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A Guerra - Parte 6: For Whom The Bell Tolls

por Rei Bacalhau, em 20.01.17

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O soldado Hugo Garcia disparou uma rajada. Estava sob o flanco da barricada inimiga. Os milicianos caíram, contorcendo-se de dor. Tomou posição enquanto esperava que os seus camaradas subissem. Aproximavam-se do objectivo final. Daí a duas ruas estariam no quartel-general da Milícia dos Oito.
O exército já sitiava aquela colina íngreme há meses, e os milicianos repeliram sempre os ataques. Dizia-se que havia um traidor nos milicianos, e finalmente conseguiram trazer a artilharia pesada necessária para destruir de vez as defesas milicianas.
Era uma zona urbana de edifícios feios de vários andares, construída sobre a colina mais alta da cidade de Profal. Não foi coincidência que a Milícia dos Oito tenha escolhido aquele local para uma última defesa do seu país.
Na prática, aquele era o último grande reduto que o Exército teria de tomar para declarar vitória total.

Hugo estava sob fogo pesado de uma metralhadora ligeira, montada numa varanda. Dois camaradas morreram ao tentar atingir abrigo.

- Precisamos de fogo naquele edifício! A artilharia!?

Nesse mesmo instante, a varanda explodiu quase como uma resposta, lançando entulho em todas as direcções.
Um esquadrão do outro lado da rua aproveitou e lançou-se ao ataque, com o objectivo de penetrar um edifício.
Um deles foi imediatamente morto por um tiro de origem desconhecida.

- Atirador! Não! Fiquem!

Não ouviram, e mais dois morreram antes que se apercebessem do perigo.
Reforços chegaram da retaguarda. Parecia que uma divisão inteira chegara para aniquilar a Milícia. Um blindado de transporte rugiu rua acima, almejando avançar a frente mais uns metros, perante os festejos de alguns soldados.
Passou mesmo ao lado de Hugo e chegou a um cruzamento uns trinta metros à frente. Explodiu e foi projectado para a esquerda, tombando-o.

- Um tanque!? Tanque! Eles têm um tanque!

O colosso surgiu de uma rua à direita. Disparou novamente e atingiu alguns reforços recém chegados. Hugo e os seus camaradas retiraram, adivinhando que a barricada onde estavam abrigados seria a próxima.
No entanto, o tanque rolou para cima e ignorou os combatentes restantes.

- Como é que eles têm um tanque!? Nem nós temos! Manda vir armas anti-tanque, senão não avançamos.

Novas explosões abalaram o chão. A artilharia continuou a bombardear a zona de guerra.
Os intrépidos soldados avançaram de novo, subindo penosamente e escalando novas camadas de tijolo e cimento partido.
Os milicianos aparentavam ter retirado dali completamente. Era estranho tendo em conta a resistência feroz que tinha apresentado até agora.

Imensas explosões incineraram vários soldados. Hugo foi projectado para a frente contra uma árvore chamuscada.
Quando acordou, viu muitos camaradas ainda a arder. Não tinha sido fogo de artilaria. Os milicianos tinham armadilhado os próprios prédios para explodir quando quisessem.
A nuvem de poeira permitia ver pouco, mas Hugo, agora sozinho, sentiu uma presença ao pé dele.
Um homem observava o espectáculo obsceno. Tinha cabelo preto e era pálido. Estava armado. Era certamente um miliciano, mas parecia ignorar a presença de Hugo mesmo ali ao lado dele. De repente, ele murmura para o ar algo na sua língua, que Hugo não compreendeu bem. Ele olhou inesperadamente com os seus olhos profundamente azuis para Hugo e sorriu-lhe. Voltou lentamente para cima e desapareceu.

- Hugo, estás bem?... - perguntou um camarada surpreendido por o ver, pouco depois. - Ele está vivo!.. Sim! Estás ferido?
- Não, estou só um bocado atordoado.
- Eu chamo o paramédico.
- Não, estou em condições de continuar. Vamos.

Levantou-se, auxiliado pelo colega, e continuaram a subida, onde os milicianos já haviam começado a resistir de novo.
Ao longo da manhã inteira centenas de homens perderam a vida a tentar tomar uma colina rodeada de todos os lados. Os milicianos não eram muitos, mas estavam sublimemente fortificados, apesar de todo o bombardeamento de que tinham sido alvo. As pressões das chefias militares para conquistar o reduto a todo o custo implicava menor cautela por parte dos atacantes.

Chegaram agora à última rua do bairro. Era um conjunto de vivendas charmosas, algumas das quais não tinham sido atingidas por milagre. No topo desta rua estava o quartel-general.

- Olha, disseram que capturaram um dos Oito!
- Caralho! Finalmente! E os outros? Será que ainda andam por aí?
- Se estiverem nalgum sítio, tem de ser lá em cima.

Os corajosos soldados subiram rua acima, lidando com atiradores em todas as varandas e janelas.
Um imenso tiroteio veio de uma vivenda com uma garagem.

- É o paiol deles! Está lá um dos Oito!
- Está lá apenas um? Avancemos então, que a vitória está próxima.

Hugo olhou de soslaio. Viu de relance a cabeça calva de um miliciano no fundo da garagem feita paiol. Viu-o escapar-se por uma porta traseira.

