Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O Abade - As Aventuras de Ventura Lobo

por Rei Bacalhau, em 28.06.16

Anteriormente...

 

Sinceramente, Ventura Lobo não fazia ideia de como iniciar a sua busca pelo Livro, importante o suficiente nesta epopeia para merecer ser tratado como um substantivo próprio. Ele soube da sua existência há muito tempo, mas mencioná-lo publicamente só lhe trouxera complicações, especialmente porque os saloios incultos com que se cruzava não sabiam o que era um livro sequer, quanto mais O Livro dos livros. Escoraçavam-no dos povoados, alegando feitiçaria, bruxaria e elitismo literário.
- Expulsem-no! Daqui a nada começa a envagelizar o Zé Saramago e a Agustina Bessa-Luís.
Ventura Lobo tentava explicar em vão que não era esse o seu objectivo (muito menos começar por esses autores, c'um catano!). Pretendia convencer os enraivecidos cidadãos ignorantes que o interpelavam que existe um livro que beneficiaria todos quantos o lessem, ou assim rezava a lenda, pelo menos.
A resposta normal por parte dos camponeses era a tentativa de converter Ventura Lobo numa salada requintada, atirando-lhe comida estragada e exoticamente temperada, como o cliché obriga. Ventura tinha tanto de modesto como tinha de astuto, e por isso começou a enervar camponeses de propósito quando lhe apetecia uma refeição frugal e barata.

Voltando ao Livro, ele lembrou-se que a primeira vez que ouviu falar no Livro foi numa altura no início das suas aventuras, quando ele vagueava aleatoriamente pela serras do Norte, não porque procurasse o tesouro de um monstro viscoso, mas simplesmente porque se perdera depois de se ter ido aliviar a um arbusto e ter notado que o resto da caravana mercantil com que seguia o deixara para trás.
Foi a última vez que pediu boleia a um camião do Pingo Doce.
Seja como for, na sua deambulação pelas serras, deparou-se repentinamente com uma espessa neblina que lhe bloqueava toda a visão. Veio a saber depois que a neblina aparentemente mágica foi o resultado de um convívio de feiticeiros, cuja sardinhada correra catastroficamente mal pois cada um tinha uma opinião diferente de como melhor assar as sardinhas. Ventura Lobo andou tropegamente pelo fumo, subindo o que parecia ser uma espécie de monte.
Subitamente, caiu num buraco.
A queda foi surpreendentemente inofensiva, por duas razões: em primeiro, não se pode aleijar seriamente o herói de uma saga, senão temos de ficar uma data de tempo à espera que ele se cure decentemente, para o sindicato não se queixar; em segundo, o facto de ele ter caído em cima de um velhote esquelético, mas estranhamente fofo, ajudou imenso.

