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É tudo irrelevante

por Rei Bacalhau, em 25.11.15

É tudo irrelevante. Para mim, é tudo.

É peculiar que tenha chegado a um ponto da minha vida em que eu, sendo tão novo ainda, não encontre grande sentido na minha existência. Nada me alegra, nada me entristece, nada me choca, nada me excita. Paradoxalmente, o único sentimento que ainda possuo é a apatia total. Nada me interessa. É tudo irrelevante.

O meu desemprego recente pouco contribuiu para este estado de espírito, pois já é algo que me amaldiçoa há muito tempo. No entanto, só agora é que tive paz de espírito suficiente para reflectir naquilo que me atormenta. A conclusão a que cheguei é a seguinte: é tudo irrelevante.

Tenho 26 anos. Tenho competências e graus académicos nos computadores, implicando assim excelentes possibilidades de emprego. Mas mesmo que tenha emprego? E depois? Vou ganhar dinheiro para o quê? Considero tudo irrelevante. Não vou dar passeios, não faço viagens, não visito nada. Não saio à noite, não tenho passatempos dispendiosos. Até jogar videojogos se tornou difícil para mim. Tenho um computador com uns 5 ou 6 anos, posso mudar-lhe as peças para actualizá-lo, mas até para isso me falta vontade. Para quê? Para meu proveito? Não é preciso, é irrelevante. Para quê ter um bom emprego? Nunca hei-de constituir família, hei-de sempre viver ou sozinho ou com os meus pais. No máximo só estarei a acumular dinheiro para providenciar uma velhice confortável aos meus pais, ou para emprestar a um familiar que precise mais dele. Talvez o possa dar para caridade... Mas para quê? É tudo irrelevante!

Há 10 anos eu era conhecido como um rapaz de ideias muito fixas e defendia-as ardentemente. Defendia paradigmas quase infantis como se fossem dogmas. Sem ser por ordem de importância, alguns destes dogmas eram: a Pátria, o Sporting, o Deus Cristão, a minhas ideias políticas de direita, o Amor, a Família.

Hoje quase nada resta dessas ideias. Eu diria que o Sporting foi o primeiro a ir, pois como não percebia muito de futebol, o meu fervor era mais devido a hábito do que a amor à camisola. Cada vez me interessei menos. Deus foi a seguinte vítima. Tendo aprendido a duvidar de tudo o que me dizem e a ver tudo o mais objectivamente possível, não consegui continuar a acreditar em mãos invisíveis. Não sem provas. Tornei-me agnóstico, suponho eu. Depois foram as ideias políticas. Comecei a fazer as contas mentalmente e pareceu-me que haviam muitas coisas numa sociedade democrática que não faziam sentido. Tornei-me uma espécie de anarquista, mas mesmo isso não muito fervorosamente.

Depois disto, para variar um bocado, tomei conhecimento de um novo dogma que eu acreditava sem o saber. O Amor. No entanto, esse foi o que menos tempo perdurou, e foi rapidamente chacinado pela realidade brutal de que não existe tal coisa. Falo de amor conjugal, claro, e falo no meu caso. Sei que supostamente há que ame e seja amado nestas condições, ou que pelo menos ache ingenuamente que sim, o que suponho que para eles seja suficiente.

A Pátria é dos poucos que me resta, mas já o comecei a repudiar, lasca a lasca, perguntando-me se valerá a pena o conceito de nação como sendo delimitado por umas linhas tortas num mapa.

Resta-me apenas um, inabalável até agora. A Família. A minha única restante real razão de viver. Aquilo pelo qual talvez ainda consiga ressuscitar os fogos que haviam em mim no passado.

Felizmente ou infelizmente, há um enorme conjunto de actividades que a Família não precisa, e como não precisa, eu não tenho motivação para as fazer por interesse próprio. Deixei de tocar guitarra, não consigo fazer o videojogo que queria fazer, não escrevo, não saio de casa. Parece-me que enquanto estiver desempregado estarei sempre em estado inactivo, e só serei ligado quando for requisitado. Porque é que haveria de ser doutra maneira? É tudo irrelevante.

Eu não acredito em destino e, consequentemente, sei que o estado actual da minha psique é inteiramente culpa minha (e eventualmente do ambiente que me rodeia). É deliberadamente que renuncio de "viver", no sentido mais belo da palavra, passando apenas a "subsistir", pelo menos enquanto eu for necessário.

É verdade que com tantos dogmas que já me caíram por terra, este (o da apatia mórbida) pode ser apenas mais um. Talvez um dia me cure, talvez não. Não sei. Quase que não me interessa.

Deveras, é tudo irrelevante.

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publicado às 19:16


2 comentários

De Próxima Paragem a 03.12.2015 às 05:49

Talvez seja irrelevante, mas eu gostei do teu texto.

De Rei Bacalhau a 03.12.2015 às 11:22

Apesar de tudo, acho que ainda não perdi a capacidade de reciprocar a cortesia que me demonstram. Como tal, agradeço sinceramente o seu comentário.

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