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A Guerra - Parte 2: In The Army Now

por Rei Bacalhau, em 16.01.17

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O camião parou mesmo à sua frente.
- Há espaço para mais um!
- Eu vou, 'perem lá!
João subiu para o camião, onde encontrou vários olhares cansados e apáticos. Teve de ficar de pé. O camião seguiu viagem para a frente de combate. O Inimigo finalmente contornara Forte Verde depois de duas semanas de combates ferozes nas redondezas que impuseram um impasse. Iriam agora atacar Abrunhos e Alvim, numa tentativa de cercar Forte Verde para uma conquista posterior.
- Para onde vamos? - perguntou a um magala também em pé.
- Abrunhos, mas vamos pela nacional, que a auto-estrada foi já com o caralho.
- Forte Verde ainda aguenta?
- Dizem que sim.

Depois de uns instantes, João perguntou algo hesitantemente:
- Quem é o oficial?
- Olha, outro... Não há cá nenhum.
- Mas mandaram-me perguntar assim que arranjasse transporte.
- Não há oficiais. Estão todos ocupados, mesmo os que estavam na reserva. Dizem que só quando chegarmos é que teremos ordens.

O camião parou depois de muitos quilómetros numa aldeia transformada em base militar. O caos era total. Os soldados arrumavam coisas para dentro de transportes. João conseguiu ouvir parte da conversa entre o motorista e o soldado.
- ... para Abrunhos? Aquilo 'tá complicado lá para cima...
...
- Não, não temos, estão todos a evacuar para um local na retaguarda. Se eles passarem na boa por Abrunhos estarão cá depois de amanhã, no mínimo.

Arrancaram outra vez. Ao saírem da aldeia foram ovacionados por um conjunto de soldados, que se desataram a rir logo de seguida.
- Gandas heróis! Sim senhor! Agora estão no Exército!
João não compreendeu.
- Não percebes, n'é? Temos ouvido isto desde que o camião começou a andar. Como nós só temos praí uma semana de treino eles chamam-nos heróis.
- Porquê?
- Porque vamos morrer em vez deles, foda-se. - respondeu outro.
- Eu já lhes digo então, ameaçou João.

Uns quilómetros à frente passam por um esquadrão a pé que ia na direcção contrária.
- Ah, gandas heróis!
João destravou a carabina e disparou um tiro para o chão, assustando todos. Os soldados atiraram-se imediatamente para o chão. Os magalas no camião explodiram de riso.
- Vão p'ó caralho!

Pouco depois começou-se a ouvir um barulho grave ao longe.
- Eles bem davam trovoada no boletim.
Ninguém respondeu, pois todos sabiam que não era trovoada. O que falou empalideceu quando se apercebeu do seu erro.

Colunas de fumo começavam a ser distinguíveis no horizonte.
- Será Abrunhos?
- Não, não é, Abrunhos é mais perto, devemos conseguir ver depois daquela curva. Depois daquele monte deve-se ver.
- És daqui da zona?
- Mais ou menos, a terra da minha mãe é aqui ao pé.
Deveras, Abrunhos revelou-se, mas pequenos sinais de conflito estavam muito mais próximos do que os magalas pensavam.

Mesmo antes de o motor terminar o seu roncar variável mas incessante já se ouviam os sons de batalha. Explosões vibravam no ar, rachando os poucos vidros que ainda iam sobrevivendo à cacofonia mortal. Estalos secos ouviam-se em rajadas ou individualmente.
- Vá, é descer, caralho!
Os soldados saltaram das traseiras do camião reticentemente, não sabendo o que fazer. Não tinham ordens. Não havia comitiva de boas-vindas alguma. Quando o último infeliz desceu e descarregaram os caixotes de munições e provisões, o camião arrancou imediatamente, não esperando por instruções.

- E agora?
- Não há cá nenhum oficial?
- Não há cá ninguém?
- Vai ali àquele café, a ver se 'tá lá alguém.
- Foda-se, olha aquela explosão.
- Já 'tão quase a chegar à cidade.
- Não 'tava lá ninguém. Não há cá ninguém.
- Chama-lhes burros...

João abre o caixote de munições e equipa-se com uma parte delas, não sabendo ao certo quantas deveria levar.
- Olhem, eu vejo porrada ali e é para lá que eu vou. Alguém quer vir?
A pergunta foi interrompida por um conjunto de berros. Um soldado vinha em direcção deles acompanhado de outros dois mais atrás.
- Que caralho estão a fazer aqui!?
- Não sabemos, largaram-nos aqui.
- Chegaram quando?
- Há coisa de vinte minutos.
- Não está aqui ninguém para vos receber!? Foda-se, mas onde é que está o Major? Ele e a malta dele estavam aqui todos!
Os recém-chegados não souberam responder.
- Caralho! Foda-se! Malta, peguem em munições e sigam-me... Alguém aqui tem treino?
Nenhum respondeu que sim.
- Oh caralho, mais novatos... Olhem, isto aqui no ombro quer dizer que sou um sargento, estão a ver? Já dispararam alguma vez?
Fez a pergunta como se já fosse banal, tão habituado estava a receber soldados de leite.
Efectivamente já tinham disparado a arma e supostamente aprenderam a limpá-la. Na prática só o fizeram uma vez, sem a disciplina que tais actividades normalmente implica.
O sargento voltou-se para os soldados que o seguiam.
- Leva estes aqui para o prédio amarelo. Tenta distribuí-los pelo pessoal mais experiente. Tu, mesma coisa, mas leva aqueles ali, senão daqui a nada escapam-se. Vais para a clínica. Ei! Vocês. 'Bora! Comigo! Vamos para a ponte. Vá, toca a pegar me munições.

O sargento olhou para João com um olhar ameaçador.
- És surdo, caralho!?
- Já tenho tudo, já lá fui buscar há bocado antes de você chegar.
O sargento arrastou-o e pô-lo à parte.
- Vens comigo, ouviste? Ao menos não és como os outros conas. Sabes seguir ordens?
- Sim, senhor.
- Mantém-te comigo, ouviste? Faz exactamente o que eu te disser. Põe todas as munições que restarem naquela mochila.

O grupo que ficou com o sargento correu até à exaustão até percorrerem a cidade de uma ponta à outra.
Chegaram a uma ponte sobre um pequeno rio. Outros soldados estavam ocupados a barricar e fortificar a estrada e as janelas dos edifícios circundantes. Pouco interesse deram à chegada de reforços.

- Eles vão atacar amanhã...

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