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Guerra e Paz

por Rei Bacalhau, em 15.11.15

Duarte vira-se para um som de uma viatura a aproximar-se. A toda a sua volta os fogos crepitam ainda, estalando lugubremente na paisagem hedionda que se presenciava. Ele estava apenas acompanhado de dois outros colegas, que faziam o reconhecimento do perímetro, tentando desesperadamente encontrar sobreviventes.
Uma carrinha aproxima-se, saltando os buracos e crateras e escalando os montes de entulho inevitáveis do que costumava ser a aldeia de Carfes. Duarte mantem-se gravemente direito, com o olhar vidrado no cadáver à sua frente. A carrinha pára. De lá saltam hesitantemente meia dúzia de homens, apavorados com o que viam à sua volta. Um deles aproximou-se de Duarte.
- É pior do que pensávamos... Duarte... ai meu De... ai ai... Duarte... nunca vi nada aasim... nem nos nossos piores dias... - interrompia-se balbuciando, não conseguindo verbalizar o horror à sua volta.
- Pois é, Sargento. - e calou-se.
Os incêndios já quase haviam ardido tudo o que podiam, mas o fumo ainda se levantava em espessas e negras cortinas de fumo, maliciosamente contemplando a sua origem e esmagando a moral dos milicianos que acabavam de chegar. O céu, já naturalmente nublado, tomava tons ainda mais escuros, parecendo mergulhar toda a existência numa noite artificial e infernal sem fim. As faúlhas dançavam ainda quentes e cobriam tudo ao aterrarem, simulando uma espécie de manto vulcânico. Todos os animais haviam fugido, e nem os habituais necrófagos arriscavam entrar em local tão nefasto. O cheiro a sangue e carne queimada seria em princípio suficiente para atrair tais predadores oportunistas, mas a aura de pura dor, sofrimento e morte que a aldeia emanava era repelente. Os corpos descansavam miseravelmente em todo o lado, e já nenhum vertia sangue, o que não implicava que o fedor deste não congelasse o coração daqueles homens (os vivos) que ali estavam agora. Alguns corpos pareciam implorar que acabassem o sofrimento que ainda pareciam ter. Outros estavam enrolados sobre si, numa posição fetal submissa de desespero e trauma total.
Nada se mexia, nem os homens que acabavam de chegar, duvidando da sua sanidade perante uma visão tão grotesca e nauseante.
Um deles vomitou.
- Orlando, então?... Pois... eu sei... vá... não te preocupes... é horrível... horrível... - acudiu um dos milicianos. - Vá, levanta-te... 'Tás melhor?
Ninguém havia sido nem poupado nem enterrado. O Inimigo certificou-se de criar a cena mais brutal e inumana para o milicianos descobrirem. Crianças, mulheres, velhos... todos tinham sido indescriminadamente mortos, num ataque surpresa cobarde a uma aldeia que não tinha guarnição alguma, e como tal totalmente inofensiva. A única coisa que poderia explicar tal ataque seria o pequeno apoio de mantimentos que fornecia a milicianos.
Mas entre um ataque táctico e um massacre tão violento vai uma grande distância.
- O Lucas e o Pedro? - perguntou subitamente o Sargento, sabendo que teria que colocar os seus homens a repôr alguma da dignidade que aquelas pessoas mereciam.
- Estão a vasculhar o perímetro. Nem quero imaginar que outras surpresas o Inimigo terá posto por aí. Sei que o Sargento já viu muita merda, mas se quer que lhe seja honesto, não entre naquela casa ali.
O Sargento Oliveira olhou inquisitivamente para Duarte, como se perguntasse a razão de tal conselho. Houve uma breve pausa em que os dois homens trocaram um olhar rápido.
- Era a creche... - explicou Duarte, baixando o tom de voz involuntariamente.
Um arrepio percorreu o Sargento de cima a baixo, como há muitos anos não lhe acontecia.
- Pessoal, toca a acordar, temos de dar alguma decência a este lugar. Orlando, arranja aí dois gajos para cavar. O resto que comece a acartar os corpos.
Um miliciano dirigiu-se para a creche, mas Duarte impediu-o.
- Basta apenas um de nós ficar com pesadelos. Acredita em mim. Eu trato da creche. Eu já vi o que... - interrompeu-se, e não continuou a frase.
Duarte pegou num carrinho de mão que já procurara e encaminhou-se para a creche.
Passou-se uma hora quando Pedro e Lucas voltaram. Lucas retornava grave, mas calmo. Pedro vomitava berros desesperados de fúria.
- Estes filhos da puta! Cobardes de merda! FILHOS DA PUTA! Foda-se, temos de os pôr no lugar, enquanto não os matarmos todos não podemos descansar. É sair daqui e irmos nós para as terras deles arrebentar aquela merda toda! Cobardes, foda-se! Sargento! - reparou finalmente que o seu Chefe havia chegado. - Chefe, temos de nos vingar! Não pode ser! Filhos da puta, eles todos, merecem só morrer por um ataque tão cobarde! - a fúria de Pedro começava a atingir um grau só muito raramente visto - ELES MATARAM DEZENAS DE PESSOAS INOCENTES! Há sangue por todo o lado! Há pedaços de pessoas por todo o lado! Casas destruídas e incendiadas com pessoas lá dentro! Foda-se! Caralho! - o tom de voz acusou momentaneamente uma lágrima. Pedro verdadeiramente sofria, como qualquer outro ali.
Os homens haviam parado para ouvirem o desabafo explosivo de Pedro. Todos sentiam o mesmo. Todos ferviam por dentro com uma sede de vingança e justiça (que nestas alturas parecem a mesma coisa). Todos olhavam para o Sargento à espera da sua resolução.
Duarte aproximou-se, depois de ter despejado mais um carrinho de mão visceral com orgãos e membros variados.
O Sargento preparou-se para falar.
- Não, Pedro. Não te posso dar homens para matares o nosso Inimigo com o mesmo espírito com que eles mataram os nossos compatriotas. Mesmo que ganhes, mesmo que os mates todos, não terás provado nada, não terás feito nada. Começarás uma batalha horrível sem fim. Repara que a vingança gera vingança. Temos de tratar de descobrir os responsáveis por este crime, mas não podemos assumir que todo o Inimigo seja assim. Não podemos matar sem pensamento e sem lógica. Estamos em Guerra, é verdade, mas nada nos obriga a descer ao nível deles. Temos que ter fé e esperança, confiando que a Paz acabará por ganhar. Pedro, o que aconteceu aqui é horrível, mas não podemos deixar as nossas almas magoadas transformar o nosso sofrimento em fúria, em raiva e em sede de vingança...
Todos ficaram calados enquanto o próprio Sargento parecia reflectir nas palavras que acabara de dizer.
Duarte, concordando com as palavras do seu Chefe, começou a cantar docemente:

 

 

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