, eles 'tão à nossa espera!"
"Pergunto de novo, quem é que nos deu as informações?"
"O conas do Fonseca diz que tem um contacto! Caralho, contacto dou-lhe eu se o vir outra vez. 'Pera aí!"

O Sargento retira o telemóvel de novo, e liga rapidamente ao Fonseca.

"'TOU!? Ò meu grande asno, filho duma puta, mil caralhos te fodam! É uma armadilha!, os gajos 'tão à nossa espera! Sim!... vi uma quantidade deles a olhar pelas janelas, como se estivessem à espera.... han!?... diz lá!... han!?... sim!, claro que sim... não... quem foi o cabrão que te deu informação?.... então manda-o 'pó caralho por mim sim? diz a todos para bazarem, senão é uma chacina... ah é? então morre tu se quiseres, não contes comigo, vai para o caralho, filho da cona!"

"Vamos embora, andor!"
"Mas então não vamos lutar?" - perguntou timidamente um dos novatos.
Enlouquecido de fúria, o Sargento insultou-o violentamente e informo-o que não há nenhum contracto assinado para aquela Milícia. Se ele quisesse, estaria à vontade para ficar e morrer. O novato engoliu em seco e acompanhou-os de volta para as carrinhas antes dos combates começarem. Duarte aproxima-se dele e tenta reconfortá-lo, explicando que o machismo é a melhor forma de morrer numa guerra.

"Todos nós somos orgulhosamente cobardes, e por isso vivemos mais que os outros. Tácticas de guerrilha implicam mesmo isto, jovem...."
"Então, mas o que é que te fez duvidar da situação...?"
"É simples: como eu disse, todos nós somos cobardes, e os oficiais de um exército ainda mais. Não faria sentido estarem numa vivenda na orla da aldeia, mesmo a pedir por serem atacados. Seria demasiado óbvio. Uma companhia de tropas experientes não faria isso. Há que ser pessimista nestes casos. Como tal, imaginei que se fosse uma armadilha, as tropas Inimigas estariam preparadas fora da aldeia, para nos rodearem. Daí ter tentado observar para lá dos limites da aldeia. Despachemo-nos agora, vamos, que não acredito que todos vão ser tão sensatos como nós..."

O Sargento vociferava para o telemóvel, implorando a vários líderes de bandos que fugissem.

Tocou a primeira das 12 badaladas. O silêncio da noite foi interrompido pelo rugir de explosões próximas e distantes, sendo difícil discernir entre fogo-de-artifício e sons de batalha. Contudo, o barulho ensurdecedor de disparos e explosões tornou-se imediato. O ataque havia começado, e pela maneira que começou, é óbvio que iria fracassar. Não havia nenhum elemento surpresa para auxiliar as Milícias que ainda lá ficaram, por teimosia ou desconhecimento.

O Sargento praguejou a longa marcha de volta para as carrinhas, insultando várias gerações da família do Fonseca e do seu informador.

Duarte olhou tristemente para trás, e observou as chamas na aldeia, enquanto os últimos disparos se faziam ouvir. Era mais uma derrota pesada para a Milícia.

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publicado às 23:36




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