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A Caverna - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 23.09.16

Ventura Lobo percorreu o triste planalto junto à cordilheira Ruq. Seguia um conjunto de marcos que, segundo o que os Ruqi lhe disseram, formava a estrada principal que unia as cidades-montanha. Todos os marcos tinham uma saliência que apontava qual a direcção a tomar para quem queria ir para a cidade capital do Reino Ígneo de Ruqum, o principal dos antigos reinos. Esta cidade furava a cordilheira de um lado a outro, permitindo acesso imediato às terras do Norte, para a demanda do Livro continuar.

Passaram dois dias desde a batalha de Ruquru e o Despertar dos Ruqi. O nosso herói, apesar da sua perícia e bravura, foi atingido no ombro esquerdo. Não se atreveria assim ferido lidar com os exércitos de Otto'Gháfiq, que certamente já teriam sido alertados para o sucedido em Ruquru. Ir para as goelas da montanha tornou-se a sua única alternativa para escapar à estrada principal do Norte, provavelmente ocupada pelos cultistas.

O seu ombro ferido inchara visivelmente, e Ventura não tinha meios para o tratar adequadamente. Não existiam nenhumas das ervas medicinais que ele conhecia naquele planalto inóspito e árido. Não havia qualquer tipo de aldeia humana num raio de muito quilómetros. Ventura, como qualquer homem decente, decidiu aguentar a dor escalante que sentia.

- Isto já passa.

 

Felizmente, a sua locomoção estava sob a responsabilidade de Sara, a resistente égua Maglu que Ventura obtivera e possivelmente salvara dos cultistas de Otto'Gháfiq.

O Sol quente e constante numa terra plana sem árvores e sombra contribuía para o desgaste físico do cavaleiro, mesmo que este teimosamente não o quisesse admitir.

Depois do pico de calor, Ventura reparou que a estrada começava finalmente a dirigir-se para as montanhas. Até agora tinha estado perfeitamente paralela à cordilheira, o que de vez em quando fez Ventura perguntar-se se se teria enganado.

- Se se se? Fica um bocado estranho. Acho que deve estar bem, mas se calhar a frase poderia ser construída de outra forma. É quase um trava-línguas.

Ventura Lobo proferiu a frase críptica em voz alta, apesar de ninguém lá estar para o ouvir, para além de Sara e talvez Venceslau. Seja como for, não se pode assumir que ele esperasse uma resposta.

A cabeça dele palpitava com o bater do seu coração. Sentia o fluxo de sangue nas suas veias ao ritmo acelerado e constante com que este trabalhava. Por um momento pareceu-lhe ter visto um elemental de fogo a dançar na terra seca, mas provavelmente era apenas uma metáfora do autor.

Sara prosseguia automaticamente pelos marcos, sendo de uma inteligência suficiente para perceber a direcção das saliências nos mesmos.

- Pois é, está a provar ser uma amiga inteligente e leal! Sim senhor! - exclamou Ventura, por coincidência imediatamente a seguir à inteligência de Sara ter sido referida na narrativa. - Mas qual coincidência!? Essa agora! - gritou para o ar, como se falasse para alguém, apesar de, como já se disse, mais ninguém estar presente. - Essa agora... - concluiu.

Finalmente, avistou uma rampa larga no sopé da montanha mais alta da cordilheira. Os marcos apontavam nessa direcção. À medida que se aproximou, Ventura distinguiu uma enorme entrada escura na encosta da montanha, como se esta estivesse no auge de um imenso bocejo.

- As montanhas não bocejam! Deixa-te lá de tentares tanto com as metáforas descabidas!

Ventura Lobo delirava, e nesse delírio conseguia, de alguma forma, parecer responder por mero acaso às afirmações do narrador.

- Quem 'tá a delirar és tu!

Dito isto, Venceslau, ofendida pela abreviação coloquial, treme e tenta disciplinar o seu mestre, saltando na bainha. Infelizmente, a espada estava presa a Sara, e não a Ventura. A égua leva uma vergastada inesperada e parte a todo o galope como reacção.

O corpo semi gelatinoso de Ventura teve dificuldade em manter-se firme na sua montada, balançando-se descontroladamente na sela, ameaçando desequilibrar os dois. O nosso herói, por muito que tentasse, não se conseguiu manter acordado e desmaiou repentinamente, aterrando de cara na crina áspera e poeirenta de Sara.

