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IX

por Rei Bacalhau, em 11.06.14

O início da adolescência de João foi marcada quase exclusivamente pela sua escola básica. Era um ambiente bastante diferente da escola primária. Para já, existia um muito maior número de alunos, maior parte deles muito maiores que ele. Depois, pela proximidade a um bairro de barracas, a população da escola era predominantemente preta. Haviam também um conjunto de disciplinas que João nunca havia tido, e que o iriam influenciar.

 

O número maior de alunos numa escola primária proporcionaria em princípio apenas um maior número de quedas e colisões entre alunos que jogavam à apanhada. Na escola básica tal não acontecia. Não se jogava à apanhada ali nem a nenhum outro jogo infantil. Os alunos pensavam-se ingenuamente já como homens e passavam muito depressa essa percepção aos alunos mais novos, troçando-os pelas suas brincadeiras. Crianças, sendo o que são, rapidamente se adaptavam para serem o que coloquialmente chamavam de "fixes". As hormonas que invadiam lentamente os corpos dos rapazes infantes e delinquentes tinham o seu efeito nas aulas, fazendo os alunos irrequietos, para desespero da professoras. As raparigas eram por norma mais calmas. E depois havia João. 

 

No seu estado submisso de sempre, João manteve a atitude que o acompanhava constantemente. Nunca chegava atrasado, prestava atenção nas aulas e, quando conseguia, tinha relativamente boas notas nos testes e avaliações no geral. Para muitos professores, era o menino de ouro, pelo menos em termos comportamentais. Felizmente, isso não implicava que fosse odiado pelos colegas, já que João nunca deixou de ser social. Antes pelo contrário na verdade!

 

Algumas das grandes amizades que João formou mantiveram-se muito tempo, e João valorizava especialmente os amigos pretos que ele tinha, pois ensinaram-lhe algo que os brancos nem sempre podiam. Sendo rapazes e raparigas de contextos mais pobres, estes pretos ensinaram-lhe o conceito de humildade, de viver a vida tão bem com tão pouco. Obviamente maior parte deles acabaram por se meter em sarilhos quando precisaram de roubar ou para sobreviver ou para se provarem aos seus pares. No entanto, João na altura não sabia que isso aconteceria e ficou apenas com as boas memórias destas pessoas.

 

Contudo, nem tudo eram rosas. João não estava habituado a falhar em nada do que lhe era proposto. Quando pela primeira vez teve aulas de Educação Física, notou que ficava sempre atrás em quase todas as actividades dessas aulas. Pudera!, estava habituado apenas a ter de usar a cabeça para o seu dia-a-dia, nunca se tendo preocupado desde pequeno em melhorar algumas dessas capacidades físicas. Inevitavelmente, as notas que tinha à tal disciplina de Educação Física eram sempre apenas acima da negativa. Pela falta de jeito generalizada, acabava por ser o último a ser escolhido para as equipas, fosse de que desporto fosse, excepção feita caso começassem por escolher o guarda redes. Isto contribuiu para que as capacidades sub-desenvolvidas de João se mantivessem no mesmo estado indefinidamente, já que nunca tinha hipótese de treinar a sério. Era um ciclo vicioso, do qual nunca conseguiu sair.

 

Por causa disto, por vezes Jansénio, o Bom, ficava cansado e Jeremias, o Feio, brotava do seu covil psicológico, lançando João para estados de derrota e amargura. Questionava a sua capacidade como ser humano normal. Ingenuamente perguntava-se porque é que todos os outros conseguiam jogar bem à bola, sendo ele a única excepção. Jansénio era forte mesmo assim, e rapidamente se levantava e lidava com Jeremias e arrumava-o no sítio devido, não deixando esse tipo de ideias desenvolver-se! 

 

Quando Jansénio não estava atento, no entanto, Jeremias via-se por vezes ao espelho. Olhava com nojo a figura humana esquelética com que se deparava. E isto entristecia-o.

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