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Queen.

Para alguns uma figura monárquica.

Para uns calão para homosexual.

 

(isto hoje começa bem, logo politicamente correcto)

 

Para outros a melhor banda de sempre.

É um exagero, certamente. Voltamos sempre à mesma conversa, quem é que define o que é melhor ou pior? Que factores condicionam tais classificações? Conceptualmente, a melhor banda de sempre é a que for mais comercialmente bem sucedida? É a que tiver músicas de maior dimensão temporal? É a que estatisticamente for mais conhecida por maior percentagem da população mundial/universal? Quiçá, pelo contrário, será a que entrega uma mensagem no espaço mais curto de tempo possível? Será a que tem músicas extremamente obscuras de alta complexidade musical, com uma composição magistral e aparentemente impossível? Será ainda por outro lado a que tiver menor complexidade musical, reduzindo-se a um ritmo constante e uma letra genérica e popular? Será aquela que fala de temas como mulheres, sexo, diversão? Ou de coisas mais sérias, como vida, morte e filosofias profundas? Será a que for mais romântica? Será a que tiver maiores rockalhadas? Será a que nos faz abanar ao ritmo perceptível de um baixo e uma bateria síncronos ao conduzir na auto-estrada? Será a que nos faz lacrimejar com as mais puras melodias de guitarra, piano ou voz? Será a banda de um estilo específico, tipo rock, pop, metal, etc.?

Será que a melhor banda de sempre é aquela que combina proporcionalmente tudo isto que eu disse e mais?

Releiam a lista pouco exaustiva de perguntas e tentem aplicá-la àquela banda mítica e tão surpreendente como são os Queen. Conhecedores da discografia deles notarão que maior parte das perguntas têm resposta afirmativa no caso desta Banda, que não consigo evitar de escrever com maiúscula. Poucas bandas terão tido a dinâmica e flexibilidade musical como os Queen tiveram.

Admito: sou totalmente parcial ao afirmar este tipo de coisas. Os Queen são a banda com a qual cresci, com os álbuns dos melhores êxitos em rotação frequente por casa. São das pouquíssimas bandas que eu ouvia antes de ter realmente acordado para a música (ou seja, pré Made in Japan dos Deep Purple) aos 18 anos. Felizmente ou infelizmente, à medida que os anos recentes se foram passando, o que dantes eu via como uma banda boa, por banalidade, ou melhor dizendo, por hábito de os ouvir, foi-se tornando numa visão bem mais analisadora da qualidade que esta Banda realmente tem. Ah!, isto no contexto de um leigo musical, que apenas pode apreciar o que ouve da maneira mais puramente bárbara possível, mas não menos válida, digo eu.

Há uns tempos eu falei da música Seven Seas of Rhye, que é um bom exemplo do que quero dizer. Uma música que normalmente não daria nada por e que, no entanto, é agora por mim altamente apreciada.

Há ainda mais tempo falei de uma músicazinha de 1 minuto, chamada Lazing on a Sunday Afternoon. Num minuto os Queen fazem o que nos dias de hoje me parece impossível alguém fazer. Só ouvindo. E não se consegue ouvir apenas uma vez, pois a músicazinha tem muito sumo para espremer.

 

Oh.. mas há tão melhor que essas músicas em específico. Oh se há!...

 

Bohemian Rhapsody.

 

 

SIM, já sei, esperem, ainda não acabei, não.. esperem!...

"Olha-me este, a pensar que é original a dizer que a Bohemian Rhapsody é uma ganda música. Ganda tonhó!"

Jovens, deixem-me acabar o raciocínio, essa agora, apesar de não vos querer privar do direito de ter este último pensamento ou eventualmente um que me insulte de maneira mais colorida. Sim? Ok, agradeço.

É verdade que a Bohemian Rhapsody é daquelas músicas que "toda" a gente conhece, é já parte da cultura humana, como espécie. É uma música mágica, tanto que comete o feito raro de conseguir ser tocada na rádio na íntegra, com 6 minutos de duração. É tão variada, tem tantos pontos chave emblemáticos, imediatamente reconhecíveis. É a minha música predilecta para testar se o stereo está a funcionar nuns fones ou colunas de som.

 

Little high.

Little low.

 

As transições entre as várias secções da música, a letra ambígua, mas rica e colorida, a instrumentação e efeitos sonoros... Tudo a combinar demonstram os Queen com o que muitos consideram a sua Magnum Opus.

Ora então, ouçamo-la, esta grande obra prima, Bohemian Rhapsody:

 

 

Mas.. será? A melhor obra deles, quero dizer?

O problema é que os Queen têm várias Bohemian Rhapsodies. Músicas com uma complexidade semelhante em termos de estrutura, dimensão e, no geral, grau de épico. Pode-se não concordar comigo, tudo bem, mas neste momento estou a querer dizer que existe uma Bohemian Rhapsody ANTES da Bohemian Rhapsody. Não precisamos de retroceder muito em termos discográficos para se chegar à música que quero falar, já que está no mesmo álbum, o A Night at the Opera, umas músicas antes da Bohemian Rhapsody.

A música chama-se The Prophet's Song, e conta uma história parecida com a arca de Noé, baseando-se num pesadelo que um dos Queen teve. É a maior música dos Queen, com mais de 8 minutos, sendo que uma boa parte deles é passada numa secção que parece cantada a cappella com efeitos de repetição e atraso. Não deixa de ser um golpe arriscado mas o resultado está à vista. Não posso dizer que esta música seja superior, mas tem certamente algumas parecenças com a Bohemian Rhapsody, especialmente ao nível da instrumentação poderosa e efeitos de som.