 

 

O bravo corcel entrou pela montanha dentro, sendo engolido pela colossal caverna como se fosse um mero grão de pó.

 

 

Ventura Lobo acorda com uma imensa pancada no...

- Sim! Claro, eu sei!, não precisas de me dizer, já percebi que caí do cavalo!

O ferimento do ombro não lhe afectara apenas fisicamente, pois a mente do nosso herói era assolada por uma febre dilacerante. Era provável que a seta que atingira Ventura tivesse algum tipo de veneno.

- Pois claro, todas as histórias são assim. O herói arma-se em herói, de todos os ferimentos que podia sofrer apenas uma seta lhe afecta, ainda por cima no ombro para poder continuar a lutar todo estóico, depois percebe-se que a seta 'tava envenenada, como sempre, depois o gajo fica maluco, começa a falar sozinho ou fica doente e tal ou não-sei-quê, não diz coisa com coisa, e depois há-de acordar num sítio qualquer maravilhoso rodeado de plantinhas e florzinhas e passarinhos piu-piu e há-de ter uma amazona muita boa com enormes seios a tratar-lhe das feridas, tipo Princesa Xena e, claro, depois disso ele e ela ....

Sara relincha subitamente, como se fosse um estratagema por parte do narrador para evitar que a insanidade febril de Ventura reduzisse ainda mais drasticamente o nível de qualidade do texto.

Ventura levantou-se e not...

- Oh diabo! Não vejo nada! Só está aqui a Sara e pouco mais. Nem o chão parece existir! Essa agora!

O aventureiro precipitou-se na sua interrupção, pois não permitiu que a cena em que se inseria fosse descrita e como tal, não podia ver o que não tinha ainda sido criado para os seus sentidos.

- Mas eu não posso estar sempre dependente de ti, narrador! Se um dia decides matar-me, como é que é? Ou, pior ainda, se não me arranjas uma amazona? Seios grandes, não te esqueças. Não pode ser. Não preciso de ti! Sou Ventura Lobo, grande aventureiro e caminhante de todas as estradas.

Nas suas deambulações, Ventura não compreendeu que o próprio narrador é também ele um vassalo dependente de outra entidade.

 

 

Já chega, é a vez de eu entrar e resolver isto, que a narrativa já está a ficar descontrolada.

- Essa agora? Quem disse isso?

 

 

Uma forte luz verde-marinho é projectada à frente de Ventura que decidiu pegar na sua espada com as poucas forças que lhe restavam. Para sua surpresa, Venceslau desaparecera da bainha. Desesperado, agarrou o seu sabre Ahmet. Enfrentou a luz de frente, preparando-se para uma luta com um ser sobrenatural.

A luz parecia divertida com o espectáculo. Decidiu tomar forma física, condensando-se num molde humanóide. À medida que as cores perdiam o brilho e a criatura era revelada, Ventura Lobo distinguia novas características do estranho interlocutor: o corpo era claramente humano, coberto de roupas modestas, mas a cabeça era a de um peixe.

Um bacalhau, na verdade, acho que devo dizer isso, para ser claro.

Não era a primeira vez que Ventura via um homem sereia, mas normalmente a parte que era peixe era a inferior, e não a superior. No entanto, a particularidade mais bizarra era uma coroa real pobre, provavelmente feita de latão, que encimava a cabeça ictióide.

O aventureiro demente notou que não se conseguia mexer de todo à medida que o homem-peixe avançava descontraidamente na sua direcção. Parou à sua frente e devolveu-lhe a sua espada. Ventura pegou na espada mesmo sem o querer, ou seja, sem ter dado ordem consciente aos seus músculos e afins para o fazer.

- Essa agora... mas que diabo?

Nada de diabos, ò Ventura. Não te preocupes que eu não sou o mau da fita. Aliás, não posso realmente dizer que esteja associado ao Bem ou ao Mal. Posso, contudo, dizer que é graças a mim que existes ainda.

Ventura não respondeu, confuso.

Permite-me apresentar-me. Sou o Autor, aquele que criou este mundo, com uma ou outra ajuda (leia-se, cópia) de outras obras de fantasia já existentes.

