Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




A Guerra - Parte 4: Brothers In Arms

por Rei Bacalhau, em 18.01.17

1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | E

 

 

- Vem aí alguém, baixem-se!
Os três combatentes, por falta de melhor termo para os descrever, colaram-se à terra lamacenta entre uns arbustos e apontaram as carabinas, esperando pelos vultos que percorriam o bosque.
A batalha, se assim se pudesse chamar, tinha sido um fracasso autêntico. A superioridade militar do Inimigo era demasiadamente avassaladora para tropas sem treino algum poderem suportar. Tinham visto o inimigo penetrar nas linhas defensivas em ambos os flancos. Apesar de esta espécie de esquadrão improvisado ter repelido vários ataques, mesmo com uma brutal inferioridade táctica, a nova chuva de artilharia convenceu-os completamente a fugir.
- Acham que pode ser o Hélder? Às tantas eles não ficou para trás.
- Não, é mais que um gajo. Só se o Hélder tiver encontrado mais dos nossos.
- Pá, esperemos...

Quatro homens aproximavam-se depressa, ziguezagueando pelos pinheiros, alguns destes a fumegar depois de serem atingidos por obuses.

- São dos nossos.
- Olha lá, eu conheço aquele gajo.
- Ya, é o sargento de Abrunhos! Pensei que tivesse batido a bota também. 'Bora chamar a atenção, ele saberá o que fazer.
- Cuidado, ouçam lá, eles devem estar prontos a disparar. Vamos ordenar que eles parem sob ameaça de fogo, senão somos nós que levamos um balázio.

- ALTO!
- PARADOS! QUIETOS, CARALHO!
- ARMAS NO CHÃO!

Apanhados de surpresa, apenas o Sargento não acuidiu imediatamente, mas perante as circunstâncias, decidiu pousar a arma também.
- Desculpem pessoal, não podíamos arriscar que nos dessem um tiro por instinto.
- Foda-se, mas vocês são deficientes mentais ou quê, caralho!?
- Desculpe sargento, mas achámos que era o melhor, porque nós sabíamos que vocês eram dos nossos, mas o conhecimento não era necessariamente recíproco.
- Vai p'ó caralho com esse palavreado. Donde vieram?
- Tínhamos um buraco nosso naquela direcção, mas os cabrões foderam-nos de todos os lados e tivemos de bazar. Ficou lá um camarada nosso, não sei se se safou.
- 'Pera lá, então eles já passaram completamente pela linha de defesa toda?
- Já devem estar do outro lado do bosque.
- Ah, caralho, então daqui a nada enchem este bosque de gente à procura de prisioneiros... Ok, ouçam, reúnam-se aqui... Deixem-me pensar... É assim, se calhar há ainda alguns companheiros nossos espalhados pelo campo na mesma situação que nós. Apanhados assim isolados vão-se todos com os porcos. Vamos tentar procurar mais sobreviventes.
- Então, podemos começar pelo Hélder.
- Quem?
- O nosso colega que ficou para trás.
- Presença inimiga? Era muito elevada?
- Não sei, bazámos quando nos começaram a bombardear, porque vimos outros buracos a serem acertados em cheio.
- 'Tá bem. Estamos aqui sete. Vocês os três são leitinhos, né? Já viram alguma acção antes de hoje?
- Nós estivemos consigo em Abrunhos, por isso é que o reconhecemos.
O sargento hesitou durante uns momentos.
- Mas... mas quase ninguém sobreviveu, e os que sobreviveram vieram comigo.
- Eu e aqui o Lucas ficámos na linha defensiva, andámos a empatar os gajos durante uma data de tempo.
- Mas isso... eram vocês? Só vocês os dois? Foda-se! Bom, falamos depois, mas bem vistas as coisas já são quase veteranos vocês. Nomes? Ah, tu és Lucas, e tu, ó preto?
- Adérito, Sargento.
- Duarte.
- Eh, c'um caralho, acabámos de perder um Duarte há bocado, levou com um morteiro.
- Perderemos mais um se nos mantivermos aqui.
- É, 'bora.

Seguiram os sete de volta para o campo de batalha, num movimento táctico que tinha tanto de inesperado como tinha de louco.
O Sargento seguiu junto a Duarte.
- Ainda por cima voltámos para trás para ir buscar o outro Duarte...
- Ah, então não é o primeiro salvamento do dia? A ver se este corre melhor.
- Precisamos de todos os irmãos que conseguirmos.
- Como?...
- Nada, olha em frente, vá.

O esquadrão aproximou-se cautelosamente das trincheiras devastadas e abandonadas. Pequenas plantas fumegavam e ardiam depois da chuva infernal de que tinham sido alvo.
O sargento investigou as redondezas com os binóculos. Encontrou dois soldados inimigos a vasculhar as trincheiras à esquerda. À direita outros três soldados pareciam estar a conversar.
- Vamos silenciosamente para a esquerda donde vocês vieram. Estão ali dois gajos, mas acho que eles virão nesta direcção.
Efectivamente assim foi. Os dois soldados procuravam sobreviventes. O sargento ordenou que todos se mantivessem quietos.
O sargento reparou que, apesar da sua ordem, Duarte e Lucas estavam a apontar para o Inimigo. Não teve tempo para lhes perguntar a razão, pois viu-a imediatamente.
- Olha, está aqui um! - disse um deles na sua língua.
Arrastaram um magala do meio da lama. Os soldados riam-se alegremente e começaram a despi-lo.
- Foda-se, mas que raio?
Perceberam que se tratava de uma soldada. Estava ferida num braço e não se conseguia soltar.
Um dos soldados lançou-a ao chão e colocou-se em cima dela. O outro observava, ansiando pela sua vez.
- Duarte, Lucas, conseguem?
- Sim.
- Pessoal, quando eles dipararem, vejam os flancos, certamente vai atrair a atenção de reforços. Matem o que está em pé em primeiro. Fogo!

Dois estalos secos rugiram pelo bosque. Um dos soldados caiu imediatamente. O outro levantou-se, ainda erecto. Pôde apenas levantar as mãos ao ver o grupo de combatentes a dirigir-se a ele de armas apontadas. Foi imediatamente morto pela soldada que tentara violar com um tiro de pistola.
- Vocês os três, direita. Os restantes, esquerda! Vá!
Ajudou a soldada a levantar-se.
- Tens mais tomates que estes conas. Deixa-me ver esse braço.... Foda-se... Consegues andar? Como é que te chamas?
- Sim, consigo andar, sargento. Teresa Sizifredo.
- Foda-se, vou-te chamar Teresa e pronto.
- Sargento, eles vêm aí, da esquerda!
- Caralho. Pá, o vosso amigo já deve ter ido com os porcos.
- Que fazemos Sargento? - perguntou Duarte. - Estamos rodeados de dois lados, e voltar para o bosque é arriscado pois podemos ficar completamente cercados.
O sargento pensou durante uns momentos.
- Acho que precisamos de mudar um bocado a nossa estratégia. Aquela artilharia deu completamente cabo de nós. Podemos ir em direcção delas. É a última coisa que eles esperam.
- E deixamos o Exército para trás?
- Foda-se, o Exército está-se a cagar para nós. 'Tou a ver que se queremos ganhar alguma coisa temos de se nós a decidir e a agir de forma autónoma.
- Uma milícia, então?
- Ya, porque não? Quem quiser seguir-me, fixe. A verdade é que se conseguirmos danificar a aritlharia deles, estaremos a salvar muitos irmãos nossos na linha da frente.

Todos concordaram, ou por desejo ou por não terem outra opção.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:00




calendário

Janeiro 2017

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D