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Blues for Narada

por Rei Bacalhau, em 10.04.16

Estão os três na noite. Foram os três a uma jantarada com amigos e conhecidos.

Os amigos decidem ir a um bar. Os três aquiescem e seguem.

Não estava a abarrotar ainda, mas já demorava algum tempo a arranjar bebidas. A música parecia desinspirada e banal. Nem por isso o Bom deixava de se abanar ritmicamente, ao contrário dos outros dois que permaneciam completamente imóveis, um com olhar reprovador e o outro numa pose nervosa.

Os restantes companheiros estavam mais soltos, não necessariamente por influência de álcool. Estavam soltos porque é natural para eles assim estarem naquele tipo de contexto. Aparentavam conhecer e apreciar as músicas bastante melhor que os nossos três. Quando a primeira ronda de bebidas se esvaziou, começaram as parvoíces divertidas no seio do grupo. Dançavam com maior ou menor jeito, mas com muita energia e expressividade, ao ponto de se tornarem perigosos para quem passava ao pé deles com copos cheios.

Os três observavam a mesma situação com opiniões diferentes.

O Bom hesitou um vez, mas depois parecia que iria aceitar os convites persistentes dos seus colegas para se juntar à parvoíce saudável. Duas vozes levantaram-se contra ele ao aperceberem-se disso, sendo que o Mau falou com considerável veemência.

- Onde é que pensas que vais? Não estás a pensar ir armar-te em parvo pois não?

- Então, mas claro que sim, essa agora! É para isso que aqui 'tamos.

- Não, não.... - interveio o Feio.

- Pois não, diz ele bem. Não estamos aqui para esse tipo de comportamentos tribais para os quais não estamos devidamente treinados. Já nos divertimos suficientemente no jantar. Acho que não bebeste o suficiente para estares completamente fora do teu juízo. Ficas aí quietinho connosco que é onde estás bem.

- Então, mas isto também é diversão. Faz parte! Só quero dar ali uns moves...

- Para quê? És algum bobo? Tens necessidade de o fazer?

- Pá, necessidade não, essa agora, mas...

- Seríamos ridículos... - comentou o Feio timidamente.

- Exacto. Não queremos cair no ridículo, pois não? Já tivemos más experiências nesse sentido, não é verdade?

- Mas que raio 'tás a falar? Deixem lá isso, quem é que vai gozar connosco? 'Tão doidos?

- A falta de racionalidade parece-me mais óbvia em ti, sinceramente. Compreende que estamos rodeados de algumas dezenas de pessoas, e todas, ou pelo menos uma grande parte delas poderão observar as tuas paupérrimas capacidades de dançarino.

 - Ah, finalmente uma música de jeito, sempre dará para passar um bocadinho melhor o tempo.

- Eles estão a chamar outra vez. Eles sabem que eu gosto de Stevie Wonder. Eu vou lá.

O Mau agarrou-o firmemente.

- Já decidimos que não. O ritmo inebriante do Stevie não tem efeito químico relevante no corpo para me fazer mudar de ideias. 

- Mas qual é a tua, man? Só nós é que não nos estamos a divertir!

- Eu por acaso estava ocupado a olhar para a decoração aberrante do bar. Porque razão terão pensado que uma cabeça de veado seria adequado para esta sala? Aqui este ainda não se queixou - apontou para o Feio. - por isso não percebo porque é que estás tão consternado. Não és o único que está relativamente parado, há mais como nós por aqui.

- Sim, mas eu quero ir ali para o molho.

- Fora de questão, meu caro.

-  Bolas! Esta é a música perfeita, todos gostamos dela! Vamos lá.

O Bom foi agarrado outra vez, mas desta vez pelo Feio.

- Deslarga-me!

- Não devemos. Não podemos. Seremos ridículos. Não devemos sê-lo. Não podemos.

A sala estava ao rubro. Os amigos já estranhavam a imobilidade daqueles três, mas acabaram por arranjar conversa com umas estrangeiras que também dançavam livremente.

- Olha, agora 'tão a falar com umas bacanas.

- Menos razão temos de lá ir então. Relembro que esse não é um mundo ao qual pertencemos. Diz-me, irias lá e farias o quê?

- Sei lá... inventava alguma coisa, eles também não sabem o que dizer...

O Feio interrompe-os.

- E se fôssemos embora?

- Olha mais uma. Olhem o pessoal a saltar todo maluco.

- Isso é lá com eles. Nós mantemo-nos aqui, a não ser que sigamos a ideia proposta.

- Hã? Qual?

- A de irmos embora. Bem vistas as coisas estamos a gastar o tempo de toda a gente.

- Mas ainda é cedo!

- Já é meia noite. Parece-me uma hora aceitável para nos começarmos a dirigir para casa.

- E eles?

- Que fiquem aí, eu não os proíbo de se divertirem.

- Só me proíbes a mim, n'é?

- Precisamente, se quiseres colocar a situação nesses termos. Vamos despedir-nos da nossa companhia e rumar a casa.

- Sim. Sim! Por favor, sim! Não aguento mais. Vamos!

O Bom lá teve de ir, esmagado pela oposição avassaladora. Despediu-se nervosamente dos colegas decepcionados, mentindo sobre as razões.

- Tem de ser. Tenho de acordar cedo. Tenho pessoas à minha espera. Obrigadão pessoal, fiquem bem!

A viagem para casa foi silenciosa. Todos tiveram tempo de voltar ao estado normal respectivo.

No carro, o Mau escolheu uma música para contrastar o caos sonoro do qual haviam saído. Os seus ouvidos já precisavam.

 

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