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As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 18.05.16

- Majestade, trago-lhe aqui um criminoso para ser julgado!
O Rei olhou com algum enfado para o seu Capitão da Guarda Real, perguntando:
- Fiel Capitão, porque trazeis tal indivíduo à minha presença? Olvidastes que apenas os mais miseráveis bandidos serão julgados directamente pela minha justiça divina? Este que observo não tem o aspecto perigoso de outros que já estiveram no seu lugar.
- Majestade, o crime é traição!
- Traição! Traição! Ah, deveras, miserável aquele que trai o Reino e Rei! Se assim é, exímio Capitão, procederei a um interrogatório, em nome do Reino, cuja defesa é minha função.
- Bravo, Majestade!
- Deveras! Deveras... Dizei-me o teu nome e ocupação, traidor, e se mereceis a dita acusação.
O traidor olhou em volta, confuso. Depois de alguma hesitação, decidiu finalmente responder, num tom firme.

- Sou Ventura Lobo, Majestade, caminhante e aventureiro. Afirmo que rejeito as acusações de traição, assumindo que a sua infinita indulgência o permita. Adiciono ainda, apesar de perceber que não o perguntou, que acredito que toda esta situação não passa de uma hiperbolização de um reparo inocente.
- Ah, um caminhante de língua afiada, mas será pérfida, pergunto-me? Devo ter cautela. Meu excelente Capitão, antes de prosseguir com a minha inquirição devo informar-me sobre quais os factos assistidos pela minha fiável Guarda. Reportai.
Ventura Lobo tomou a palavra.
- Perdão? Quem? Nós os dois?
- Silêncio, traidor! - rugiu o Capitão. - Sabereis quando Sua Majestade se referir a vós.
- Essa agora, mas quem?
- Silêncio!
Ventura Lobo encolheu os ombros em frustração, mas calou-se.
- Se me permitirdes, começarei o meu relatório.
- Por mim tudo bem, esteja à vontade. - rematou Ventura.
- Ninguém lhe perguntou nada!
- Não foi isso que ouvi, essa...
- Silêncio!
- Capitão, comece a sua explicação, cujo início, a meu ver, já está atrasado. - pediu o Rei, calmamente, senão ligeiramente divertido com a impertinência do aparente criminoso.
- Com certeza, Sua Majestade. Eu estava a fazer uma patrulha pessoalmente pelas ruas da cidade. Estavam a ser afixados os cartazes que continham o seu discurso glorioso à nação depois da derrota do exército das Fadas Vogais. Eu queria presenciar a alegria e o orgulho das pessoas ao lerem as boas novas, especialmente escritas pelo seu grande líder.
- Evidentemente, continuai.
- Num dos ajuntamentos percepcionei uma voz que disse uma blasfémia. Teve a ousadia de questionar a qualidade do discurso de Sua Majestade. Pois bem, esse larápio teve azar, pois prendi-o imediatamente e ei-lo na presença da Sua justiça.
- Ah, mas meu eficaz Capitão, o que é que ele disse em específico? Em que ponto duvidou ele da minha escrita perfeita?
- Tenho temor em dizê-lo, Sua Majestade, mas se insiste, devo dizer que este miserável fez um reparo à última frase no cartaz.
- Ah sim, um maravilhoso "Glória há Nação!". Como é que uma frase tão simples pode causar desconcerto numa mente simples?
- Perdoe-me a interrupção (e o Capitão confirmará isto), mas eu apenas disse que "à" está mal escrito. Deveria ser "à", ou seja, apenas um "a" com acento grave.
- Silêncio, patife! - o capitão desembainhou a espada. - Mais um atrevimento desses e sofrereis as consequências.
- Isso não é ir longe demais? O Rei não precisa de sofrer nada, creio. Bem vistas as coisas, nem eu, já que estou inocente.
- Enlouquecestes? Já nem fazeis sentido nas palavras corrompidas que proferis!
Ventura Lobo olhou outra vez em volta, confuso.
- Ainda não percebi bem com quem é que o senhor Capitão está a falar.
Enquanto a discussão prosseguia, o Rei reflectia na acusação feita ao seu texto. Finalmente levantou-se e dirigiu-se lentamente a Ventura Lobo.
- Reflecti. Cheguei à conclusão que o senhor Ventura poderá ter razão, mas não tenho a certeza. Capitão, não obstante a sua lealdade, achais que a acusação não terá justificação?
- Impossível, Sua Majestade! Se Sua Majestade o escreveu, tem de estar correcto!
- Sem dúvida, mas gostava de ter a sua opinião sincera.
O pobre Capitão, apanhado fora do seu elemento, desviou o olhar.
- Perdoe-me, Majestade, mas não sei.
- Não sabeis se a acusação deste homem é legítima?
- Não, Majestade, perdoe-me.

