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Música: The Way It Is

por Rei Bacalhau, em 05.10.15

Eu evito falar de política.

De modo algum isso significa que não tenha inclinações políticas. Tenho-as é numa direcção que raramente encontro noutras pessoas.

Suponho que é a primeira vez que o admito, mas suponho que sou, de certa maneira, anarquista. Reparem que a definição simplista de anarquia é uma sociedade que não tem um Governo. Por agora, tal definição chega-me.

Não consigo imaginar porque é que eu haveria de gostar de ser governado por alguém que não faz o que eu concordo. Ninguém gosta de fazer alguma coisa obrigado. Não deveria ser sempre opção da pessoa fazer x ou y? Não é essa uma definição de liberdade?

Mas o conceito de Governo faz-me menos confusão do que o conceito de eleger alguém para governar: a democracia. É isso que quero discutir.

Se tenho alguma vergonha em dizer que sou anarquista, não me impeço de modo algum de dizer que não sou democrata. A democracia é utópica, do mesmo modo que o anarquismo e o comunismo são. Nunca podem funcionar perfeitamente, pois o elemento humano faz estes sistemas sempre imperfeitos (se calhar estou a falar de modo demasiado absoluto, pois não sei se no futuro haverão sistemas políticos e sociais perfeitos, ou pelo menos melhores).

Eis o argumento mais comum com que sou abordado: "Ah, mas votar é essencial para pelo menos demonstrares que não estás contente com ninguém."

Tretas.

A nossa sociedade já está tão formatada para votar que não compreende que ao fazê-lo está deliberadamente (mas não conscientemente) a rescindir da sua liberdade como pessoa. Sendo parte de um processo que colocará OUTRAS pessoas a gerir o dinheiro delas quase que lhes tira o direito de se queixarem (é óbvio que não tira, não é isso que quero dizer, estou apenas a hiperbolizar; quero apenas dizer que os eleitores mais ou menos fizeram a própria cama).

Esse é outro argumento, agora que me lembro... "Ah, se não votares, então não te podes queixar."

Tretas.

Sou um humano livre, em princípio. Por eu não ser parte do processo democrático não posso ter ideais políticos? Não posso discordar com decisões que me afectam? Vivemos nalgum regime em que a liberdade de expressão é limitada? Que eu saiba não. Então porque carga d'água é que me haveria de calar? Que direito têm os outros de me dizerem que eu não posso ter opinião?

O pessoal está tão mentalizado para a democracia que não conseguem imaginar outros sistemas de eleição políticos, parece-me. E reparem que a democracia, como a vemos funcionar pelo menos em Portugal é algo do género: temos uma relativamente pequena percentagem de pessoas a decidir pela população inteira. Isto apenas pode funcionar se as pessoas que estão a decidir forem ultra competentes e informadas. Mas não. Os eleitores vêm de todas as classes sociais, o que é notável, mas irremediavelmente fatal.

A Dona Estefânia, da peixaria, vai votar e decide que o Passos Coelho é o melhor candidato. Porquê? Porque leu as propostas de todos os partidos e está convenientemente informada? Não, eu diria que não. Eu diria que votou nele porque lhe deu um beijinho quando ele passou pelo mercado em campanha. Estou a simplificar demasiado o exemplo (para me ajudar no argumento, admito), mas creio sinceramente que como a Dona Estefânia existem muitos com muito melhores qualificações para saber votar, e que mesmo assim votam não-objectivamente.

Reparem, vota-se em pessoas que não conhecemos, para fazer algo que não compreendemos totalmente, por razões pouco fundamentadas. Eu não confio nos candidatos e não confio nas pessoas que os elegem. 

Fala-se no direito de voto... fala-se no quase DEVER de voto... quem fala na competência para votar?

A democracia é uma ilusão, e quem a defende tão irascivelmente como às vezes vejo deveria reflectir um bocado mais objectivamente. Pode-se dizer que a democracia é o sistema de eleição de Governo menos mau. Tudo bem, mas eu não estou exactamente pronto a aceitar isso como desculpa até ter um bocado mais de vivência (que às tantas é o que me falta).

 

Infelizmente, sendo membro da sociedade, tenho apenas de coadunar com o Governo e as suas palermices. Eu, como indivíduo não posso fazer nada, e por isso supostamente deveria resignar-me ao que a sociedade me oferece.

É simplesmente como a vida é.

Mas não acreditem nisso.

 

 

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publicado às 13:16




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