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A Fada - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 11.11.16

Cansado e dorido, Ventura Lobo abre ligeiramente os olhos. Pareceu-lhe distinguir entre a névoa da sua visão uma cara ansiosa. Quando voltou a abrir os olhos, levantou-se lentamente, ficando em posição sentada, apoiado nos braços. Olhou em volta e viu que estava sozinho. Examinou-se.

Estava coberto de folhas na cara, nas mãos e nos pés descalços, mas não no resto do corpo, que ainda equipava a sua armadura branca. Só agora se lembrou que tinha um ferimento no ombro e perdeu imediatamente a força no braço esquerdo, colapsando num embate doloroso. Um ligeiro resfolegar chamou-lhe a atenção e Sara, a égua Maglu, apareceu-lhe por detrás de uma árvore. Estava calma e parecia já estar por ali a pastar há algum tempo.

Ventura levantou-se definitivamente com dificuldade. Aproximou-se de Sara, que o cumprimentou com um som assoprado.

- Que sonho mais estranho... Já passámos a Caverna? Onde é que estamos?

Ventura perscrutou o local a fundo. Estava numa pequena clareira de uma floresta aparentemente vasta, com anormalmente enormes árvores como pinheiros, sobreiros, carvalhos e freixos, todos em coexistência. Dezenas de espécies de arbustos e flores decoravam lindamente a base da floresta onde passeavam de forma ondeante e pacífica alguns prováveis lepidópteros, acompanhados por abelhões gigantescos de aspecto inofensivo. Dois pássaros de tamanho igual brincavam num ramo baixo de um carvalho. Um era perfeitamente branco e o outro tinha uma coloração castanha alourada. Voaram subitamente, entrechocando-se alegremente, talvez sentido-se timidamente observados ou talvez arriscando-se num jogo de romance mútuo, sendo impossível determinar qual perseguia o outro.

Ainda se notavam os cumes das montanhas da cordilheira Ruq. Ventura Lobo espreitou por entre as árvores gigantes e detectou o que parecia ser uma estrada no sopé da montanha, com uma abertura para uma caverna escura. Teria sido dali que tinha vindo, certamente, e chegara agora a um local que nunca ouvira sequer falar. Da pouca informação que existia sobre as terras do Norte, nunca algum mapa referiu uma tão exuberante floresta.

Ventura Lobo sentiu algo húmido no seu ombro ferido. Estava descoberto, facto esse que não tinha reparado antes, e nele vertia uma espécie de seiva pegajosa que começara a escorrer devido à gravidade. Ventura afastou a seiva e reparou, para sua surpresa, que a ferida tinha um aspecto muito mais saudável e limpo comparativamente à última vez que a inspeccionara. A dor persistia, mas pelo menos a infecção parecia ter sido combatida.

Mas quem é que o teria auxiliado? Não poderia supor que aquela seiva tivesse por sorte caído de uma árvore precisamente no sítio exacto do seu ferimento. Por outro lado, cenários mais absurdos já lhe tinham ocorrido e talvez Ventura estivesse apenas a fazer jus ao seu nome.

Encontrou a maior parte do seu equipamento na clareira. O seu sabre Ahmet estava mais afastado, temporariamente perdido no trilho por onde Ventura entrou na floresta. Recolocou a sua ombreira esquerda, pois já conseguia suportar o desconforto de o fazer e preferia ter a protecção adicional, mesmo que ligeiramente danificada. A espada Venceslau não estava em sítio algum, apesar de a bainha estar ainda presa à sela de Sara. De sabre em mão, Ventura explorou a uma distância pequena da clareira, pois sabia que Venceslau não poderia ter caído ao chão sem intervenção manual. Começou a perceber que se calhar não estava sozinho.

Era difícil encontrar pegadas ou outros indícios de companhia. A erva, ao ser pisada, restabelecia-se como que por magia na posição original sem aparência alguma de dano.

 

- A, a, a....

 

Ventura ouviu o que parecia ser uma leve gargalhada distante e ecoante. Não conseguiu precisar a direcção. Voltou cuidadosamente para a clareira, pois precisava de organizar as ideias.

