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Fui ao circo

por Rei Bacalhau, em 03.12.17

Fui ao circo na Sexta-Feira. Um amigo de um amigo de um amigo de um amigo arranjou bilhetes para a malta, e como sobrava um, lá tiveram de me convidar.
Eu não me lembrava de ter ido alguma vez ao circo. Tinha uma pequena noção ou memória estranha, mas não conseguia dizer se realmente inha ido ou se tinha sido um sonho ou algo do género. Vim a descobrir que efectivamente eu tinha ido ao circo uma vez quando era ultra puto (e portanto, privado de qualquer tipo de senciência).

Como se o circo não bastasse, após o espectáculo iríamos todos para a casa de alguém para conviver e tal. Ou seja, o dia seria completamente perdido para mim, que pouca paciência tenho para esse tipo de coisas (especialmente sabendo que haveria pessoas que não conheço), mas como o bilhete seria de borla, seria pouco adequado rejeitar a oferta, até porque até o maior lobo solitário tem de fingir ser sociável de vez em quando.

Então lá vou, transportes públicos e tal (nem pensar em entrar em Lisboa de carro; eu já referi que detesto conduzir em cidades?).

Estavam uma data de pessoas de fatiota na praça dos restauradores (ia haver uma celebração qualquer, suponho), e eu olhei para o monumento a pensar de que maneira é que poderia fazer referências históricas quando estava acompanhado de pessoas que mal sabem o que é o histórico da internet, quanto mais a história de Portugal. Deixei passar a oportunidade e dirigimo-nos ao Coliseu, relativamente alegres.

Já lá dentro e sentados somos abordados por um trio alegre de pessoas com sotaque esquisito: um palhaço, o Homem-Aranha e um fotógrafo de aspecto mafioso. "Ah olá, foto!" Juntamo-nos todos, uns mais sorridentes que outros e somos cegados pelo flash da câmara. O palhaço e o Homem-Aranha bazam, mas o Fredo Corleone tenta confusamente informar-nos que a foto vai custar 15€. Ele ainda baixou para 10 e depois para 5, mas não teve grande sorte.

O espectáculo lá começa e apesar de me terem baixado as expectativas previamente, posso dizer que gostei bastante no geral. No número de ilusionismo a assistente caiu da mesinha de onde apareceu "magicamente" e espatifou-se no chão (mas devo dizer que se comportou profissionalmente e continuou as suas funções). Nos números com palhaços o meu amigo levantou-me várias vezes a mão para me voluntariar involuntariamente para ir para a arena, mas não teve sorte porque o palhaço estava à procura de um certo tipo de pessoas (certamente não quereria transformar o seu acto num número de horror com a minha presença). Comi algodão doce, o que foi uma experiência hilariante para os que me observavam, pois eu não fazia a mínima ideia do que estava a fazer (aquilo trinca-se? mastiga-se? tira-se à mão? demasiadas perguntas para algo tão estupidamente simples).

Como disse, no geral, o circo foi engraçado, mas o dia ainda agora começara.

Fomos lá para a casa alheia planeada e, devido à falta de mão de obra, pediram-me ajuda para assuntos domésticos que não são de todo a minha área de conhecimento: cozinha. Ajudei como pude, sob extensa supervisão, e se agora estou a escrever isto é porque não assassinei ninguém. A tarde passou-se pacatamente. Senti-me confortavelmente o suficiente para poder dizer que até foi um serão agradável. O problema é que muitas das preparações que estávamos a fazer eram para outras pessoas (amigos dos amigos dos amigos, etc) que também viriam mais para o final da tarde.

Eu já estava cansado, mas sabia que teria de aguentar e usar as minhas reservas de energia fingida para socializar adequadamente.

Digamos que falhei miseravelmente.

As actividades da noite começaram logo que os primeiros convidados chegaram. Eu não os conhecia, mas fiz o meu melhor para me dar com eles, e durante a primeira meia hora a coisa até correu bem.

De repente, como um carro que fica sem combustível, entrou-me na mente um pensamento insistente: "Vai para casa. Já chega. Não aguentas mais." Peço que compreendam, eu sou algo introvertido e só consigo projectar uma personalidade amistosa durante uma certa quantidade de tempo, medida metaforicamente como combustível. Quando se acaba, especialmente comum depois de um dia em cheio, é melhor que esteja já em casa, porque se ainda estiver em contextos sociais torno-me uma pessoa completamente diferente.

