Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Especial: Demons and Wizards: Easy Livin'

por Rei Bacalhau, em 01.04.14

 

Atordoado pela fantástica queda, o Viajante ziguezagueou tonto pelo local da aterragem. Tinha de se habituar a andar outra vez. Inevitavelmente caiu, várias vezes até. A área circudante parecia ter sido alvo de um fogo florestal em ponto pequeno, pois apenas um círculo perfeito à sua volta é que tinha ardido violentamente. Algumas chamas ainda flagravam, mas o Viajante notou que não lhe pareciam quentes. Na verdade até lhe pareciam... simpáticas? O Viajante abanou a cabeça, estaria com certeza a alucinar para associar tal adjectivo a uma chama.

 

Sentou-se por um momento numa pedra, e reflectiu, cansado. Onde estaria? O que faria? Que interpretação dar a toda a sua aventura? O Mago haveria com certeza de o saber... Tinha de o encontrar, e se fosse necessário, obter retribuição por esta experiência algo produtiva admita-se, mas sempre aterradora!

 

Levantou-se da pedra, enérgico, e preparou-se para tomar caminho.

 


Algumas horas depois chegaram alguns populares, que haviam visto de longe uma grande bola de fogo a despenhar-se na floresta. Depararam-se com o cenário de aterragem do Viajante, apesar de ele há muito ter partido. Os populares procuraram vestígios do que poderia ter acontecido ali e encontraram algumas anormalidades. Em primeiro, uma pedra que parecia ter a forma exacta de uma poltrona confortável. De seguida notaram uns seres misteriosos que timidamente olhavam entre as pedras. Quando se aproximaram dum deles qual não foi o espanto deles que na verdade eram chamas vivas, em forma de humanos pequenos. Não eram agressivas, mas os populares, por medo ou superstição, imediatamente as destruíram mandando-lhes terra para cima.

 

Algo de muito estranho havia ocorrido ali. Os populares souberam logo que os únicos com Conhecimento suficiente para esclarecer aquilo seriam os anciãos do Círculo.

 


Voltemos ao Viajante. Eis que finalmente sai da floresta onde andou perdido algum tempo, apesar da sua experiência de caminhante. O lugar onde estava era-lhe estranho. As árvores eram diferentes e mais densas, a vegetação era abundante, o céu era mais constantemente nublado. Tudo isto lhe dificultou a navegação. Felizmente, ao sair da floresta, deparou-se com uma estrada, o que era indicativo de civilização. Contudo, a estrada era completamente diferente de tudo o que tinha visto dantes. Tinha um aspecto muito novo e direito, nada a ver com as estradas de terra à qual estava habituado na sua terra. Eram muito brancas e via-se que os seus construtores tinham orgulho no que fizeram, pois até criaram ornamentos ao longo da via.

 

O Viajante já tinha ouvido falar deste tipo de estradas em estórias que lhe contaram em tempos. Falavam de um império antigo governado por um conjunto de Anciãos, chamado de Círculo de Mãos, que resolviam os problemas do povo e lhe trazia prosperidade. No entanto, pensava-se que esse império havia completamente desaparecido. Será que ele havia aterrado num local do mundo onde essas tradições antigas se mantiam? Será que os anciãos lhe saberiam responder às muitas perguntas que tinha, nomeadamente como encontrar o Mago? Teria de descobrir, e o melhor método de o fazer seria seguir a estrada até encontrar uma população.

 

Investigou o horizonte para tentar determinar em que direcção deveria ir. Não encontrou vestígios como fumo ou luz ou uma construção humana, e por isso decidiu ir numa direcção escolhida ao acaso. Depois de alguma distância deparou-se com uma pequena quinta, com árvores de frutos na parte de trás. Decidiu ir pedir comida, com a esperança que os possíveis habitantes estivessem dispostos a trocá-la por nada mais que estórias das suas aventuras. Aproximou-se da porta e bateu gentilmente. Identificou-se e proferiu o seu propósito, esperando conseguir derrotar a timidez clara dos ocupantes.

 

Para sua surpresa ouviu vozes a berrar atrás de si. Um homem e os seus filhos apontavam-lhe armas improvisadas das ferramentas de agricultura. O Viajante caiu de espanto e nem tentou levantar-se, imediatamente levantando as mãos em submissão, apavorado. Era claramente uma reacção que o agricultor não estava à espera, pois a sua cara de espanto tornou-se igual. Percebendo o seu erro, o agricultor declara paz, e oferece a hospitalidade rural ao Viajante. Este agradece, especialmente por não ter o estofo necessário para lutar contra três homens ao mesmo tempo.

 

O agricultor partilha alguma comida e pede desculpa ao Viajante, mas com os recentes ataques de bandidos lunáticos, ele tem de proteger a sua família de alguma maneira. O Viajante achou estranho. Contou que na sua terra não haviam quase bandidos nenhuns, já que eles tinham protecção dos Aprendizes do Bem. O agricultor encolheu os ombros, dizendo ao forasteiro que nunca tinha ouvido falar de tal coisa.