Certamente se lhe quisessem fazer mal já o teriam feito há muito enquanto esteve inconsciente. Seja quem for que o estivesse a observar, se realmente o estava, teria levado Venceslau consigo? Porquê? Porque não as outras armas também? A verdade é que Ventura não sabia de todo quem é que iria defrontar e consequentemente não sabia como se preparar. Tanto poderiam ser as bruxas nadadoras de Mitchus, como os feiticeiros exploradores do reino hipnotizante de Baret, ou mesmo os bárbaros centauros de Iqua.

Enquanto Ventura reflectia, ouviu-se um rufar de folhas num arbusto atrás dele. Virou-se rapidamente, de sabre numa mão e a besta carregada na outra. Apenas viu a sua espada Venceslau pousada delicadamente contra um pinheiro. Aproximou-se cuidadosamente, temendo uma emboscada. Verificou à volta da árvore mas não encontrou criatura alguma. Por instinto, olhou para cima e viu finalmente um vulto negro contra o céu cinzento, uns metros acima dele. Embainhou o sabre e rapidamente agarrou Venceslau pelo cabo e preparou-se para o combate, pois o vulto dirigiu-se para o chão, aterrando placidamente.

Era uma mulher. Enfim, não exactamente uma mulher, já que elas tipicamente não têm a tendência para conseguir voar, mas era certamente uma figura muito semelhante a uma mulher.

- Porque carga de água é que me estou a lembrar da Princesa Xena?.. Estranho... Esta em nada lhe é semelhante.

A mulher era quase da mesma altura que Ventura. Tinha longos cabelos encaracolados de uma cor castanha dourada que desciam controladamente pelo seu peito. A tez da sua pele era agradavelmente pálida, não como se fosse doente, mas como se fosse uma criatura delicada e protegida da violência de muitos sóis. A sua face era de uma beleza extrema e radiante. Os seus grossos lábios rosáceos contrastavam com a tez branca da sua cara redonda, cujas bochechas estavam inchadas de sangue, transformando o branco num escarlate convidativo e querido. Os seus grandes olhos âmbar expressavam cautela e divertimento simultaneamente. Tecidos sedosos verdes e brancos escondiam-lhe as formas sensuais e atraentes de um corpo bem desenvolvido. Escondiam igualmente as armaduras que a mulher tinha espalhadas pelo corpo inteiro. Empunhava uma lança ricamente decorada na sua mão esquerda. Ventura percebeu que era uma guerreira e fez os possíveis para se libertar da sua beleza enfeitiçadora para mais objectivamente poder avaliar a situação.

Ventura não tinha qualquer desejo imediato de lutar com ela, especialmente devido ao seu ferimento. Tentou ser diplomático.

- Bons dias, minha senhora. Devo-lhe confessar que tenho várias perguntas, mas creio que seria mais adequado se eu começasse por me apresentar.

- A! - respondeu a guerreira, que Ventura interpretou como sendo uma interjeição para continuar.

- Sou Ventura Lobo, aventureiro e caminhante de todas as estradas, e hoje a estrada trouxe-me, espero eu, às terras do Norte, ou pelo menos ao que os humanos consideram o Norte em termos relativos.

- Ã ã... - respondeu a interlocutora pouco faladora, dando a entender que queria saber mais, movimentando ligeiramente a sua lança.

- Compreendo que esteja talvez a infringir alguma fronteira proibida a estrangeiros, mas quero que saiba que não foi por minha vontade que entrei nesta floresta. Digamos que transgredi a floresta por ter adormecido montado na minha égua que está ali e que decidiu conduzir-nos até aqui. - Ventura estava a tentar esconder o facto de que estava ferido.

- A, a, a, a, a, a, a! - riu-se ela, revelando um enorme sorriso branco. Levou a mão direita a uma pequena sacola lateral e retirou de lá um conjunto de folhas completamente iguais às que Ventura tinha na sua pele quando acordou.

- Essas folhas... Foi a senhora que me tratou? - inferiu rapidamente Ventura.

- Â ã. - disse, afirmativamente.

- Deveras que não sabia coisa alguma sobre esta terra, mas passo a saber que a hospitalidade é comparável à beleza dos seus habitantes. - disse, fazendo uma pequena vénia de agradecimento. A mulher sorriu, enrubescendo. - Poderei saber-lhe o nome, para mais completamente lhe poder agradecer?

- A'á'a.

- Perdão, não era uma piada, tenho efectivamente o desejo de saber o nome da pessoa que me tratou tão altruisticamente.