- Chamai o Mago, ele saberá.
- Chamem o Mago! - gritou Ventura repentinamente.
- Silêncio! Mas quem lhe disse que podia chamar o Mago!?
- Essa agora, foi o próprio Rei mesmo agora.
- Sua Majestade falava comigo, seu pulha.
- Não foi isso que ouvi, essa...
- Calai-vos, vil criatura!
- Mas o Senhor Capitão ouça-me, acho que há aqui uma falha de comunicação.

Na confusão, o Mago veio. Entrou desalmadamente, pisando e tropeçando várias vezes na própria barba grisalha longuíssima.
- Muís D'Latos, meu grande feiticeiro de poderes tremendos e incomparável sabedoria, tenho um desafio para lhe apresentar.
- Ah, Majestade, apanhou-me num momento crucial da minha investigação sobre a etimologia da palavra "etimologia". Peço-lhe que reúna toda a sua generosidade e que não me dê nenhuma tarefa demasiado longa.
- É simples, na verdade. Capitão, dê-lhe o cartaz. Leia, meu caro.
Muís D'Latos leu de uma ponta a outra a informação do cartaz.
- Derrotámos as infames Fadas Vogais!? Ah, poderemos certamente respirar fundo de alívio! Mas, Majestade, não compreendo qual o desafio.
- Notastes alguma coisa de estranho no texto? Alguma coisa mal escrita?
O mago estranhou a pergunta, pensando que seria alguma armadilha. O Rei notou esta preocupação.
- Não se preocupe, amigo Muís. Dizei-me com sinceridade. Não é um teste à sua lealdade, que considero inabalável.
O mago releu o texto. Hesitou na última frase. Olhou infantilmente à volta.
- Bom... se quer que seja sincero...
- Sim, exorto-o a sê-lo.
- Quando eu era muito novo, quando não tinha um único pêlo na cara, o meu mestre forneceu-me uma quantidade de conhecimentos há muito perdidos que ele adquirira de uma maneira muito especial. Um dos conhecimentos que me foi passado foi... enfim... que existe uma diferença gramatical entre a palavra "há" e "à" que tem imenso impacto na semântica da frase.
- Mas então, a última frase do texto está incorrecta?
- Bom, enfim, não. Sim... Não. Depende. Por um lado, está gramaticalmente correcta, mas na sua forma actual, parece que Sua Majestade está a informar alguma senhora chamada Glória sobre o facto de existir uma Nação. Se me permite, para ser diligente, faltaria ainda uma vírgula para a frase ter esse sentido. Se o objectivo for apenas de dar esta informação a uma Glória específica no Reino ou a todas as Glórias, posso argumentar que o objectivo foi cumprido. Por outro lado, se o propósito era engrandecer a nossa Nação com exaltações de glória... - fez uma curta pausa, acompanhada de uma careta. - devo... dizer... que deveria ter usado "à".
- "Há"?
- Não, "à".
- "Ah"?
- "à".
- Ah!
- Não, "à".
- Ai!
- "à", Majestade!
- Eu sei.
- Perdão?
- Há majestade, claro, senão não estaríamos aqui, mas não é isso que estamos a discutir, meu caro Muís D'Latos.
- Não, Majestade, não nos confundamos, eu quero dizer que a forma correcta é "à".
- "Há"?
- "à".
- "Ah"?
- "à".
- STAYING ALIVE! STAYING ALIVE! - berrou Ventura Lobo.

Um silêncio absoluto instalou-se no salão perante as caras estupefactas dos presentes, que olhavam Ventura com um olhar de preocupação sobre a sua saúde mental.

Muís D'Latos arriscou insistir.
- Sua Majestade, talvez seja mais fácil que eu escreva.
- Sim, concordo.
O feiticeiro teve uma ideia e olhou para cima.
- Aliás, nem preciso. Se Sua Majestade olhar para cima verá que no nosso diálogo está a forma correcta.
- Ah, tendes razão, teria sido mais simples. Mas não achais que é algo subreptício usar tal método para chegarmos a tal conclusão?
- Talvez seja, Majestade, mas não apeteceu ao autor deste texto descrever uma cena em que escreveríamos a forma semanticamente correcta da palavra em questão.
- Então, ao invés de descrever um simples gesto de escrever num papel ele preferiu criar um diálogo desnecessariamente complexo em que nos tornamos conscientes que somos personagens de ficção?
- Artistas, Majestade, como poderemos alguma vez entendê-los?

