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Música: Death on Two Legs

por Rei Bacalhau, em 02.10.16

Tive de ir à Segurança Social. Antecipando um fila brutal, sabia que iria gastar uma manhã inteira naquilo. Equipei-me com um livro e lá fui. Cheguei às 8:30. Apenas um outro homem estava lá. Imediatamente me pergunta se eu tinha marcação.
- É preciso?
- Eu acho que sim.
- Já não venho aqui há algum tempo, mas pensava que ainda funcionava pelo sistema de filas.
- Acho que isso agora mudou. Agora é só por marcação.
- Eish.. a sério? O senhor tem a certeza?
- Olha, certeza não, mas fica aí à espera até o segurança chegar e pergunta.
- Pois bem, parece-me que é isso que vou fazer, só para ter a certeza.
- Olha, eu já cá estou há onze dias.
"Mau, não devo ter ouvido bem."
Ele explicou-me que estava ali porque o seu chefe aparentemente devia-lhe dinheiro. Tive tendência imediata para acreditar inteiramente nas palavras do homem, já que a minha situação era parecida à dele.
- Eu tinha amizade com ele, mas só depois é que me apercebi que ele só me queria para lhe encher os bolsos de dinheiro. Eu montava elevadores para ele, e ele ganhava uns trocos com as falcatruas que fazia pelo lado. Ele e os associados roubavam dinheiro à mulher, que era a dona da empresa. E tenho provas! Se depender de mim, eles vão todos abaixo.
Obviamente o discurso não correu assim, não me consigo lembrar de tudo pormenorizadamente, mas quero pelo menos passar a ideia geral.
- Eu sou um gajo que trabalha com as mãos, não preciso cá de cursos e de papéis para trabalhar. - subitamente tira um pacote de tabaco de enrolar e de lá de dentro saca uma folha com uns esquemas de elevadores. - Eu há dois anos não percebia nada disto, e hoje já construí elevadores em sítio x e sítio y (não me lembro dos sítios que ele disse, mas falou em elevadores panorâmicos e tudo).
Fiz umas peguntas sobre os esquemas e ele explicou-me com uma eloquência superior à de qualquer professor que tive todas as dúvidas que eu lhe colocava.
- Mas desculpe lá, o senhor está aqui há onze dias? O que é que quis dizer com isso?
- Estou mesmo cá há esse tempo todo. Registei-me num daqueles sítios para os sem abrigo passarem a noite, mas fiquei lá apenas uma noite, eles davam-nos um cesto de roupa toda negra e suja, sabe-se lá quem é que já tinha vestido aquilo. Não haviam condições nenhumas. Meti-me num táxi, vim para aqui, nem paguei ao taxista, porque a culpa não é minha de estar assim.
- O taxista não deve ter ficado muito contente.
- Pois não, queria dar-me porrada, mas eu disse-lhe para ele falar com a Segurança Social, porque eu não podia pagar.
Era-me absolutamente impossível não acreditar neste personagem que parece inventado. Se algumas coisas poderiam ser exageradas, todas as dúvidas dissiparam-se quando ele me disse que tinha estado treze anos preso.
- Tive azar. - dizia ele.
Ninguém que confesse isso tão banalmente pode estar a mentir.

O homem, de meia idade, tinha uma cara profundamente sincera, marcada pelos seus erros de antigamente. Ele não tinha sido 100% honesto na sua vida anterior, mas lia-se nas suas feições um arrependimento enorme. Ele queria trabalhar, ele queria pôr a sua vida em ordem. Ele até nem se queria meter na vida dos filhos já crescidos dele para não os prejudicar.
Em toda a duração da conversa eu, horrível como sou, estava a pensar que ele me iria pedir dinheiro eventualmente. Nunca aconteceu. Parecia ser-lhe suficiente estar ali a conversar com ele, apesar de eu achar que eu beneficiei mais com a conversa do que ele.

Falou-me da sua carreira a consertar motos, falou-me de ter roubado máquinas de tabaco, comentou as pernas de uma senhora que ia a passar numa vespa, detalhou-me alguns dos projectos em que montou elevadores, denunciou-me as falcatruas dos seus empregadores e sócios, dizendo-me os nomes deles e das empresas, contou-me como um rapaz e uma rapariga o tinham entrevistado para um projecto da escola num daqueles 11 dias que lá esteve.

A conversa é interrompida pelo abrir da porta pelo segurança. Pegunto-lhe se é obrigatória marcação para todos os assuntos.
- Para todos os assuntos.
Agradeço. Volto ao meu excelente interlocutor, ambos sabendo que está na altura da despedida. Foi fraternalmente que apertámos as mãos e desejámos sorte mutualmente.

Fui-me embora, satisfeito, mesmo não tendo podido tratar da burrocracia que queria.

 


Nem me lembrei de lhe perguntar o nome.


O que é que isto tem a ver com música? Bom, absolutamente nada. Mas quando me dirigia a casa houve um ror de músicas que me passaram pela cabeça e nenhuma delas descrevia muito bem o episódio completo. Acabei por escolher a música dos Queen, Death on Two Legs, em homenagem a todos os trabalhadores que são vítimas da desonestidade consciente e inconsciente dos chefes.

 

 

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3 comentários

De Maria Araújo a 14.10.2016 às 16:48


Vidas tristes de pessoas que pagaram os erros que cometeram "em favor" de outros.
E depois, há estas instituições que parece que gozam com a situação dos desgraçados.
Onze dias?!

De Rei Bacalhau a 15.10.2016 às 00:42

Como eu disse, o senhor não era exactamente um santo (mas também, quem verdadeiramente o é?) Por muito que eu ache que ele não foi o responsável directo em todas as atribulações na sua vida, há que pensar exactamente onde é que se define a linha entre erro consciente e ingenuidade pura.

Quanto aos onze dias, não creio que ele lá estivesse por teimosia ou por má-vontade de qualquer instituição. Ele estava lá porque não tinha mais lugar algum para onde ir.

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