- A'á'a. - repetiu, algo confusa.

- Não me está a querer dizer que o seu nome é uma combinação de três vogais iguais com subtis diferenças de entoação?

- Â ã. - confirmou.

Ventura finalmente apercebeu-se de algo que já lhe deveria ter sido óbvio há muito. Era extremamente provável que se encontrasse na presença de uma Fada Vogal, o que explicaria as suas dificuldades vocabulares na mesma proporção que explicava a sua beleza ímpar. Explicaria também o facto de estar em equipamento de guerra, pois as Fadas Vogais haviam sido derrotadas recentemente pelos exércitos do Reino. Nunca se soube qual foi a razão da guerra entre as duas facções.

- Senhora A'á'a (e ainda bem que não tenho de realmente pronunciar o nome, porque seria impossível para mim acertar à primeira), seria incorrecto se eu induzisse que estou a falar com uma fada Aa'a-a-A'a, ou seja, uma Fada Vogal?

- Ã ã. - entoou, confirmando a teoria de Ventura.

- Deveras, é uma honra conhecer uma das representantes das que dizem ser as mais belas das Fadas Vogais.

Ela não respondeu, mas fez uma careta de dúvida.

- Diga-me, porque é que me tratou? Apesar de eu não ter afiliação militar, não seria de estranhar se tratásseis um humano com menos amabilidade, tendo em conta as tensões recentes entre as nossas facções.

- A! A'a'aa aa a'á'à ã á àa.

- Â? - questionou Ventura por instinto, obviamente não percebendo coisa alguma do que a fada havia dito.

Erro crasso, pois tal interjeição, normalmente representativa do facto de alguém não ter percebido outrem, provavelmente significava algo menos inofensivo para as Fadas Vogais.

A fada preparou a lança, apontando-a determinantemente. Fez um gesto agressivo em direcção ao interior da floresta. Ela queria que ele a seguisse.

- Peço desculpa se disse algo inapropriado, mas peço que compreenda que não falo a sua língua, e por isso foi pura coincidência que a minha exalação tenha parecido significar... enfim, seja o que for que signifique para vós.

Ela enrugou delicadamente as finas sobrancelhas, como se reflectisse que o que Ventura dissera até fazia sentido. Mesmo assim, repetiu o gesto, menos agressivamente.

- Percebo que quer que a siga, mas a senhora tem de perceber que não lhe sei as intenções, e para além disso eu estou numa demanda importante da qual não me posso desviar durante muito tempo.

- Aaa! - gritou repentinamente a fada, voando agilmente pelos ramos em cima de Ventura e aterrou dramaticamente atrás dele, barrando-lhe o caminho até Sara, que mastigava um arbusto descansadamente.

Ventura olhou à volta, certificando-se que não detectava nenhum aliado da fada.

- Minha cara, imploro-lhe que me ouça. Não tenho desejo algum de lutar neste momento, mas a sua pose agressiva não me permite inferir que o sentimento seja mútuo. Saiba que me defenderei se necessário e saiba também que não a subestimarei.

A fada colocou-se numa postura estranha de ataque, envolvendo os seus braços sedosos na sua lança.

Ventura Lobo preparou a espada Venceslau, dando pequenos passos cautelosos, avançando inclinado para a direita, pois de nada valia esconder o seu ferimento, já que a fada já evidentemente sabia que ele o tinha. Talvez por isso se mostrasse ela tão confiante em ganhar? Ou será que as fadas guerreiras eram muitíssimo mais mortíferas do que ele imaginava? Fosse como fosse, Ventura faria o melhor que lhe fosse possível para não magoar uma criatura tão singela.

Ela finalmente decidiu atacar, usando os seus poderes voadores para desferir uma estocada rápida. Ventura já imaginava que seria esse o plano, pois as Amazonas de Kikas usavam uma estratégia semelhante quando montavam as suas gaivotas gigantes. Baixou-se rapidamente e tentou agarrar a fada para a pousar, mas apenas lhe rasgou um pedaço do tecido leve que lhe cobria a armadura. Perdendo o elemento de surpresa, ela pousou e rodopiou a lança várias vezes para atingir Ventura de vários lados. Foi aqui que este percebeu que a sua adversária, apesar de fogosa, não era uma combatente experiente, pois nem teve de se desviar de muitos destes ataques já que ela raramente os dirigia correctamente na direcção dele.

