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Especial: O Bom, o Mau e o Vilão

por Rei Bacalhau, em 07.12.14

Eram cerca das 23:30. Estava a ouvir uma música para mim inspiradora. Pensei: "se calhar já era altura de fazer o texto sobre isso".

Levantei-me e fiz os preparativos necessários. Ligar o leitor de DVD's provou ser mais difícil que imaginei, com um infinito emaranhado de fios ligados e desligados na parte traseira do móvel onde se situa a televisão. A mim preocupavam-me especialmente os fios e cabos desligados, fundamentais para ligar o leitor à televisão. Depois de um esforço titânico (durante esse tempo de certeza que não tive frio), pulei de alegria quando vi o menu do leitor a aparecer no ecrã! Faltava a segunda parte da façanha: localizar o DVD em questão. Bem procurei, mas torna-se complicado quando numa só casa existem 10 sítios possíveis onde um só DVD possa estar. Depois do que me pareceu uma procura desesperada e infindável, agradeci aos deuses existentes e não existentes a descoberta do filme que tanto de repente me apeteceu ver.

Caso não se tenho percebido pelo título deste texto, falo do filme de nome português "O Bom, o Mau e o Vilão". Eu prefiro a tradução literal do título inglês, ou seja, de "The Good, the Bad and the Ugly" para "O Bom, o Mau e o Feio".

Surpresa!, é neste filme que se foi buscar a inspiração para o nome do blog!

Não conseguia imaginar uma melhor maneira de voltar a escrever no blog do que rever o filme e dar a minha opinião irrelevante e desinformada sobre o mesmo.

 

Começo por dizer: é um ganda filme.

 

A história roda quase toda à volta de um tesouro escondido algures. A certa altura, apenas três pessoas sabem da sua existência, e as peripécias do filme estabelecem os contextos perfeitos para alianças temporárias e frágeis entre as combinações dos três.

Comecemos pelo Bom. Clint Eastwood num dos seus papéis mais famosos, protagonizando Blondie (ou Loirinho, nunca se sabe o nome dele), um anti-herói que só é chamado de Bom porque é o menos mau dos três. Ele não leva uma vida totalmente honesta, mas é mesmo assim aquele com uma melhor consciência do "correcto" e do "digno". Não se importou nada em trair o seu colega no crime, e matar bandidos com aspecto mexicano parece ser um passatempo. No entanto, ele, mesmo não sendo homem de muitas palavras, mesmo assim questiona-se algumas vezes sobre a futilidade da guerra que os rodeia, e, por exemplo, no final do filme coloca a sua gabardina por cima de um soldado moribundo, como se lhe desse algum conforto nos minutos finais. 

O Mau: Lee Van Cleef, no papel de Angel Eyes. O típico mau-da-fita, com um olhar cortante e bigodinho maléfico. Ele, por ganância, não olha a meios para atingir os seus objectivos, e normalmente se tem de matar, é por dinheiro, não necessariamente porque obtém prazer de o fazer. Realisticamente falando... pode-se dizer que é o mais lógico dos três. Ele dá muita pancada a inocentes e a indefesos quando precisa de o fazer, mas assim que obtém o que precisa, segue caminho, não tendo tempo para acções mais sádicas. Em certas alturas ele até consegue simplesmente comprar a informação, sem precisar de violência. Apesar de tal ser incomum.

O Feio. Agora sim fica interessante. Os outros dois fariam qualquer típico filme do género. Há um bom e há um mau, e isso é suficiente em quase todos os filmes. Não neste. Neste há um Feio, na pessoa de Tuco, interpretado por Eli Wallach (faleceu este ano por acaso), que rouba o melhor papel do filme, por muito. Adiciona uma dinâmica totalmente diferente ao filme, pois o Feio não é fácil de se perceber, e muito menos de se interpretar. Falamos de um ser que é regido pelos sentimentos de fúria, vingança, ganância, sadismo, com um total desrespeito por normas de higiene ou bem-estar social. Mete impressão ver um actor agir com tamanha naturalidade ao fazer as coisas horríveis que o Tuco faz para se safar das mil e uma desgraças que lhe ocorrem. Num ponto muito ilustrativo do que quero dizer, Tuco está feito prisioneiro num vagão, acorrentado a um associado do Mau, um homem enorme que relembra o Bud Spencer. Para se safar dessa situação, ele pede para fazer as necessidades líquidas, que na altura implicaria fazê-lo directamente para fora do comboio em andamento. Depois de esperar pela altura certa, Tuco tem a ideia insana de se mandar fora do vagão com o outro, usando-o como almofada. O Bud Spencer (vou-lhe chamar assim) morre logo a seguir, mas Tuco fica preso a ele pelas correntes das algemas. Não conseguindo parti-las, tem uma ideia macabra. Na cena seguinte vê-se o Bud estendido na linha férrea com Tuco logo ao lado. Qualquer observador percebe logo que ele vai estar aquele tempo todo à espera do próximo comboio, para quebrar a corrente, o que acaba por acontecer, e o Bud vai aos trambolhões debaixo do comboio enquanto Tuco celebra a liberdade. Esta é uma de muitas, mas toda a expressão facial dele ao longo do filme denota a fealdade daquela mente conturbada, sendo que o seu vocabulário agreste não ajuda muito.