- Se isso é verdade, porque é que apareces como um peixe com uma coroa na cabeça?

Ah, essa é apenas uma das várias formas com que normalmente me caracterizo. Hoje calhou-te que eu escolhesse aparecer como o Rei Bacalhau, nem que seja só para me aproveitar da tua febre para depois pensares que foi tudo um sonho maluco. Aliás, aviso-te já, no próximo episódio, ou aventura, é isso mesmo que vai acontecer. Acordas e tal e pensas que tiveste um sonho muita estranho.

- E a Xena?

Lamento, mas tenho outros planos.

- É pena, eu realmente gosto de...

Vá, vá, acaba lá com esse tipo de comentários, essas piadas não funcionam sempre.

- Espera lá, ò bacalhau ou rei ou autor ou lá o que és... Porque carga de água é que o teu diálogo não tem tracinhos no início?

Como bem disseste, eu sou o Autor. Posso fazer o que bem me apetecer. Não uso travessões porque eu não sou realmente parte do teu mundo. Sou mais parte do mundo do narrador do que do teu. Como tal, não me parece adequado usar diálogo normal para mim. Seja como for, acho que se entende bem. Eu falo na primeira pessoa, o narrador não.

- Parece-me desnecessariamente rebuscada tal teoria. Por outro lado, um dos requisitos para se ganhar um prémio Nobel aparenta ser confundir o leitor o máximo possível com paupérrima pontuação e construção textual.

Seja como for, venho aqui para pôr alguma ordem no texto, pois a tua febre está a fazer-te demasiadamente consciente de elementos exteriores ao teu mundo, nomeadamente o narrador.

- Ele também não é grande coisa. Nem conseguiu colocar-me num sítio com as mínimas condições. É só escuridão à minha volta.

Bom, para a próxima não o interrompas antes de ele acabar a sua descrição ambiental. Vá, agora cala-te lá um bocadinho, senão nunca mais saímos daqui.

Ventura assentiu. Finalmente conseguiu olhar à sua volta depois de ter acordado tão bruscamente, ao ter caído de Sara. Estava agora na cidade capital de Ruqum, que partilhava o mesmo nome que o reino em que se inseria. A cidade estendia-se horizontalmente pelas profundezas como se fosse um imenso túnel e não uma cidade. Era uma maravilha geométrica, com as paredes e imensas colunas a delinear perfeitamente cada um dos edifícios que tinham sido perfurados directamente nas pedras.

- Então mas como é que eles viam fosse o que fosse? Não devia estar completamente escuro? Estamos dentro da montanha, não?

Cala-te Ventura, já lá vamos...

A cidade parecia tão deserta como qualquer outra cidade Ruqi. Não beneficiava de qualquer manutenção provavelmente há muitos séculos. A única iluminação disponível apresentava-se sobre a forma de fendas quadradas no tecto que provavelmente subiam até à superfície. Algumas estariam certamente tapadas por entulho, mas as que não estavam eram em número aparentemente suficiente para se poder ver adequadamente.

- Ou seja, até agora, uma descrição perfeitamente genérica de uma cidade típica de uma civilização que vive debaixo de terra, tipo os anões do Senhor dos Anéis.

Bom... sim, era por aí que eu estava a pensar...

- Pois, e deixa-me adivinhar, os edifícios estão todos incrustados de ouro e jóias e tal?

Enfim... mais ou menos.

- Já foi tão utilizado e reutilizado esse conceito...

Mas não são anões... são Ruqi, humanóides feitos de pedra, e portanto tem de ser coerente com a cultura deles, não?

- Pensava que eras o Autor. Não és tu que decides o que é que é coerente ou não? Só sei que nada disto é original.

Vá, ainda admito que sim... ò narrador, vamos tentar de novo.

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

A luminescência de estranhos cristais começou a preencher o ar frio e húmido. Toda a gruta estava coberta de cristais que apontavam em todas as direcções, brotando naturalmente das paredes. Entre os cristais adivinhavam-se alguns edifícios de pedra, semelhantes aos que Ventura já vira nas cidades-montanha exteriores. Os marcos de pedra do exterior pareciam ter sido substituídos por marcos de cristal brilhante, com indicações indecifráveis para quem não as soubesse ler.