Ventura, num movimento rápido, agarrou firmemente na lança da fada, esperando desarmá-la. Ela riu-se ligeiramente e começou imediatamente a voar, levando Ventura com ela. O aventureiro largou-se quando ainda estava a uma distância curta do chão, mas sabia que estaria vulnerável ao próximo ataque, que não tardou a vir. A fada repetiu o mesmo movimento de estocada inicial, desta vez vindo de cima, perfurando o ar. Apenas por sorte conseguiu Ventura desviar-se da lança mortífera, rebolando para o lado desesperadamente. A lança da fada ficou vários centímetros enterrada no chão, pressagiando que o mesmo poderia ocorrer a Ventura.

Ventura levantou-se e andou impacientemente de um lado para o outro.

- A senhora coloca-me num dilema. Tenho agido defensivamente, mas começo a crer que realmente terei de a magoar para a convencer a desistir deste combate estúpido.

- A a a! - riu-se a adversária voadora ufanamente, caindo no erro de não levar a sério o aviso de Ventura.

Lançou-se de novo ao ataque, mas foi surpreendida ao ver que Ventura também carregava energicamente sobre ela. Apontou ao ombro dele, que aparentemente estava vulnerável, caindo na armadilha de Ventura. Ele rodopia sobre si próprio para a esquerda, desviando-se do ataque e desferindo uma cotovelada forte nas costas da fada que agora se intersectava com ele, ficando estatelada no chão. Ela reagiu inesperadamente depressa, atacando os pés ainda descalços de Ventura e fazendo-o cair sobre o seu ombro esquerdo, agoniando-o horrivelmente. A'á'a planeava agora escapulir-se para a copa das árvores para recuperar o factor de surpresa, mas Ventura agarrou-a por um pé. Antes que ela conseguisse começar a voar, Ventura reuniu todas as forças do seu corpo bem treinado e lançou brutalmente o corpo da fada num movimento circular contra o chão.

Arrependeu-se de imediato, pois A'á'a perdeu os sentidos e permaneceu imóvel. Não se orgulhou pela vitória. Nunca gostou de lutar contra fêmeas. Sempre pensou que só os homens é que deveriam ser estúpidos o suficiente para se envolverem em violência. Não obstante isto, não era a primeira vez que lutava contra uma mulher, mas de alguma forma sabia que o que fizera a esta em particular não era justificável.

Pegou no corpo inerte de A'á'a e pousou-o delicadamente contra uma árvore. Vários arranhões cobriam agora a pele branca da fada. Ventura, não sabendo se tal resultaria, procurou pelas mesmas folhas com que ele próprio havia sido tratado, encontrando um pequeno arbusto delas numa clareira ali próxima. Aplicou desastradamente as folhas sobre a pele macia de A'á'a, e reparou que as próprias folhas se enrolavam automaticamente à volta dos membros doridos.

Não sabia agora se esperaria que A'á'a acordasse ou se simplesmente continuaria caminho, aventurando-se pela floresta dentro.

Sentou-se, cansado e novamente dorido. Percebeu que sangrava do ombro. Provavelmente reabrira a ferida. Tentou colocar uma das folhas mágicas no seu próprio ombro, mas desta vez nem se quiseram aproximar da pele sangrenta, como se tivessem mente própria. Escapavam-se sempre da mão de Ventura assim que este as trazia perto do ferimento.

Dirigiu-se a Sara e retirou do seu alforge uma fatia de pão duro e barrou-lhe uma porção de manteiga de iaque de Buzul e sentou-se de novo, desta vez ao lado da A'á'a, ainda inconsciente.

- Pois é Ventura, és mesmo parvo. - murmurou para si próprio, auto-comiserando-se. - Tantos meses de crossfit e destes suplementos proteicos grotescos para ficares com um corpo fantástico para impressionar as miúdas e na primeira oportunidade que tens de conhecer uma Fada Vogal, uma das mais belas ainda por cima, agarras nela e usas a tua força bruta para destruíres a sua beleza e eliminares qualquer hipótese de... - deixou a frase morrer, suspirando.

Virou a cabeça timidamente para a fada, inspeccionando-a. Sentia-se culpado, pois achava que um ser tão belo não deveria ter de lutar, tal era o risco de desfiguração, e na altura as operações plásticas não eram prática comum.

