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Música: Sei de uma Camponesa

por Rei Bacalhau, em 18.10.15

Estão os três na carrinha. Estão os três no campo.

Chegados ao destino, saem da carrinha e encavalitam-se na caixa desta para daí retirarem toda a panóplia de objectos, ferramentas e necessidades para a tarefa a realizar. Desaperta-se o elástico que prende a escada e retira-se esta de cima do resto, tiram-se os panos grandes e desastrados, tiram-se as sacas pardas e velhas expectantamente vazias, tiram-se os baldes pequenos mas manobráveis, tiram-se as garrafas de água e esconde-se o farnel.

Tudo isto é feito com níveis de agitação diferentes por parte de cada um dos três. Um resmunga:

- Não faças isso assim, faz muito mais sentido colocares esse em primeiro para os outros ficarem em cima. O vento está a vir daquela direcção, e é lógico que os panos voarão se colocares assim.

A isto responde outro, alegremente, de sorriso aberto:

- Epá, já começas logo de manhã! Poupa o fôlego que senão no final do dia já nem consegues falar. Vá, ajuda-me aqui a pôr como queres, vá! - virou-se para o elemento restante - Olha, ajuda aqui também, vai ali pôr aquela pedra!

Submissamente, ele lá foi, e assim fez.

Os panos estavam colocados, ondulando sobre a relva fresca de um Outono molhado. As sacas observavam a meia distância, gulosamente, quase jocando umas com as outras sobre qual seria a primeira a ser enchida. As operações da apanha começavam. A azeitona começou a tombar gravemente naquela área tão diligentemente delimitada pelos panos. Alguém que apenas ouvisse a cena diria que estava a chover, pois aqueles sons eram comparáveis à queda de grandes gotas de água que se espatifam numa superfície não tão mole como a terra. Quando se livrava uma oliveira da sua tão maternal carga, os panos eram enrolados em concha com mais ou menos habilidade de modo a que a fruta não se espalhasse pelo campo. Elegia-se uma manta onde se juntaria o resultado de toda a oliveira. Enquanto se escolhia a azeitona na manta, passavam-se os panos para outra oliveira. Entretanto enchiam-se as sacas, que devoraram a azeitona escolhida no seu íntimo, satisfeitas.

Na hora do almoço, reuniram-se os três, já algo cansados, a comer as suas sandes e a beber os seus sumos. Estavam sentados a mirar a aldeia daquela localização magnífica, com uma visão senhorial sobre o vale onde esta se situa.

O alegre começa:

- Vocês já viram o que seria viver aqui? Tipo, constantemente, e não só quando vimos à'zeitona?

O resmungão remata imediatamente:

- Não sei se gostaria. Não se têm as facilidades todas da cidade. As estradas são péssimas, a rede de telemóvel é péssima, Internet só se tem por satélite... acho que poderia estar aqui a tarde inteira a falar mal disto... ainda por cima teríamos de tratar da merda destas propriedades que não servem para nada.

- Epá, vamos lá a ter calma, ora essa! Tens de ver o lado positivo da coisa, então... Olha, por exemplo, ontem quando te deitaste o que é que ouviste?

- Nada.

- Pois! Vai lá à tua cidadezita e tenta ouvir o mesmo. Não consegues! Aqui é tudo tão natural, tão fresco, tão amigável. Olha, lá vai um velhote a descer a estrada, 'pera lá! - levantou-se e pôs-se a berrar jovialmente - Boa tarde amigo! Como vai!?

O velhote encurvado retornou o cumprimento com um sorriso desdentado mas sincero. O alegre voltou a sentar-se e pegou noutra sandes.

- 'Tás a ver? Tenta lá fazer isto na cidade! Não consegues, ora pois claro que não! Para além disso, acho que nos dias de hoje os problemas que referiste vão ser cada vez menos relevantes, não fôssemos nós fiéis crentes da tecnologia, hmm? Quanto às terras, o problema é só dar o primeiro tratamento, manter é mais fácil, digo eu.

O resmungão assentiu, ou porque não tinha mais argumentos, ou porque não queria manter a conversa. A possibilidade mais provável seria a primeira, pois depois de um silêncio apenas levemente interrompido pelo mascar de pão e o sorver de sumo, o resmungão recomeçou:

- Nunca seria possível fazeres vida aqui. Não a vida que queres, pelo menos.

- Essa agora! Porquê? Diz-me uma razão.

- Naquela vida utópica que levas na tua mente, tu achas que eventualmente arranjarás uma mulher ou namorada ou raio que o parta. Achas que conseguirias convencê-la a morar num sítios destes? Assumindo que essa companheira seria também uma citadina.

O sorriso do alegre desencurvou-se ligeiramente. Não havia pensado nisso.

- Sei lá... há essa possibilidade, não há? Algures haverá uma camponesa na mente de uma rapariga, mesmo que ela não o saiba. Tenho sempre que ter esperança. E tu, - virando-se para o submisso - que opinião tens?

O submisso apenas encolheu os ombros, parecendo muito mais fascinado pela vista diante dele do que pela conversa entediante ao seu lado, que tão raramente parecia sair fora desses assuntos presentemente discutidos.

- Vou ligar o rádio da carrinha, para ouvirmos alguma coisa enquanto comemos. C'um caraças, sabes mesmo dar cabo da conversa, pá...

O aparelho brilhou e o som vibrou alto pelo campo até ali pacífico com um anúncio qualquer. Finalmente começa uma música, de Rui Veloso, do seu primeiro álbum, Ar de Rock, tão ironicamente apropriada para a ocasião: Sei de uma Camponesa.

 

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publicado às 23:08
editado por José da Xã a 19/10/15 às 18:33




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