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Música: Mary Jane

por Rei Bacalhau, em 30.08.15

Estão os três na praia. Estão os três à beira-mar.
Um vai observando as pessoas a passear pelas ondas, que dançavam para as evitar ou faziam de propósito para as intersectar e consequentemente se refrescarem. Neste processo aproveita para apreciar as fêmeas que por ali passem, não de forma animalesca, mas de forma curiosa.
Outro tem os olhos colocados no horizonte ténue entre os azuis do céu e do mar, pensativamente.
O último constrói um castelo de areia.
O pensador nota, sem realmente olhar, a agitação do seu companheiro observador. Pergunta calmamente:
- Estás preocupado com alguma coisa? Consigo presentir que estás ansioso e devo dizer que isso distrai-me.
- Preocupado? Eu? Não, essa agora e ora essa! Estou só aqui a apreciar as vistas, a molhar os pézinhos e a apreciar aqui o belo ar puro aqui do belo mar, e tal. Falando em apreciar a vista, olha-me só essas miúdas que se aproximam, hem? Já viste que giras são?
As miúdas passaram-lhes à frente. O pensador nem se dignou a desviar o olhar, mantendo-se fixo num ponto imaginário no horizonte.
- Não, não vi, mas parece-me que já sei a causa da tua ansiedade. Procuras algo? Ou, melhor dizendo, procuras alguém?
- O quê? Não..! Que 'tás praí a falar? Só estamos aqui nós que eu conheça. 'Tás doido ou quê? À procura de alguém? Essa agora!
O pensador olhou lenta e demoradamente para o observador, que agora se tornava o observado.
- Insultas-me ao pensar que não sei o que se está a pensar. Crês mesmo que me consegues esconder algo? É verdade que não está aqui ninguém que conheçamos, mas isso não implica que não possa aparecer alguém. Repito a pergunta, e agradeço um maior grau de honestidade: procuras alguém?
- Bom... hum... não sei...
- Que seja, eu vou facilitar, já que me pareces estranhamente contido hoje. Informa-me se estiver errado. Desde que soubeste que a Maria João costuma passear nestas praias, por coincidência as mesmas a que nós vimos, que não deixas de perscrutar todos os transeuntes. Estás certamente à espera que ela apareça. Estou errado até agora?
- Bom... quer dizer... não, mas...
- Claro que não estou errado. É mais que óbvio. Diz-me, que farias se agora a próxima pessoa a passar fosse ela? Falar-lhe-ias?
- Bom... sim... acho que sim... gostaria, pelo menos...
- Ah, gostarias? Então nem tens nada definitivamente planeado para dizer? Seria por ventura encontrá-la e começar a falar magicamente e assumir que tudo correria fluidamente?
- Eh, 'pera lá, mas onde é que queres chegar? 'Tás a dizer que vou fazer um certo tipo de conversa com ela? Do tipo... enfim.. sabes?
- Do tipo romântico, queres dizer? Talvez seja isso que esteja a implicar, sim. Como para ti tudo funciona por magia e esperanças infundadas acredito que tu acredites que conseguirias ter tal espécie de conversa com uma mulher que mal conheces.
- Mal conheço? Então? Mas já conversei tanto com ela.
- Não a conheces, não te iludas. Já deverias saber isso. De nós os três pareces ser o único que não se apercebeu disso.
O constructor olhou brevemente para cima, e imediatamente resumiu a construção da sua obra sem dizer nada.
- 'Tá bem, mas que raio tens tu contra isso? És afectado por eu falar com ela, por acaso?
- Deveras, "por acaso" sou. O que te afecta acaba por sobrar para mim, por isso tens de compreender que é minha sina manter-te sobre controlo, não vás tu fazer alguma acção menos razoável. Tentemos ser objectivos: o que é que te atrai nela?
- Não podes dizer que ela não é bonita, pois não?
- Não, não posso, mas também não posso dizer que isso é razão suficiente para te interessares nela.
- É uma razão bastante boa!
- Não me ouviste. Eu disse que não era suficiente.
- Então que raio seria uma boa razão, ora bolas?
- Depende do teu objectivo. Gostarias de procriar com ela?
- Caramba homem! C'um catano, que raio de pergunta!?
- Perdão, deveria ter eufemizado a pergunta? Apenas quero saber se a achas interessante em termos genéticos para continuar a tua herança. Se tal for o caso, poderás avaliar os atributos dela de modo a saber se ela seria uma progenitora decente.
- Que raio... não dá mesmo para falar contigo sobre isto... não estamos no BBC Vida Selvagem!
- Vou então assumir que não estás necessariamente interessado nos atributos físicos. Passemos à subjectividade. Interessa-te a personalidade dela?
- Homem, não é tão simples. Nada disto são coisas que podes medir com uma régua.
- Eu sei, daí eu ter referido a subjectividade.
- Cala-te lá um bocado, porra! Olha lá, eu posso simplesmente gostar dela pelo pouco que conheço dela e ter a sensação que ela pode ser acertada para mim, mesmo que digas que isso vai contra toda a lógica e tal. Nestas coisas simplesmente sentimos uma.. sei lá... uma sinergia, já que gostas de palavras caras, uma sinergia portanto, com a outra pessoa. Ficas a pensar: Epá, se calhar até tentava alguma coisa.
- Mesmo depois de teres provas que não consegues manter uma relação por mais de uma semana? Mesmo depois de essa sinergia se desvanecer ao primeiro obstáculo que apareça, seja da tua parte ou dela? Mesmo depois de teres sido rebaixado a cão, ainda acreditas em tais palermices?
O ataque foi fulminante. O observador sentiu-se encurralado pelas facadas invocativas do passado. Ainda teve a coragem de responder:
- Sim, ainda quero acreditar que é possível.
- Nesse caso és estúpido, no sentido literal da palavra. A conversa por mim acabou.
O pensador colocou os auscultadores nos ouvidos e instruiu o dispositivo para reproduzir músicas aleatórias.
O construtor olha por momentos para o fundo da praia. Amedronta-se com o que vê. Em pânico, levanta-se e corre para o seu companheiro observador. Puxa-o e começa a levá-lo para longe.
- Olha lá, mas 'tás doido? Essa agora! Mas larga-me! 'Tás a brincar ou quê?
O pensador não compreendeu imediatamente a reacção do constructor, por muito habituado que estivesse aos caprichos súbitos dele. Olhou para o lado e apercebeu-se da razão. Uma mulher bela e singela percorria calmamente a linha das ondas. Parou ao pé do castelo inacabado do construtor e tirou-lhe uma fotografia, divertidamente. Passou à frente do pensador, mas não o reconheceu e este deliberadamente não lhe disse coisa alguma.
Distraído pelo construtor, o observador nem reparou que Maria João acabara de passar.
O construtor finalmente deixou o observador em paz, e ambos voltaram às posições iniciais.
- Aquele gajo 'tá cada vez mais doido! Perdi alguma coisa?
O pensador olhou-o com um ligeiro sorriso matreiro. Colocou-se a seleccionar uma música no dispositivo. Sinalizou ao observador para colocar um dos auscultadores no ouvido.
O dispositivo deu a resposta que o pensador não quis dizer e que o observador não queria ouvir, ao reproduzir a música de Rick James, chamada Mary Jane.

 

 

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