Encontrou uma nova ferida que não reparara em anteriormente. Rapidamente foi buscar uma das folhas curativas e aplicou-a com o maior dos cuidados na ferida, esperando que desta vez funcionasse de novo. Era um corte algo profundo no braço que até agora estivera escondido pelo volumoso e perfumado cabelo. Tinha o aspecto de ter sido provocado pela lâmina de Venceslau, mas Ventura nem notara que a tinha atingido durante a luta.

- Mesmo assim, ela continuou. É determinada, hem? - comentou.

A folha curativa, ao contrário da tentativa anterior nele próprio, quase saltou magneticamente para cima do corte da fada, enrolando-se e aconchegando-lhe o braço.

Ventura decidiu ali, naquele momento, que permaneceria até que A'á'a se restabelecesse. Parecia estranho pensar que ela tinha feito o mesmo por ele, apenas para o atacar posteriormente. Que cultura estranha teriam estas fadas para tratar um potencial inimigo. Não teria sido mais fácil simplesmente levá-lo fosse para onde fosse enquanto ele próprio estava inconsciente? Ela claramente tinha essa capacidade, pois levitara-o durante o combate sem grande esforço. Que razão terá feito com que ela o tratasse?

Deveras, porque razão estava ele por sua vez a tratar dela agora?

Toda a prudência habitual de Ventura Lobo gritava num desespero agoniante para que ele partisse e deixasse aquela floresta o quanto antes. Mas ele ignorou todo o conceito de cautela. Sentia algo que o mantinha ali. Aquela fada, apesar de tudo, aguçara-lhe a curiosidade. Não, não era bem curiosidade. Era uma espécie de responsabilidade ou reciprocidade ou dever. Era como se no fundo a sua vontade estivesse a ser controlada por outrem, como se estivesse a ser relembrado silenciosamente que o seu papel naquela floresta ainda não acabara. Todo o seu ser físico almejava fortemente partir, mas o seu espírito era impelido a ficar. E ficou.

Um peixe nadou casualmente pela clareira.

- Naturalmente. - concordou Ventura.

 

 

Passou uma hora. Começou a chover. A pluviosidade local aumentou progressivamente até estabilizar numa chuva não muito pesada mas constante. As gotas deslizavam pelas folhas das copas mais altas até ao mais rasteiro dos arbustos, num espectacular jogo de Plinko (sem o Fernando Mendes e sem a Lenka).

Ventura protegera A'á'á com uma capa, mas pensou que talvez fosse necessário arranjar outra fonte de calor. Notou, por acaso, num pequeno mamífero semelhante a um cavalo minúsculo a dirigir-se para um arbusto de um escarlate viçoso e pulsante. Distinguiu o que parecia ser vapor a elevar-se a partir das suas folhas exuberantes. Levantou-se, aproximou-se e ao fazê-lo foi apercebendo-se que aquele arbusto, completamente indistinguível dos outros em tempo seco, se tornava uma fogueira natural quando acossado por chuva.

- Que conveniente! Até parece que o destino está a tentar arranjar situações que me coloquem numa circunstância mais íntima com a fada, o que verdadeiramente é tudo o que eu alguma vez quis, não fosse o facto de a ter posto inconsciente com um golpe de wrestling.

O arbusto fogoso emanava um calor suficiente para manter a fada quente. Não é que Ventura realmente soubesse se anatomicamente isso faria alguma diferença a uma fada, mas pelo menos não poderia ser criticado por falta de intenção de zelo pelo bem-estar da sua prévia adversária.

Vários outros animais se aproximavam do arbusto para se aquecerem e secar, mantendo o mais possível a distância ao desconhecido aventureiro que era um forasteiro naquelas paragens. Para além dos minúsculos cavalos já referidos, podiam ver-se salamandras compridas e coloridas de vermelho e laranja, confundindo-se com as folhas do arbusto, cogumelos achatados semelhantes a caranguejos que se locomoviam arrastando estruturas parecidas a raízes pelo solo, um beija-flor que parecia absolutamente imóvel no ar, tão rápido era o batimento das suas asas, dezenas de insectos a marchar e a congregar-se na base do arbusto, devorando-se uns aos outros numa orgia canibalesca.

