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Liberdade Objectiva

por Rei Bacalhau, em 25.04.15

O som inesperado de explosões secas desperta-me a atenção. Corro intrigado para a janela. Um pequeno espectáculo de fogo de artifício ilumina um bairro qualquer lá no fundo. As cores vibram, tímidas inicialmente, mas lançam-se numa dança frenética à medida que o espectáculo atinge o clímax, com os maiores foguetes a irradiar orgasmicamente luz, cor e som na noite relativamente nublada.

"Ah, é o 25 de Abril, é verdade..."

 

Note-se a indiferença que um jovem-adulto (se eu ainda me puder chamar isso) dá a um evento que tão desesperadamente celebra a Liberdade. Nós, os jovens, não compreendemos. Não podemos.

Não vivemos a época, nem um dos quarenta e tal anos sob regime ditatorial. Não fomos ensinados que certas coisas não se podem dizer, senão o "maior português de sempre" (votado pelos portugueses, hem?) iria fazer-nos mal.

Isto parecerá blasfemo para todos os mais velhos, que sentirão punhaladas metafóricas ao ouvir um jovem dizer que não se interessa particularmente pelo dia tão simbólico como o 25 de Abril. Compreendo perfeitamente a vossa posição. 

Deveras, as minhas sinceras desculpas.

 

"Deverias era ter estado lá na altura, monte de merda! És a representação de tudo o que está mal no país. A PIDE deveria apanhar-te e dar-te porrrrada!" 

Ênfase nos érres na palavra "porrada".

 

Aceito perfeitamente esse tipo de comentários ou pensamentos. É normal, é histórico, é humano, é subjectivo. Só recentemente é que tive uma nova perspectiva que poderá explicar porque é que se considera que o 25 de Abril é o feriado mais importante de Portugal neste momento, claramente.

Dizia eu então que recentemente li um livro do falecido José Hermano Saraiva: História Concisa de Portugal, ou algo do género. Foi publicado algures no meio dos anos 80, pelo menos a edição que eu tenho. Concisamente, portanto, explicou-me a nossa história cheia de guerras, intrigas e incompetências. Daria quase para uma série de televisão. Na sua análise, nota-se que o Zé tem uma visão que me parece profundamente objectiva sobre os acontecimentos passados, com as informações que sobreviveram aos séculos. Se alguma coisa for lenda, ele fá-lo notar e tenta não tirar daí conclusão final nenhuma, apenas indícios frágeis de algum ponto da nossa história.

A pormenorização manteve-se até ao Estado Novo. Aí, ele despachou o assunto nalgumas poucas páginas. A desculpa dele? Irei transcrevê-la o melhor que puder, dos dois finalíssimos parágrafos do livro referido:

"Em 25 de Abril de 1974, um movimento das forças armadas derrubou o regime e marcou o início da Terceira República. No período que se seguiu consumaram-se decisões e opções que implicam necessariamente modificações irreversíveis no processo histórico português. Em relação a esses factos não existe ainda a distância focal indispensável para a formação da imagem histórica. Estamos dentro deles. Quaisquer interpretações e valorações são necessariamente políticas, mesmo quando aspirem a ser objectivas e independentes.

É pois uma história que só mais tarde poderá ser escrita."

 

Estaremos hoje ainda dentro dos acontecimentos? Já haverá a tal distância? Eu diria que talvez, mas é trabalho para os historiadores mais novos, nunca para os mais velhos. Há demasiadas lembranças, boas ou más, que poderiam corromper a fiabilidade do trabalho histórico.

 

O quão igualmente blasfemo não seria para um português na segunda metade do século XVII se eles soubessem que ousámos retirar o dia 1 de Dezembro como feriado nacional? (não me enganei pois não? esse foi um dos que já se foi, certo?)

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publicado às 00:48


1 comentário

De Entreasdezeasonze a 27.04.2015 às 14:49

Gostei desta visão dos acontecimentos. E realmente quem nasceu no pós 25 de Abril jamais terá a ideia do que foi viver em ditadura.
Quanto à distância histórica seria melhor deixar passar mais trinta ou quarenta anos.
Uma boa tarde.

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