- Alto! Espera lá. Isto é tipo a fortaleza do Super Homem?

Bom... suponho que sim, sei lá, isto são apenas coisas que me vêm à cabeça.

- Está bem, mas certamente consegues fazer melhor. Espero que não faças isto como profissão, senão estás bem tramado.

Epá, pronto... está bem, deixa lá ver. Ò narrador, tem lá paciência...

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

Ouviu-se um zumbido crescente, que escalou apressadamente para uma cacofonia de barulhos mecânicos. Alguma coisa parecia ter acordado. Subitamente, imensos pontos de luz tornam-se visíveis e a cidade ganha vida. Máquinas imensas giram centenas de rodas dentadas. Cada ponto de luz originava de pequenos frascos de vidro que se espalhavam quase aleatoriamente pelos edifícios que se erguiam orgulhosamente pela caverna adentro. Os próprios edifícios eram movidos pelas imensas máquinas num feito impossível de engenharia.

- Espera lá.

Mau.

- Então mas agora de repente os Ruqi eram engenheiros fantásticos? Pensava que querias ser coerente...

Não me estás a dar muitas alternativas, tão picuinhas que és.

- Mas isto parece totalmente copiado de algum sítio... não sei bem de onde... é de algum videojogo?

Sim, é, pronto, já estou a ver que também não te agrada.

- Não é original.... É assim tão difícil pensares em algo novo?

Tens de compreender, Ventura, que felizmente ou infelizmente, já quase tudo foi escrito anteriormente. Já tivemos grandes génios a fazer obras de arte na área da fantasia medieval. É muito difícil superá-los se eles já apanharam os melhores temas. Quase que chegamos a um ponto em que não se pode mesmo inventar mais. Mesmos os génios de outrora basearam-se sempre em algo anterior a eles para escreverem. Diz-se que o Tolkien, por exemplo, se baseou na carga dos hussardos polacos na batalha de Viena para aquela carga mítica análoga no Senhor dos Anéis. Até que ponto é que é realmente copiar descaradamente ideias de outros autores? Até que ponto não será na verdade um elogio às suas obras?

- Isso não é uma resposta muito convincente.

Talvez não, mas é a resposta que te dou. Tentemos de novo?

- Tentemos de novo.

Narrador, se fizeres o favor.

 

 

Toda a realidade que rodeava Ventura Lobo pareceu colapsar sobre si própria, voltando ao negro absoluto, ficando apenas ele, Sara e o Autor.

 

 

Ao habituarem-se à escuridão, os olhos de Ventura começaram a distinguir uma caverna coberta de musgo fosforescente, que se prolongava sinuosa e inconsistentemente até ao horizonte escuro e limitado por paredes rochosas íngremes. Pequenas cascatas corriam alegremente a toda a volta. As casas dos Ruqi escondiam-se debaixo do musgo luminoso, que se apoderara completamente dos antigos sinais de civilização dos seres de pedra. Uma espécie de trilho de gravilha ainda era visível e indicava o caminho que percorria a cidade de lés a lés, sendo provável que segui-lo seria o suficiente para atravessar as profundezas da cordilheira para atingir as terras do Norte.

Então?

- Então o quê?

Ainda não interrompeste.

- Ah, olha, nem reparei, estava a observar a caverna toda bonitinha.

Ah, então aprovas? Óptimo. Nesse caso, vou pôr-me a andar que os leitores devem estar completamente às aranhas sobre o que está a acontecer aqui. Não se preocupem meus caros, a narrativa vai retomar o seu fluxo normal. Não voltará a acontecer. Agora até me sinto como o Hulk Hogan naquele filme dos Gremlins, acho que era o segundo.

O Autor transformou-se de novo na luz verde e desapareceu sem dizer mais nada. Ventura Lobo embainhou Venceslau e montou Sara. Agora estava pronto para atravessar esta cidade mágica, linda e esquecida. Estava pronto para se maravilhar com as excelentes descrições que seriam feitas ao pormenor sobre cada uma das características misteriosas que a terra escondeu durante tanto tempo. Se calhar até poderia encontrar alguns dos famosos tesouros Ruqi!

 

Ordenou a Sara que avançasse pelo trilho.

 

E adormeceu imediatamente, exausto.

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