- Ah, atacam-me? Mas como? Estou completamente sozinho! Há tantos anos que o estou! Será a minha mente que finalmente vacila sob o peso destes anos de prisão miserável? Será o fim da minha existência subterrânea, libertando-me desta vida terrena e levando-me para outros planos de existência?
O velho tinha o aspecto de poder ser utilizado por agências de publicidade no Natal, ou em adaptações amadoras do Senhor dos Anéis. A cara enrugada, barba comprida, olhar ligeiramente maníaco, o cheiro a alguma espécie de água-de-colónia que nunca ninguém tem coragem de dizer que "cheira muita mal". Tudo contribuía para descrever um personagem tão típico num ambiente fantasioso medieval.
- Perdão, meu senhor, mas receio ter de o informar que não o venho libertar de nada, excepto de uma aparente solidão enlouquecedora. Permita-me que me apresente: Ventura Lobo, aventureiro amador e futuro herói de uma série de histórias que um gajo há-de criar no futuro.
Ajudou o velho a levantar-se, verificando se lhe partira mais do que uma dezena de ossos. Menos do que isso é admissivelmente ignorável.
- Pois aventureiro, és louco em vires meter-te aqui! Estarás para sempre preso como eu! - berrou o velho exasperadamente, mas rapidamente se acalmou e apresentou-se. - Sou o Abade Fazia.
- Fazia o quê?
- É o meu nome!
- Fazia o seu nome? Deixou de o fazer? Ah, eu só fiz o meu nome uma vez. Aliás, nem isso, porque o meu nome fizeram-no por mim, o que me parece algo injusto.
- Idiota, o meu nome é Abade Fazia!
- Ahh! Peço desculpa, nunca conheci ninguém com esse nome, daí a confusão. Só espero que nunca se torne abade, porque senão seria ridículo pensar que a combinação do seu título com o seu nome ficaria Abade Abade Fazia, que mais parece um nome possível para um personagem irritante da Guerra das Estrelas.
- Mas Abade é já o meu título!
- Então já se pode tratar por Abade Abade Fazia?
- Não! É apenas Abade Fazia.
- Então... Abade Apenas Abade Fazia? Já mais parece um provérbio popular.
O velho de nome invulgar fez uma pausa, coçou a cabeça impacientemente, e tentou de novo.
- Chamo-me Abade Fazia, que é a combinação do meu título, "Abade", e do meu nome próprio, Fazia.
- Ah, claríssimo. Cristalino, mesmo. Que faz aqui, se me fizer o obséquio de explicar?
- Fui aqui preso há muitos anos por autoridades invejosas, injustamente!
- Obviamente, como é que o leitor poderia empatizar com a sua personagem se algo de horrível não lhe tivesse acontecido?
- Pois claro.
- Deveras. Deve-me perdoar por perguntar, Abade Fazia, mas agora que penso, o seu nome é-me algo familiar, e parece-me que apenas grandes fãs do Richard Harris é que vão perceber a referência.
- Sim, talvez, mas há pelo menos três maneiras que eu saiba de chegar à referência que eu sou.
- Algumas são obscuras, talvez?
- Admito que sim. E tu foste lembrar-te logo da mais obscura de todas!
- É um bom filme.
- Mas não é uma adaptação fiel do livro.
- Continuemos, meu caro Abade, este não me parece o sítio para discutir cinema fora de contexto. - disse Ventura Lobo, olhando em volta. - Nunca tentou sair daqui? É verdade que apenas vejo aquele buraco por onde caí como saída, mas esta espécie de gruta há-de ter outra escapatória.
- Não, jovem, não tem. Mas não é por isso que eu tenha desistido de tentar. Comecei a escavar um túnel quase no mesmo dia em que cá cheguei. Já avancei vários metros.
- Ah sim? Mostre-me o túnel, talvez o possa ajudar. Seremos dois, por isso o trabalho avançará mais rapidamente.
- Mas jovem, tu estás no túnel!
Ventura Lobo não compreendeu imediatamente, ficando pensativo e confuso.
- Desculpe, mas está a tentar dizer-me que esta gruta é o seu túnel?
- É isso mesmo.
- Escavou-a toda?
- Todinha.
- Mas onde é que arranjou os materiais para o fazer?
- Fui aproveitando os materiais da minha cela.
- Mas qual cela? Não vi nenhuma!
- Então jovem, a que está em cima do monte! De onde tu caíste!
- Mas não estava lá nada!
- Agora não, é claro que não, não me estás a ouvir! À medida que ia escavando o túnel ia arrancando as tábuas do chão, retirava as barras de ferro das grades, lascava as pedras das paredes até não restar nada. Enfim, tive de sacrificar a minha cela para fazer o túnel. Infelizmente, a cela já não me dá os materiais de escavação necessários e o trabalho ficou mais lento nos últimos anos.
- Bom, bem vistas as coisas, nada impede o senhor de ir à cidade mais próxima buscar mais materiais, já que a cela não existe.
- Mas estás doido, jovem? Eu estou preso!
Ventura Lobo olhou para o Abade, perplexo. Quando se propôs tornar aventureiro sabia que iria encontrar estranhas criaturas e situações impossíveis, mas esta desafiava toda a lógica.
- O senhor nunca pensou em escavar lateralmente em vez de verticalmente?
- Claro que sim! Mas sempre que escavo para o lado começo a encontrar raízes, e não continuo para não chatear as plantas, já que uma vez, quando era miúdo, pus a mão numa urtiga e decidi que nunca mais importunaria uma planta a não ser que tivesse a certeza que ela não me atacaria. Ora, vendo apenas a raíz, sei lá o que poderá estar à superfície.
- Então o senhor continuou a escapar por medo a urtigas?
- Precisamente.
- Faz sentido. Felizmente, eu não partilho esse medo.

