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Emoção

por Rei Bacalhau, em 02.08.15

Hoje o título é um bocado diferente do que o costume aos Domingos. Para ser coerente, este texto deveria ser titulado como "Música: Phantom of the Opera". No entanto, quero abranger um assunto mais delicado, e como tal senti-me no dilema entre manter a coerência dos títulos com as semanas passadas ou manter a coerência com o conteúdo efectivamente discutido. Está claro que me decidi por esta última opção. Um sincero pedido de desculpas aos meus leitores regulares inexistentes e a um ou outro internauta que venha aqui parar por acidente total e fatal.

 

Tendo notado que que nos últimos tempos as músicas aqui no blog têm sido mais calminhas, e notando que há vários meses que não ponho algo mais pesado, reuni algumas ideias, surpreendi-me com alguns factos que nunca me tinha apercebido e então escolhi o tema do Fantasma da Ópera. Este tema, proveniente originalmente de um romance dum tal Gaston Leroux, foi levado para vários outros tipos de media, entre filmes, peças, música, jogos, etc..

É precisamente na parte da música que me irei focar. Como é costume em qualquer situação semelhante, se os Iron Maiden tiverem feito alguma versão que se relacione com o tema, então tenho a obrigação de colocar aqui essa versão. Sem mais demoras então, abro com Phantom of the Opera, dos Iron Maiden, nos seus primeiros tempos em que, de notar, ainda estavam o vocalista Paul Di'Anno e o baterista Clive Burr:

 

 

Poderão estar a perguntar-se: "Mas então porquê a música? Que tem de tão especial?"

A música em si nada, mas o tema será retomado. Peço paciência, pois agora terei de mudar a direcção da conversa. Já voltamos ao Casper da Ópera.

 

No EDP Cool Jazz deste ano veio cá, entre outros, o Mark Knopfler. Eu tive a sorte de o poder ir ver e agradeço a todos os deuses existentes e inexistentes por me terem dado a possibilidade (ou ao meu irmão que comprou os bilhetes a mim e ao meu pai, vá...).

Eu já fui a alguns concertos, e de todos tive sempre alguma coisa mal a dizer. "O som estava péssimo, era só reverberação" (caso dos Iron Maiden, por acaso...); "O pessoal não pára de me massacrar as costas com os saltinhos e empurrões" (estava na plateia dos Metallica, não poderia esperar menos, não é?); "Os gajos 'tão muita desafinados e não tocam nada de jeito" (foi a minha experiência com os Offspring); "Eles não tocaram a minha música favorita" (todos os concertos a que tinha ido, basicamente).

E então no concerto de Mark Knopfler todas as queixas foram sendo eliminadas. O som estava absolutamente fantástico, conseguiam-se sentir todos os detalhes. A multidão à minha volta, na bancada (claro), era pessoal altamente tranquilo e apenas apanhei um fumador, o que tornou o serão muito agradável por si só. O Mark e a banda tocavam brilhantemente, não sem experiência e com uma harmonia e sincronia instrumental total. Para um leigo, com padrões relativamente baixos, estaria o dia feito, pois já estava habituado a que não tocassem as minhas músicas favoritas.

Estávamos no encore. Seria a última música, para a despedida. Não tinha grande esperança. Tinha quase a certeza que seria a Money for Nothing ou parvoíce semelhante.

Então começa a Going Home.

Já falei desta música há algum tempo atrás, e imaginem como fiquei enfeitiçado, pois a música que mais ansiava ouvir num concerto do Mark Knopfler estava a começar a ser tocada à minha frente. Já não seria simplesmente um vídeo na net que teria de ver. Presenciei-a!

Gelei.

Entrou a bateria, entrou o saxofone.

E senti que saia de mim algo que nunca na vida imaginaria. Dou por mim com os olhos a humedecerem-me. Uma lágrima quis sair, que tive de limpar subrepticiamente. Na qualidade de homem, não me ficaria de todo bem ser apanhado em tal situação vergonhosa. Verdade seja dita, eu já não me lembrava do que era uma lágrima, obviamente. A minha experiência de vida enrijou-me os sentimentos, ao ponto de já ter duvidado várias vezes se realmente existiam em mim ainda. Seja como for, já, ao longo da minha vida, verti lágrimas de tristeza, de dor (quando era criança, estou a contar com essa altura também!). Nunca, mas nunca, havia eu vertido uma lágrima por alegria, pura, indefinível, total e extasiante.

Foi então essa lágrima que me acordou para a descoberta de que afinal não estarei tão longe da Humanidade, feito eremita metafórico, como eu pensei.

Foi então esta lágrima que me deu o concerto perfeito, não só por terem tocado a música específica que eu queria, mas por me terem feito emocionar. No fundo, não é para isso que a música serve? Não é para isso que o Mark Knopfler com a idade que tem ainda anda a saltar de ponto em ponto a espalhar a alegria? A espalhar emoção? A dizer-nos com a sua guitarra e com a sua banda: "Vá! Chorem! Nem que seja por dentro!"

Posso dizer isto no anonimato e creio que a minha integridade masculina não fica comprometida. Obviamente nunca diria isto em público, e se calhar nem em contextos amigáveis ou familiares. Verdadeiramente, só no anonimato é que o lado Feio de uma pessoa pode ser revelado com algum à-vontade.

Dêem-me um momento, porque não é de repente que mudo outra vez o sentido da conversa.

 

 

 

 

 

Voltemos ao Fantasma, então, esquecido lá atrás, antes das lamechices.

Houve uma adaptação para filme da história do Fantasma da Ópera. Eu não conheço a história muito bem, e por isso se calhar não farei grande justiça à produção, mas supostamente há lá uma parte em que o Fantasma consegue lá raptar uma cantora toda xpto e a leva para o seu esconderijo. Acho que há um bocado de síndrome de Estocolmo à mistura e tudo.

Não interessa, porque não é relevante para o que quero discutir. Mostro aqui um excerto do filme:

Bonito e tal, mas é apenas introdutório para o que quero falar.

Nos anos 2000, metia-me uma confusão dos diabos quando via miúdas da minha idade a fazer fila para verem bandas esquisitas, todas negras, todas pintadas, todas com roupas vampíricas. O infame movimento gótico que tanto observei na altura. Hoje é mais raro encontrar góticos, pelo menos como os havia. Seja como for, havia uma data de bandas que o pessoal chorava ao ver. Chorava!

Quem me diria a mim que eu, 10 anos depois, iria perceber que essas miúdas, tão aparentemente estúpidas, estavam a milhas à minha frente em termos de realmente compreender e apreciar uma música ou o seu artista? Quem diria que tal lição viria dessas pessoas que sentiam inconscientemente e naturalmente o que eu demorei tanto tempo a perceber? Essa agora! Eu não, de certeza!

E então eis-me a ver um vídeo de uma banda dos anos 2000 chamada Nightwish, que fundia heavy metal com... enfim... com ópera ou sei lá. A verdade é que a vocalista era uma cantora de ópera e suponho que a fusão pode funcionar. Decidam por vocês próprios. Quero apenas fazer notar a reacção do público quando a cantora começa a cantar, reacções essas que alternam entre o êxtase e o choro profundo.

Pelo menos aparentemente.

A música, pouco surpreendentemente, também se chama Phantom of the Opera. Dou-vos então os escandinavos Nightwish, só peço que não se assutem.

 

Suponho que o resumo deste texto todo é que tornei-me numa gótica adolescente dos anos 2000.

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