 

Conversaram muito, mas o agricultor franzia os olhos sempre que o Viajante contava as suas estórias mais fantásticas (não contou a sua viagem espacial, com receio de parecer insano). Era como se o agricultor nunca tivesse ouvido falar de magia, que para o Viajante era bastante normal ver. Por fim, perguntou se tinha alguma vez ouvido falar do Mago, mas o agricultor mais uma vez desconhecia. Propôs, no entanto, que falasse com o Círculo, já que eles poderiam ser os únicos com as respostas que ele pocurava. Felizmente, o local ao qual ele chamou de Capital não era muito longe, alguns dias de viagem para um caminhante experiente, e haviam muitas aldeias e cidades pelo caminho.

 

O Viajante despediu-se fraternamente e agradeceu a hospitalidade, a comida e a informação. Achou estranho como apesar de estar a falar de assuntos tão estranhos para o agricultor, este mesmo assim não conseguia desviar o olhar. Era como se algo no Viajante o chamasse a atenção. Passou por uma ribeira e decidiu olhar para o seu reflexo. À primeira vista parecia estar normal. Olhando com mais atenção, no entanto, verificou algo de diferente nos seus próprios olhos. Emanavam uma vivacidade e uma confiança diferente. Era deveras estranho. Lavou a cara com a água turva da ribeira e prosseguiu.

 

 

Não reparou que as águas da ribeira tornaram-se limpas e cristalinas e as gotas dançavam alegremente ao darem vida às plantas circundantes.

De facto, passou por várias aldeias, onde o olhavam sempre com alguma suspeita. Apesar do que ele lhe tinha feito, o Viajante estava determinado a aplicar os ensinamentos bons do Mago. Iria trazer a felicidade e o Bem a estas pessoas, mesmo que só por um tempo. E então, sempre que fazia uma paragem escolhia ficar um tempo e falar com as pessoas, em vez de se dirigir para o seu destino real, a Capital. Partilhava bebidas e estórias nas tabernas, brincava com as crianças e ensinava-lhes coisas novas, socorria alguém que precissasse de ajuda para arranjar a carroça. E fazia-o de graça, apenas de vez em quando pedindo um bocado de comida quando via que não era inconveniente. E as pessoas começaram a recebê-lo mais alegremente. As notícias que um Viajante praticava acções de Bem espalharam-se depressa, e deram esperança às pessoas. Agora, o Viajante entrava numa cidade e havia rejubilo! Festas, danças, músicas e vinho!

 

Foi numa tal altura, numa taberna, que ele A viu pela primeira vez.

 

Algo lhe chamou a atenção Nela. A pele clara e a forma elegante do seu andar. O cabelo longo que ora transmitia sensualidade ou pureza. O riso, que ofuscava qualquer outro que tivesse visto. Os olhos, tão convidativos, tão ternos. Que donzela mais magnífica. Por um momento ainda pensou que pudesse ser uma alucinação, eventualmente da quantidade grande de álcool que tinha ingerido. Mas não, Ela existia mesmo e personificava para ele a mulher perfeita.

 

Ela também olhou para ele, tímida no início. Ela sabia que ele era a razão da festa e não se quis intrometer. Mas não sabia Ela que já há muito que o Viajante a tinha marcado como alvo. Ele aproximou-se. Apresentou-se com confiança, fazendo o possível para a impressionar. Tal não foi preciso, pois o Viajante, habituado a contar, deu consigo simplesmente a ouvi-La, querendo sempre saber mais sobre Ela. Ela partilhava o sentimento que crescia, e os dois passaram a noite a conversar e a apaixonarem-se.

 

O Viajante fazia tudo com ela agora. Ela era uma professora na aldeia, e ele juntou-se para A ajudar, já que tinha tanto para contar e partilhar com as crianças. Quando não haviam aulas, o Viajante passeava pela aldeia e auxiliava as pessoas, como sempre. Não se esqueceu do seu objectivo principal, de chegar ao Círculo e perguntar pelo Mago, mas agora tudo isso lhe parecia menor, em comparação com o que tinha com Ela. Na verdade, a vida na aldeia parecia ter melhorado tanto desde que ele chegou: a água corria mais limpa, o ar tornara-se puro, as terras ficaram férteis e os fogos crepitavam mais calor que costume. A população associou, por superstição, tais acontecimentos à chegada do Viajante, mas ele negava sempre ter alguma influência nisso. Dizia, pelo contrário, que se calhar dantes as pessoas andavam demasiado ocupadas a serem tristes para repararem na qualidade das coisas à sua volta.

 

Que fácil era viver agora! Por consequência deste episódio, mais uma vez sem se aperceber, o Viajante havia aprendido o último elemento que o Destino lhe havia reservado. O Viajante aprendeu o elemento do Amor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:00




calendário

Abril 2014

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D