Eu sabia que isso estaria prestes a acontecer. De repente, as minhas respostas e comentários estavam a ficar carregados de malícia. Notei isso. Sabia que tinha de me ir embora. Mas como? Não poderia simplesmente dizer "vou-me embora!" do nada. Como responder aos "já?"'s e aos "porquê?"'s e aos "então?"'s?

Precisava de um desculpa. O problema é que não tinha nenhuma. Não tinha ninguém à minha espera em casa, não tinha nenhum compromisso, não tinha nada urgente a tratar. Aquele dia era mesmo perfeito para estar a noite toda em celebração e convívio e nada me ocorria que pudesse ser usado como uma boa razão para sair.

Decidi fazer algo do mais vil possível: decidi mentir.

Peguei no telemóvel e liguei a um familiar para dar a entender aos outros que "algo" estava a acontecer. Afastei-me para poder falar à vontade e fingi uma cara chateada (nem sei se terá sido realmente fingida). Expliquei a situação e deram-me a ideia que teria de dar boleia a alguém porque sim. Aceitei a proposta e vali-me do meu tempo de teatro amador enquanto puto para me ajudar na artimanha. Chamei o meu amigo(das pessoas que estavam lá, a que me é mais próxima) à parte. Disse-lhe que tinha de ir embora porque isto e por aquilo. Ele aceitou e até fiquei com a sensação que acreditou. Comecei a despedir-me de todos.

"Já?"
"Porquê?"
"Então?"

A resposta já estava pronta e entreguei-a quase mecanicamente.

No momento em que comecei a dirigir-me a casa iniciou-se um período de remorso constante que dura até hoje. Eu mentira descaradamente a um dos meus melhores amigos, a alguém que não merece nada menos que toda a verdade. Mas menti. Errei. Conscientemente. Deliberadamente.

A minha honestidade e a sinceridade são maldições que me atormentam no dia-a-dia, e é com surpresa que me vejo dilacerado por culpa numa das raríssimas vezes que minto para proveito próprio.

Eu pensei que se confessasse o meu subterfúgio talvez pudesse ainda resolver toda a situação. No dia seguinte telefonei ao meu amigo. Expliquei-lhe tudo, sem tirar nem pôr, e pedi-lhe incessantemente desculpa. Ele, pessoa excelente que é, aceitou as desculpas e referiu até que eu estava a exagerar, que estava no direito de me ir embora se não me sentia bem, fosse pelo que fosse.

(ele não sabe que eu tenho um blog, por isso não pensem que isto é uma mensagem indirecta para ele)

Apesar da magnânima indulgência que ele demonstrou, ainda me sentia profundamente magoado comigo próprio (mais do que ele aparentemente). Continuei a achar absolutamente pérfido o que fiz.

Sinto que este evento me afastou ainda mais das pessoas que me são queridas. Não por reacções delas, mas pelas minhas. Eu tenho notado de tempos em tempos a quantidade de sofrimento que eu impijo nos que me rodeiam, especialmente aqueles que me são mais próximos. Tenho pena da minha família e dos meus amigos por terem de lidar com alguém como eu, com as minhas idiossincrasias idiotas e infantis. Sim, eu sei que eu sou o problema, mas não sei resolver-me.

A única coisa que posso fazer é afastar-me.

 

 

 

Bom, mas fui ao circo, sim. Estava quase à espera de ouvir a música famosa de Julius Fučík, mais associada ao circo, chamada "Entrada dos Gladiadores", traduzindo rudemente para português. Não ouvi, tocaram outra bastante semelhante em espírito mas que ainda não consegui identificar.

No entanto, para variar um bocadinho, vou partilhar uma outra composição de Fučík, nostalgicamente relevante para mim por estar incluída no mítico videojogo RollerCoaster Tyccon.

Die Regimentskinder, ou algo como Os Filhos/Crianças do Regimento, de Julius Fučík:

 

(não se assustem com a bandeira do vídeo acima; Fučík era checo, que na altura era parte do império Austro-Húngaro)

(já agora, não confundir este Julius Fučík com o seu sobrinho de mesmo nome, que foi um jornalista comunista executado pelos Nazis)

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