O mesmo cenário devia repetir-se infinitamente pela floresta inteira, mas dali, onde Ventura estava, apenas se adivinhava uma paz natural regada com as gotas tranquilas que aterravam surdamente nas folhas do solo. Ventura fechou os olhos. Pareceu-lhe ouvir um coro, muito longínquo e muito abatido, mas não triste. Um entoar quase constante, muito aberto e enternecedor. Era como se a própria floresta embalasse os seus habitantes para dormirem enquanto a tormenta leve não passava.

Deveras, Ventura, mesmo não estando demasiadamente cansado, adormeceu lentamente.

 

 

Acordou pouco depois, mas a sua companhia já não estava ao seu lado. A'á'a estava em pé, à sua frente, completamente encharcada. Não parecia agressiva como antes, mas tinha a sua lança na mão. Ventura levantou-se lentamente. Pegou em Venceslau e embainhou-a, querendo mostrar que pretendia paz. O par de guerreiros entreolhou-se demoradamente, aparentemente não sabendo como prosseguir, já que a conversa oral não podia ser mútua e consequentemente não era possível um entendimento claro entre os dois.

Ventura falou, tentando simplificar as suas perguntas de modo a que a resposta possível fosse binária.

- Acho que estamos mais ou menos quites, em todos os sentidos. Proponho uma trégua. Eu não a entendo, mas a senhora compreende o que eu digo, não é verdade?

- Â ã. - confirmou.

- Acho que ambos concordamos que a violência hoje já foi demasiada, certo?

Ela acenou a cabeça gravemente, concordando.

- Aceita a trégua então?

Novo acenar afirmativo de cabeça.

- Previamente quis que eu a seguisse. Porquê?.. Aliás, vou reformular a pergunta: levava-me para algures que me pusesse em perigo? Seja honesta, compreenderei a resposta, seja ela qual for.

A fada reflectiu por uns momentos, provavelmente não sabendo o que responder. Talvez a resposta fosse mais complexa e Ventura tentou facilitar.

- Digamos que por "perigo" quero dizer se me levava para algum tipo de emboscada em que eu não me pudesse justamente defender.

- Á! - exclamou ela, elucidada. - Â â, â â... - disse, visivelmente negando a hipótese.

Foi a vez de Ventura reflectir.

- Ouça, minha senhora, não lhe quero causar ainda maior incómodo e eu realmente tenho de retomar o meu caminho, pois estou numa missão importantíssima.

A'á'a pareceu empalidecer.

- Vou agora montar a cavalo e dirigir-me para Norte, contornando a floresta por fora, não querendo continuar a ser um intruso nas vossas fronteiras.

- Â â!

Ventura já percebera que aqueles tons específicos significavam "não". Antes que a fada tivesse a mesma ideia que antes, Ventura agarrou imediatamente no cabo de Venceslau, mostrando que estava pronto a lutar de novo.

"Porque é que estás a ser tão mau, Ventura...?" - pensou para si próprio. - "O teu maior sonho foi sempre conhecer uma Fada Vogal, e agora vais-te embora? Ela já disse que não haveria perigo imediato para ti."

- Saiba que se já a derrotei poderei fazê-lo outra vez.

"Não faças isso. Fica. Se querias ir embora porque é que não foste quando ela estava a dormir, coitadinha?"

- Agradeço-lhe profundamente o tratamento inicial que me deu aos meus ferimentos, mas teria apreciado mais se a hospitalidade se tivesse mantido constante.

"Estás a ser demasiado frio. Vá, desmonta e volta, essa agora. Tu queres ficar aqui! Não sabes porquê, mas queres."

Montado em Sara, Ventura começou a dirigir-se à orla da floresta, para depois a contornar, não olhando para trás para se despedir de A'á'a.

"Era a tua oportunidade, espero que saibas o que estás a fazer, se bem que ambos sabemos que te vais......"

O seu pensamento foi interrompido por um lamento imenso e ecoante. Olhou imediatamente para trás e já não viu A'á'a. O lamento evoluiu para um choro triste e pausado.

- Diabos me levem... Já lutei contra os Vyx mais nojentos, contra os homens-mamute mais gigantescos, contra os castores temíveis e ferozes de Kand e em mais do que uma vez desobedeci à minha mãe quando ela me pediu para levar o lixo à rua. No entanto, nada, mas mesmo nada me enregela mais o sangue do que o choro de uma mulher, especialmente se chora por causa de mim. Falo simbolicamente, claro, pois os magos viquingues de Ovlov literalmente transformam o sangue dos inimigos em gelo, e com esses não me meto.

