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A Romana

por Rei Bacalhau, em 15.01.16

"Estou a voltar para casa, todo janota. Fui a uma entrevista de emprego que me correu bastante bem. Não diria que está no papo, mas a possibilidade certamente afigura-se-me favorável. Não tenho o hábito de andar bem vestido, e nestas alturas gosto de pavonear-me pelos transportes públicos. Sinto que estou bem vestido, e sinto-me a emanar uma aura de poder e confiança, sendo este um estado de espírito que provavelmente vai-me deixar psicologicamente exausto até à altura em que chegar a casa.
Que se lixe! Sinto que fui feito para estar num blazer e calças de ganga. Dou passos poderosos e decididos pelas ruas de Lisboa, ignorando tudo e todos, orgulhoso, altivo, arrogante. Deixem-me ter estes minutos nesse estado. Sabe bem variar de vez em quando.
Olho com desdém para um grupo de jovens com roupas propositadamente rasgadas e descuidadas, com combinações estranhas de cores berrantes. Ouço com nojo o diálogo pouco eloquente, atropelado e barbaricamente desprovido de qualquer gramática. Não lhes faria mal nenhum ler um livro, começando talvez pela colecção "Uma Aventura".
Ah, sabe bem pensar mal dos outros. Faz bem por um momento pensar que sou pelo menos igual a qualquer outro humano social, senão mesmo superior, ora essa! Sabe bem ser um bocado egoísta!
Chego ao metro, apinhado de gente a esta hora, compro um bilhete. Coloco-me inponentemente à espera do comboio. Até incho um bocadinho o peito, feito besta selvagem na altura do cio. Apesar disto, não o faço para impressionar as fêmeas como um animal. Faço-o por mim. Quero lá saber do resto. Hoje 'tou demais. Até sentimentos de misoginia me vêm à cabeça. Porque é que me haveria de preocupar com fêmeas? Não preciso delas. Só sabem estragar a cabeça de um gajo. Nãã... já chega de fêmeas. Olhar em frente, transformar o meu celibato involuntário em celibato voluntário, consciente, deliberado, propositado, perpétuo. É isso mesmo. Que se lixem as fêmeas. Vá... pronto, não todas, mas as da minha faixa etária, pelo menos.
O metro chega. Entro depois de deixar as pessoas sair, ao contrário da cambada de idiotas que tenta logo penetrar a fila de pessoas a querer sair. Deus, ou Alá, ou Buda lhes livre de estar uns minutos em pé. Idiotas.
Vou absorto nos meus pensamentos. Nem me apetece observar as vidinhas das pessoas à minha volta. Para mim, é como se só estivesse lá eu.
Em breve terei de voltar à vida urbana. Terei de voltar para um mundo ao qual não acho que pertenço. Um mundo de política, de futebol, de notícias, de eventos, sobrecarregado de vida, de ódio, de amor.
O metro pára. Tenho de fazer uma curta caminhada para mudar de linha. Subo a escadaria da estação de S.Sebastião sem esforço.
Nova espera magnífica. Nova chegada de metro. Nova demonstração de falta de civismo. Só ao pontapé, esta gente.
Depois de umas estações o metro esvazia um bocado. Há um espaço ao pé da porta onde me posso encostar em pé. Óptimo. Encosto-me.
Depois de uma ou duas estações, dou uma olhadela à volta, para investigar o panorama.
Raios...
Eis que dou com uma pessoa directamente à minha frente, encostada simetricamente a mim. Apanhei-lhe o olhar de relance, mas certamente. É uma mulher com aspecto sofisticado, com uma certa classe. Não sei há quanto tempo estaria ela ali, se já estaria quando eu entrei ou se ela entrou depois de mim. Não interessa. O relevante é que toda a bazófia inebriante e arrogante que me havia contagiado neste dia desapareceu quase completa e imediatamente.
Ah, estou a dramatizar, claro. Ai ai... Sou mesmo parvo. Não devia ser para mim que ela estava a olhar. Deixa lá ver se ela olha outra vez.
Yup, olhou sim senhor, definitivamente na minha direcção. Realmente estar todo janota faz diferença. Deixa confirmar outra vez. Vou olhar pela reflexo da janela do metro para ela estar à vontade para olhar.
Essa agora, está mesmo a olhar para mim, consigo ver perfeitamente pelo reflexo. Sim senhor.
Foi a minha vez de olhar. É deveras estranho que uma mulher de tal singular beleza se rebaixe a olhar para alguém numa liga tão abaixo dela. Ah, não vejo anel algum nela. Fixe. O blazer deve-me ficar mesmo bem.
Mas uma beleza, deveras. Uma pele muito clara e limpa, adivinhando-se-lhe uma sensação macia de toque. Cabelo ondulado e longo, castanho escuro, bem tratado, talvez ligeiramente encaracolado. Olhos castanhos, perscrutadores e nervosos, que neste aspecto contrastavam com a calma pensativa que a suas feições expressavam. O seu nariz, majestoso, pronunciava-se com relevo na suave planície que era a sua suave face. Quando se colocava de lado, inspeccionando a janela do metro, talvez também à minha procura, este nariz profundamente romano, junto à graça tranquila e séria das suas feições dava-lhe um teor inteligente, humildemente e inconscientemente superior, quase real, como alguém que não sabe que é uma rainha, daquelas benévolas adoradas por todos, mas que age como uma, não sabendo bem porquê. A sua boca pequenina fez-me imaginar que atrás dela, escondidinhos, estariam duas fileiras de dentinhos também pequeninos, brancos e redondos, nem que fosse para completar perfeitamente tal aparição afrodisíaca.
Mais umas trocas de olhares.
Ela sai.
Sigo-a com os meus olhos o máximo de tempo que consigo.
Em dez minutos mudei totalmente de estado de espírito. A primeira cara bonita que me apareceu foi o suficiente para voltar ao mesmo de sempre.
E nunca mais a verei.
É patético ficar melancólico por um episódio assim. Mas sou assim.
Estou tramado."

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