O Rei virou-se para Ventura Lobo.
- Senhor Ventura, aparentemente o senhor tinha razão. Como é que sabíeis da diferença entre as duas palavras se me dizem que é um conhecimento há tanto tempo perdido?
- Aprendi na escola.
- Na escola? Como? Este é um mundo fictício baseado em fantasia medieval. Há magos e fadas. Normalmente neste tipo de contextos não existe ensino público, nem do mais básico.
- Então como é que as pessoas são supostas conseguir ler os cartazes que são afixados?
- Entre todos os meus poderes divinos por direito, a omnisciência não é um deles. Apenas posso responder que ou esse facto é uma incoerência que o autor deste texto não pensou ou então os cidadãos nunca realmente leram os cartazes e simplesmente gostam de olhar para os desenhos. Seja como for, começo a achar que o Senhor Ventura tem mais que se lhe diga sob essas tristes roupas de campónio que trazeis.
- Bom, devo ter subido imenso na consideração de Sua Majestade para me tratar como mais do que uma pessoa. Ou isso ou está aqui mesmo alguém invisível que apenas eu não me apercebo.
- Não compreendo. Explicai-vos.
- Majestade, com quem é que está a falar? Sei que me inclui, mas não sei com quem mais é que fala.
O Rei olhou para o Capitão e para o Mago. Ambos fizeram uma careta de confusão e encolheram os ombros.
- Não sei quanto ao outro indivíduo invisível, chamemos-lhe Joel, mas se ele não se quiser juntar à minha explicação como Sua Majestade requeriu terei o maior prazer em explicar-me sozinho. Tenho estado este tempo todo confuso com a vossa maneira de falar, pois usais a segunda pessoa do plural para se referirem apenas a uma pessoa. Quem tem uma aproximação mais pragmática sobre a língua que fala tem em conta estes pormenores. Devo perguntar: o Joel existe?
- Não sei de que falais. - respondeu o Rei.
- Sim, não compreendo o que dissestes - concordou o Mago.
- Lá está, devo estar maluco. Tenho impressão que só eu é que falei, e no entanto, vós implicais pela forma verbal usada que houve outra pessoa além de mim que falou. O tal Joel. Podereis explicar-me porque falais assim?
- Quem? Eu ou o Muís?
- Vós!
- Mas qual de nós?
- VÓS! Os dois! Segunda pessoa do plural! Ambos falais assim e isso confunde-me.
- Então, mas dê um exemplo de como deveríamos falar!
- É simples, não usai formas verbais com os "eis" e os "ais" no final quando falais com uma só pessoa.
- Mas vós estais a usá-los!
- Mas vós sois dois! Eu sou apenas um!
- Eu sou dois? Isso não faz sentido.
- Ai ai ai ai ai... Ouvi-me por um momento!
- O senhor ouviu-se por um momento? É normal.
- Não, é o imperativo!
- Ouviu o imperativo?
Ventura Lobo começava a ficar impaciente.
- Se eu tivesse aqui um certo Livro mostrar-vos-ia...
- Qual Livro? 
- Um Livro que tiraria todas as dúvidas que pudéssemos ter sobre a forma como falamos e escrevemos.
- Mas tal Livro existe? - perguntou o Rei excitado.
O Mago forneceu a resposta.
- Sim existe. Ou existiu, pelo menos. Foi de um tal Livro que o meu mestre aprendeu tudo. Ele não me passou todos os seus conhecimentos. Ele dizia que a viagem para obter o livro ensinava tanto quanto o livro em si. Nunca me propus procurar o Livro. Entretanto caí num buraco metafórico onde todos os sonhos e vontades se extinguem.
- Que terrível, Muís D'Latos! Como caiu nesse buraco?
- Tornei-me funcionário público, como bem sabe, Majestade.

- Tenho uma ideia! - exclamou o Rei. - Uma ideia que fará o enredo avançar. Muís D'Latos, meu competente controlador de elementos, e se enviássemos este jovem aventureiro em busca desse fabuloso Livro? Ele poderá trazê-lo e guardá-lo-íamos como um tesouro real!
- É uma ideia esplêndida, Majestade.
O Capitão discordou.
- Majestade, perdoe-me, mas quereis enviar um desconhecido numa demanda tão importante para o Reino? Porque não confiais na Guarda para o fazer?
- Olha, agora já estou todo confuso com os "ais" e "eis" também. Já nem consigo falar de maneira toda pipi. Envio um desconhecido nesta missão porque os argumentos de maior parte dos livros medíocres e filmes de Hollywood parecem safar-se com isso e até ter sucesso. Para além disso, é preciso que esta história tenha um mau da fita, e se eu meter inveja ao meu querido Capitão da Guarda, ele certamente fará tudo para sabotar os esforços de Ventura Lobo.
Voltou-se para Ventura.
- Que me diz, Ventura Lobo? Quer aceitar esta aventura e desbravar os recantos perigosos do Reino na sua busca? Escalar os Montes dos Adjectivos de Grau Superlativo, explorar as Selvas de Narrativas Densas, atravessar os Pântanos de Palavras Obsoletas, correr pela Planície da Dicção? Aceita enfrentar os perigos que certamente encontrará?
Ventura Lobo empertigou-se e respondeu orgulhosamente.
- Claro que sim, Majestade. Farei tudo pelo enredo.

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publicado às 12:15
editado por José da Xã às 22:50


1 comentário

De José da Xã a 19.05.2016 às 12:46

Belíssimo texto, sim senhor!

Gostava mais que a personagem se chamasse Modesto Viçoso... Ahahahahahah!

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