Os soldados penetravam com dificuldade as defesas dos milicianos. Hugo já vira vários inimigos mais do que uma vez, progressivamente mais ensanguetados e feridos, mas ainda a lutar, correndo em desespero por manter a linha defensiva.
Hugo viu pela primeira vez a vivenda que servia de quartel-general. O tanque estava estacionado à frente. Observou dois homens a abraçar-se. Um deles entrou no tanque, e o outro foi para dentro da vivenda.
O tanque rugiu de novo. Começou a sua marcha e lançou-se em direcção aos atacantes, sem disparar. Hugo afastou-se, mas alguns camaradas foram esmagados pelo colosso relativamente veloz.

Hugo disparou alguns tiros na direcção de um miliciano que corria, matando-o. Um outro foi acorrê-lo, mas começou a chorar quando viu que estava morto. Foi morto à queima roupa pouco depois por um soldado que se aproximara.
O tiroteio naquela rua parou. Os soldados puderam aproximar-se do seu objectivo. No topo da colina estavam aglomerados os feridos e mortos dos milicianos, muitos deles no chão em cima de roupas a servirem de camas. Não conseguiam resistir mais.
Os soldados vasculharam os feridos por todo o tipo de armas e objectos pessoais. Um dos feridos resistiu quando um soldado lhe puxou um fio de ouro.

Um tiro inesperado matou certeiramente o soldado. Viera do quartel-general.

- Ainda lá está alguém! Vamos, lá para dentro.

Arrombaram a porta e foram cumprimentados por fogo de metralhadora. Tiveram de lutar pela vivenda apertada tão ou mais ferozmente do que os combates anteriores. Era verdadeiramente o tudo por tudo fanático dos milicianos.
Apesar de tudo, o interior em nada se assemelhava a um edifício militar, pois estava decorado como se ainda fosse uma casa normal e habitável.
Hugo liderou a incursão ao segundo andar da vivenda. Ouviu vozes na língua inimiga. Depois, silêncio.

Um corredor percorria o segundo andar. Hugo mandou cada camarada seu investigar um quarto. Ele ficaria com o último ao fundo.
Era um escritório, estava bem iluminado. À janela um homem observava calmamente a cena lá fora. Tinha um machado de lenha na sua mão esquerda. À direita uma carabina encostada à parede.

- Suponho que haveis ganhado, não é verdade? - começou ele na língua de Hugo, não obstante um ligeiro sotaque. - Muito sangue correu por esta colina, e por todas as colinas do meu país. Aguentámos o máximo possível. Só espero que tenha valido a pena. Virou-se e sentou-se numa cadeira. Ele próprio estava cheio de feridas e a roupa estava imunda e esfarrapada. Olhou para um mapa em cima da mesa e esticou-se para mexer uma das peças de Monopólio que estava em cima.
Olhou para o soldado à sua frente, ao qual já se tinham juntado mais colegas.
- Olha para ti, soldado. Quantos mais de vocês e de nós morrerão porque alguma mente convencida de que é superior vos mandou vir aqui matar e morrer? Em verdade me dirias, eu não sou muito diferente, mas eu luto também. Todos os dias arrisquei a minha pele para comandar as minhas tropas. Agora não tenho tropas. Não tenho os Oito. Resta apenas o Chefe. Aviso desde já que gastei o meu último tiro no teu companheiro lá fora que tentava roubar o fio do João Sousa. No entanto, este machado não é estranho a matar.
Fez uma paragem breve.
- Mas se calhar já chega. Deveis saber que as casas estão cheias de explosivos prontos a rebentar. Vou fazê-lo daqui a meia hora. Deve-vos dar tempo suficiente para escapar. Se fordes misericordiosos, levai também os meus feridos. Ah! Quase me esquecia.
Pegou num molho de chaves e mandou-as para Hugo.
- Naquela casa em frente estão os prisioneiros, vossos camaradas. Alguns já lá estão há vários meses. Se eu vir que tendes dificuldade em retirá-los todos, eu adiarei as explosões o tempo que for minimamente necessário.
Hugo deu as chaves a outro soldado, que foi imediatamente a correr para libertar os prisioneiros.
Começaram-se a ouvir sinos a tocar. Eram da igreja matriz de Profal.
- Ah, excelente, o Orlando já lá chegou. Os meus milicianos sabem que este é o toque de rendição. Não tereis mais problemas.

- Pessoal, vão-se embora. - ordenou Hugo. - Eu fico aqui com ele. Vão ajudar os outros. Levem os feridos deles que puderem.

Os soldados entreolharam-se e tentaram convencê-lo a não ficar sozinho, mas Hugo insistiu. Aquiesceram e foram-se embora.

- Os teus camaradas respeitam-te. Como te chamas, soldado?
- Hugo Garcia.

O Chefe arqueou os olhos em surpresa.
- O Hugo Garcia? O lendário soldado? Ah, sinto-me honrado, verdadeiramente é raro poder conhecer um inimigo tão famoso. Posso-lhe apertar a mão?
- Não.
- Pois bem, compreendo, compreendo. Mesmo assim, quem diria que esta Guerra terminaria com dois dos personagens mais famosos a encontrar-se por acaso? Ou talvez não tenha sido acaso?
- Foi uma coincidência total. Eu devia ter ido atacar a capital mas mandaram-me para aqui à última da hora.
- Pois claro, deveras.

Os prisioneiros e os feridos não tinham sido todos evacuados quando quase todos os edifícios ruiram com as implosões com que estavam armadilhados. O quartel-general não explodiu, mas ardeu completamente, ficando apenas o esqueleto sólido da vivenda. Hugo Garcia nunca chegou a sair do edifício.

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