Toda a acção passa-se quase paralelamente à guerra civil americana, sendo que em certos pontos as duas histórias se cruzam. Nestes momentos pode-se observar o horror que foi essa guerra e as cicatrizes que deixa nos afectados, literalmente ou não.

A primeira impressão é quando se vê um meio homem, que usa as mãos como pés, exactamente por já não ter as pernas. Utiliza dois tacos de madeira na mãos para poder "andar" (não, esperem!, vou dizer "handar", faço combinação do nosso "andar" com o "hand" dos ingleses).

Pouco depois, o Mau visita um forte semi destruído, ocupado ainda por meia dúzia de soldados confederados. Este forte está cheio de detalhes. A madeira escura recentemente ardida, um cão magríssimo a farejar por comida, uma espécie de enfermaria com soldados decepados atulhados uns em cima dos outros e um comandante sarcástico que equipara o local a um hotel de férias, para risada dos soldados não desmembrados.

A certa altura os nossos protagonistas estão num campo de prisioneiros da união. Uma banda composta de prisioneiros põe-se a tocar uma doce doce melodia enquanto Tuco é selvaticamente torturado, tudo para abafar o som dos seus gritos. A expressão nos prisioneiros, que sabem porque é que estão a tocar, é de partir o coração. Aliás, essa merece ser mostrada. Preparem os lenços para se assoarem.:

 

 

 

Noutra cena rápida, mas que conta como um excelente pormenor, um condenado é obrigado a levar o caixão onde vai ser enterrado. É fuzilado e colocado eficientemente no caixão. A guerra havia-se tornado uma rotina para aqueles homens...

Mais lá para o final, o Bom e o Feio, aliados na altura, encontram-se num campo de batalha, cujo objectivo principal é uma ponte. O Capitão da União é um bêbado, claramente louco pelo álcool ou pela guerra, cujo dilema reside no facto de ter de proteger a maldita ponte, enquanto na verdade nada mais lhe apeteceria senão que a ponte não existisse, completando o argumento dizendo que salvaria tantas vidas se a ponte desaparecesse.

No seio da batalha, ele é mortalmente ferido, e os nossos "heróis" assumem a missão nobre de rebentar a ponte como favor final ao capitão. E é uma explosão excelente. O Capitão morre com um sorriso na boca. E um restinho de álcool.

É de loucos tentar explicar todas as alianças que são feitas entre os três de forma a chegar ao tesouro, mas sabia-se que no final apenas um poderia ficar com ele. Eis que o filme chega ao clímax, em que Tuco descobre o cemitério onde o tesouro está enterrado. Vou mostrar o vídeo fenomenal em que isto acontece, mas não tem o mesmo efeito se for visto individualmente, para se realmente sentir a loucura e o êxtase na mente de Tuco seria necessário ver o filme todo. Notem no cenário, a paciência que devem ter tido em montar todo um cemitério daquelas proporções para a realização de umas das minhas cenas favoritas do Cinema.

Sem mais demoras, arrepiem-se com "Ecstasy of Gold":

 

 

 

É de ir às lágrimas.

Vejam o filme, se puderem. São três horas bem gastas.

 

Uma última versão do êxtase, desta vez por uma orquestra:

 

 

 

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publicado às 21:59


1 comentário

De José da Xã a 09.12.2014 às 11:04

O cinema como ele deve ser: imagem, estória, música e o tempo a correr sem darmos por isso.

Obrigado por esta breve recordação!

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