Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Música: July Morning

por Rei Bacalhau, em 05.07.15

Iam os três no carro. Iam os três para o metro.
O pendura quebra o silêncio.
- Agora que estamos sozinhos, só nós os três, que me dizem? Que acham que será daquele miúdo? Um dia de vida e as tensões familiares já se sentem!
O condutor lança-lhe um olhar rápido, fulminante. Não é sem um certo esgar que responde à pergunta bastante provocadora.
- Não sei até que ponto deveríamos discutir isso. Não estamos suficientemente dentro do assunto para termos opiniões bem formadas.
- Ah!, mas temos! Então, ora essa, sabemos que o pequeno nasceu ontem, e sabemos os comentários que a nossa parte da família faz em relação à outra parte, da parte do pai do jovem, enfim.
- Isso é suficiente para chegarmos a alguma conclusão?
- Bom, sei lá, eu diria que sim! Se logo agora os comentários já voam segredados de um lado para o outro! Há-de ser uma guerra, metaforicamente falando, ou literalmente, se houver porrada, mas uma guerra, sim senhor!, e não será só por subterfúgios que se irá lutar. Olha logo as prendas a começar a aparecer UM DIA depois do nascimento! Para que raio é que o pequeno vai precisar de uma roca?
- Deveras, seria mais lógico fornecer as prendas na medida da necessidade. De facto concordo com esse argumento... poderá ter começado uma corrida às armas, pegando na tua analogia.
- A guerra com químicos estará pelo menos assegurada se o pequeno for flatulento! - e soltou uma pequena gargalhada, respondida com a maior neutralidade de feições do condutor.
- Humor à parte, se realmente queres dicutir este assunto, devo confessar que esse tipo de preocupações já se me passou pelo pensamento mais que uma vez, mesmo antes da criança nascer. No entanto, as minhas preocupações são a maior prazo. Entremos num jogo de pura conjectura, para a continuação da discussão. Hipoteticamente (ou não), o mais próvavel é a pobre criança crescer no seio de uma guerra familiar, declarada oficialmente ou não. Que será dela? Não crescerá sentido-se culpada pelas discussões que provocará? Estará sequer consciente delas? Terão os familiares, de um lado e doutro, o bom senso de não o mimar para ganhar o afecto materialmente? Pelo que já nos foi dado a entender, todas as pequenas decisões são alvos de enormes discussões e juízos de carácter, em que independentemente da acção tomada por alguém, essa será sempre considerada errada. Não haverá nos anos vindouros uma falta crassa de objectividade no que toca ao perceber o que é melhor para o bom desenvolvimento da criança?
- É, são perguntas importantes... sei lá, imagina quando for a escola: uns vão querer que ele vá para aquela escola, outros vão querer que ele vá para a outra... até porque se há, aparentemente, duas facções em conflito, dentro das facções há... como dizer.. SUB-facções? Será que se diz?...
- Não sei, aceito a palavra por agora, depois verifica-se, eu percebo o que queres dizer.
- ... pronto, sub-facções então, pelo menos no nosso lado da família. Há certas pessoas lá em casa, que se eu fosse elas não me metia tanto no assunto.
- "Meterias"...
- Sim, 'tá bem, "não me METERIA tanto", pronto. O que me surpreende é uma coisa que também disseste, que é o facto de nunca nada estar bem!
- Perdão? Como assim?
- Aquilo que disseste de qualquer acção que alguém faça ser interpretada como errada, e como não se pode fazer nada sem ser interpretado como falta de senso comum ou de dignidade ou dessas tretas!
- Existe pouca indulgência nestas famílias, parece-me. Quando o pai da criança saiu do quarto ontem e demorou imenso a voltar, por exemplo. Foi visto como um escândalo que ele estivesse tão pouco presente. Ninguém pensou por um momento que ele estivesse a dar o espaço ao nosso lado da família para estar à vontade com o bébe. Isso pode não ser verdade, não o saberemos, mas a hipótese de que um pai não gosta do filho parece-me igualmente ridícula.
- Precisamente! Não o teria dito doutra maneira! Temos a vantagem de sermos suíços neste confronto, e podermos ver tudo com os olhos objectivos da neutralidade. Vão ser tempos divertidos vão...
- Mas manter-nos-emos neutros, forçosamente ou diplomaticamente, certo?
- Certo! Claro! Que pergunta! Por mim se formos ver o puto mais vezes fa-lo-emos com a maior das despreocupações nesse sentido. Ele até parece porreiro. O puto, quero dizer! Alguém terá de o distrair enquanto os outros berram telepaticamente ou sonoramente uns com os outros. - e riu-se abertamente.
O condutor não deixou de esboçar um sorriso.
- Então e tu, que achas disto tudo? Desta história do miúdo? - perguntou finalmente o pendura ao passageiro no banco de trás, até agora sombriamente calado.
- Ele é lindo.
E voltou ao seu silêncio.
Findada uma fila de prédios, os raios matinais atacaram o pára-brisas com uma fúria calorosa e ofuscante. Os dois à frente baixaram as palas do carro para se resguardarem do Sol.
- Raios partam o Sol de manhã!
- Ah, hoje é o primeiro de Julho, não é verdade?
- É.
- Ah, é uma data digna de algum simbolismo. Podes seleccionar aí no rádio?, que eu estou a conduzir...
- Ah, 'tou a ver o que queres. Uma certa música quase tradicional na Bulgária? Uma certa música fantástica dos Uriah Heep? - perguntou o pendura, com um sorriso de quem faz uma pergunta retórica.
- O ser fantástica é subjectivo, mas nós gostamos. Sim, essa mesmo. Comemoremos pagãmente uma manhã de Julho como um bom auspício para o nosso mais recente membro familiar, e paremos com as conspirações, senão tornamo-nos tão maus quanto os outros.
Graças à tecnologia, o rádio começou a reproduzir os primeiros segundos dos 10 minutos de July Morning, dos Uriah Heep.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:00


2 comentários

De Entreasdezeasonze a 06.07.2015 às 11:33

Grande ideia deste texto para ilustrar a música.
Muito bom.

De Rei Bacalhau a 06.07.2015 às 11:53

Obrigado!

Estranhamente, para mim a ideia pareceu-me bastante forçada imediatamente no momento em que acabei de escrevê-la. Mas como foi um momento de escrita espontânea, não me importei em fazê-la melhor, se calhar acabaria por estragá-la.

Mais uma vez, obrigado.

Comentar post




calendário

Julho 2015

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D