Num gesto dramático, Ventura Lobo desembainhou a sua poderosa espada e num golpe único e forte atacou as paredes da gruta. Desabaram imediatamente, e a poeira da terra misturou-se com a neblina fumarenta e fresca de origens ictióides. A luz invadiu a gruta imensa que o Abade Fazia escavara.
Não se via nem uma urtiga. Aliás, não se via nada, pois a poeira ainda não assentara. Lentamente, Ventura Lobo e o Abade começaram a ver um vulto a surgir divinamente através da poeira e fumo. Tinha um aspecto feroz e na mão parece trazer uma arma mortal, talvez um machado.
É óbvio que vem aí mais uma tentativa de piada inesperada, pois o vulto revela-se como sendo nada mais nada menos que Xico dos Cavalos, um camponês sujo das redondezas, armado com uma enxada, famosa e amplamente conhecido num raio de dois quilómetros como o homem que não aprendeu a letra "a".
- Que signific isto? Quem fez este burco? I, s minhs couves! Bndidos! Gtunos! Fscists! Gbirus!
- Acalme-se, meu caro, este buraco tem razão de ser pois estamos a devolver uma alma à sua liberdade roubada. Tenha um bocado de compreensão!
O camponês inicialmente assustou-se, exclamando um "H", e agitando a enxada.
- Eu dou-vos com minh enxd!
Ventura Lobo respondeu razoavelmente, apresentando-lhe vigorosamente a sua espada luminosa e afiada. Xico dos Cavalos, ou Xico dos Cvlos, como ele preferia ser tratado, aquiesceu enfim ao sentimento de indulgência pedido.
- Bom, no nos chteemos, enfim, bons senhores! No vos quero ml, ms nos dis de hoje, qundo vemos um pedço de terr desprecer noss frente, é motivo pr ficr preocupdo. - e dito isto, fez uma leve pausa ao olhar para o Abade, que só agora começava a ser reconhecível depois de se sacudir da poeira. - Ms é o Bde Fzi! No sbi que ind er vivo!
- Pois é Xico, mas eu muitas vezes pedi ajuda e nunca ninguém veio, e afinal estavas aqui mesmo ao pé!
- H, sbe, é que eu psso muito mis tempo cuidr ds minhs bnns e dos meus nnses, que esto um quilómetro nquel direcço. Ms fico contente por o ver vivo!
- Dos seus quê?
- Bnns e nnses! Li, pr o ldo onde tenho s nons.
- Pá, inicialmente ainda 'tava a perceber, mas agora já não apanho patavina. Ó Ventura, o que é que ele disse?
- Bnns e nnses e tal. Depois acho que falou em francês.
- Ess gor! Ento porque eu no consigo dizer um letr do becedrio vocês j se sentem todos superiores? É sempre mesm cois. Todos se chm doutores porque no tive mesm educço. É sempre, ò Xico, diz l o teu nome, e eu digo, Xico dos Cvlos, e desmnchm-se rir. Sbem que mis? Vou-me embor, s minhs bnns e os meus nnses precism de mim, e no vou gstr o meu tempo convosco! Vo pr o crlho!
Ventura Lobo guarda a espada, troca um olhar com o Abade, e diz-lhe sorridentemente:
- Era mesmo francês. Ele teve a amabilidade de dizer que se seguirmos a estrada chegaremos a uma aldeia.
- Ele disse isso?
- Foi o que eu percebi, pelo menos.

Instalou-se um curto silêncio. A neblina mágica começava a dissipar. Observavam-se agora os belos montes verdes decorados com flores campestres em toda a força da pujança primaveril, preenchidos aqui e ali por pequenos e densos bosques embalados por uma leve brisa proveniente das serras altas tocadas de neve. A vida animal recomeçara o seu ciclo de sobrevivência. O nobre falcão retomou a sua vigia mortal dos céus, atento a uma próxima refeição. A refeição, na forma de coelhinhos alegres, saltitava escondida de erva em erva e de flor em flor, atrasando irremediavelmente o seu destino natural. As borboletas esvoaçavam aleatoriamente, os pássaros improvisavam uma melodia, os camponeses sulcavam as terras, os dragões pequeninos jogavam à bola...
- Para onde vai agora, Abade Fazia? - perguntou Ventura Lobo, interropendo rudemente a descrição da cena, coa breca!
- Vou continuar o trabalho da minha vida. Aquilo pelo qual fui preso.
- Que é o quê, especificamente?
- Encontrar o Livro!
- O Livro? Com maiúscula?
- Oh sim, o Livro. O Livro que acabará com toda a infelicidade do nosso modo de ser, que trará um novo olhar e um novo falar e um novo escrever!
- Parece interessante, ou quase.
- Quase!? Como te atreves a duvidar do Livro!? Ah, és jovem, claro, não compreendes... Um dia virá em que precisarás do Livro, profetizo-te isso! Aí saberás vir ter comigo! Aí saberás respeitar o Livro!
- O único livro que preciso para viver é o livro de reclamações para fazer bluff com os empregados de uma loja com mau atendimento. Fora disso, acho que não preciso de mais.
- Então é aqui que separamos caminhos, Ventura Lobo. Agradeço-te teres-me libertado, por isso estar-te-ei sempre grato. Quando a altura vier, saberás vir ter comigo, e ajudar-te-ei.
- Está bem, de acordo, meu caro, suponho eu.
Apertaram a mão e seguiram caminhos diferentes.

Espera lá, acho que gastei demasiado texto neste segmento contextualizador não totalmente necessário. Bom, as aventuras de Ventura Lobo continuarão para a próxima.

Sem urtigas, couves, bnns ou nnses à mistura.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:39




calendário

Junho 2016

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D