Por acaso, aí está um problema, é que músicas deste género de complexidade não podem, no geral, ser tocadas ao vivo por causa dos efeitos que foram adicionados em estúdio. No mínimo serão tocados excertos, mas o sentimento épico perde-se um bocado.

Mas ouve-se e saboreia-se a versão de estúdio então. Dizer que é melhor que nada é ofender, neste caso. Digo então que é melhor que muito. The Prophet's Song

 

 

Mas.. mas então e depois? Quero dizer, posso argumentar que existe uma Bohemian Rhapsody antes da original. Mas será que existe uma depois?

Aqui estaria em desvantagem. Não conheço os álbuns dos anos 80 dos Queen tão bem, e se calhar poderia estar uma Bohemian Rhapsody obscura escondida lá no meio. Pois bem, boas notícias, pois por acaso sei de uma música que se pode encaixar no padrão.

Não deixa de ser curioso que a Bohemian Rhapsody que vou agora referir foi das últimas coisas que os Queen composeram. O último álbum dos Queen foi certamente o mais triste, precisamente pela tragédia que viria a acontecer pouco depois do seu lançamento. Mas quem parte não parte necessariamente sem deixar uma última mensagem, e esta última Bohemian Rhapsody foi, na minha interpretação, um "adeus" antecipado, um "adeus" muito maior que outras músicas mais directas no significado, como Who Wants to Live Forever ou The Show Must Go On. A música partilha o nome do álbum:

Innuendo.

A música começa gravemente, como se pressagiasse alguma coisa. O tambor rufa como se se tratasse de uma marcha. É um início muito dramático, subitamente interrompido pela banda, que não consegue eliminar o aspecto ainda grave que já se assumiu.

É uma música filosófica, já não tem as palermices quase folclóricas da Bohemian Rhapsody. Tem questões sérias, provavelmente perguntadas por aquele que estava no fim da sua vida, que se pergunta sobre a futilidade de tantas coisas em que acreditamos, mas dando sempre a esperança de "algo" pelo qual lutar. O que esse algo é, não sei, mas não estou a morrer neste momento para perceber o que ia na cabeça deles na altura.

Through the sorrow all through our splendor
Don't take offence at my innuendo

Eu diria que o "innuendo" que eles aqui falam é no sentido de a letra da música até ali ser um insinuação para o que vai acontecer. É esta uma das razões que tenho para dizer que esta música é um "adeus".

Mas se é um "adeus", vamos sair em grande, com flamenco e tudo ao barulho, numa instumentação em que também participou o guitarrista Steve Howe. Esta parte em específico aproxima-se imediatamente do que eles tinham feito há mais de 15 anos atrás, voltando um bocado às suas raízes de adicionar complexidade arriscada às suas músicas, com as altas guitarradas e ritmo aceleradíssimo, em comparação. Isto tudo antes de se voltar ao questionário filosófico.

Finalmente a música desvanece, tal como os Queen desvaneceram, ficando a derradeira afirmação:

...'till the end of time!

Deixo portanto, também aqui, até ao final dos tempos (ou até o Youtube deixar de existir) a derradeira Bohemian Rhapsody dos Queen, Innuendo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um leitor atento poderia ter reparado que o título deste texto tem referências às três músicas. Mas uma das palavras mantém-se misteriosamente anónima.

Quero com isto dizer que peço desculpa. Ainda não acabei. Falta uma. Uma Bohemian Rhapsody tão estranhamente desconhecida, se o número de visualizações no Youtube for um indicativo admissível.

Uma música antes da Bohemian Rhapsody ANTES da Bohemian Rhapsody. A mãe de todas as Bohemian Rhapsodies. Uma música tão enormemente complexa que ultrapassa os padrões da Bohemian Rhapsody original. Tem imensas secções distintas umas das outras, com transições abruptas entre elas. Todo o poderio vocal da banda é usado. Quer dizer.. eu bem quero descrever o que esta música é, mas um leigo musical não o consegue fazer. Para mim é indescritível, pois quanto mais a ouço menos palavras tenho para a descrever.

A música chama-se The March of the Black Queen. É do segundo álbum dos Queen, que contém várias pérolas, como esta, mais negra.

Eu fico cansado depois de a ouvir, por me satisfazer tanto, por me melhorar consideravelmente o dia, sabendo que algures no tempo, uma banda atingiu a sua obra prima sem ela própria o saber. É verdade. Estou a afirmá-lo:

Considero esta música, este épico, melhor que a Bohemian Rhapsody. Não sei se por a conhecer há relativamente menos tempo e ainda estar ofuscado com a sua beleza, ou se por já estar demasiado habituado à Bohemian Rhapsody, ou se ambas ou nenhuma das opções anteriores. A verdade é, se alguma música merece destaque neste texto hoje, seria esta Marcha.

Marchemos então e repitamos a marcha, neste meu tributo aos Queen, uma banda para a eternidade com as músicas, conhecidas ou não, com que abençoaram a espécie humana.

The March of the Black Queen, dos Queen:

 

(P.S.: não fazem ideia o que é ter de escrever Bohemian Rhapsody 50000 vezes...)

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