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Música: Parade of the Charioteers (Ben-Hur)

por Rei Bacalhau, em 20.04.14

Esta é a história de como um dos meus objectivos de vida ficou realizado. 

 

Na Sexta-Feira estava a acabar de almoçar quando começa a dar um filme na RTP. Pelo aspecto do logótipo da MGM via-se imediatamente que era um filme dos antigos. E aí começou a banda sonora. Inicialmente estranhei, porque tinha algo de muito familiar. Pensei para mim: "Isto tem quase aspecto de ser o Ben-Hur, só pelo tipo de música que tá a dar..."

 

As primeiras cenas do filme demonstravam o recenseamento dos judeus na altura em que Jesus nasceu. Pensei imediatamente, "ah, deve ser um filme sobre a vida de Jesus, realmente faz sentido já que é Sexta-Feira Santa. Mas é pena, porque ainda pensei que fosse o Ben-Hur, eles dão sempre isso nesta altura, e eu nunca o vi do princípio..."

 

Os Reis Magos lá se aproximam do estábulo e comento mais uma vez: "Aquele actor até parece o que faz de Baltasar no Ben-Hur... mas o Ben-Hur ocorre muito depois..."

 

Eis então, que acabando brilhantemente o suspense, aparece escarrapachado numas letras vermelhas enormes como se não quissesse deixar qualquer dúvida:

 

BEN-HUR

 

 

 Exalei de alegria! O Destino havia-me trazido repentinamente algo pelo qual anseava há tanto tempo: conseguir ver o Ben-Hur do princípio ao fim! Normalmente só o apanhava na parte das galeras, por isso maior parte do que acontece daí para a frente sempre me foi um bocado estranho.

 

Finalmente posso afirmar com toda a confiança e coloquialismo:

 

O Ben-Hur é um ganda filme!

 

É óbvio que não sou um critíco de cinema, longe disso. Aliás, o próprio conceito parece-me um bocado fútil, considerando toda a carga subjectiva normalmente associada a essa prática. No entanto, acredito piamente que posso dar a minha opinião e eventualmente tentar fundamentá-la.

 

Para já, é uma história que consegue pegar e mostrar todas as emoções humanas possíveis. Temos primariamente o amor, mostrado na forma de romance, patriotismo, religião, família, amizade, etc. Tem-se o ódio, na forma de vingança e na forma de guerra. A alegria, em tantos personagens que intervêm no decorrer do filme. A tristeza, amargura e desespero, profundamente marcantes em tantos pontos chave do filme. É devastadora, por exemplo, a reacção de Ben-Hur quando vê a sua mãe no Vale dos Leprosos; ou então quando é traído pelo seu grande amigo de infância.

 

A verdade é que escolheram o actor perfeito para o papel principal. Charlton Heston dá o rosto à personagem e modifica-o de forma tão credível que me faz pensar se nos dias de hoje haveria algum actor capaz de representar como ele o fez (não é um insulto aos actores de hoje, mas sim um elogio elevado ao Charlton Heston).

 

É um filme muito pesado, com muitas cenas de diálogo, mas que para mim se passaram muito bem, especialmente pelo bom trabalho dos actores principais. O mesmo não se poderia talvez dizer dos figurantes. É verdade que parecem ser às centenas ou milhares, mas lembro-me de uma ocasião, numa parada militar, que uma figurante anda a atirar flores com uma cara de profundo enfado, como quem dizia: "estou-me absolutamente a cagar para isto, vou atirar estas flores pó ar e despachar isto!" Bom, talvez esteja a ser um bocado injusto. Não é por um ou outro ter feito as coisas um bocado à papo-seco que vou generalizar para os restantes. Na verdade, uma ocasião em que se pode notar um bom trabalho nos figurantes é lá mais para o final, quando Jesus está a carregar a cruz, mostram-se vários planos das pessoas, cada uma a reagir de maneira diferente ao que está a presenciar. É notável, porque realmente vêem-se expressões faciais!

 

Uma prova de como os actores encarnavam bem as personagens é vísivel nas cenas em que há interacção com os cavalos árabes, tanto por parte de Ben-Hur como do seu dono, o árabe. Os cavalos punham-se a trincar e a brincar com os actores e eles não podiam quebrar a cena. Pelo contrário, continuavam como se estivessem à espera destes actos aleatórios dos cavalos e brincavam eles também com os cavalos.

 

É também um filme cheio de pormenores, e cada vez que o vejo pareço notar um diferente. Quando a galera de Ben-Hur se começa a fundar vêem-se alguns remadores agrilhoados a fazer de tudo para se soltarem. Mostram-se inclusive alguns planos do que parece pele e carne a ser arrancada da perna e nas cenas a seguir vários remadores ou não têm um pé ou uma mão, ficando apenas com um ossinho branco de fora. Quando o Ben-Hur ganha a corrida de quadrigas, há um plano a mostrar um figurante a pegar no capacete esquecido do mau da fita e a celebrar por ficar com ele. Um cego que manda a esmola que recebeu para o chão por ter percebido que veio de alguém que pode ter lepra. Todos estes pormenores pequenos duram apenas um segundo no filme, mas enchem-no com um nível de realismo que simplesmente não consigo ver nos dias de hoje.

 

OK, tudo bem, o realismo é relativo. Faça-se notar que não existiam computadores na altura, alguns padrões eram mais baixos. A mítica cena da batalha naval vê-se perfeitamente que foi feita com barcos de brincar. Mas como somos levados pelo ímpeto do que está a acontecer, nem sequer notamos nisso! Mesmo assim diga-se de passagem que os cenários ao longo do filme foram sempre contruídos com meticulosa atenção. Tem-se realmente noção da grandeza que era Roma, e estamos a olhar apenas para algo pintado!

 

Falta falar de um grande elemento. Já o referi como sendo o que me permitiu quase identificar o filme. A banda sonora. É um apoio fundamental para quase todas as cenas do filme. A maneira como a música tomava um tom gravíssimo quando acontecia algo de horrível ao Ben-Hur. O que seria das cenas de batalha sem o épico trovar duma orquestra a encher os nossos sentidos. E no entanto, os criadores sabiam que a música não era obrigatória. Reparei desta vez que existe uma cena que, supreendentemente,  NÃO tem música alguma: a corrida das quadrigas. É toda puro caos de sons de cavalos, multidões, atropelamentos, chicotes e o rolar das quadrigas. Dá uma sensação imensa de imersão, porque focaliza a nossa atenção para o que está a acontecer. De certeza que para compensar este facto decidiram no entanto colocar uma das músicas mais míticas de qualquer filme apenas instantes antes da corrida, quando as quadrigas fazem um desfile perfeitamente sincronizados à volta do circo. É esse vídeo que quero partilhar hoje:

 

 

Para quem viu o filme todo até aquele ponto, é de ir às lágrimas.

 

Sinto que não tenho muito mais a dizer, excepto que é verdadeiramente uma obra prima do cinema, merecedora de todos os inúmeros prémios que recebeu, e merecedora também do privilégio de ser depois de tantos anos o filme que passa TODAS as Páscoas na televisão.

 

E enquanto puder, ve-lo-ei sempre. São três horas e meia que dou por bem gastas.

 

Como eu sei que o Youtube não gosta de vídeos a quebrar direitos de autor, vou assumir que o vídeo que coloquei acima não há-de funcionar muito tempo. Como tal, coloco aqui outro que é a mesma música, num contexto diferente, mas igualmente impressionante.

 

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