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A prenda perfeita

por Rei Bacalhau, em 25.12.14

"Obrigado pelo dia, mas faz-se tarde e se calhar devíamos ir para casa", disse ele.
Ela, sorridente e brilhante, respondeu afirmativamente, e adicionou:
"Para a semana é Natal, sabes? Já pensaste que prenda vais dar-me?" A pergunta foi feita com alguma terna malícia, sendo que ela mordiscou os lábios excitadamente enquanto esperava ansiosa por uma resposta dele.

A pergunta abalou-o, pois não tinha sequer pensado em tal coisa ainda. Permaneceu pensativo durante uns instantes, mas os olhares expectantes dela forçaram-no a fabricar rapidamente uma resposta. Finalmente:

"Mas tu esperas que te dê alguma coisa é?", respondeu então de sorriso aberto e jocoso, evadindo temporariamente a pergunta, colocando-a em ainda maior suspense. "Pronto, vá, posso apenas dizer que vais gostar do que te vou dar, de certeza!"

Ambos coraram, permanecendo imóveis, intercruzando fixamnete os olhares, sorrindo parvamente, babados pelos sentimentos e pela química emocional óbvia que se mostrava quase palpável entre os dois. Despediram-se timidamente, faltando aos dois as palavras belas que a situação aclamava por. Ainda lançaram uns olhares furtivos pelo meio das ruas à medida que se afastavam um do outro.

Ele havia mentido. Não tinha pensado em prenda alguma para lhe dar, mas não quis ser apanhado na situação embaraçosa que a verdade implicava. Seja como for, teria uma semana para pensar na prenda perfeita para ela. Seria com certeza tempo suficiente para descobrir alguma coisa no universo quase infinito de possibilidades.

A semana passou-se muito mais rapidamente do que ele imaginou que seria possível. Deu-se consigo a dois dias do Natal sem ainda ter uma prenda adequada para ela, sendo que ele queria impressioná-la com algo verdadeiramente inesquecível. O assunto não lhe havia saído da mente durante todo aquele período de tempo, mas sempre que tinha uma ideia, alguma voz na sua cabeça dizia-lhe porque é que poderia não resultar. E então hesitava. No seu desespero, aproveitou a folga do dia 23 para ir a um centro comercial rapidamente.

Nada lhe parecia original. Nada lhe parecia belo, Nada lhe parecia divertido. Nada lhe parecia interessante, Nada lhe parecia inesquecível. Nada lhe parecia ser merecedor do título de prenda para ela. Derrotado e assustado, arrastou-se pensativamente para casa, preocupado com o que lhe iria dizer daí a dois dias.

Véspera de Natal. O pensamento nela iluminava-lhe a mente, mas também o relembrava do dia imediatamente posterior, em que tinha combinado com ela um bocado antes do almoço para a tal rápida mas significativa troca de prendas. Ele olhava e procurava nervosamente no computador, por uma ideia, por qualquer coisa, qualquer pensamento, qualquer objecto, mesmo que simples, que fosse digno. No limite de desistir, encosta a cabeça à secretária e fecha os olhos por um momento.

Quando os volta a abrir, visualiza imediatamente um caderno com uma quantidade de rascunhos e folhas brancas, por escrever. Intrigado, começa a congeminar uma ideia. Ele pega no caderno e coloca-o à sua frente, passando-lhe a mão por cima como que para o aquecer e preparar. Dançando habilidosamente uma caneta pelos dedos, contempla por uns bons minutos a folha branca expectante e nervosa.

Subitamente, começa a escrever.

Não compreendeu que sentimento o levou a escrever aquele texto, mas serviria como uma prenda perfeita, ou melhor dizendo, "a" prenda perfeita. Como será que ela reagiria?

Natal. A manhã foi alegre com a família a abrir os presentes: as roupas, os sapatos, os livros, as músicas, as electrónicas variadas, as luxúrias, os doces, e afins... Pouco antes do almoço lá sai ele ao encontro dela. Não moram muito longe um do outro, por isso decide ir a pé. A mente vai-lhe perturbada, mas o envelope guardado religiosamente no bolso dá-lhe algum conforto. O texto lá estava, passado a limpo na sua letra redonda e bonita para a de um homem.

"Lá está ela."

O coração ruge num bater mais acelerado, e ele teme que a voz lhe trema ao proferir o discurso preparado, apesar das inúmeras vezes que foi ensaiado na sua cabeça. Ela aguardava no outro lado da estrada, naquele jeito gentil que ele tanto lhe admirava. Cruzou a estrada. Pegou-lhe corajosamente nas mãos e beijou-as, para enorme embaraço dela, que não conseguiu disfarçar um sorriso de pura felicidade. Tentado reganhar o controlo, ela faz a pergunta temida:

"Então a minha prenda?"

Um estrondo enorme acorda a vizinhança num sobressalto. O condutor de um carro adormeceu por um piscar de olhos e ao acordar deparou-se com alguém na passadeira. Desvia-se para o passeio instintivamente, em vez de travar. Nele, um casal cumprimentava-se, não se apercebendo imediatamente do perigo em que estavam. O rapaz pega rapidamente na rapariga e afasta-a, empurrando-a para fora do perigo, não tendo ele próprio tempo para se escapar. O carro ceifou-o.

A dor não lhe era muito perceptível. Nestes seus últimos momentos a sua preocupação era em procurá-la, querendo garantir o seu bem-estar. Alegra-se quando a vê mexer-se no meio do caos dos destroços criados pela passagem do automóvel, aparentemente ilesa. Esboça um sorriso com dificuldade. "Tanto tempo andei à procura de uma prenda, e afinal acabei por dar-lhe aquela que ela não se conseguirá mesmo esquecer."

"Dei-lhe a minha vida."

Num último esforço, coloca a mão no bolso e desastradamente retira o envelope. Hesita por um instante, e solta-o no ar, misturando-se rapidamene com o lixo na rua.

"Já não és preciso. Afinal não eras a prenda perfeita."

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publicado às 01:29


2 comentários

De Entreasdezeasonze a 26.12.2014 às 15:08

Que história linda. Com um final triste mas ao mesmo tempo de grande ternura.
Gostei muito!
Há mais?

De Rei Bacalhau a 26.12.2014 às 23:18

Obrigado.

Se está a perguntar se haverá mais desta história ou semelhantes, eu diria que não. Não há tempo nem imaginação.

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