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Música: Telling Stories

por Rei Bacalhau, em 12.06.16

" ...... E então vi-a, de súbito, sem o esperar. Acenei-lhe levemente, fazendo-a entender que iria ter com ela dentro de momentos. Cumprimentei o colega banalmente, troquei umas palavras de sincera cordialidade. No entanto, estava paralelamente a decidir o que fazer numa situação tão inesperada.
Não havia razão para estar ansioso de modo algum. Não a via há vários meses, sim, mas e depois? Não vejo muitas pessoas durante muito tempo e não é por isso que devo ficar especialmente ansioso ao encontrar-me com alguém por acaso.
Beijinho, olá tudo bem?, trocar umas impressões em como a vida vai bem, independentemente de ser verdade ou não e despedir-se. Nada mais simples. Já o fiz imensas vezes com tanta gente diferente. Gente que gosto e gente que não gosto.
Não é por ser ELA que vai ser diferente. Certo?
Decido que não.
Viro-me e aproximo-me dela. As feições redondas e bonitas do seu sorriso trazem-me alguma felicidade nostálgica, mas o que mais me surpreendeu foi o interessante fluxo de sangue que lhe afluíra à face, enrubescendo-a de manchas escarlates. Estava profundamente corada. Essa reacção incontrolável surpreendeu-me. Receei que eu próprio também estivesse sob o efeito de palpitações indesejáveis do coração. Eu achava que a minha circulação estava perfeitamente normal, mas neste tipo de assuntos quem é que realmente sabe de si?
Nâo quis interpretar aquelas faces rosadas. Estaria cansada de alguma coisa. Se calhar tinha feito um exercício imenso recentemente que não se reflectisse numa respiração ofegante. Não interessava. Aproximei-me, sorridente.
Ela, extrovertida, pulsante, mágica, salta da cadeira, e quando aproximo a minha face para lhe dar um beijinho amigável, recebo um doce abraço, que me apanha totalmente desprevenido. Retribuo a sinceridade do abraço com prazer. Com maior prazer do que deveria. Na verdade, nunca a tinha abraçado antes. Contudo, tive de me relembrar que devo manter afastamento emocional.
Repito, manter afastamento emocional.
Ela indicou-me a cadeira ao lado e gesticulou para que me sentasse. Aquiesci. Trocámos trivialidades, já que eu não sabia muito bem o que dizer.
Há uns meses falava e fazia por falar com ela sempre que podia. Hoje nem sabia o que dizer. Estraguei a amizade que tínhamos quando lhe confessei o que sentia. Suponho que me arrependo. Deveria ter sabido. Era óbvio que ela ainda gostava dele. Como é que não haveria de gostar? Ele é melhor do que eu em quase tudo. Só sou um bocadinho mais alto que ele, mais nada. Vá, um bocadão, que ele é mesmo meia leca. Não deveria dizer isto. Não é culpa dele que ele não goste dela. Não se pode obrigar ninguém. Mas ela espera ainda pelo seu príncipe. Há-de partir muitos corações, ela, sem realmente sabê-lo. Se eu tive a coragem de confessar, quantos não haverão que nunca disseram coisa alguma? Espero sinceramente que ela venha a descobrir outro que ela consiga gostar, ou que finalmente consiga convencer a sua grande atracção a dar-lhe uma oportunidade.
Nisto e noutras coisas pensava eu dolorosamente enquanto falava com ela.
Nada estava perdido, pensei eu. Poderia auscultá-la e ver se ...... "

 

- O que é que 'tás a fazer?
O Feio assustou-se, pois não notara que era observado. Escondeu o trabalho e voltou para o seu videojogo.
- Ah, quem pensas que enganas, eu vi-te! 'Tavas a escrever!
- Não.
- Ah, 'tá bem, tretas, mostra lá, ou não posso ver?
- Não.
- Não sejas assim, vá, deixa lá ver.
O Bom tomou posse do teclado, sob protesto do seu utilizador. Com um atalho de teclas, voltou ao editor de texto em que a história estava escrita. Leu-a.
- Isto aconteceu mesmo?
- ...
- Vá lá, podes falar comigo, ora essa!
- Não.
- Viste a miúda que gostas, foi? 'Tá bem, já vi que sim, e depois o que aconteceu? Vais escrever o resto?
- Não quero que Ele veja.
- Ele? Ah, essa agora, então? Deixa-te de tretas, conta lá.

Uma voz ouviu-se. A voz que o Feio receava.
- Não me parece que com o modo de ser lacónico do nosso triste amigo lhe consigas retirar vocalmente mais informação. Permiti-me que eu veja o que parece consumir-vos a atenção. ... Ah, uma história, escrita por ti? Excelente, já não escrevias há algum tempo. Folgo em saber que voltas a ter interesse em alguma coisa, mesmo que isso normalmente não augure nada de positivo. Vou ler.
O Mau saltava de palavra em palavra rapidamente e a sua expressão facial, sarcástica inicialmente, tornou-se progressivamente mais séria. De sùbito, fez uma careta, dando a entender que acabara.

- Merda absoluta, portanto. Suponho que a história não se baseia em acontecimentos verídicos?
- Mais ou menos... - tentou defender-se.
- Mais para o menos do que para o mais, claramente. Dá-te prazer sujares a nossa língua para inventares histórias?
- Não é tudo mentira.
- Sim, mas dramatizas alguns aspectos para lhes dar maior relevância do que realmente têm. Isso é uma corrupção pérfida do nosso português, e deverias ter vergonha. Escreves mal, esse é um facto aceite por todos, mas nada implica que tens de atacar a nossa língua. Escreve em inglês, se quiseres, eles que se preocupem com o facto de escreveres lixo total. O quê, querias que tivessemos pena de ti? Que tu fosses algum herói que teria um final feliz? Tretas. Tu nasceste merda e morrerás merda. Nunca valeste nada e nunca valerás. Quantas vezes tenho de o dizer? Não é por escreveres ficção que isso vai mudar.
O Feio levantou-se e foi-se embora.
- 'Tás a ser um bocadinho brusco, não? Coitado dele.
- Coitado o caralho. Sabes, creio que ele me faz lembrar aqueles seres de mente inferior que usam redes sociais, que as usam para obter validação de alguma maneira. Ele só escreve estas coisas para que exista um mundo em que ele é o herói, da mesma maneira que no Facebook e seus semelhantes, cada utilizador faz as partilhas pensando que naquele mundo eles valem alguma coisa.
- E se calhar valem, não?
- Não, não valem coisa alguma. É uma ilusão. São todos insignificantes. Só existe valor em fazer alguma coisa se for para melhoramento pessoal, no máximo. Qualquer pessoa que se gabe de algo publicamente é tão reles quanto o mais fedorento político, ou outros monstros nojentos. Só em solidão social total é que podemos fazer actividades, numa solidão em que só nós é que nos apercebemos do que fizemos, e mais ninguém. Isso sim, é independência.
- Solidão é independência?
- Na sua mais poderosa, cruel e doce maneira.
O Bom riu-se.
- 'Tá bem, quem é que 'tá a contar histórias agora?

 

 

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