Desmontou e correu rapidamente para trás, esquecendo-se inclusivamente da sua arma predilecta para trás. O choro ia reduzindo de volume, como se a origem se afastasse. Correu em direcção ao som, e encontrou A'á'a a andar lentamente pela floresta adentro.

- Porque é que chora?...

Ela virou-se dramaticamente, como não podia deixar de ser, e mostrou-se algo surpreendida por ver Ventura de volta.

- Não compreendo. Porque é que é tão importante que eu vá consigo? Que tragédia horrível acontecerá? É impossível que eu lhe faça falta sob qualquer pretexto, já que certamente não estava à espera que eu chegasse aqui aleatoriamente.

Apesar de tudo, ela estava calma. Ventura percebeu que a tristeza que ela sentia não era devida a ele próprio. Era uma tristeza antiga, que lhe amargurava o ser há muito. Não uma tristeza chocante, mas uma que teve muitos anos para se desenvolver e que, de vez em quando, brotava tenuemente para fora quando a sua psique não conseguia suportar mais.

Era um sentimento que Ventura conhecia bem, mesmo que nunca o mostrasse e mesmo que as razões fossem diferentes.

Bem vistas as coisas, Ventura ainda estava em dívida para com A'á'a. Era óbvio que ela precisava dele para algum fim misterioso, mas era-lhe impossível determinar qual. Fosse como fosse, ela garantira que ele não correria perigo.

- Mudei de ideias. Se ainda o permitir, acompanhá-la-ei até onde me quiser levar, se for certo que não correrei perigo directamente.

Ela olhou-o como se quisesse confirmar o que ouvira. Ele assobiou para chamar Sara, que apareceu a trote daí a uns instantes. Pegou-lhe pelas rédeas e verificou o equipamento.

- Estou pronto, assumindo que a minha montada também possa ir.

A'á'a limpou uma lágrima cristalina que lhe permanecia teimosamente na bela e límpida face. Pegou na sua lança e gesticulou com a cabeça para que Ventura a seguisse.

 

 

Ventura ia tentando falar durante a viagem, fazendo perguntas e comentários sobre a fauna e flora fantásticas que preenchiam a floresta.

- Ena, a última vez que vi este tipo de rosas negras foi nas planícies de Kukula, nem pensei que existissem noutro sítio.

- Magnífico espécime de grilo, nunca vi um com uma cabeça tão grande. Ah, perdão, meu caro, não sabia que era uma cartola, mil desculpas, um resto de bom dia.

- Não sou grande apreciador de abacate, mas depois de algumas semanas de manteiga de iaque de Buzul qualquer coisa diferente serve. E aqueles têm um aspecto... enfim, normal, já que eu não sei distinguir um abacate bom de um mau.

- Espera lá… pareceu-me ter visto uma fada com botas. Juro que o vi. Não minto. Vi-o com estes dois olhos. Uma fada a usar botas e a dançar com um anão. Isso é normal?

- Ó diabo, há muito tempo que eu não via um dragão azul, mas também é verdade que me estou a aproximar do Norte, se calhar aqui são mais comuns.

- O quê? Bom, nunca pensei.... Um grupo de elfinhos minúsculos. Parece que estão numa feira a dançar de um lado para o outro. E têm daqueles cavalos pequenos que vi há pouco. Olha ali, um cavalinho na feira a comer. Fantástico!

- Bom, até macacos têm aqui. Não sabia que tinham a capacidade de dançar.... Ah... espera, aquilo não é uma dança.... Pois bem, são definitivamente macacos.

 

A'á'a nada disse durante a viagem, nem para responder às constantes parvoíces de Ventura. No entanto, em mais do que uma ocasião, este jurou tê-la ouvido rir levemente, como se estivesse a conter o riso, apesar de ela periodicamente olhar para trás ainda com uma expressão amuada.

 

 

Subitamente parou e Ventura mal pôde acreditar nos seus olhos.

 

 

Haviam chegado à lendária cidade de Áaaa'Aaaa'Àaaa A Ãaá, a capital das Fadas Vogais Aa'a-a-A'a.

 

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